Para: Peter Pettigrew
De: Lily Evans
Assunto: Onde eu estava
Como é indispensável para você e Sibila Trelawney que seus empregados descrevam todos os momentos que passam longe da redação, eu vou fazer um resumo detalhando meu paradeiro enquanto estive inevitavelmente impedida de comparecer ao serviço.
Está pronto? Já tomou seu Mountain Dew? Eu ouvi dizer que a máquina do departamento de arte está funcionando perfeitamente bem.
A manhã de Lily:
7:15 – Soa o alarme. Aperto o botão de soneca.
7:20 – Soa o alarme. Aperto o botão de soneca.
7:25 – Soa o alarme. Aperto o botão de soneca.
7:26 – Acordo ao som dos latidos do cão da vizinha. Desligo o alarme.
7:27 – Trôpega, dirijo-me ao banheiro. Tomo banho.
7:55 – Trôpega, dirijo-me à cozinha. Ingiro alimento sob forma de barra de cereais, e o kung pao da noite de terça-feira, que pedi para viagem.
7:56 – O cachorro da vizinha continua latindo.
7:57 – Seco os cabelos com o secador.
8:10 – Vejo a previsão do tempo no Canal Um.
8:11 – O cachorro da vizinha continua latindo.
8:12 – Tento encontrar algo para vestir entre as roupas amontoadas no armário tamanho geladeira do meu quitinete.
8:30 – Desisto. Visto a saia de raiom preta, blusa de raiom preta, sapatilha preta aberta.
8:35 – Pego a bolsa preta. Procuro as chaves.
8:40 – Encontro as chaves na bolsa. Saio do apartamento.
8:41 – Noto que o exemplar do New York Chronicle da Sra. Bagshot (sim, Peter, minha vizinha do lado assina o jornal de seu maior rival; agora não concorda comigo que precisamos fazer alguma coisa para atrair a terceira idade?) ainda está no chão, diante da porta dela. Ela normalmente acorda às seis para levar o cachorro para passear e pega o jornal a essa hora.
8:42 – Noto que o cachorro da Sra. Bagshot ainda está latindo. Bato à porta para ver se está tudo bem. (Algumas pessoas se preocupam com os vizinhos, Peter. Não deve estar a par disso, é claro, pois as histórias sobre gente que se preocupa com os outros não costumam ser consideradas boas matérias. As matérias do Journal, segundo já observei, tendem a girar em torno de vizinhos que atiram nos outros, e não que pedem emprestadas xícaras de açúcar.)
8:45 – Depois de bater várias vezes à porta, a Sra. Bagshot não veio atender. Snuffles, o dinamarquês dela, late com mais força ainda.
8:46 – Tento abrir a porta do apartamento, mexendo na maçaneta. Estranhamente, a porta está destrancada. Entro.
8:47 – Sou recebida pelo dinamarquês e dois gatos siameses. Nem sinal da Sra. Bagshot.
8:48 – Encontro a Sra. Bagshot caída de bruços no tapete da sala de estar.
Entendeu, Peter? A mulher estava caída de bruços no tapete da sala de estar! O que eu devia fazer, Peter? Hein? Me diga. Ligar para a Sibila Trelawney do Departamento de Recursos Humanos?
Não, Peter. Aquele curdo de primeiros socorros que nos obrigou a fazer valeu, entende? Eu fui capaz de constatar que não só o pulso da Sra. Bagshot estava normal como também que ela estava respirando. Então liguei para o 911 e esperei ao lado dela até a ambulância chegar.
Com a ambulância, Peter, vieram policiais. E adivinha só o que eles disseram, Peter? Disseram que achavam que a Sra. Bagshot tinha levado uma cacetada na cabeça. Pelas costas, Peter. Algum anormal havia acertado a nuca da coitadinha da velha!
Dá pra acreditar? Quem faria isso com uma senhora de 80 anos?
Não seu onde irá parar essa cidade, Peter, quando as velhinhas não estão mais a salvo dentro dos seus apartamentos. Mas estou lhe dizendo, isso é notícia – e acho que eu é que devo redigi-la.
O que me diz, Peter?
Lily
Para: Lily Evans
De: Peter Pettigrew
Assunto: Isso é notícia
A única notícia é a que não ouvi. E essa é a história do motivo pelo qual, só porque sua vizinha levou uma pancada na cabeça, você não apareceu na redação, nem ligou para ninguém para dar satisfação sobre o que estava fazendo.
Essa é uma história que eu realmente ia gostar de escutar.
Peter
Para: Peter Pettigrew
De: Lily Evans
Assunto: Onde eu estava
Peter, você tem mesmo um coração de pedra. Encontrei minha vizinha de bruços na sala de estar, vítima de um ataque brutal, e acha que eu só devia ter pensado em ligar para meu chefe para explicar por que ia me atrasar?
Bom, sinto muito, Peter, mas essa idéia nem me passou pela cabeça. A Sra. Bagshot é minha amiga, droga! Eu queria ir com ela na ambulância, mas havia o probleminha do que fazer com o Snuffles.
Ou será que eu devia dizer o problemão do que fazer com o Snuffles? Snuffles é o dinamarquês da Sra. Bagshot, Peter. Pesa uns 60 quilos, mais que eu.
E precisava sair. Estava desesperado para ir à rua.
Então, eu o levei para passear, lhe dei comida e água e fiz o mesmo com o Chico Bum e o Sr. Botucas, os gatos siameses dela (Chico Bam, infelizmente, morreu no ano passado). Enquanto estava fazendo isso, os tiras examinavam a porta dela para saber se alguém a havia arrombado. Mas não tinha sinal de arrombamento, Peter .
Sabe o que significa isso? Significa que provavelmente ela conhecia o agressor, e o deixou entar por sua própia iniciativa!
Ainda mais estranho foi o fato de que os 276 dólares que estavam na bolsa dela não foram tocados. As jóias também continuavam lá. Não foi um assalto.
Peter, por que não acredita que isso é notícia? Tem alguma coisa errada. Muito errada.
Quando finalmente cheguei ao hospital, me informaram que a Sra. Bagshot estava sendo submetida a uma cirurgia. Os médicos estavam tentando aliviar a pressão no cérebro dela resultante se um coágulo gigantesco que havia se formado sobre o crânio! O que eu devia fazer, Peter? Ir embora? Os tiras não conseguiam entrar em contato com ninguém da família. Ela só podia contar comigo.
Doze horas. Doze horas, eles gastaram. Eu precisei ir ao apartamento dela levar o Snuffles mais duas vezesà rua antes de a cirurgia terminar. E, quando terminou, os médicos saíram e me disseram que tinha ido apenas parcialmente bem. A Sra. Bagshot está em coma, Pter! Talvez nunca mais saia desse estado.
E até ela sair, quem é que vai ter que ficar tomando conta do Snuffles, do Chico Bum e do Sr. Botucas?
Vai, responde, Peter.
Não estou tentando convencê-lo a se solidarizar comigo, eu sei. Devia ter ligado. Mas o trabalho não era tão primordial na minha cabeça naquele momento, Peter.
Escute, agora que eu finalmente voltei, o que acharia de me deixar redigir uma matéria sobre o que ocorreu? Sabe, podemos direcionar para "cuidado com quem deixa entrar no seu apartamento". Os tiras ainda estão procurando o parente mais próximo da Sra. Bagshot, o sobrinho dela, acho, mas, quando o encontrarem, eu podia entrevistá-lo. Sabe, a mulher é mesmo um fenômeno. Aos 80 anos ela ainda vai à academia três vezes por semana, e no mês passado foi a Helsinque de avião para uma apresentação do Anel do nibelungos. Juro. O marido era um cara que deixou a herança do fechos de arame para embalagem. Sabe, aqueles araminhos com que se fecham os sacos de lixo? Ele vale no mínimo seis ou sete milhões de dólares.
Vamos, Peter, me deixe tentar. Não pode me obrigar a ficar redigindo fuxicos sobre famosos para a Página Dez eternamente.
Lily
Para: Lily Evans
De: Peter Pettigrew
Assunto: Não pode me obrigar a ficar redigindo fofocas sobre famosos para a Página Dez
Posso, sim.
E sabe por quê? Porque sou o editor-chefe desse jornal, e posso fazer tudo que quiser.
Além disso, Evans, precisamos de você na Página Dez.
Gostaria de saber por que precisamos de você na Página Dez? Porque a verdade, Evans, é que você se liga nisso. Você adora as batalhas judicias da Winona Ryder, se preocupa com o peeling do Harrison Ford. Fica mesmo fissurada nos seios da Courtney Love, e se são de silicone ou não.
Admita, Evans, você adora
Esse outro assunto não dá matéria nenhuma, Evans. Todo dia uma velhinha leva uma cacetada na cabeça para receber auxílio-doença.
Capisce?
Agora, vai logo aí a matéria do desfile da Prada.
Peter
Para: Peter Pettigrew
De: Lily Evans
Assunto: Não estou nem aí para os peitos da Courtney Love...
... e você vai se arrepender de não me deixar redigir a hisória da Sra. Bagshot, Peter. Estou lhe dizendo, tem algo de podre, e dá para sentir o fedor.
Falando nisso, Harrison JAMAIS fariapeeling.
Lily
P.S.: E quem é que não se preocupa com Winona Ryder? Do jeito que ela é gracinha? Não quer que ela seja inocentada, Peter?
Para: Recursos Humanos
De: Lily Evans
Assunto: Minha falta de pontualidade
Prezado pessoal do RH?
O que posso dizer? Vocês me pegaram. Acho que meu
• alcoolismo
• dependência de drogas
• vício em jogos de azar
• violência conjugal
• insônia
• depressão patológica
e todos os outros tipos de distúrbios finalmente me levaram ao fundo do poço. Por favor, me inscrevam no Programa de Assistência aos Funcionários imediatamente! Se puderem me entregar nas mãos de um psicólogo que se pareça com Brandon Fraser e, de preferência, realize sessões sem camisa, eu adoraria.
Porque a doença básica de que estou sofrendo é que su uma mulher de 27 anos, moradora da cidade de Nova York, e não consigo encontrar um cara que preste. Só uma cara que não me engane, não more com a mãe e não leia a seção de artes do Chronicle antes de qualquer outra coisa na manhã de domingo, se é que me entende. Será que é pedir demais?
Veja se o seu Programa de Assistência aos Funcionários é capaz disso.
Lily Evans
Colunista da Página Dez
New York Journal
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Nota da Alh - Bom, aí está o capítulo 2. Eu resolvi aceitar o conselho da Julia Menezes e tirar os e-mails. Quando tiver algum personagem novo eu coloco o e-mail aqui em baixo. Além disso, se eu tiver tempo, talvez eu poste no sábado ou no domingo o capítulo 3! Qualquer dúvida, me falem. Eu AMO responder perguntas
Respostas das Reviews
Julia Menezes: Acho que esse livro é o meu favorito dela. Já leu os outros da série? Eu achei ótima a sua ideia, e obrigada pela review!
Biaa Black C. de Cahill Potter: Infelizmente eu não posso postar na quinta de manhã :( Na verdade, quando eu posto, é sexta de manhã aqui, no horário de almoço, mas no Brasil é quinta de tarde, e a história demora um pouco para aparecer :/ Mas continue acompanhando! Fiquei muito feliz com sua review! Eu também adoro a Meg!
AnneSL: Obrigada! Continue acompanhando!
