Os raios de sol davam início a uma nova manhã, entrando pela janela do quarto de Sharon Raydor, iluminando-o. O rosto da capitã estava iluminado pela luz matinal, fazendo-a despertar. Seus olhos verdes se abriram lentamente e quando receberam a luz direta foram obrigados a fecharem novamente. Quando adaptou-se a luz, tentou esticar os braços para espreguiçar-se mas suas mãos tocaram em algo, com certeza não era o criado mudo, havia alguns pelos. Seus olhos se arregalaram, expressivos e desesperados e as lembranças da noite anterior lhe atingiram violentamente como um tapa. Sua respiração ofegou, merda! Ela havia feito aquilo. Sua cabeça, temendo o que seus olhos veriam, girou lentamente para encarar a pessoa ao seu lado, que ainda estava adormecido. Levou com rapidez a mão até a testa fazendo um estalo que ecoou nos seus ouvidos. Sentiu que debaixo do cobertor grosso estava sem qualquer roupa, seus olhos buscaram desesperadamente uma saída daquela situação, encarando os cantos do quarto. O que ela havia feito?

Tomando o máximo de fôlego necessário Sharon gritou, pelo susto e pelo desespero de acordar ao lado do seu mais odiado tenente. Andy acabou por despertar tão assustado quanto ela, quase caindo da cama. As lembranças dele invadiram sua cabeça com mais rapidez fazendo com que ele gritasse junto com ela.

"Sai." Ela gritou apontando para fora da cama.

Andy puxou outro lençol, saindo da cama e pisando em um pedaço do tecido grosso, fazendo seus pés deslizam pelo chão e cair acidentalmente no chão, ficando descoberto. O grito dela intensificou-se enquanto cobria os olhos.

"O que diabos aconteceu?" Ele vociferou, tentando com desespero encontrar suas roupas que estavam espalhadas pelo chão. "Pelo amor de Deus, pare de gritar." Implorou. Os gritos dela seriam ouvidos e uma hora ou outra alguém tentaria entrar no apartamento dela pegando-os em uma situação pouco agradável.

Ela bateu repetidas vezes no próprio rosto, dormir com o tenente Flynn? Definitivamente aquilo não estava certo.

"Ninguém, ninguém pode sonhar com o que aconteceu aqui." O tom dela era quase ameaçador, enquanto levava as mãos até o cabelo desgrenhado, ela fala isso para si mesma. As lembranças ficavam mais claras a cada segundos, mais cristalinas como água e mais absurdas a cada flash.

"O que eu fiz?" Ele murmurou, seu olhar inexpressivo para os próprios pés enquanto dava voltas ao redor de si mesmo. Dormir com a Raydor? Não, não, não. Aquilo não podia ter acontecido. Bateu repetidas vezes na própria testa, é apenas um sonho, repetiu mentalmente incontáveis vezes. Não tinha a menor coragem de encarar de volta aquela mulher, o que ele diria?

"Saia." Ela gritou, desta vez apontando para a porta do quarto.

"Eu nem estou vestido direito."

"Saia." Com rapidez foi até ele, o empurrando pelo peitoral descoberto até a porta do apartamento, Andy ainda segurava as roupas nas mãos, parcialmente enrolado pelo lençol.

"Minha calça." Apontou para a calça no sofá, ela correu até lá, jogando a calça para ele que consegui pegar antes que caísse no chão. "Onde eu vou me vestir?"

"Isso nunca aconteceu!" Gritou alertando-o novamente antes de empurrá-lo pelo ombro para fora do quarto.

Sharon escorregou lentamente pela madeira da porta, droga! Onde ela estava com a cabeça no momento em que se permitiu ir para cama com Andy Flynn?

Às vezes as pessoas tomam más decisões das quais se arrependem e desejavam veementemente voltar ao momento em que as tomou e fazer diferente. Sem saber o que fazer, segurando as roupas apenas com uma toalha em volta do corpo e sabendo que a qualquer momento a movimentação nos corredores começaria, Andy arrependia-se das decisões tomadas na noite anterior, movido pela raiva e desejo desconhecido. Onde ele estava com a cabeça? Certo, ele precisava para de pensar nisso, arrepender-se não mudaria nada, ele precisava se trocar, precisava voltar para casa e, bem, encarar a capitã Raydor na divisão.

Com uma mão segurava o lençol e a outra as roupas enquanto caminhava para dentro do elevador. O botão vermelho do elevador era sua perfeita oportunidade, apertando o botão o elevador parou. Dois minutos até o porteiro se dar conta que o elevador parou e apertar o botão de emergência para que voltasse a funcionar.

"Merda." Praguejou tentando de forma desleixada colocar a calça que parecia não querer ser vestida. "Vamos!" Disse em voz alta, finalmente conseguiu colocar as pernas dentro da maldita calça. A blusa foi jogada no corpo de forma desleixada, completamente amassada, o cinto, ele precisava colocar o cinto. Dez segundos e as portas do elevador seriam abertas e o cinco insistente parecia não querer ajudá-lo. As portas foram abertas e três pessoas esperavam para entrar. O cinto colocado e um grosso lençol no chão.

As três pessoas entraram no elevador, olhando de forma estranha para o lençol. Andy pressiono os lábios.

"Bom dia." Disse com a voz baixa e as três mulheres ignoraram completamente seu cumprimento.

Saindo de elevador ao chegar ao térreo Andy recolheu o lençol. Aproximando-se do balcão onde o porteiro ainda tinha no rosto uma expressão cansada, como se mal tivesse dormido a noite e acabou sendo obrigado a acordar, Flynn jogou no balcão de mármore gelado o lençol branco.

"Diga a Sharon Raydor que isso é dela e que eu adorei a nossa noite." Disse com um sorriso cínico, a mulher havia o expulsado do quarto desvestido, isso era o mínimo que ele podia fazer para irritá-la no mesmo nível que ela o irritou.

O porteiro encarou o homem que estava completamente desarrumado. O pobre porteiro nunca viu nenhum homem saindo do apartamento de Sharon Raydor, exceto pelas raras visitas do filho dela e algumas aparições repentinas de Jack Raydor. Seu olhar de desentendimento e confusão estava cada vez mais expresso em seu semblante enquanto via o homem caminhar para fora do edifício.

Andy pegou seu carro e dirigiu até casa. Como ele foi capaz de dormir com ela? Aquela perguntava rondava sua cabeça. Na época em que bebia ele havia feito coisas impensáveis mas nenhuma delas chegava a comparar-se com o que ele fez na noite anterior, dormir com a Darth Raydor era de longe a maior loucura que ele já fez e ainda tinha que admitir que havia feito enquanto estava sóbrio, não podia simplesmente culpar a bebida desta vez.

Ele agradeceu aos céus quando viu que estava a poucos metros de sua casa, mas ao mesmo tempo estava muito atrasado para o trabalho e Provenza com certeza havia percebido sua ausência, era estranho ele não ter ligado ainda. Quando chegou na frente de casa Andy arrependeu-se de ter agradecido o fato de estar chegando em casa e de ter pensado o nome de Provenza. O tenente estava na frente de sua casa, com uma expressão séria. Descendo o carro Andy aproximou-se do amigo.

"Onde você estava seu idiota? Eu liguei para você a manhã inteira."

Droga! Provenza certamente havia ligado, Andy apalpou o bolso de sua calça e sentiu falta do telefone. Sim, podia ficar pior, ele havia esquecido na casa dela. Idiota, idiota, idiota, gritou inúmeras mentalmente, sentindo vontade de bater no próprio rosto. Como ele podia ter esquecido do maldito telefone!

"Eu perdi, vou comprar outro." Ótima desculpa, a voz na sua cabeça ironizou. Quando era casado Andy sabia dar boas desculpas para suas ausências e agora havia dado uma desculpa estúpida para um dos maiores detectores de mentira que ele conhecia, Provenza. Mas o tenente mais velho pareceu acreditar.

"Não me surpreendo, você é um idiota."

Andy abriu a porta da casa. A casa estava sempre muito bem arrumada, certamente Bonnie já havia passado ali e como o dinheiro não estava mais em cima da mesa Andy teve certeza de que ela já esteve ali. O trabalho passou a consumir o tempo dele ao ponto de precisar contratar alguém para auxiliar na arrumação de sua bagunça.

"Eu não queria ter vindo mas a Chefe Brenda pediu, você não estava atendendo as minhas ligações."

"Eu já disse, eu perdi meu celular, como você esperava que eu atendesse?"

"Mas de onde você estava vindo?"

E agora? Zombou a voz interna. Como ele responderia a essa pergunta? Eu estava em uma bar? Não! Talvez no passado, mas não agora.

"Eu fui comprar alguma coisa para comer."

"E onde está?"

"Eu já comi no caminho." Respondeu rápido.

Provenza desconfiou naquele momento que algo estava errado. Andy tinha uma habilidade para mentir, era um detetive, ele sabia como omitir a verdade, mas Provenza era mais experiente e conseguia ver quando seu velho amigo estava mentindo.

"Certo, vá se arrumar, temos que ir para a divisão. Ainda temos que trabalhar."

Andy apenas assentiu, tentando não falar mais besteiras e não levantar mais suspeitas. Provenza era um gênio quando o assunto era saber quando alguém estava mentindo e sua mentira não havia sido convincente o suficiente.

No banho, um flash da noite anterior passou rapidamente pela sua cabeça. Desde que deixou o apartamento dela relapsos da noite anterior começaram a lentamente surgiu na sua cabeça. Agitando a cabeça debaixo do chuveiro ele afastou aquela lembranças.

"Vamos!" Provenza gritou do lado de fora do banheiro na tentativa de apreciá-lo e consequentemente o tirou violentamente das suas recordações.

Andy pensou em pedir mais alguns minutos para comer, mas se lembrou que disse que havia comido no caminho. Vestiu-se e sendo arrastado por Provenza ele dirigiu até a divisão, em completo silêncio.

Os dois tenentes chegaram na divisão já era meio-dia. Brenda estava na sala de interrogatório falando com a mãe de uma vítima mas pareceu adivinhar quando Andy chegou, surgindo do nada no momento em que ambos os tenentes acomodaram-se em suas respectivas cadeiras, ao lado dela vinha Pope conversando sobre alguma coisa e apontando para uma monte de papéis, Brenda prestava atenção no que ele dizia até o chefe parar de falar.

"Boa tarde, tenente Flynn." Pope o saudou, caminhando em sua direção.

"Boa tarde, chefe." Para a estranheza de Andy, Pope entendeu as mãos. "O que?" Indagou.

"Os papéis que eu pedi para levar para a capitã Raydor assinar."

Não bastava ter esquecido o celular, também havia esquecido de trazer os papéis e obedecer a única ordem que o chefe lhe deu. Andy respirou fundo buscando rapidamente uma justificativa.

"Está com ela. A capitã disse que pensaria sobre o caso e traria hoje."

"Pensar? Bem, eu pedi para você mesmo trazer o papel pois eu tenha medo que ela rasgasse, mas ela disse que ia pensar? Temos uma evolução."

Na verdade não, pensou e por fora apenas sorriu para o chefe que parecia estar satisfeito com a possibilidade de ter conseguido dobrar Sharon Raydor. Ela se mantinha firme, indiferente a todos os pedidos dele, sempre que pediu para que ela assinasse os malditos papéis passando o caso para outro, ela virava o rosto e negava-se a ouvir o resto. Ele queria, mas não podia, segurar as mãos dela e força-la a assinar e mesmo sendo amigo do superior dela, sabia que Lewis não a ameaçaria para que ela assinasse os papéis, talvez no fundo ele também tivesse medo dela, do que ela poderia fazer quando estivesse sendo pressionada.

Pope e Brenda tornaram a deixar a sala, indo direto para o escritório dele. Esperariam lá até que o ex-namorado da vítima aparecesse.

Meia hora se passou e as portas do elevador se abriram, era Sharon Raydor, imponente como sempre, com passos firmes parando no meio da sala de homicídio, Pope semanas atrás havia separado para ela uma das mesas, ficava ao lado da mesa de Provenza, próxima a de Flynn. Ela jogou a bolsa, Andy lançou a ela um olhar que sem precisar dizer uma palavra indicava para que ela o seguisse. Andy levantou-se sem deixar de olhá-la e entrou em dos corredores, onde o movimento era menor. Sharon contou até dez, Provenza estava muito ocupado com alguns relatórios e não perceberia a movimentação. Sharon entrou no corredor.

"Você é louco?" Ela perguntou em um sussurro gritando, tentando não fazer barulho mas não controlando sua raiva. "O que você disse para o porteiro? O que você tem na cabeça, tenente?"

Sharon lembrou novamente do porteiro, trazendo nas mãos de forma desleixada o lençol, dizendo que o homem havia agradecido pela noite, o coitado estava vermelho, constrangido e sentindo vontade de correr. Suas bochechas acabaram adotando uma cor avermelhada mas continuou sorrindo de forma agradável tentando tranquilizar o homem que parecia tão constrangido quanto ela mesma, pegando o pano pesado e batendo a porta, sentindo vontade de socar o tenente que havia saído minutos atrás de seu apartamento.

"É engraçado fazer os outros passarem vergonha, não é?" Disse de forma ríspida, sem paciência. "Você me colocou para fora do seu apartamento, sem roupa e com um lençol envolto no corpo, o que você esperava que eu fosse fazer?"

"Eu não sei, mas agora todo mundo vai comentar que um homem saiu do meu apartamento e agradeceu pela noite que teve comigo."

"Isso é vingança. Agora, onde está meu celular?"

"Na minha bolsa."

"E os papéis que o chefe pediu para que você assinasse?"

"Na minha bolsa também. Mas eu não vou assinar."

"Eu disse para o chefe que você ia considerar a ideia. Você pode pelo menos fingir que pensou em aceitar?"

"Eu já disse que não ia assinar. Mas eu não vou mais discutir sobre isso, foi assim que acabamos daquele jeito." Silenciou-se rapidamente ao mencionar a noite anterior, ainda constrangida.

"Certo, certo."

O policial passando fez com que eles parassem de falar. Sharon deu um breve olhar para Andy antes de sair do corredor, voltando para sua mesa. Por um momento ela questionou-se se as memórias dele sobre a noite anterior eram tão vívidas quanto as dela, o quanto ele lembrava-se? Era óbvio que ele lembrava-se das coisas que haviam feito na noite anterior e pensar nisso a fazia sentir vontade de correr ou esconder seu rosto pelo resto de sua vida. Ela não queria pensar ou falar sobre esse assunto que a fazia inevitavelmente corar. Apenas precisava ignorar, foi um erro que jamais iria se repetir.