Nota da Autora: Os personagens aqui mencionados não me pertencem, mas sim a nossa ilustre e maravilhosa J.K Rowling. A história original desse livro pertence a Tawny Weber, não estou recebendo lucro nenhum ao fazer essa adaptação, é apenas por diversão e hobby, por isso não é plagio, e sim uma transposição da trama para o mundo Potteriano, como Universo Alternativo. Então, divirtam-se!


Capítulo 1

E aqueles que morrem por seu país encontrarão uma sepultura honrada, pois a glória ilumina o túmulo do soldado, e a beleza pranteia os corajosos... – Joseph Drake

Um estrondo pairou no ar enquanto sete armas explodiram sucessivamente. Um, dois, três. Vinte e um tiros. Com uma expressão impenetrável no rosto, os membros da guarda de honra levaram as armas aos ombros e mantiveram-se eretos e rígidos como os carvalhos que se enfileiravam ao longo do cemitério.

O silêncio profundo foi, enfim, interrompido pelo som de corneteiro. O tenente Harry Potter se manteve em posição de sentido, estreitando os olhos contra o brilho do sol matinal. As palavras do capelão sobre honra, bravura e sacrifício envolveram-no como uma brisa suave, instigando de leve, insinuando, mas sem realmente exercer impacto.

Não houve menção ao senso de humor de Cedric, nem ao fato de que ele sempre levava uma cobra de borracha nas missões para quebrar a tensão. Sempre costumava ir diretamente ao McDonald's para comprar batata frita no minuto que havia chance. O capelão não sabia que, antes de pular de um avião, Cedric beijava infalivelmente a foto da mãe, esfregando em seguida um amuleto de prata de coelho. Não mencionaria o quanto ele adorava a praia. Não importando o quanto a missão deles fosse complexa, bastava que estivessem de folga e Cedric ia à praia – sol, surfe e garotas de biquíni. Costumava dizer que era sua recompensa pelos tiros que levava regularmente.

Mas, esse não era o Cedric que estavam homenageando no momento.

Ali, no Cemitério Nacional de Arlington, o tenente Cedric Digorry era um soldado. Ali, a tradição sagrada de honrar o nobre guerreiro, focava-se no serviço prestado, na dedicação e no sacrifício ao país.

Com o pelotão inteiro dos fuzileiros navais presente, Harry mantinha-se ombro a ombro com a sua equipe. Seus companheiros de esquadrão. Os homens com quem servia, lutava e treinava. Preparados para oferecer o sacrifício máximo por seu país.

Logo mais à noite, celebrariam em homenagem a Cedric, o homem. O companheiro de pelotão de elite, o parceiro, o amigo. O piadista.

Ele endureceu o maxilar e percorreu o caixão coberto com o olhar antes de desvia-lo para as árvores a distância. Agora, o capitão dava início ao ritual de dobrar o tecido vermelho, branco e azul. Enquanto o capelão dizia as palavras finais de conforto, o capitão pousou gentilmente a bandeira dobrada nas mãos da Sra. Digorry.

Harry fixou, então, o olhar nesse triângulo de tecido e não o desviou enquanto o funeral era encerrado. As pessoas ao redor se moveram, começando a se dispersar, mas ele permaneceu onde estava. Não conseguiu sair dali.

Eles tinham passado juntos pelo treinamento de Demolição Subaquática, que levava os soldados ao limite físico e psicológico. Ele, Cedric e Ron. Todos vaidosos, determinados a ultrapassar os próprios limites, para serem super-heróis. Os "Três Amigos", como o restante da equipe os chamava. Inseparáveis.

Um homem corpulento se aproximou, interrompendo-lhe o rumo dos pensamentos. Grato pela distração, Harry dirigiu a atenção ao almirante. Com o cabelo tão branco e reluzente quanto o uniforme, o homem mais velho era de estatura maior do que o próprio 1,85 m de Harry, em uns cinco centímetros.

– Tenente – saudou-o, o almirante Weasley num tom sério –, sei que esta é uma perda difícil para você e, sua equipe. Os meus sinceros sentimentos.

– Obrigado, senhor – as palavras de Harry soaram tensas enquanto observava a mãe de Cedric alisar gentilmente a bandeira dobrada, como se corresse os dedos pelo rosto do filho. Encolheu-se por dentro quando a viu perder o controle e soluçar trêmula com o rosto de encontro à bandeira.

Ansiando por manter algum tipo de distância, desviou o olhar para o arvoredo ao longe, onde carvalhos se enfileiravam, fortes e altos. Eram provavelmente simbólicos. Mas ele estava tendo dificuldade em encontrar consolo.

– Nunca fica mais fácil – comentou o almirante.

– E deveria? – perguntou Harry, olhando para o homem mais velho. Seu superior. Seu orientador e mentor.

– Não – o almirante lançou um olhar às árvores e suspirou. Tornou a estudá-lo. – Mas é algo que você vai enfrentar novamente. De um jeito ou de outro. Não deixe que isso atrapalhe o seu caminho.

Assim, como se não importasse tanto? Harry quis protestar.

Quis dizer que era um absurdo achar que era fácil deixar a perda de seu companheiro de luta, de seu amigo, de lado. Mas os anos de treinamento, o respeito pelo homem que o recrutara para os fuzileiros, eliminaram tal pensamento quase antes de ter se formando. Em vez disso, apenas inclinou a cabeça para indicar que saberia lidar com a situação.

Evidenciando que esperava exatamente aquilo, o almirante maneou a cabeça. Então, olhou ao redor do cemitério.

– Tenente-comandante – suas palavras foram carregadas pela brisa, acima de relva branda e dos murmúrios da multidão que ia se dispersando.

Ronald Prewett, o comandante da equipe de Harry e o terceiro amigo ficaram imediatamente a postos. Com uma palavra gentil e um toque no ombro da Sra. Digorry, o almirante Weasley se virou e atravessou o gramado na direção de ambos.

– Senhor?

– Vou conceder uma licença aos dois.

Harry e Ron trocaram um olhar. Bastaram dois segundos, o cenho levemente franzido e um gesto de ombros para saber que os dois homens estavam de pleno acordo. Não queriam sair de licença.

– Senhor?

– Duas semanas de licença remunerada a partir de agora.

Pela segunda vez desde que entrara para a Marinha Americana – e ambas as vezes num período breve de tempo –, Harry quis protestar contra uma ordem. Não queria uma licença. Precisava de uma distração. Trabalho. Uma missão. De preferência algo que incluísse explodir grandes construções e disparar grandes quantidades de munição.

A fúria era como uma tempestade se formando em seu íntimo, crescendo, ganhando força.

Precisava de uma válvula de escape. O estande de tiro resolveria. Ou a academia de ginástica da base.

Como se lesse seus pensamentos, o almirante acenou com a cabeça e, prosseguiu num tom grave:

– Vocês acabaram de concluir uma missão tensa e, perderam um dos seus. Espero que tenham lugares para ficar fora da base, pois deixarei um aviso nos portões, informando que vocês estão de licença até o dia 17 de setembro.

Por um segundo, a habitual fachada charmosa de Ron ruiu, e a mesma raiva com que Harry se esforçava em lidar, evidenciou-se nos vividos olhos azuis dele. Num instante, essa emoção desapareceu e seu sorriso – aquele que convencia tanto amigo quanto inimigo a pensarem que era um bom sujeito – se abriu.

– Parece que é o momento de uma viagem até em casa. O meu pai vai ficar feliz. Obrigado, senhor. Sei que a equipe vai vibrar com a licença remunerada.

O talento de Ron para mentir era digno de nota. Tinha uma habilidade tão grande para parecer sincero que, quando aliada àquele sorriso, valia ouro. Ao menos quando não se era o objeto de sua mentira. A verdade era que a equipe ficaria extremamente contrariada, Ron detestava visitar sua casa e o pai odiava recebê-lo. Mesmo assim, ele ainda sorria como se tivesse acabado de receber uma Medalha de Honra do Congresso.

Era por esse motivo que Cedric apelidara Ron de "Espertalhão". O Harry de "Escoteiro" ele, sempre fizera tudo da maneira certa e, sua vida inteira fora focada em estar preparado. Em se tornar o melhor fuzileiro que pudesse ser. E quanto a Cedric? Ele era o "Piadista". A última coisa que dissera, antes que aquela bomba o explodisse ao meio? Toc Toc!

Toc Toc!

Apertando os lábios, Harry olhou fixadamente para as linhas escuras e esguias do caixão.

Ron se desculpou para ir informar aos demais sobre a licença, deixando-o a sós como o almirante. O restante das pessoas que haviam comparecido ao funeral se dispersava, civis que se recostavam uns aos outros, com ombros caídos enquanto atravessavam o extenso gramado.

– Potter? – disse o almirante em tom inquiridor. Como se houvesse alternativa. Ron, assim como o almirante, era superior a Harry. Ele aceitou a ordem e, portanto, já era fato.

– Sei que posso arranjar algo para fazer – disse numa voz quieta. Não iria para casa. Porque, não tinha uma família para visitar. Pelo menos, não considerava a irmã da sua falecida mãe como família. Portanto, era menos bem-vindo no estacionamento de trailers onde seus tios moravam, do que Ron em sua luxuosa mansão.

Os rapazes iriam se reunir mais tarde no JR's, o bar e clube noturno local que Cedric curtia. Depois disso, Harry planejava viajar pela Califórnia mesmo. Subiria a costa de caminhonete, iria dar uma olhada em Alcatraz, na ponte Golden Gate. Qualquer coisa.

– Vejo você no dia quinze.

Harry franziu a testa.

– Achei que tivéssemos recebido ordens para permanecer fora da base até o dia 17.

Ele havia entendido mal?

Ora, eram apenas dois dias, mas, como faziam parte da licença remunerada, iria aproveitá-los afinal, já que não havia escolha.

– No dia quinze, haverá a minha festa de aposentadoria. Espero você lá. Poderá conhecer a minha filha – com isso, o almirante se afastou com um sorriso austero e um tapa no ombro, que teria desequilibrado um homem mais fraco.

E Harry ficou ponderando suas últimas palavras.

Conhecer a filha do almirante?

Droga.


Quente.

Havia muitas coisas para se sentir grata na vida. Bons amigos. Um corpo saudável. Chocolate.

Eram todas boas.

Mas não tão boas quanto a visão de um homem bonito e quase totalmente despido. O tipo de homem que deixava uma mulher bastante ciente de todas as suas partes femininas.

O homem que caminhava à beira do mar era desse tipo, refletiu Ginevra Weasley, enquanto suas partes femininas lhe garantiam exatamente isso. Bonito, atlético e, uma vez que parecia não notar como as mulheres o devoravam com os olhos quando passava, tão humilde quanto era sexy.

Alto, ela podia apostar que o corpo dele combinava perfeitamente com o seu, com sua estatura de 1,70 m. As pernas compridas venciam a areia enquanto ele andava em direção ao oceano, exibindo ombros deliciosamente largos e um notável abdome firme. Tinha o tipo de porte musculoso, ágil e bem definido, que evidenciava força física, mas não era corpulento como um fisiculturista.

O cabelo era escuro, negro, um tanto curto demais para o gosto dela, e tinha um leve indício de ondulação. Ginny enrolou uma mecha do próprio cabelo com o dedo, imaginando que um homem que cortava o cabelo tão rente não gostaria nem um pouco da aparência dela quando o tempo úmido deixava sua cabeleira num estado lastimável. Não conseguia ver os olhos dele àquela distância, mas era dono de sobrancelhas escuras e grossas, como as que davam um ar intenso e sexy a um homem. Ou tinha uma genética abençoada, ou o sol do verão passado havia lhe dado um bronzeado leve, uniforme e de ar natural.

Ela se perguntou se a sua pele era igualmente dourada por baixo do calção de banho azul que ele usava. Seria pedir demais que uma grande onda o envolvesse e a ajudasse a dar uma espiada?

Não custava nada torcer por isso...

O moreno desconhecido era uma combinação poderosa de vários elementos atraentes e, com certeza, faria uma mulher forte e independente gemer de desejo.

No mínimo, em pensamentos.

Gemendo mentalmente, Ginny protegeu os olhos contra os arcos brilhantes de sol que se refletiam do Pacífico e interferiram na sua apreciação da personificação da virilidade, enquanto ele mergulhava no mar.

Chegou a invejar a água que escorreu por aquele corpo rijo e, firme como uma rocha.

– Quer uma toalha?

– Hum? – murmurou ela pegando distraidamente o tecido macio que lhe foi entregue. Franzindo a testa, olhou para a toalha de praia vermelha e, então, para o irmão. – Para que isso?

– Para enxugar o seu queixo.

– Bobo – rindo, Ginny lhe atirou a toalha de volta e tornou a sentar-se em sua cadeira de praia, afundando os dedos dos pés na areia morna. – Estou transpirando por causa do sol. Não estou acostumada com um calor destes, na segunda semana de setembro.

E nem a ver um homem sexy o bastante para fazê-la babar, admitiu a si mesma.

– Claro. É o calor – Colin era um mestre do sarcasmo, e suas palavras soaram secas como a areia abaixo dos pés de ambos. – Você não está em um relacionamento?

Ainda enquanto ignorava a pergunta com um aceno de mão, desviou os olhos abruptamente da água. Não soube por quê. Mesmo que estivesse num relacionamento, olhar não era trair. E àquela altura, ele e Dean eram apenas colegas que haviam saído juntos algumas vezes. Amigos – sem vínculo adicional –, sem compromisso.

– Não estou no que se pode chamar de um relacionamento amoroso. Está mais, para uma amizade – admitiu.

Havia se baseado em apenas uma meia dúzia de encontros, somando-os a uma amizade já sólida para tentar torná-la algo a mais.

Uma relação mais significativa. Era verdade que havia três meses que estivera tentando argumentar consigo mesma para levar isso adiante. Se havia algo em que era boa, era em argumentar.

– Para ser sincera – acrescentou –, não sei exatamente o que temos.

Colin baixou os óculos escuros de lentes avermelhadas para estudá-la. Tinha os mesmos olhos castanhos-mel que os seus, mas fora abençoado com cílios espessos, ao passo que ela tinha que recorrer a um rímel apropriado para lhe dar volume. Havia sido tão fácil odiá-lo por isso.

– Você se mudou para o outro lado do país por causa de um cara. Isso me parece coisa de um relacionamento amoroso sério.

Ginny levou a garrafa de água mineral aos lábios, sorvendo um gole, e olhou novamente para o mar.

Tudo o que conseguia ver do moreno nadador era o cotovelo, surgindo daqui e dali. Por que isso a excitava, muito mais, do que a ideia de ver Dean inteiro, despido?

O que a levava a seu velho dilema. Gostava de tudo em Dean. O homem era brilhante, um dos mais notáveis cientistas especializados em Psicoacústica. Havia estudado sob a orientação de Dean durante dois anos enquanto ele estivera em Nova York, antes de ter se mudado para a Califórnia para assumir a direção do Instituto de Ciência. Tinham muito em comum, gostavam da companhia um do outro e sempre havia assunto de sobra para conversarem.

O único problema era que não se sentia sexualmente atraída por ele. E não conseguia se imaginar em um relacionamento, sem sexo. Sem paixão. Sem excitação, orgasmos e trocas de carinho espontâneas. Julgava esses fatores tão importantes num relacionamento quanto a sinceridade e diálogo.

– Me mudei para o outro lado do país para uma oportunidade de emprego, única. Isso é o mesmo que uma carreira para mim – declarou, colocando a garrafa de água de volta na areia. – Estou totalmente entusiasmada por esse cargo. Vou fazer pesquisas aprofundadas, destinadas a promover a recuperação sexual de vítimas de abuso através de mensagens subliminares, programação neurolinguística e tecnologia de ondas cerebrais. E conseguirei ser o rosto do projeto Recuperando a si Mesmo. Eu vou me reunir com investidores, promover o projeto e, fazer a diferença na maneira como ele é visto pela imprensa.

– Você é uma especialista em Física Acústica com uma especialização secundária em Psicologia. Como isso a levou a se tornar Relações Públicas também?

Ginny reagiu com uma careta ao tom irritado do irmão.

– Mostre um pouco mais de incentivo, sim? – disse, atirando-lhe uma toalha. – Isso me trouxe de volta à Califórnia e, portanto, você deveria estar agradecido. Investidores querem conversar com alguém que esteja envolvido no projeto, trabalhando nele. Sou melhor em assuntos sociais do que Dean e, como o projeto se concentra mais em sexualidade feminina, é melhor que eu seja a porta-voz e representante.

– Em outras palavras, o Dr. Certinho não é tão bom em falar sobre sexo quanto você?

Ginny sorriu largamente, mas, conforme pensou a respeito, seu sorriso diminuiu. Sim. Dean era excelente na ciência do sexo. Mas e, quanto a falar a respeito? A praticar? Não tinha tanta certeza.

– Só estou provocando você. Estou muito feliz que tenha voltado para casa – Colin deu-lhe um tapinha no ombro. Dirigiu-lhe um olhar divertido, então. – Com você aqui, falando publicamente sobre sexo o tempo todo, nossos pais vão para de pegar um pouco no meu pé. Assim, agradeça ao Dr. Certinho por mim, está bem?

O sorriso de Ginny desapareceu por completo.

– Eles vão ter um ataque de nervos, não é? – murmurou.

– Exato.

Na época em que começara o terceiro ano primário, Ginny já soubera de três coisas. A primeira, era que ela era bem mais esperta do que a maioria. A segunda, era que não se encaixava perfeitamente nos moldes adotados onde quer que fosse. Nem nos de convívio com as crianças da sua idade, nem nos planos dos pais para ela e, tampouco nos moldes que sua psicóloga infantil denominou como normas da sociedade.

E a terceira, era que o pai nunca a amaria. Após alguns anos explorando a primeira descoberta e, tentando esconder a segunda, finalmente compreendeu que não havia nada que pudesse fazer em relação à terceira. Refugiando-se nos estudos, aos 13 anos, com uma coleção de prêmios escolares, um salto em duas ou três séries e, um calendário repleto de atividades normais, aceitáveis e extremamente entediantes, acabou cansando da mesmice.

Em consequência, parou de sociabilizar e começou a perder aulas. Recorreu à comida pouco saudável e ao açúcar em busca de consolo. Descobriu mais maneiras de se rebelar do que gostaria de recordar. E até o presente, ainda não sabia se o pai notara alguma dessas coisas.

Porém, ele notou quando, aos 16 anos, ela foi parada pelos policiais militares da base, bêbada e seminua, na companhia de um guarda da Marinha Americana, 13 anos mais velho. Esse foi o segundo ponto de virada em sua jovem vida. Não se importou com a fúria do pai. A maneira com esbravejou e ficou desgostoso, mal havia penetrado em sua crise de ressaca. Percebendo isso, o almirante tratou de mostrar de uma vez por todas, de quem ela havia herdado a inteligência. Numa voz gélida, garantiu que, na vez seguinte em que ela saísse da linha, estaria fora da sua casa e não faria mais parte da família. Ela deu de ombros, dizendo que não se importava. Ele maneou a cabeça, como se esperasse exatamente essa resposta e, então, acrescentou que enviaria Colin para estudar num internato no exterior.

Colin. A pessoa que amava verdadeiramente Ginny. Que aceitava a irmã como era e vibrava com sua energia e espontaneidade. De quem ficaria afastada até que ele tivesse 18 anos segundo a vontade do pai.

Sim. O almirante era um homem intimidante.

– Não se estresse com isso – aconselhou-a Colin num tom gentil, obviamente acompanhando-lhe o rumo das reminiscências. – Nossa mãe está radiante com a sua volta e, o nosso pai vai acabar cedendo eventualmente. Talvez não gostem dos temas que você vai abordar, mas o prestígio por você aparecer na TV e o fato de saberem que você estará participando de festas grandiosas e bilionárias como uma socialite vão acabar dobrando os dois de uma vez.

– Claro, desde que ignorem a parte em que vou falar em público sobre sexo – ela soltou um suspiro. Por mais que quisesse agir de uma maneira dura e desprovida de emoções em relação aos pais, havia uma parte de si que ainda ansiava – com o desespero de uma criança pequena – por aprovação. Mas, não mudaria o seu jeito de ser para obter isso.

– Dá quase para sentir pena deles – Colin riu. – Não somos exatamente o ideal de filhos perfeitos, certo? Para facilitar as coisas para os dois, quando vou encontrá-los para o almoço de domingo, finjo ser heterossexual. Não é nada fácil para o principal modelo da Sassy's Fancy, uma revista só para homens. No mês passado, mencionei o meu ensaio fotográfico para a Calvin Klein e parecia que eu havia tentado cantar o garçom, ou algo assim, porque os dois quase engasgaram à mesa.

– Talvez eles se concentrem mais, em vez de na parte relacionada ao sexo em si, no fato de que este projeto de pesquisa ajudará potencialmente vítimas de abuso a superarem seus medos – ponderou Ginny.

Quando o irmão a olhou como se tivesse passado diretamente de ingênua a iludida, ela enrugou o nariz.

– Bem, chega de falar em quanto deixamos nossos pais orgulhosos – Colin sacudiu a mão no ar, dando a entender que deviam ignorar tanto o assunto em questão quanto a culpa que Ginny começava a demonstrar. – O que está se passando entre você e o Dr. Certinho?

– Você sabe muito bem que o sobrenome de Dean, é Thomas – corrigiu-o ela pela enésima vez, seguindo a deixa dele e inclinando-se para pegar o filtro solar.

Ao contrário de muitas ruivas, não tinha problema para se bronzear. Tinha tendência a sardas, porém, se tomasse sol demais.

– E não sei o que está acontecendo entre nós para ser franca. Ele é uma amor de pessoa. Inteligente, agradável e com uma grande capacidade de se comunicar, de dialogar. Um homem que gosta de conversar sobre sentimentos. O que é melhor do que isso?

– Alguém que faça você sentir coisas sobre as quais vale a pena falar? – arriscou Colin num tom sério.

Sim. Ela deu um suspiro. Exatamente.

– Quanto foi que você ficou tão esperto? – lançou um olhar curioso ao irmão.

Esparramado sobre uma toalha de praia turquesa, parecia bonito, e francamente vaidoso demais, para oferecer reflexões tão profundas. Atlético, era um homem que ganhava a vida mantendo a boa aparência.

– Querida, apenas por que não sou gênio como você, não significa que não sou inteligente.

E não era a pura verdade?

Uma onda de contentamento tomou conta de Ginny. Até poderia ter recusado a oferta de trabalho que a levou de voltar para San Diego. Mas, não se tratava apenas do emprego dos seus sonhos como também da chance de morar perto do irmão novamente.

Não houvera como resistir. Haviam crescido como filhos de militar e, a única coisa estável na vida de ambos tinha sido o fato de poderem contar um com o outro. E embora ela não buscasse muito a estabilidade nos tempos atuais, precisava de amor. Precisava sentir-se importante. Especial. Ainda que fosse apenas para uma pessoa – mesmo que essa pessoa fosse seu irmão.

Como se tivesse sido instigada pelas palavras de Colin, seu olhar foi até o mar, à procura do belo espécime masculino outra vez. Ali estava um homem que faria uma garota sentir coisas sobre as quais valeria a pena falar. Deixou que a visão do corpo dele, forte e confiante enquanto vencia as ondas, a acalentasse. Que a fizesse esquecer a tensão e as preocupações.

O moreno, então, saiu da água. E um tipo novo de tensão tomou conta dela.

Ao mesmo tempo, todos os pensamentos coerentes desvaneceram. Cada célula do seu ser se concentrou, como um raio laser, no corpo dele.

O corpo espetacular...

Músculos bem definidos, desde o topo da cabeça sexy, até os pés másculos e bem feitos. O homem era uma obra de arte. Não parecia do tipo obcecado pelo físico, cujo único objetivo era esculpir os músculos, mas era dono de um porte atlético natural. E irradiava puro magnetismo.

Por ele, se sentia sexualmente atraída. Com ele, pode se imaginar facilmente suplicando por mais...

– Sabe, posso ter questionado seu bom senso e o seu corte de cabelo ao longo dos anos – comentou Colin pensativo –, mas nunca vi defeito na sua visão. Aquele é um homem e tanto.

– É razoável – desdenhou Ginny como se seu corpo não estivesse em brasa só em olhar para o moreno.

– Razoável? Apenas razoável? – replicou o irmão num tom indignado, como se ela tivesse insultado todos os homens bonitos do mundo. – O que Nova York fez com você? Disse que não está em um relacionamento, mas ainda está sentada aqui. Por que não vai até lá fazer uma tentativa?

– Por que é justamente o contrário. Eu estou num relacionamento.

– Não seria pensando em manter ou não, um relacionamento?

– Seja como for, tenho que continuar pensando até chegar a uma decisão antes de fazer alguma maluquice – retrucou ela. – Como dar em cima de um completo estranho, só por que ele é bonito.

– Esse seria o melhor motivo para dar em cima dele, o fato de ser bonito. A menos que ele não seja o seu tipo.

– Acho que ele não é o seu – riu Ginny, admirando o nadador sexy. Um homem que irradiava tanta energia sexual, que a fazia se perguntar quantas horas seriam necessárias para tentar suas posições favoritas do Kama Sutra. Mas, será que seria gay? Isso seria um crime contra todas as mulheres.

– Vamos descobrir? – sugeriu Colin enquanto o homem caminhava na direção de ambos, ou porque havia deixado suas coisas ali perto, ou talvez em resposta aos intensos sinais que Ginny estava lhe enviando mentalmente.

– Colin – disse por entre dentes, desejando subitamente estar de volta num avião rumo a Nova York. Ou enterrada na areia. Qualquer uma das alternativas seria melhor do que esperar o que sabia que estava por vir. – Não se atreva.

– Você disse "se atreva"? – Colin abriu um sorriso largo e totalmente malicioso.

– Colin! – Ginny estendeu a mão sem demora para segurar o braço do irmão, mas não foi rápida o bastante.

– Oh, com licença – disse num tom educado enquanto se erguia elegantemente. – Você tem um minuto?

O nadador viril diminuiu o passo, caminhando na direção de ambos. Seus olhos – sim, eram tão incríveis quanto todo o restante dele – passaram por Colin para se fixar em Ginny.

Seu olhar teve o efeito de um delicioso banho sensual, envolvendo-a com seu calor. Eram olhos de um intenso e maravilhoso tom verde.

Ginny poderia jurar que sentiu o mundo à sua volta oscilar. Ou talvez seus olhos estivessem simplesmente ofuscados pelo exemplo de perfeição masculina logo adiante.

– Sou Colin – disse seu irmão, adiantando-se depressa com um sorriso efusivo para estender a mão. Acenou com a cabeça na direção dela, acrescentando: – Essa é minha irmã, Ginny.

– Harry – apresentou-se o homem numa voz possante e agradável que tinha apenas um quê de sotaque sulista.

– Fiquei me perguntando se você gostaria de se reunir a mim, a nós, para tomar alguma coisa – Colin inclinou-se para pegar uma garrafa de água mineral da caixa térmica, oferecendo-a. – Seria um grande favor. Você poderia ajudar a resolver uma discussão entre mim e a minha irmã.


Harry lançou um olhar ao rapaz sorridente e à garrafa de água e, então, pousou os olhos na sereia sexy sentada descontraidamente numa cadeira de praia. Parecia um presente de despedida do verão passado, tão quente quanto a estação em si. Com uma bela cabeleira ruiva e pele dourada, deixou-o com água na boca.

Em qualquer outra ocasião, não teria hesitado em promover um aproximação. Mas em vez de oferecerem conforto e paz, as duas semana anteriores, tinham servido apenas para lembrá-lo da dor da perda. Para a tornarem pior. Havia ficado alguns dias no apartamento de Ron. Depois dele ter acabado de retornar de uma visita à sua casa, Ron havia sido uma péssima companhia. Silencioso, apagado, distante, mergulhado no tipo de humor sombrio que sempre o dominava quando lidava com a família. Assim, Harry escapara para a praia.

O sol não havia ajudado. Nem tampouco o surfe. E tinha certeza de que conversar com estranhos seria igualmente inútil. Simplesmente dê um desculpa e vá embora, disse a si mesmo.

– Que discussão? – ouviu-se perguntando em vez de seguir o próprio conselho.

– Ginny acha que um encontro equivale a um jantar e um cinema – disse-lhe o homem que o parou, baixando os óculos escuros de lentes avermelhadas pelo nariz para revirar os olhos com ar cômico. – Entediante, não é? Na minha opinião, acho que tem mais a vez com um clube e dança. O que você acha?

Com a garrafa de água mineral a meio caminho da boca, Harry fez uma pausa para encará-lo. O cara estava dando em cima dele?

Tentado a rir, ele lançou um olhar perplexo à ruiva. O sorriso que ela deu em resposta foi como um raio de sol que o tirou do buraco negro onde nem sequer se dera conta de que estivera escondido.

– Ambas as coisas – disse com convicção. – Jantar e dança. Sou do tipo tradicional.

– Ah – o sorriso do homem não diminuiu, nem a sua atitude mudou. Mas a maneira como maneou a cabeça deixou claro que entendera a mensagem de que não fazia o tipo de Harry em absoluto. – Então, acho que estamos num impasse.

– Você terá que desculpar Colin – falou a ruiva. – Ele é do tipo que segue a linha "quem não arrisca não petisca".

– Não posso culpá-lo por isso.

– Você é muito gentil – disse ela com um sorriso luminoso.

Ao primeiro olhar, seus traços não tinha uma beleza tradicional. Olhos quase grandes demais para o rosto eram encimados por sobrancelhas bem delineadas. O maxilar era forte, os lábios cheios continham uma curva sensual que instigou ainda mais o libido subitamente despertado dele.

A tatuagem de uma rosa vermelha destacava-se no ombro com o cabo e as folhas se entrelaçando até o bícepes. O corpo, sexy o bastante para deixar um homem agradecido pelo verão e praias, era sensacional. Realçado por um pequeno biquíni lilás que lhe favorecia as curvas bem feitas, era um corpo que o fez desejar que a tivesse conhecido num outro momento.

Um momento em que pudesse cobri-la com toda a atenção que merecia.

Ele era o tipo de homem que construíra sua carreira fazendo a coisa certa. Que vivia de acordo com as regras. Não apenas fazia tudo de acordo com a sua cartilha, mas a checava duplamente para garantir que as regras que seguia eram exatamente como as escritas.

Pragmático?

Funcionava para ele.

Ao menos, fora assim até então.

A imagem de Cedric passou por sua mente, desconcertando-o por um instante. A última coisa que vira do amigo foi seu sorriso largo, alegre, um momento antes do estilhaço ter atingido seu capacete.

Cedric havia seguido as regras.

A equipe inteira as seguia, à risca.

Ainda assim, haviam perdido um integrante.

Assombrado pela lembrança, Harry desviou o olhar para o oceano, tentando reencontrar a paz. As águas azuis, porém, não tiveram o efeito balsâmico de acalmá-lo. Como que por vontade própria, seus olhos tornaram a pousar na ruiva estonteante.

Ela não parecia ser do tipo que seguia regras.

Talvez fosse exatamente o que ele precisava no momento.

Observou-lhe a pele dourada do abdome firme, notando as tiras finas que lhe prendiam a parte debaixo do biquíni aos quadris arredondados. Seu corpo se manifestou de imediato, o sangue correu mais depressa pelas veias. Pela primeira vez em duas semanas, sentia-se vivo.

Fora até ali para superar a dor e se refazer.

E por mais que parecesse tentador se perder num corpo exuberante e convidativo como o de Ginny parecia, sabia que seria insensatez. Um homem esperto que lutava contra seus fantasmas evitava substâncias e atividades que viciavam. Álcool, drogas, jogatina. Mulheres lindas, sexies. Qualquer coisa que o deixasse entorpecido e lhe permitisse esquecer as lembranças.

Seu corpo protestava veementemente em contrário à sua racionalização. Ao longo de dez anos na Marinha Americana, contudo, já havia feito seu corpo passar coisas piores do que ignorar uma mulher bonita. Acabaria superando.

– Obrigado – disse, enfim, dividindo o sorriso entre o casal de irmãos. – Mas tenho que ir.

Antes de poder mudar de ideia, ergueu a garrafa de água para enfatizar o agradecimento e afastou-se. Arrependeu-se mais e mais a cada passo.


N/A: Alguns esclarecimentos pela escolha de personagens da trama: Como, o foco da história vai ser inteiramente no Harry e na Ginny, então, não me apeguei em mudar muito a versão original do livro de Tawny Weber, apenas é claro alguns detalhes, portanto nesse caso, a Ginny tem apenas um irmão, que é o Colin. E Ron, não é um Weasley. Não sei, se haverá mais mudanças no decorrer na história... Por isso, se tiverem alguma duvida, ou critica quanto a isso, por favor, me falem, pois gostaria muito de saber. E se encontrarem erros também, peço desculpas, pois não há betagem na história. Eu mesma acabo revisando, antes de postar, mas as vezes algumas coisas podem escapar.

Por enquanto isso é tudo pessoal, até a próxima atualização. Um grande abraço.

E por favor, se estiverem gostando ou não, mandem reviews!