Oi, pessoas amadas! Eis o segundo capítulo da fic, espero que gostem e compartilhem suas impressões comigo.
Capítulo 2 O jardim
Como esperado por John, ele não conseguiu ter um sono decente. Os constantes alertas de mensagens chegando ao celular de Sherlock e a figura alta e esguia do detetive andando inquieto pela sala do 221B, não permitiram que o loiro relaxasse.
Ele bem que tentou demover o namorado da sua apaixonada tarefa junto à parede acima do sofá da sala.
– Sherlock... vamos, deixe para montar esse painel amanhã, venha dormir. – John insistiu.
– Não posso, tenho que organizar minhas ideias agora, não vou conseguir dormir enquanto não por em ordem tudo o que está pulando em minha mente! – o moreno respondeu grudando vários papéis com pedaços de fita adesiva no revestimento decorativo da parede.
O celular continuava a dar sinal de mensagem incessantemente e Sherlock ia e vinha da mesa de leitura entre as duas janelas da sala para a parede acima do sofá, catando mais papéis e anotando coisas que lia em seu celular, para em seguida grudar na parede e amarrar barbantes coloridos fazendo conexões que só a mente excitada do detetive era capaz de compreender.
Desanimado, o médico desistiu, foi para o quarto e afundou-se nas cobertas, sorrindo um pouco ao sentir o cheiro do companheiro. Ele gostava daquele cheiro que se intensificava quando se embrenhavam um no corpo do outro buscando e dando satisfação até a exaustão. A lembrança de que mais cedo, naquela mesma noite, ele teve Sherlock imobilizado na cama, encarando-o com uma deliciosa promessa de sexo memorável no olhar para logo depois deslizar do seu agarre por conta de um chamado para olhar um cadáver numa livraria, o fez suspirar em derrota. Aquilo não era justo.
Na manhã seguinte, John despertou ouvindo ruídos de utensílios na cozinha. "Não, Sherlock não está se dignando a fazer o café", pensou o médico totalmente sem esperanças de encontrar algo pronto para o desjejum. A sorte era que estava de férias do seu trabalho no hospital e podia se dar ao luxo de acordar depois das seis e dedicar-se ao preparo de algo decente para o café da manhã.
– Tomara que não tenha dedos dentro da chaleira... – John resmungou levantando-se da larga cama onde passou a noite toda sozinho.
John saiu do quarto e encontrou Sherlock decorando a parede acima do sofá, com mais meia dúzia de anotações. O homem parecia um menino pendurando alegremente bolas coloridas numa árvore de natal. O médico foi para a cozinha e deu graças a Deus por não encontrar nenhum pedaço de corpo sobre o balcão e nem dentro da geladeira. Preparou chá e panquecas com mel. Arrumou a comida em uma bandeja e a levou para a sala, depositando-a sobre a mesa de estudos onde ainda restava espaço para se tomar café da manhã sem o risco de cair duro, envenenado por algum experimento letal próximo ao alimento.
– Sherlock, venha comer alguma coisa. – John convidou sentando-se e bebericando o chá em sua xícara.
– Ainda não, John. – o detetive respondeu de costas analisando o ninho complexo de informações grudadas na parede.
– Venha comer, Sherlock. E venha agora. – John insistiu e seu tom não era mais de pedido e sim o impositivo tom de voz do velho Capitão Watson.
O moreno virou-se para encarar o médico que retribuía o olhar de forma firme, enfatizando o chamado. Sherlock moveu-se como um felino convocado por um irresistível apelo. O corpo esguio sentou-se e catou a xícara fumegante que John havia servido para ele, dando uma leve assoprada na bebida antes de sorvê-la de uma forma que John achou infernalmente obscena e provocativa.
O médico sentiu um súbito calor cravar suas garras insanas em seu baixo ventre e não pôde impedir a fuga de um gemido estrangulado que subiu por sua garganta.
– Está se sentindo bem, John? – o detetive perguntou depois de ouvir o gemido do companheiro.
Os olhos do moreno deslizavam cristalinos sobre a face do loiro como se lessem com clareza o relatório completo do que estava ocorrendo no corpo do namorado naquele momento. O detetive voltou a dar um gole em seu chá, não contendo um pequeno sorriso enquanto o encarava como um falcão se divertindo com a visão de um roedor pulando no gramado raso, sem possibilidade alguma de fuga ao bote.
– O chá... está bom? – John rebateu a pergunta do namorado com outra pergunta.
– Uma delícia. – o moreno respondeu dando uma lenta lambida nos lábios, que adquiriram um tom rosado excitante por conta do contato com o líquido morno e adocicado.
John respirou fundo. Aquilo era provocação demais para ele. Sherlock não podia estar fazendo aquilo de propósito, ou podia? O loiro voltou a observar o homem diante dele, Sherlock era a provocação em pessoa. Não haviam iniciado a relação de amantes há muito tempo, mas ele já era capaz de perceber as sutis insinuações do companheiro, John era perfeitamente capaz de ver boa parte das intenções do detetive através da sua máscara de indiferença.
O médico catalogou e registrou como dados de alta relevância em sua mente, todos os traços comportamentais utilizados por seu namorado quando quer provocar, despertar instintos primitivos nele. Sherlock o encarava e bebericava seu chá como um felino requerendo ser acariciado e John não ia negar isso a ele.
O loiro depositou sua xícara no pires sobre a mesa, levantou-se decidido e parou ao lado da cadeira onde Sherlock estava sentado com sua xícara na mão, o observando mover-se. John tirou diligentemente a peça de porcelana da mão do moreno depositando-a na mesa enquanto o detetive o encarava curioso como quem analisa os efeitos de uma combinação química experimental.
O rosto do médico estava avermelhado e suas pupilas dilataram, denunciando o que o grande volume em seu baixo ventre gritava: ele estava terrivelmente excitado e bastante decidido a fazer sexo ali mesmo na sala, derrubaria livros e porcelanas no chão, jogaria Sherlock sobre a mesa, arrancaria sua roupa com urgência e o devoraria com vigor até deixá-lo exausto e sem ânimo para grudar nem mais uma anotação na parede. A mão forte do loiro tocou a nuca do namorado agarrando os fios de cabelo anelados no afã de puxá-lo para um primeiro de muitos beijos sedentos, mas a mão longa do detetive o deteve na metade do trajeto.
– Pode entrar, Lestrade. – Sherlock convidou olhando para a porta de acesso do apartamento.
John virou-se atônito a tempo de ver a porta abrir lentamente e revelar um Lestrade com aspecto cansado e mal dormido.
– Como sabia que eu estava no pé da porta? – o inspetor quis saber enquanto fechava o acesso atrás de si.
– Sua respiração irregular atrás da madeira depois do exercício forçado ao subir as escadas e o cheiro de erva-doce, acusaram sua presença. Da próxima vez, tente aguardar o chão da sua sala na Yard secar antes de entrar nela – o detetive comentou resgatando a xícara sobre a mesa e tomando um gole do conteúdo.
– O que erva-doce e o chão da minha sala têm com isso? – Lestrade parecia confuso.
– Nada. – John falou se movendo rapidamente para o seu lugar na mesa tentando ocultar o mais rápido possível a sua destacada ereção. – Só o fato de que seria bom você trocar o detergente da sua divisão na Scotland Yard, ele está dedurando muita gente para o Sherlock.
– Que história é essa? – Greg parecia mais confuso ainda.
– Não importa. – Sherlock respondeu depositando a xícara na mesa. – Fale-nos das novidades que o arrastaram tão cedo até aqui, inspetor.
– Ah, sim, tenho informações interessantes sobre o caso do "corpo limpo".
– "Corpo limpo"? Esse foi o nome que deu ao caso? – Sherlock parecia chocado.
– É claro que sim. Tomei como base uma das suas deduções sobre o corpo, você disse que estava limpo, sem sangue em volta, então achei que cairia bem o nome "corpo limpo". – Lestrade pontuou.
– Meu Deus, a sua criatividade para nomear casos é revoltante! – Sherlock bufou revirando os olhos.
– Quero ver você dar um nome melhor. – Lestrade desafiou-o puxando uma cadeira para sentar-se perto dos dois homens.
– Eu darei e acredite, será um milhão de vezes mais decente que o seu.
– Pelo amor de Deus, meninos, isso está ficando cansativo... – John reclamou esfregando as mãos no rosto. – Por favor, voltem para a idade adulta, temos um assassinato esquisito para desvendar.
– O John tem razão. Diga-nos inspetor, quais novidades conseguiu sobre o morto. – Sherlock indagou cravando um par de olhos curiosos sobre o homem meio grisalho.
– O homem era vendedor de livros e também proprietário da livraria onde o corpo foi deixado, os documentos na carteira encontrada no seu bolso identificava-o como Oscar Hall – Lestrade afirmou entregando uma pasta parda para Sherlock. – Ocorre que o Sr. Oscar Hall morreu em um acidente de carro em 2010, era solteiro, sem filhos e sem parentes conhecidos.
– Então o homem morto naquela livraria usava uma identidade de uma pessoa falecida? – John perguntou meio surpreso.
– Isso mesmo. – confirmou Greg. – Estamos trabalhando com a hipótese de que o homem fosse um fugitivo da polícia e que foi morto por comparsas em uma clássica queima de arquivo. – Lestrade concluiu sentindo-se muito eficiente.
– Hipótese errada. – Sherlock cortou juntando as mãos abaixo dos lábios carnudos, direcionando os olhos claros para o tumulto de anotações e fotografias grudadas em um painel improvisado na parede acima do sofá – Ele não era um fugitivo. – falou se erguendo da cadeira, indo em direção ao painel.
– Não era? – Greg perguntou entre frustrado e surpreso. – pode me explicar por que acha isso?
– Muito simples, durante a madrugada eu consegui reconstituir os movimentos do vendedor de livros nas últimas três semanas antes da morte dele. – disse apontando algumas anotações na parede.
– Como? – Lestrade parecia impressionado, pois não havia câmeras nas imediações do lugar onde o corpo foi encontrado e os vizinhos afirmaram não ter visto nada e muito menos saber da rotina do falecido.
– Moradores de rua, meu caro, eles estão em toda parte, veem tudo e todos e nada e ninguém os vê. Quando me levantei de perto do corpo ontem, mandei uma mensagem de texto para todos os que perabulam num raio de quinze quadras do prédio onde encontramos o cadáver, forneci a foto do homem e pedi que relatassem com a maior riqueza de detalhes possível a rotina dele nas últimas semanas.
– Nossa! – Lestrade disse impressionado e boquiaberto.
– Observem, – o moreno apontou os papéis na parede. – nos últimos dias ele visitou regularmente uma cabine telefônica a três quadras da própria residência, sempre às treze horas e não gastava mais do que cinco minutos em cada ligação. Mas a primeira pergunta que surge aí é: por que usar um telefone público ao invés do celular?
– É, boa pergunta. – Greg pontuou.
– Muito simples, o telefone celular é um verdadeiro farol denunciando cada movimento de quem o utiliza, traçando um mapa completo dos lugares por onde passou e onde permaneceu. Se você quer esconder sua localização exata, não faça ligações através do celular, possíveis interceptações das chamadas poderiam captar a linha e descobri-lo. – Sherlock respondeu.
– Ok, continue. – Lestrade incentivou.
– Certo. Agora vem outra pergunta: por que andar três quarteirões para usar um telefone público se há vários outros em perfeito uso perto da livraria? – Sherlock destacou.
– Não sei, talvez gostasse de caminhar. – John arriscou, olhando de Lestrade para Sherlock.
– O que faz você atender um telefonema imediatamente ao invés de ficar olhando para o visor ponderando quem é se vai atender? – o detetive indagou olhando incisivamente para o médico.
– Uhm... Bem...
– Vamos! Pense! – Sherlock incentivou.
– Um número conhecido? – John respondeu.
– Isso! Não só um número conhecido, mas ansiosamente aguardado, ele precisava ligar naquele horário e com o número daquela cabine, e por quê? Primeiro: a linha fixa pública é a melhor ferramenta para evitar rastros, e segundo, usar o mesmo aparelho, portanto o mesmo número, em um mesmo horário, servia de protocolo de identificação. Aquele não era um homem fugindo, senhores, era um homem trabalhando! – o detetive concluiu dando uma forte palma no ar com uma expressão satisfeita no rosto.
– Ainda estou perdido... que tipo de trabalho é esse?– Greg perguntou muito confuso e achando que dessa vez Sherlock havia viajado muito nas deduções.
– Eu também estou meio confuso. – Disse John encarando o moreno.
– Oh! Como são lentos! – Sherlock grunhiu passando ambas as mãos no rosto para depois sentenciar. – Serviço secreto! Será que não conseguem ver? Ele era um agente secreto, um espião!
Lestrade e John o encaravam em silêncio abismado, até que o médico resolveu falar.
– Então... o vendedor de livros era um agente secreto e foi morto por que sabia de alguma coisa que não devia?
– Não... – o detetive respondeu pondo-se a andar de um lado para o outro na sala. – algo me diz que ele estava preservando algo.
– Informação? – Lestrade indagou.
– Talvez. – Sherlock respondeu quase num sussurro dando claro sinal de que sua consciência estava deslizando para os corredores do seu palácio metal.
– Tem alguma ideia do que possa ser? – John quis saber.
– Ainda não, mas algo me diz que saber para onde o vendedor de livros foi no dia em que foi morto, nos dará a resposta para essa e outras perguntas.
– Certo, temos um problema então. – Lestrade reclamou exasperado. – Ninguém sabe para onde ele foi e nem de onde trouxeram o corpo no meio da noite.
– Eu já resolvi esse problema. – Sherlock revelou olhando para o inspetor com a expressão de quem comunica que o dia amanheceu.
– Como? – Lestrade arregalou os olhos, impressionado.
John também estava surpreso e olhava para o companheiro num claro incentivo para que desse início ao que o detetive estava ansioso por começar: a explicação de como ele descobriu para onde o falso Sr. Hall foi no dia em que morreu.
– O pólen no tecido da calça e a terra no sapato do morto me contaram onde ele esteve e a temperatura do cadáver me confirmou a localização. – disse caminhando na direção da sua poltrona para acomodar-se nela, pondo as mãos unidas na frente dos lábios.
– Dá para ser mais claro? – o inspetor perguntou tendo a impressão de que tentava embarcar num jatinho em movimento.
– Posso. – Sherlock retrucou parecendo apreciar o momento de apresentar suas deduções. – Eu passei a madrugada examinando e fazendo testes com a terra preta encontrada no sapato e o pólen fixo na calça da vítima. O resultado foi curioso. – disse fazendo uma pausa como se mergulhasse rapidamente em seu palácio mental visualizando alguma coisa.
– Curioso como? – John perguntou forçando o detetive a emergir do seu palácio mental e prosseguir com a explicação.
– Trombeta de anjo! – o moreno respondeu com um riso de canto.
– O quê? – John e Lestrade perguntaram em uníssono não vendo sentido algum na declaração.
– O pólen, era de uma flor conhecida por trombeta de anjo. – o detetive elucidou.
– O quê de tão revelador tem isso? – o inspetor quis saber.
– Tem tudo! – Sherlock respondeu com ar ofendido. – Essa flor é como o lendário canto das sereias, inspetor, a beleza camufla sua capacidade letal. – disse se levantando e pondo-se a andar de um lado para outro na sala.
– Mas vários jardins em Londres devem ter essa planta, ou estou enganado? – Lestrade insistiu tentando ver alguma real possibilidade de que Sherlock realmente pudesse ter descoberto o lugar onde a vítima esteve antes de morrer.
– Está coberto de razão, inspetor, apesar de não ser muito comum, essa planta pode ser encontrada em alguns jardins espalhados pela Inglaterra, mas a coleção de venenos orgânicos compactados na terra preta do sapato do morto, não poderia pertencer a qualquer jardim em toda a Grã Bretanha. – Sherlock finalizou parecendo animado com o seu raciocínio.
– O que você descobriu, Sherlock? – o olhar de curiosidade que John lançava ao detetive parecia querer abrir um buraco no crânio do moreno.
– Descobri que o solo onde o vendedor de livros pisou antes de morrer continha duas dezenas e meia de compostos vegetais venenosos e, onde em toda a Inglaterra, temos reunidas tantas espécies de plantas venenosas abertas à visitação do público?
John e Lestrade pareciam perdidos tentando buscar na memória alguma informação válida para responder aquela pergunta que para Sherlock parecia ser muito simples de responder.
– Ah, por favor, parem de me olhar como se a resposta fosse difícil. – Sherlock reclamou torcendo uma careta. – Estou me referindo ao The Poison Garden na cidade de Alnwick em Northumberland! – respondeu como quem dá o resultado da soma de dois mais dois.
– Eu já ouvi falar... – disse John recobrando alguma lembrança vaga soterrada por baixo de muitos escombros de informação velha. – Não é o famoso jardim venenoso da Condessa Jane Percy? Mas isso fica a quinhentos quilômetros de Londres, como tem tanta certeza de que o vendedor de livros foi para o jardim venenoso?
– A temperatura do corpo, John, ela me deu a certeza. Você é médico, sabe que o corpo humano se mantém funcionando através de mecanismos bioquímicos a uma temperatura de 37 graus C°. Quando ocorre o óbito o processo para e a temperatura do corpo arrefece lentamente. Quando eu examinei o corpo pude constatar que estava a pelo menos 32 graus C°, numa sala onde o termômetro na parede ao lado do relógio apontava 25 Cº, a mesma temperatura que se repetiu em várias cidades britânicas, então, aplicando a equação matemática diferencial, não foi difícil chegar à conclusão de que a morte havia ocorrido há um pouco mais de seis horas, não mais que isso, e quanto tempo alguém leva para chegar à Londres partindo da cidade de Alnwinck? - o detetive indagou arqueando uma sobrancelha.
– Seis horas... – o médico murmurou abismado.
– Exatamente. Então, juntando o tempo do óbito com a combinação de pólen e vegetação venenosa encontradas no cadáver, mais o tempo de viagem de Alnwinck à Londres, o resultado é: o jardim venenoso. – Finalizou o detetive enquanto encarava o médico e o inspetor que o observavam boquiabertos. – Já disse para pararem de me olhar como se isso fosse algo realmente difícil de se descobrir. – o detetive completou piscando rapidamente meia dúzia de vezes.
– Isso foi fantástico. – John murmurou conseguindo perceber um leve arquear no canto dos lábios do detetive consultor.
– Certo, já sabemos para onde o homem foi, devemos ir até lá o mais rápido possível, as evidência da passagem dele pela propriedade estão se perdendo a cada minuto que ficamos parados aqui. – concluiu Lestrade movendo o corpo no sentido da porta. – Você vem? – o inspetor perguntou parando na soleira vendo que o moreno não havia se movido do meio da sala.
– Claro, enquanto você perde tempo com os pontos burocráticos para vistoria no Poison Garden, eu e o John vamos indo na frente, como você mesmo disse, inspetor: "as evidências estão se perdendo". – Sherlock respondeu com a sua melhor expressão de bom moço.
– Não quero saber de você disparando na frente com essa investigação, Sherlock, o caso é da Scotland Yard! – Greg reclamou sabendo que era o mesmo que proibir uma criança de furtar doces do pote sobre a mesa. – Anote meu aviso. – completou apontando o indicador na direção do detetive que permanecia com ar inocente.
– Anotado... – Sherlock respondeu.
– Ótimo. – disse Lestrade saindo do apartamento.
– ...e deletado agora. – o detetive completou estalando os dedos acima da cabeça dramatizando o ato de descartar o aviso.
John sorriu, seu companheiro decididamente conseguia ser tão birrento quanto uma criança proibida de brincar na rua e que pula a janela da sala para desobedecer à proibição, tão logo os adultos dão às costas.
Sherlock moveu-se no sentido da cozinha, catando alguns apetrechos para análises químicas e depois passou direto para o corredor rumo ao quarto, o homem parecia visivelmente animado com a possibilidade de chegar antes da polícia e poder analisar a área antes que a perícia forense da Yard fizesse o que ele costuma chamar de "destruição de evidências".
– Vamos, John! – o moreno falou já dentro do quarto. – Acho que uma muda de roupa é o suficiente, vamos faze uma viagem à Alnwinck e visitar o famoso jardim venenoso. Um pouco de turismo é sempre saudável, mesmo que se esteja passeando entre plantas letais. – finalizou dando-lhe uma piscadela marota e abrindo um riso zombeteiro.
John suspirou meneando a cabeça negativamente e apressou-se a fazer uma pequena mala, não demoraram mais que quinze minutos e ambos já estavam descendo as escadas do 221B. Sherlock terminava de ajustar seu cachecol por baixo da gola do sobretudo, enquanto John , vestido com um grosso casaco terminava de por as luvas. Londres ainda estava entrando no inverno, e as chuvas volumosas não raro davam espaço para flocos de neve ao despencar da temperatura, era bom sair prevenido.
Depois de algumas horas de viagem, o detetive e o médico deram entrada numa pequena pousada próxima ao excêntrico ponto turístico da cidade, jogaram no canto do quarto a reduzida bagagem para uma noite só e rumaram apressados para o local onde o detetive acreditava encontrar a solução para o caso que estava fornecendo adrenalina e diversão para seu cérebro.
Depois de alguns minutos de caminhada, John pôde avistar, despontando majestoso, rodeado por amplos gramados verdes, doces planícies e lagos convidativos, a estrutura imponente do castelo de Alnwick que chamava a atenção por seu suntuoso tamanho e arquitetura medieval viva.
Dentro da vasta propriedade do Castelo de Alnwick, destacava-se feito um buraco no meio de uma folha verde, um enorme portão preto de duas peças, ricamente decorado com réplicas metálicas de trepadeiras e duas caveiras brancas pintadas uma de cada lado do portão, rodeadas com um enfático aviso: "Essas plantas podem matar". Fundado por Jane Percy, a Duquesa de Northumberland, dama fascinada com o poder mortal que algumas plantas possuem, The Poison Garden revelava-se aos visitantes, um amplo complexo de jardins dedicados exclusivamente ao cultivo de plantas letais ao ser humano, lembrando aos apreciadores, que atrás da beleza e perfume de uma florescência, a morte aguarda sorridente e amorosa e que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
O que Sherlock e John não haviam tomado ciência antes é que, durante o inverno e verão, o jardim era fechado ao público, só ficando aberto na primavera e uma parte do outono.
O detetive não se abateu com a informação, remexeu os bolsos e sacou um objeto fino e metálico, o que disparou um sinal de alerta na mente do médico que assistia os movimentos do companheiro.
– Você não está pensando em invadir, está? – John indagou rezando para a resposta ser milagrosamente negativa.
– é claro que estou. – Sherlock respondeu encarando o portão como se o desafiasse.
– Você não pode fazer isso, Sherlock.
– Por que não, John?
– Por conta daquilo ali. – o médico respondeu apontando para pequenas câmeras que faziam o monitoramente da entrada. – Se forçar o portão, não terá tempo para ver muita coisa e ainda iremos perder um bom tempo nos explicando na delegacia local.
– Droga! – o detetive resmungou guardando o objeto metálico no bolso, estava tão ansioso para entrar no local que havia deixado passar o inconveniente da possível presença de monitoramento.
– Eu sei que a ideia não agrada você, mas teremos que aguardar o Greg chegar com a autorização para entrar na propriedade. – John concluiu pondo a mão no ombro do namorado que suspirou chateado.
Os dois afastaram-se do amplo portão de aspecto intimidador. O dia morria com tímidos filetes de sol rasgando as amplas cortinas de nuvem densa no céu. Sherlock caminhava visivelmente emburrado ao lado de John que começou a dedicar os minutos da caminhada de retorno à pousada, para arquitetar maneiras de relaxar o companheiro enquanto aguardavam a chegada de Lestrade no dia seguinte, acreditava que, pelo menos naquele momento, ali, longe quinhentos quilômetros dos problemas de Londres, ninguém iria atrapalhar sua noite de segundas e ardentes intenções com o detetive. Essa dedução deixou o corpo do médico em chamas, Sherlock não lhe escaparia.
Continua...
E então? Estão apreciando o novo mistério? Deixem suas impressões nos comentários, meus amores! Beijos e até sábado!
