Capítulo II – Sorriso sádico
John acordou no dia seguinte sentindo muita fome, sentou-se na cama e lembrou que na noite anterior havia se esquecido de comer depois da conversa com Sherlock. Provavelmente a comida estava azedando sobre a mesa, pois duvidava muito que o detetive tenha se movido rumo à cozinha para comer ou mesmo guardar a comida para não estragar. Devia ter passado a noite e a madrugada acordado, analisando o caso do mensageiro.
Ele levantou-se, escovou os dentes e tomou um banho relaxante. Dava graças a Deus por ser sábado e poder ficar quieto em casa. Bem, ficar quieto não era o que ele iria realmente conseguir se ficasse naquele apartamento. Conhecia Sherlock e aquele homem estava elétrico com o novo jogo que algum psicopata bizarro, estava lhe propondo através de um quase totalmente esquecido código de comunicação vitoriana, usando como base de apoio para atrair atenção do detetive, corpos de inocentes cidadãos ingleses. Pensar nisso fez o médico sentir ânsia de vômito. Como alguém podia ser tão indiferente ao sofrimento humano a ponto de matar indiscriminadamente apenas para compor um jogo particular? Quem seria esse monstro?
O médico vestiu uma roupa confortável e foi para a cozinha preparar um desjejum. Passou pela sala e encontrou o amigo estirado no sofá trajando a mesma calça preta e camisa branca do dia anterior, mantinha os olhos fechados e os músculos relaxados, mas John tinha certeza que ele estava perfeitamente desperto.
Através das janelas podia-se ver um céu cinzento e cordas finas de água despencar rumo ao asfalto da rua. Estava frio, um clima perfeito para ficar em casa e John não poderia desejar coisa diferente naquele sábado chuvoso.
Olhou para a mesa e não viu a comida que deixou lá na noite anterior, procurou na geladeira e lá a encontrou, embalada e arrumada para durar por tempo razoável. O médico sentiu-se aliviado, achava um crime deixar comida estragar enquanto tantas pessoas padeciam com a falta de alimento mundo afora. Tinha que admitir, Sherlock às vezes o surpreendia positivamente com relação às tarefas do lar. Permitiu-se um ligeiro sorrido no canto do lábio e preparou chá e torradas para os dois. Pôs tudo numa bandeja e levou para a sala, depositando o seu na mesinha ao lado de sua poltrona e o de Sherlock na mesinha de frente para o sofá.
Como esperado, Holmes abriu lentamente os olhos cristalinos tal como um gato sonolento e, com gesto lânguido, colheu a xícara de chá levando-a aos lábios que rapidamente adquiriram um agradável tom avermelhado fazendo Watson parar sua xícara a centímetros dos próprios lábios, hipnotizado por aquela visão tão atrativa. O médico lambeu e mordeu o lábio inferior, refreando um gemido no último minuto e então empurrou o líquido quente que aguardava na porcelana, goela a baixo, tentando limpar a mente de qualquer pensamento pecaminoso que envolvesse a pessoa do amigo.
– Os sorrisos, John. – Sherlock falou com sua voz grave.
– O quê? – o médico ajeitou-se confuso.
– Os sorrisos, você não se perguntou nenhuma vez por que as vítimas mantinham um sorriso?
– De fato, esse detalhe me causou estranheza. Por acaso estamos lidando com um psicopata ótimo contador de piadas que mata suas vítimas de tanto rir? – John tentou rir da piada infame, mas não conseguiu.
– Não, Dr. Watson, estamos lidando com um psicopata entendido em botânica e fã do código vitoriano.
– Então você já sabe do que aquelas pessoas morreram, certo?
– Certíssimo e eu garanto que não foi de rir. – respondeu o moreno sentando-se com um movimento elegante, pondo mais um gole de chá na boca.
– Ok. – disse John movendo sua atenção que se mantinha nos lábios do amigo fitando-o nos olhos agora. – Me conte o que descobriu.
– Como eu disse ontem, enquanto você se preocupava em arrumar a mesa para o jantar, a mente assassina por trás desse caso é sutil e elegante, e acrescentaria também o adjetivo "sádica" levando em consideração o procedimento usado para matar.
– Estou curioso. – respondeu Watson, abandonando a xícara de chá na mesa ao lado, esperando a informação.
– As mortes foram provocadas por envenenamento à base de extrato concentrado de oenanthe crocata, também conhecida como "prego-do-diabo", Molly me enviou por celular o resultado dos exames pouco antes de você chegar ontem, trata-se de uma planta portadora de uma toxina bem interessante: a onanthotoxina. O elemento assassino contido na planta relaxa os músculos em torno dos lábios da vítima forçando um sorriso macabro e sádico que se conserva durante toda a agonia, a vítima parece rir mesmo presa a convulsões dolorosas e fatais, meu caro doutor. Essa pessoa faz da morte de suas vítimas uma piada particular. Arrisco dizer que assistir as vítimas agonizarem enquanto aparentam rolar de rir, dá-lhe um prazer peculiar.
– Deus do céu... Isso é muito doente... – sussurrou o médico horrorizado sentindo mais uma vez o estômago se contrair com ânsia de vômito.
– Há um palco sendo preparado, John, e a pessoa por trás das mensagens acha que é a própria morte acolhendo a todos, sorridente, e que todos devem acolher, sorrindo, o seu chamado. E você já entendeu o que eu sou nesse jogo?
John permaneceu em silêncio. Sim, ele havia deduzido a intenção do assassino através das mensagens. Aquilo de fato era muito doente.
– Eu sou o último sorriso.
– Mas você não será. – o médico respondeu agitado, fechando a mão direita sobre o braço da poltrona, encarando-o de modo sério e determinado.
Holmes o encarou curioso, depois se permitiu um mínimo sorriso e respondeu:
– Serei sim, John, mas não do modo esperado pela parte oponente nesse jogo. Eu rirei por último, mas permanecerei vivo.
Um silêncio pesado caiu na sala, um silêncio tenso e cheio de expectativas como àqueles que se espalham na plateia antes do início de uma ópera eivada de tragédias.
Fora do apartamento, a chuva gélida fustigava os prédios e as vidraças das casas, o vento brandia galhos enegrecidos e esqueléticos, trazendo aos ouvidos mais suscetíveis a impressão de carregarem vozes de segredos e lamentos sussurrados em língua estranha.
Watson passou novamente as páginas da pasta que tinha sobre a mesinha de centro, observou atentamente as vítimas, obviamente as idades eram bem variadas. O ritmo de vida de cada um também parecia muito distinto um do outro. A mulher de 32 anos parecia uma secretária de alguma firma imobiliária, ele confirmou sua dedução lendo o breve relatório de identificação logo abaixo da foto. O rapaz de 19 anos parecia um universitário, a senhora de 64 aparentava apenas uma aposentada fã de passeios no parque e o homem de 56 tinha aspecto de um executivo do setor financeiro. Todas as suas deduções bateram com o breve relatório abaixo das fotos. A convivência com Sherlock estava apurando seu senso de observação. John permitiu-se um pequeno sorriso com aquela conclusão. Olhou mais atentamente as fotos, verificando não haver descrição ou imagem de perfuração ou ingestão forçada do que quer que seja. Dezenas de pontos de interrogação despontaram em sua mente. Definitivamente as vítimas não iriam ingerir veneno voluntariamente, nenhum deles parecia querer por fim a própria vida. Como a toxina chegou à corrente sanguínea delas?
– Essa é uma das questões que estou tentando responder, John.
O médico encarou novamente o amigo que havia voltado a se deitar com as mãos unidas logo abaixo do lábio inferior.
– E já tem alguma ideia de como o assassino fez isso?
– No momento tenho oito hipóteses possíveis.
– Oito? Uau! Eu só consigo ver uma.
Sherlock olhou para ele muito curioso, estreitando os olhos como se buscasse absorver a hipótese de Watson antes mesmo dele se atrever a falar.
– Não, Dr. Watson, exames do conteúdo existente no estômago das vítimas descarta a possibilidade de bebida ou comida envenenada. A hipótese de que foram enganadas com alimentos não cabe aqui.
– Como assim, não cabe? – perguntou o médico deixando de lado o fato do amigo ter mais uma vez deduzido seus pensamentos.
– Por acaso notou em que tipo de ambiente cada corpo foi encontrado? Foi em lugares ermos, meu caro, não foi numa confeitaria, num bar ou numa festa, foi em lugares ermos, distante de tudo. Alguém os levou até lá e, por alguma razão que eu ainda vou descobrir, os envenenou com uma solução concentrada da onanthotoxina. E volto a destacar o fato dos exames terem dado negativo para ingestão de comida ou bebida envenenada.
– Alguém os levou para esses lugares? Como sabe que elas não foram por conta própria? Sei lá, pode ser que participassem de alguma seita louca que decidiu que seus seguidores deveriam dar adeus a esse mundo materialista através do veneno dessa planta, fazendo isso longe do olhar dos curiosos.
Sherlock suspirou audivelmente encarando o teto.
– Página três, quarta foto à direita. – o detetive falou de modo imperativo.
O médico chegou rápido na referência onde havia uma foto aproximada mostrando a região do quadril da mulher de 32 anos. Próximo àquele ponto podia-se notar marcas na terra, sim, eram definitivamente traços de pegadas.
– Pegadas perto do corpo? – indagou John com um leve sorriso. – como sabe que essas marcas de pés não são dos peritos, você mesmo vive dizendo que eles estragam praticamente quase todas as cenas de crime!
– Quase todas não. Todas! – corrigiu o moreno.
– Tá! Que seja, mas como tem certeza que essas marcas não foram feitas por um deles que se aproximou demais para fotografar o corpo?
– John, você vê, mas não observa. Não prestou atenção na foto?
– É claro que eu prestei atenção.
– Não parece, se observar bem será capaz de perceber que as pegadas não pertencem a nenhum perito, pelo menos não dessa vez. As pegadas foram feitas por alguém com pelo menos um metro e sessenta de altura, ou um pouco mais que isso, a pressão da marca sugere que tinha cerca de 56 quilos e pontuação 34. É uma mulher. Não havia nenhum perito com essas características na equipe que catalogou as evidências desse assassinato, e também não batiam com as características do cadáver. Ou seja, uma mulher esteve lá, matou e foi embora.
– O quê? O mensageiro é...
– Uma mulher, John. A autoria das mensagens só pode pertencer a uma mulher. Como eu sei disso? Dedução. A pessoa com quem estamos lidando possivelmente é um adulto. Possivelmente não, tenho certeza que é um adulto, as características dos crimes são bastante refinadas para um adolescente, daí que encontrar um homem de aproximados um metro e sessenta de altura, 56 quilos com pontuação 34, é bem difícil. E não é só isso, se reparar um pouco mais, verá que o desenho da marca lembra muito o do solado de uma versão feminina do sapato Oxford. Portanto, estamos diante de uma mulher! – respondeu o detetive praticamente num fôlego só.
– Ah, tá... ok...uma mulher...uma mulher que quer chamar a sua atenção.
– Exatamente.
– O que ela tem contra enviar um cartão educado convidando você para jantar? – John perguntou tentando soar engraçado para disfarçar um estranho ciúme que lhe devorava as entranhas.
– Talvez ela soubesse que eu recusaria o convite.
– Por você ser casado com a profissão?
– Isso. Não tenho tempo nem espaço para o cultivo de relações desse gênero.
John sentiu-se atravessar por lâminas de gelo com essa declaração, o amigo deixava mais do que claro que qualquer aspiração amorosa voltada para ele era totalmente vã. Quão miserável o médico se sentia por perceber a existência de um sentimento mais profundo que amizade rasgando espaço pouco a pouco em sua alma. Um sentimento cujo futuro certo era sofrimento silencioso e frustração. Ele estava perdido.
Nesse momento ouviram passos apressados nas escadas, pela pressão e ritmo, Sherlock deduzira com facilidade de quem se tratava e esperou com um sorriso brincalhão nos lábios o surgimento da estrutura úmida e agitada do inspetor-detetive Greg Lestrade na sala do apartamento.
– Sherlock! – falou o homem em meio à respiração ofegante. Odiava escadas.
– Onde dessa vez, inspetor? – o moreno indagou tranquilamente.
– No São Bartolomeu.
– Molly? – o detetive saltou do sofá visivelmente apreensivo.
Aquilo deixou John um pouco surpreso, podia jurar que o amigo rodearia feliz uma cena de crime composta com o corpo do próprio John sem se importar. É. Ele tinha que admitir que às vezes exagerava seu conceito sobre o comportamento frio de Sherlock. O amigo era humano afinal de contas, bem, pelo menos preferia crer nisso.
– Não, não é a Srtª Hooper, o corpo encontrado é de uma médica residente.
Dessa vez foi a vez de Watson saltar da poltrona.
– Victória?
Holmes olhou atentamente a reação do amigo como se não gostasse muito do que via.
– Sim, checamos a identidade. Trata-se de Victória Mary Winter. Era sua amiga?
– Não, ele só quase foi para a cama com ela ontem. – Sherlock respondeu com ar de tédio.
– O quê? – Lestrade olhou de um para o outro.
– Sherlock! – John estava perdendo a paciência. – Nós ainda estávamos nos conhecendo. – o médico respondeu para o inspetor, enquanto lançava um olhar bem feio para Sherlock deixando um evidente aviso para que ele ficasse calado.
– Certo, isso não vem ao caso agora. O corpo foi encontrado numa ala isolada para reformas, tinha aqueles arranjos bizarros no corpo e o mesmo sorriso pavoroso do caso do "assassino sorriso".
– Assassino sorriso? Sério que vocês deram esse nome para o caso? – Sherlock parecia prestes a bater com a cabeça na parede. – Aposto que o Anderson foi o autor desse nome ridículo!
– Não, fui eu. – Lestrade o fuzilou com os olhos cansados de quem não dormia que prestasse há dias. – me pareceu cair muito bem se quer saber.
– Não, obrigado, não quero saber quais critérios ultra inteligentes você usou para dar esse nome idiota ao caso. – Sherlock bufou ironizando.
– Ah, é? E qual nome você deu? Posso saber?
– Um bem mais requintado que o seu, pode acreditar. Eu chamo o caso de...
– Já chega! – John exigiu irritado. – Se as meninas estão esquecendo, temos um corpo estirado no São Bartolomeu com a continuação de uma mensagem dirigida ao Sherlock! E ainda por cima quem serviu de papel de escrita dessa vez foi uma conhecida minha! Então vamos para lá agora!
– Espera, a mensagem é para o Sherlock? – Lestrade encarou o detetive.
– John... não era para a polícia ficar sabendo agora... – resmungou o detetive revirando os olhos.
– Tivesse me dito antes que não havia contado pelo menos para o Greg!
– Sherlock, quantas vezes eu já te disse para não esconder informação da polícia? – o inspetor reclamou exasperado.
– Não sei, deletei todas as vezes nas quais supostamente eu ouvi esse aviso.
– Deus do céu! John, você é um santo por conviver com o Sherlock.
– E eu não sei? – respondeu o médico.
– Ok, Lestrade, depois eu explico a questão da mensagem, vamos logo para a cena do crime – disse o moreno pegando seu cachecol e o sobretudo.
Ao chegarem ao hospital, Lestrade os levou para a área isolada onde o corpo continuava estendido. Ao se aproximarem foram recebidos por Donovan que não perdeu a oportunidade de tentar atingir Sherlock.
– Veio se divertir, maluco?
– Talvez. – Respondeu Sherlock fazendo expressivos movimentos com as narinas como se estivesse captando algo no ar. – Está usando desodorante feminino, Sargento?
– É claro que estou usando desodorante feminino, eu sou uma mulher. – respondeu intrigada.
– Andou brigando com o Anderson? Você gostava bem mais de usar o desodorante masculino dele quando ia visitá-lo.
Donovan limitou-se a lhe lançar um olhar furioso e se afastar. John riu, Sherlock sabia afastar as pessoas.
Watson se aproximou de Sherlock que se agachou para analisar a vítima, dando atenção primeiro ao arranjo cuidadosamente depositado sobre o crachá perfeitamente arrumado no peito da médica residente. Um doce cheiro de baunilha rodeava a cena onde a vítima mantinha um bizarro sorriso congelado na face.
– Flores de heliotrópio, o cheiro doce vem delas. – disse o moreno aproximando o ramo com pequenas flores azuis às narinas, enquanto deslizava para dentro do bolso do seu sobretudo, o crachá que esteve por baixo das flores.
– Foram combinadas com ramos de louro. – constatou o médico. – o que significa?
O detetive que segundos antes parecia animado com mais um símbolo para o quebra-cabeça que estava montando em sua mente, ficou sério e John poderia jurar que o homem havia ficado mais pálido do que o de costume ao enfrentar a dedução que atravessou o seu cérebro.
– Depois explico, John. – respondeu apressado voltando a se agachar para coletar mais evidências.
Depois de mais alguns minutos, Sherlock e John saíram do hospital pegando um táxi rumo ao 221B. O médico não deixou de notar que o detetive continuava pálido e inquieto, aquilo o deixou bastante tenso.
Continua...
