Dúvida

Eram seis e meia da manhã e Harry já havia saído. O ministério sempre fica aberto, mas seis e meia da manhã... Fechei a janela para tentar dormir mais um pouco, pois dia de sábado Angelina permitia que nós chegássemos mais tarde e James não acordava se eu não fosse puxá-lo da cama. As lembranças do meu ato da noite anterior invadiram minha mente pela enésima vez nas últimas doze horas. E se eu tiver me precipitado e por isso destruído o último fio que ainda nos mantêm na mesma casa? Por todas as deusas, eu vou enlouquecer.

- Gina – Era a voz de Harry sussurrada no meu ouvido. – Eu quero te mostrar qual é a minha resposta agora... Ele beijou todo o lado direito do meu pescoço, e lentamente foi colando seu corpo ao meu. Abri os olhos e pude notar que o pouco de claridade que outrora entrava pelas cortinas fora coberta. Talvez ele tenha escurecido as janelas para dar a impressão de que era noite. Entre meus devaneios práticos e os insanos, Harry continuava a sua trilha de beijos pelo meu pescoço, agora ia do lado direito ao lado esquerdo, descendo até o decote da camisola de algodão que eu usava. Ainda. Pelo andar das coisas rapidinho todas as roupas estariam espalhadas pelo chão.

Como uma espécie de tortura, ele continuava com os beijos do pescoço ao decote, sempre roçando sem querer a mão nos meus seios. Por Santa Brigid eu vou morrer se ele não arrancar minha roupa logo.

- Espertinho... Isso...é...vvv...vingança? – Droga! Por que eu tinha que falar gaguejando?

- Claro. Achou que eu ia deixar barato? – Ele deu um sorriso maliciosamente debochado, traduzindo, um sorriso de derreter o cérebro. – Sabe acho que temos roupas demais por aqui. Que tal se eu começasse a tirar?

- Por que não já começou? – É isso soou como alguém desesperado por sexo.

- Sim senhora.

Definitivamente ele não ia facilitar as coisas. Minha roupa foi tirada lentamente, centímetro a centímetro recebeu um beijo ao ser desnudado. Ele pretendia me levar à loucura e estava conseguindo. De repente tudo o que eu vestia era uma minúscula calcinha e ele uma cueca preta, detalhe, eu adoro vê-lo de preto. Desde os lábios até o cós da minha calcinha os lábios dele passearam. Sentir o gosto dele em meus lábios outra vez foi como provar de um doce raro e senti-lo deitar-se sobre mim foi um sonho. Sentir que ele me desejava era indescritível.

- Abra os olhos – ele falou baixinho, mas eu não atendi.

- Abra os olhos – o tom de voz estava algumas notas mais alto.

- MAMÃE! – era James puxando meu braço para me acordar. DROGA, PORCARIA! Foi um maldito sonho. James podia ser bonzinho e ter deixado terminar...

- Bom dia, querido! Dormiu bem? – Dei um beijo estalado na testa dele.

- Siiim. Acho que você tá atrasada. – falou estreitando os olhos azuis. Ele nascera completamente Weasley, desde os cabelos até os olhos que eram iguais os do papai e do Rony. Sem esquecer as travessuras, que eram de uma terrível mistura dos gêmeos com James Potter. Já Albus era a cópia fiel de Harry. Eu levantei rapidamente da cama e olhei o relógio, eram 8h40 da manhã e daqui a 20 minutos eu deveria estar no trabalho.

- Vamos, vá tomar banho, bem rápido. Eu vou arrumar algo para nós comermos e me arrumar também.

James surpreendentemente obedeceu de primeira e eu corri para me arrumar, ajudá-lo a se arrumar e preparar um café. A correria do sábado estava só começando.

* H*&*G*

Após deixar James na escola eu segui para o Profeta Diário com o humor de um centauro na presença de um bruxo. Mal respondi o bom dia que as pessoas me davam e quando cheguei à redação esportiva tinha uma 'ótima' surpresa me aguardando. Uma maldita bruxa do Semanário das Bruxas querendo fazer uma entrevista comigo. Depois da guerra eu dei apenas uma entrevista falando da minha vida pessoal e todas as outras eram apenas sobre jogos, estratégias de jogo, melhor vassoura, melhor ataque, enfim apenas sobre quadribol. Mas essa maldita bruxa queria saber sobre a minha vida e eu iria negar.

- Sra. Potter, bom dia. Eu sou Dana Vance, nova repórter da coluna 'Supere obstáculos' do Semanário das Bruxas e minha entrevista tem o objetivo de mostrar que é possível ter sucesso na vida pessoal e profissional, assim como eu tenho certeza que a senhora tem. – Ela era loira de um jeito que lembrava Rita Skeeter, com olhos cinzentos de um jeito que lembrava Draco Malfoy e falava de um jeito que lembrava a Romilda Vane. Eu tinha três ótimos motivos para odiá-la e com certeza eu já sentia isso.

- Você pode esperar um pouco, querida? Eu tenho que resolver um probleminha com minha editora chefe agora.

- Sim, o quanto a senhora quiser.

Me encaminhei para a sala de Angelina e meu objetivo era estrangulá-la por permitir que esse tipinho atrapalhasse o nosso trabalho.

* H*&*G*

- Por que diabos você deixou essa criatura ter a ilusão de que me entrevistaria?

- Bom dia, Gina! Como vai? Achei que não viria aqui hoje, por que eu tinha te dado folga. – Angelina tinha o dom de me deixar mais irritada.

- Harry foi trabalhar hoje e eu não tinha nada para fazer em casa. Mas, responda por que essa tal Vane está aqui. – possivelmente meu rosto estava ficando vermelho de raiva.

- Ah, o Semanário das Bruxas está fazendo uma pesquisa. Ela me entrevistou também, Gina. Não é o fim do mundo. São só algumas perguntas sobre como você concilia as inúmeras coisas que tem que fazer por dia.

- Eu não acho que seja da conta do mundo a minha rotina.

- Mas, Cavendish acha e antes que você se dê ao trabalho de expulsar Dana Vance daqui, leia a mensagem de bom dia que ele te mandou. – ela me entregou um envelope azul com o brasão dos Cavendish. Ele era o dono do Profeta Diário desde que retornou do exílio da 2ª Guerra. Era mandão e todos deveriam obedecer as ordens dele. Vejamos a carta que ele mandou.

"Saudações, Sra. Potter

O Semanário das Bruxas está fazendo uma pesquisa e um trabalho de estímulo às mulheres que pensam que por que tem filhos não podem fazer outras coisas. Como eu sei que a senhora se encaixa no perfil de mulheres que aproveitam bem o tempo para cuidar dos filhos e do marido e ainda trabalhar achei que a senhora se encaixa perfeitamente no perfil. Enfim, receba bem a entrevistadora e não esqueça nenhum detalhe.

Cordialmente,

Mylor Cavendish."

- Velho desgraçado! Ele não tem o direito. – se antes a minha raiva era uma possibilidade agora era mais que realidade. Aquele monstro não tinha o direito de decidir o que se encaixava ou não à mim.

- Calma. Olha, você não devia estar aqui hoje mesmo. Essa garota já estava de saída e viria apenas na segunda. Mas como você teve a idéia 'brilhante' de aparecer hoje, vai ter que fazer agora.

- Ótimo! Eu falo para ela voltar na segunda e fica tudo certo. Angelina eu realmente não estou em condições de fazer essa entrevista. – que coisa 'incrível'! Eu podia ter ficado em casa, ido tomar sorvete... Mas não, eu tinha que estar aqui. Por que diabos eu ainda pensava que o trabalho podia me fazer esquecer os problemas?

- Agora que você deu as caras vai ter ao menos que enrolar essa garota. Fala alguma coisa, inventa um compromisso e acaba na segunda. É melhor evitar problemas com o mestre dos magos.

- Certo. – mais uma derrota diária. Desse jeito eu ia explodir.

Antes de atender o projeto de Rita Skeeter + Draco Malfoy, fui ao meu banheiro particular treinam oclumência e fingimento. Não podia dar um deslize desses.

* H*&*G*

- Pode sentar, Vane. – eu falei com o sorriso tão falso quanto a minha capacidade teatral naquele momento.

- Na verdade, é Vance, Sra. Potter. Sabe, era a minha artilheira favorita. Eu adoro as Harpias desde sempre. – ela falou esboçando aquele sorrisinho falso. Provavelmente a coisa que ela mais adora de mim é o meu marido, e quase certamente ela está se roendo para perguntar como é transar com ele todas as noites, ou melhor, ela quer mesmo é saber por si própria. Todas querem. Mas isso não é uma boa coisa a se pensar agora. Por Morgana, estou ficando obsessiva.

- Você tem uma lista, ou algo do tipo? Eu preciso saber que tipos de perguntas vão ser feitas. – eu podia ter sido mais simpática.

- Sim, claro. Olhe aqui. – ela me entregou um pergaminho com uma lista enorme de perguntas. Entre elas, algumas sobre vida íntima, como eu imaginei.

- Olha, eu vou responder apenas as mais superficiais. Não posso falar sobre minha vida particular.

- Certo. Então a primeira "você e seu marido lidam bem com o trabalho? Quero dizer, você não se importa com o que ele faz e nem ele com o que você faz?"

Ótimo, um tapa na cara de primeira. Como eu gostaria de dizer o quão ciumento Harry podia ser e o quão irritante eu achava aquele maldito trabalho dele. Mas eu tenho que engolir as minhas malditas opiniões, já que vão servir apenas para vender jornais e piorar minha situação.

- Nós sempre lidamos maravilhosamente bem com nossos trabalhos. Rolava um ciúme apenas quando eu era jogadora, o assédio dos fãs às vezes se torna irritante. Mas em geral tudo funciona muito bem em meu casamento. – uma voz em minha cabeça gritava 'mentirosa', o tempo inteiro.

- Certo. E quanto a seus filhos? Como eles encaram a situação? – eu não terminei por que, por um milagre das fadas Hermione chegou falando que tínhamos algo importante a resolver.

- Bem querida, terminaremos na semana que vem. É inadiável e não devemos negar pedido de uma mulher grávida.

- Ok. Até mais, Sra. Potter.

Até segunda-feira eu arrumaria uma desculpa para despachar essa garota irritante.

* H*&*G*

- Obrigada! – agradeci abraçando Hermione com força.

- Por exatamente o 'quê'? – ela quis saber e só agora me dei conta do quanto o agradecimento soava ambíguo.

- Você viu essa garota que saiu daqui? Era uma repórter do Semanário das Bruxas querendo saber como é a vida de uma mulher que trabalha e cuida de filhos. Eu não estou em condições mentais de responder ninguém.

- Na verdade, você nunca esteve. Você é péssima quando está sendo entrevistada. E então? Resolveu o problema? – ela quis saber

- Não é tão fácil assim. Vou tentar conversar hoje. Que tal mudarmos de assunto? – eu não estava inclinada a lembrar de como arruinei qualquer possibilidade de conversa ou de ajustamento.

- Ok. Voltaremos a esquemas de segurança e credenciais de jornalistas, que foi o que realmente me trouxe aqui.

Hermione começou explicando avidamente tudo o que o Ministério havia preparado para a Copa Mundial. Claro que metade do assunto eu não entendi bem, fosse por que ela ainda possuía todo aquele jeito obsessivo em explicar coisas difíceis, ou por que u não estava bem concentrada. No fim das contas era só saber onde eu deveria e poderia estar ou não. Depois disso fomos a escola dos meninos pegar James, Albus e Rose e deixar na casa da mamãe. Era a noite das crianças Weasley se reunirem para uma festinha de pijama. Tradição, desde quando a terceira geração contava com três crianças e Teddy Lupin.

Eu iria ver mamãe outra vez e iria fingir outra vez. Acho que finjo tão bem que nem sinto o quanto estou sendo mentirosa.

- Comportem-se, por favor. – Eu recomendava mais uma vez para meus filhos, na verdade mais para James que para Albus. Albus é meu anjinho, sempre tímido e quieto e muito observador para uma criança de dois anos e meio. Rose e Louis (filho mais novo de Bill) são os melhores amigos dele.

- Já chega, Gina. Eles vão se comportar. – mamãe falava sorrindo para nós.

- Eu tenho que ir agora. Harry deve estar me esperando para o jantar. – "mentirosa", a voz outra vez. É bem provável que ele não tenha chegado em casa e que não me esperará para o jantar.

- Está tudo bem? Você parece tão abatida? Dormiu bem? – mamãe quis saber, preocupada.

- Sim. É que a copa se aproxima e o trabalho dobra. Só isso. – 'finge tão completamente' eu olhava nos olhos de mamãe ao dizer isso. Não era uma completa mentira. Era quase toda a verdade.

- Angelina está sendo muito durona? Se estiver... – não a deixei completar, pobre Angelina não ia levar a culpa de meus problemas.

- Não. Eu tenho mesmo que ir, mamãe. Já esta tarde, mande um beijo para o papai. Até amanhã. – beijei-a mais uma vez e beijei meus filhos antes de aparatar em casa. Mais uma noite longa.

* H*&*G*

Quando cheguei em casa as luzes já estavam acesas, indicando que Harry já estava lá. Encontrei-o na sala lendo uns papéis que pareciam ser do Ministério.

- Boa noite. Deixei os meninos com mamãe. Noite Weasley.

- Hum. – foi a única coisa que ele respondeu. Estava T-U-D-O arruinado.

Subi para o banho inconscientemente desejando que o meu ato de desespero tivesse alguma retribuição. Até demorei um pouco mais no banho, mas nada aconteceu. Após o banho coloquei a primeira roupa que apareceu na minha frente, um vestido com vários botões que eu costumo vestir quando quero relaxar. Sequei os cabelos e prendi como tenho feito desde que brigamos. Meu cabelo estava enorme e eu sabia o quanto Harry o adorava. Para privá-lo disso eu ando com ele sempre preso. Quando voltei a sala ele continuava do mesmo jeito, lendo as tais coisas.

- Se quiser jantar agora eu estou indo. – me limitei a falar e logo depois conjurei a comida pronta que eu havia deixado, fazendo-a ficar quente também.

Ele levantou silenciosamente e se dirigiu a mesa. Em silencio estávamos e em silencio continuamos. Até que ele falou

- Depois do jantar eu quero falar com você. – disse com os olhos fixos no prato

- Eu... – ia começar uma enorme justificativa pelo ato de ontem, mas fui interrompida por ele.

- Depois. – foi tudo o que ele falou.

De repente o pouco tempo que passo no jantar pareceu uma eternidade. O que diabos estava se passando na cabeça dele. Legilimência era impossível com ele, por que com o passar dos anos ele havia se tornado uma fortaleza. Morrigan me ajude que seja alguma esperança. Parecia que ele estava comendo mais devagar que o normal. Será que é um teste? Vingança? Merlim! Daqui a dez minutos eu estarei maluca. Quando ele acabou de comer eu fiquei tensa, e mais nervosa ainda quando o vi conjurar o doce de abóbora com hidromel, para a sobremesa. Era um teste de paciência. Definitivamente. Quando finalmente os três mil anos luz do jantar e da sobremesa se passaram ele começou.

- Você me fez pensar muito entre ontem a noite e hoje. Eu cheguei a uma conclusão. – agora ele olhava para mim, impassível. – Eu aceito a sua proposta, mas tenho algumas condições.

Por todas as deusas do universo. Eu ouvi direito? Foi isso mesmo? Arregalei os olhos e não tive o que dizer. Eu queria ouvir o sim, de novo.