Capítulo 1
Despertar
O cenário não era dos melhores para se passar o Natal, mas estava feliz porque aqueles seriam os seus últimos instantes dentro daquela enfermaria. Sentou-se na cama e buscou um espelho que estava na mesinha ao lado, enquanto era observada por um par de olhos azuis bastante atentos.
Mirou seu reflexo e pôde medir o seu abatimento pela falta de brilho em seu olhar. Estava cansada demais até mesmo para sorrir.
-Você está bem? – Ron perguntou com cautela.
-Bem melhor – falou com a voz fraca.
-Alguma lembrança?
-Não me faça essa pergunta novamente, por favor, Ron...
-Desculpe – murmurou, baixando a vista.
Ele estava diferente. Desde o momento em que ela abriu os olhos, na semana anterior, percebeu que algo havia mudado e não era apenas na forma como Ron agia. Seus cabelos estavam mais compridos, suas roupas mais formais e seu olhar mais maduro... Ron estava mais velho.
Não só ele, como ela própria e todos que conhecia. Harry e Ginny haviam se casado, Lupin e Tonks já tinham um filho e a sua mãe havia falecido. Como podia o tempo saltar daquela forma?
A resposta era mais simples, e mais fácil de entender do que ela gostaria... O tempo não passou de forma rápida enquanto ela estava dormindo. Muito menos deu um salto de anos. Fora a sua memória que havia se esvaído como areia fina de uma praia quando é levada pelo vento.
Três dias. Era difícil entender como um simples escorregão fez com que ela passasse três dias em coma e perdesse parte de sua memória. Mas talvez Luna estivesse certa ao dizer que tudo na vida tem um motivo.
Era tão estranho acordar de repente e perceber que absolutamente tudo a sua volta havia mudado e ela não conseguia lembrar onde, exatamente, havia estado durante todo aquele tempo.
Mal havia acreditado quando, horas depois de estar acordada, descobriu que a guerra já havia acabado.
Nada de se esconder, fugir, lutar, e isso a desestabilizava de uma maneira absurda já que a remetia a enumeras perguntas sem respostas.
O que ela fazia com sua vida agora? Como ela pudera ter esquecido tão facilmente de, bem... Tudo?
Levantou o olhar para Ron mais uma vez. Seu porto seguro, como sempre havia sido. Certas coisas nunca mudariam.
Permitiu-se um sorriso enquanto o encarava e algo lhe pareceu estranhamente errado quando o ruivo lhe devolveu o gesto. Fitou-o por mais alguns segundos até que ele desviou o olhar, e resmungou algo sobre estarem prontos para ir para casa.
Casa... Ela tinha uma casa. Com Ron. E, por algum motivo que, é claro, ela não conseguia lembrar, com os gêmeos também.
O pensamento de Natal, reunir-se com seus amigos, ter Ron ao seu lado, lhe confortou naquele momento. Era bom saber que, por mais que ela não lembrasse, todos eles ainda estavam presentes em sua vida, eram sua família. Ela poderia não ter memória, mas tinha amigos... E uma casa.
Sorrindo, levantou-se e acompanhou Ron até a saída da enfermaria. Do saguão do hospital, iriam por Floo até seu apartamento. Não conseguiu conter uma exclamação, um tanto surpresa, quando Ron, pisando dentro da lareira, disse, claramente "Gemialidades Weasley". Eles moravam em cima da loja dos gêmeos?
Ainda espantada, imitou o ruivo e, poucos momentos depois, deparava-se com a sala de um apartamento aconchegante, pequeno, mas confortável. A sala era bem iluminada, uma janela dando para a movimentada rua lá embaixo e as paredes forradas de livros, em cada pequeno espaço concebível, misturados a caixas de experimentos. O lugar tinha um cheiro que lembrava pólvora e incensos misturados. Era algo que estava quase lhe despertando algo...
Foi tirada de seu devaneio por dois homens idênticos que passaram pela porta da sala, vindos de uma escadaria, que certamente levaria à loja.
Os gêmeos estavam mais fortes do que ela lembrava. Ainda mais baixos do que Ron, ainda idênticos à última sarda, ainda com um sorriso contagiante.
Foi pega desprevenida por um abraço duplo, que ela não sabia merecer. Era como se eles realmente sentissem a sua falta. Definitivamente, o tempo que ela e Ron passaram com os gêmeos, depois da guerra, a havia aproximado dos dois.
- Que bom que você voltou, Hermi. – disse Fred e, no fundo de sua mente, ela percebeu que tinha certeza absoluta de que aquele era Fred, mesmo sem ter a mínima idéia de como conseguira identificá-lo.
- Verdade, Hermi. – complementou, George, - bem vinda de volta para casa.
-Obrigada, rapazes. – Mione agradeceu sorrindo, ao pensar o quão engraçado era tê-los tão próximo, depois de tantos anos de implicância.
Olhou pela sala procurando Ron. Esse estava encostado no canto, olhando a cena dos irmãos abraçados a ela. Algo parecia deixá-lo triste.
-Venha, vou mostrar o quarto. – a voz dele não estava muito animada, parecia nem estar feliz por ela ter finalmente saído do hospital, por eles poderem ficar juntos.
Saíram da sala com os gêmeos ainda a sorrirem para ela. Hermione seguiu Ron por um pequeno corredor, as paredes pareciam estar com a cor um pouco desbotada. A madeira rangia conforme pisavam. Porém a morena sentia-se em casa. Finalmente.
Aproveitou para bisbilhotar as portas que estavam abertas conforme passavam pelo corredor. A primeira a direita era o banheiro, pouco depois, na esquerda viu um quarto, e pela bagunça deduziu ser o dos gêmeos. Riu-se. Não importava quanto tempo passasse, eles não mudariam, continuariam a ser os mais bagunceiros e alegres da família.
Andaram mais um pouco, até que ele parou na frente da última porta a direita. Olharam-se por algum momento, e novamente ela teve a impressão de que os olhos azuis estavam tristes.
-O que tem? – perguntou passando a mão levemente pelo rosto dele, apreciando quando o ruivo fechou os olhos e inclinou a cabeça aproveitando o carinho dela.
-Nada, aqui é seu quarto. – ele viu que ela o olhou estranho. – Quero dizer, nosso quarto. – desviou o olhar do dela, girando a maçaneta e abrindo a porta.
O observou por mais alguns segundos, mas decidiu deixar para questioná-lo depois, imaginando que sua estranheza fosse resultado dos dias em que passou no hospital e do medo de perdê-la, já que ela ficara em coma por três dias.
Se permitiu um sorriso ao entrar no quarto; percebeu que a janela estava fechada, pouca luminosidade entrava pelas frestas. Deu alguns passos dentro do modesto cômodo, olhando cada móvel, cada memória que ela já não tinha mais.
Retirou o casaco e o deixou na cama, foi até a janela primeiro abrindo a leve cortina branca, logo após empurrou a madeira para cima, deixando a luz dos raios de sol entrarem. Ficou algum tempo somente apreciando aquela sensação de ser aquecida por algo tão intenso.
Olhou para o quarto outra vez, veria cada coisa sua, mesmo que não se lembrasse de ter comprado ou ganhado; as paredes eram pintadas de uma cor parecida com bege, mas estava desbotada como as paredes do corredor. O piso de madeira rangia conforme andava, assim como no corredor e na sala.
Uma mesa ao lado da porta lhe chamou a atenção. Aproximou-se olhando atentamente três porta-retratos. Na primeira foto estava uma bela ruiva abraçada com um moreno alto e forte; Ginny e Harry; como poderia esquecer aquilo? Um momento tão importante, um momento tão único, como havia esquecido a festa de noivado?
Seus olhos encheram-se de lágrimas enquanto ela olhava para o casal na foto. Os dois acenavam alegres para ela, seus cabelos balançavam com o pouco vento daquele dia; doía não lembrar de um momento tão feliz da vida de seus amigos.
Uma lágrima correu por seu rosto quando olhou para a segunda foto. Ela estava entre Fred e George, Ginny ao lado de Fred, todos fazendo caretas. Mais algumas lágrimas caíram de seus olhos. Doía não se lembrar de ter sido tão feliz como naquele momento.
O terceiro retrato a deixou ainda mais triste. Uma antiga foto dos tempos de guerra, com alguns membros da última formação da Armada de Dumbledore: ela, Ron, Harry, Ginny, Neville, Luna, Seamus, Fred, George e Cho. Todos sorriam alegres somente pelo fato de estarem juntos. Estarem vivos.
Deixou mais lágrimas rolarem por seu rosto. Suas mãos tremiam levemente por lembranças que não tinha mais, por sentimentos que não conseguia mais sentir. Olhou para os outros objetos da mesa, vários pergaminhos empilhados, um tinteiro pela metade, algumas penas, tudo arrumado em um lugar exato. Ao menos seu jeito organizado de ser não havia se perdido.
Olhou para a porta do quarto e viu Ron encostado na batente, a observando; tentou sorrir, mas sentiu-se triste. Como coisas de sua vida lhe escapavam da memória com tamanha facilidade?
Voltou-se novamente para a mesa e percebeu um pequeno objeto na ponta, parecido com uma caixa de presente extremamente pequena, com um laço vermelho e amarelo por cima.
Sorriu.
Ao menos a cor de sua casa em Hogwarts lembrava. Devagar abriu a caixa, vendo o que ela guardava, um par de brincos de brilhantes; suspirou pela beleza das peças e olhou para o ruivo na porta.
-Os gêmeos te deram de aniversário. – ele parecia não querer responder mais nada, pois saiu da porta naquele momento, sumindo pelo corredor.
Hermione não conseguia entender o motivo de ele estar estranho. Pensou em segui-lo, mas desistiu, voltando a sua atenção novamente para os brilhantes. A jóia certamente custara uma fortuna, era belíssima e mesmo assim ela não conseguia deixar de sentir-se triste. Aquilo era mais uma lembrança que não tinha, mais um sentimento que não possuía mais dentro de si; vazio. Era como se um pedaço de si tivesse sido arrancado, sem permissão ou aviso.
Deixou a caixa outra vez na mesa e virou-se, olhando o resto de seu quarto; uma prateleira ao fundo estava abarrotada de livros, com capas de todos os tamanhos, cores fortes e fracas. Qual deles já teria lido? Qual seria o próximo que leria?
Branco, tudo em sua mente era um total branco; e agora a dor. Dor que inundava seu peito, e impedia seus sentimentos de se estabilizarem.
Andou até o guarda-roupas e o abriu, o costumeiro cheiro de baunilha de suas roupas ainda estava presente. Mais uma lembrança que não a abandonara. Passou as mãos pelas peças que estavam dependuras; um vestido vermelho na ponta lhe chamou a atenção, não lembrava de ter comprado aquela peça. Na verdade, não lembrava de nada que estava naquele móvel, nada parecia ser seu; tudo parecia pertencer a outra pessoa, outra vida.
Mais algumas lágrimas brotaram de seus olhos, riscando seu rosto já marcado. Como podia esquecer até das roupas que usava no seu dia-a-dia?
Segurou os tecidos com mais força, como se tentasse extrair deles alguma lembrança, alguma imagem para poder não sentir-se tão vazia. Balançou a cabeça, não conseguiria nada desse jeito, não se lembraria de nada chorando e agarrando roupas; porém não conseguia evitar.
Como ela conseguiria seguir em frente sem ter um passado?
Respirou fundo, mais não conseguiu parar de chorar, era doloroso demais lembrar-se que tinha vivido emoções, alegrias, tristezas e outro tanto de emoções e não conseguir sentir mais nenhuma agora. Tudo era um grande vazio. Deixou-se cair no chão, suas mãos ainda presas a algumas roupas, puxando-as junto. Por que coisas como essas aconteciam com ela? E mais uma vez a voz da ingênua Luna invadiu seus ouvidos. Tudo tem um motivo.
Ainda chorando olhou para o espelho da porta do guarda-roupas e se viu. A imagem não era animadora; uma mulher sem passado, chorando no chão do quarto que não lembrava onde ficava, onde não reconhecia nada que tinha, que parecia ser de outra pessoa.
Limpou as lágrimas que caiam, mesmo que o vazio dentro de si fosse grande, e, respirando fundo algumas vezes levantou-se, recolocando as roupas nos devidos cabides, e fechando a porta do guarda-roupas; olhou-se outra vez no espelho e tentou forçar um sorriso, mas o máximo que conseguiu foi uma careta.
Não, não deveria fingir que estava tudo bem. Deveria agir normalmente, realmente não sabia o que se passava, onde as coisas estavam; e tinha que aceitar sua condição. Afinal de que adiantaria ficar forçando-se a algo que acabaria por fazê-la sofrer mais?
Saiu do quarto seguindo pelo corredor até chegar na sala, onde Ron, Fred e George conversavam, porém assim que a morena entrou no cômodo, cessaram a conversa e a olharam; Mione sentiu-se deslocada, parecia que todos estavam escondendo algo dela.
-Pronta para a festa de amanhã? – Fred perguntou vindo em sua direção; Hermione estranhou novamente saber identificar qual deles ele era, afinal sempre os confundira quando mais nova. Mas provavelmente a convivência diária a fez melhorar sua percepção.
-Acho que sim. – a resposta fez uma sombra passar pelos olhos claros de Fred, mas ele logo disfarçou e sorriu para ela; de algum modo conseguindo animá-la um pouco.
-Fred. – George chamou o irmão indicando a escada.
-Sim, vamos. – os ruivos iam saindo da sala na direção da escada que levava a loja, quando a morena voltou a falar.
-Precisam de ajuda na loja? – os três ruivos ficaram olhando-a, aparentemente ela não deveria dizer aquilo com tanta freqüência. – É natal, deve estar cheia.
-Sim. Se você estiver sentindo-se bem, claro. – George sorriu, ela aceitou o convite e passou por Ron, fazendo um breve carinho em seu rosto.
Desceu as escadas logo atrás dos gêmeos. A madeira parecia estalar conforme pisavam; o barulho de vozes e objetos sendo movido de seus lugares começou a ficar mais alto. Uma sensação de felicidade apossou-se da morena conforme ela entrou no depósito. Caixas empilhadas, cartazes com a foto dos gêmeos, prateleiras abarrotadas de produtos, uma mesa com pergaminhos por toda sua tampa, várias penas e tinteiros jogados em cima.
-Venha! – Fred a chamou e atravessou uma cortina vermelha, Mione o seguiu, entrando na loja.
Maravilhou-se com a decoração e o tanto de clientes. Pessoas olhavam para todas as direções, apertadas dentro da modesta loja; com sacolas e casacos nas mãos. Definitivamente a loja havia feito sucesso, e no natal deveria fazer ainda mais; aquela sensação de vazio apertou-lhe o peito outra vez. Não se lembrava do sucesso dos ruivos.
Um objeto passou flutuando perto de sua cabeça e voou para a mão de um menino que estava sorrindo do outro lado do balcão. Riu também; olhou para as prateleiras com enfeites em verde, vermelho e prata, alguns bonequinhos de Papai Noel voavam em todas as direções. Do teto pendiam alguns enfeites como estrelas, velas e algumas caixas de presentes. Um barulho chamou sua atenção; um cliente tentava tirar uma gosma verde de seu rosto, mas ela recusava-se a soltar suas orelhas, fazendo os outros ao redor rirem.
Viu George ir até o homem e falar com a gosma, que libertou o homem no exato momento, voltando para dentro da caixa; George sorria e voltou para trás do balcão, passando por ela e sorrindo mais largamente. Hermione não conseguiu evitar e sorriu de volta. Talvez o primeiro sorriso de verdade que estava dando naquele dia. Alguns clientes apoiavam-se no balcão pedindo milhões de coisas, na maioria eram jovens comprando coisas que suas mães não aprovariam. Deu alguns passos olhando os gêmeos atendendo algumas pessoas, e um rapaz moreno os ajudando; ficou fitando o rapaz por alguns momentos tentando a todo custo lembrar quem ele era.
-Não se esforce ele começou a trabalhar aqui ontem. – Fred disse em seu ouvido e entrou no estoque; ela estranhou-se, a voz dele parecia familiar demais dita perto daquele jeito.
-Quer me ajudar com essas caixas? – George a olhou. A morena resolveu deixar a sensação de lado. Pegou duas caixas do chão e as colocou no balcão e as olhou; eram da mesma gosma que havia grudado no rosto do homem a poucos momentos. – Poderia colocar algumas dessas naquelas prateleiras? – apontou para as prateleiras perto da porta.
-Claro. – ela pegou uma das caixas e se dirigiu para a prateleira que o ruivo apontou; logo Hermione descobriu porque eles estranharam dela ter perguntado se eles queriam ajuda na loja. Estava começando a ficar irritada com toda aquela gente passando, empurrando, apertando, falando e reclamando dos presentes caros de natal. Terminou o serviço e voltou para trás do balcão, sua irritação era visível.
-Pode subir, Hermi. – Fred disse olhando rápido para ela e entregando um grande embrulho para uma senhora. – Sabemos que não gosta de multidão e barulho.
-Sem problemas, Mione. – completou George passando por ela com várias caixas na mão.
-Desculpem. – pediu antes de atravessar a cortina e ouvi-los dizer que não tinha problema outra vez. Riu-se. Desde quando os gêmeos a tratavam assim? Desde quando eles a conheciam tão bem para saber o que ela gostava ou deixava de gostar?
Subiu as escadas devagar, mas a cada passo a dor de não ter respostas para as perguntas mais bobas retornava gradualmente, lhe fazendo afundar no vazio em seu peito. Aquilo parecia um grande precipício, tudo parecia um grande buraco, com lacunas a serem preenchidas e respostas a serem respondidas. Mas eram respostas demais, perguntas demais, vazio demais.
Entrou na sala procurando Ron, mas o ruivo não estava ali. Ficou um pouco aliviada. Não queria ver aqueles olhos tristes agora; queria, sim, saber o porque dele estar daquele jeito, mas não naquele momento. Agora só queria sentar na poltrona de frente para a janela e pensar, pensar em tudo que sentia; tentar fazer sua mente funcionar, mesmo que soubesse que esse não era o processo, mas talvez se ficasse tempo suficiente sozinha e em silêncio, só sua mente trabalhando, as lembranças voltassem e pudesse seguir sua vida, feliz.
Sentou-se e trouxe as pernas para junto do corpo, abraçando os joelhos e apoiando o queixo neles; seus olhos fixaram a neve que caia do lado de fora. Sua mente fixou-se em Ron; o ruivo havia mudado, seus olhos azuis já não demonstravam toda a alegria que tinha, estavam apagados. O que será que estava acontecendo? O que poderia ter acontecido entre eles para que o ruivo ficasse assim?
Novamente o vazio que a ocupava parecia inundar mais uma vez seu peito. Como era possível que se sentisse tão bem em um lugar que chamava de casa, se nem ao menos lembrava-se de ter ido para lá? Não conseguia entender a situação que passava, parecia a história da vida de outra pessoa.
Perdeu noção do tempo em que ficou sentada olhando para os pequenos flocos de neve que caiam do lado de fora Parecia que tempo agora era algo extremamente relativo; tinha tempo para descobrir quem era, para descobrir a mudança nas pessoas ao seu lado. Lembrou-se de Ron outra vez, aqueles olhos azuis triste. Por que ele estaria triste? Será que eles estavam enfrentando outro problema, além da memória dela ter sumido?
Fechou os olhos e quando os abriu percebeu que estava em outro lugar, algo macio aparando seu corpo. Olhou em volta percebendo-se em seu quarto, provavelmente dormira na poltrona e alguém a levara para lá. Passou a mão pelo pescoço, sentindo leves pontadas na nuca; certamente ficara algumas horas na poltrona, toda torta.
Sentou-se na cama, olhando pelo quarto, esticando os músculos das costas e estalando alguns ossos. Respirou fundo, ainda um pouco triste, os pensamentos que teve na poltrona antes de cair no sono a invadiram outra vez, fazendo com que ficassem procurando respostas que saberia não encontrar.
A porta se abriu e Ron entrou devagar, a olhando de forma cautelosa, mesmo que a morena estivesse sorrindo. Ela se levantou e ficou perto dele, olhando em seus olhos, tentando entender toda aquela tristeza.
-Dormiu bem?
-Sim. Que horas são? – olhou para a janela, vendo alguns raios de sol entrando pelas frestas. A hora que sentara na poltrona, já era de tarde. Estava perdida no tempo.
-São quase nove da manhã. – respondeu Ron a olhando, vendo o espanto dela. – Você dormiu na poltrona e eu te trouxe pra cá. Você dormiu a noite inteira, direto.
-Direto? – espantou-se ao perceber que já era o dia seguinte. Natal.
-É bom que você descanse. – ponderou Ron e virou-se para a janela, abrindo a madeira e deixando o sol entrar – Vá tomar café da manhã. A mesa ainda está posta.
Hermione saiu do quarto e foi ao banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes, sem olhar nenhuma vez no espelho, pensando que veria o rosto de outra pessoa refletido ali. Mas decidiu enfrentar essa situação, tinha perdido a memória, não a identidade. Não totalmente.
Olhou-se e viu uma mulher madura, de pele clara, olhos castanhos, cabelos ondulados. Os penteou devagar, observando cada mínimo detalhe de seu rosto, lembrando de suas feições quando mais nova.
Tentou sorrir, mas não foi isso que conseguiu. Apenas deixou o rosto normal, de nada adiantaria agir de uma maneira diferente. Era enfrentar mais um dia, mais um dia tentando lembrar quem era e o que acontecia entre ela e Ron.
Continua...
Queremos agradecer pelos comentários e pela força! Esperamos que continuem lendo... e comentando, claro!
bjs a todos
Mira e Fla
