O Jogo do Anjo

Capítulo 2

Ar.

Just stay alive.

Os olhos esmeralda mar olhavam para o céu azul por entre as folhas da copa da árvore. As gotas de água começaram a cair uma por uma, lentamente, enquanto luzes brancas rasgavam o céu. Sentiu as gotas de água beijar sua pele branca, escorrendo pelas curvas perfeitas de seu rosto e corpo. O cabelo noite aos poucos, começou a molhar e a se separar em mexas, grudando no vestido preto. Olhou mais uma vez para o céu entre as folhas. Tudo começou a girar lentamente. Os sons á sua volta ficaram abafados. Não como se ela não pudesse ouvi-los, mas como se nunca existissem aqueles sons. Suspirou. O vento agitava com gentileza os cabelos e o pano no mesmo tom escuro, e lentamente ela desapareceu dali. Como se nunca estivesse tido ali.

-x-x-x-

O homem estava sentado na cadeira em frente á janela. O olhar desgastado, a idade se apresentava sem vergonha nos traços marcados sem piedade pelo tempo. A velhice se impregnava e exalava por entre os poros de seu corpo enrugado e asqueroso. Os olhos azuis esbranquiçados sem vida afundavam para fora do vidro da janela imensa que desembocava para a rua. O velho e a cadeira pareciam um só nas penumbras e sombras furadas pelo arrependimento e dor daquele quarto que parecia mais um caixão esperando pelo o seu cadáver proprietário.

E ela estava ali. O cabelo pingando no carpete do quarto, o corpo branco gelado e molhado. A franja pesada lhe caindo no rosto inteiro, e seus olhos carregavam olheiras horrorosas. Ela tremia. A cabeça estava encostada no batente da porta. Seu choro quieto umedecia os olhos de vidro. Ela o olhava carregado de dor. Suspirou. O velho logo notou a presença estranha no cômodo. Levantou os braços e enrijeceu-se na cadeira. Fechou os dedos, deixando apenas dois em uma posição que ela já conhecia. Sua voz de velho saiu ameaçadora, mas não como era em seu tempo de glória. Agora, estava velho e cansado e apenas desejava morrer.

-Quem?Quem é que está aqui? – perguntou desorientado, mexendo as cabeças em todas direções. Ela negou com a cabeça, e fechou os olhos. Uma lágrima imaginária desceu dos olhos e contornou o rosto, chegando à ponta do queixo e caindo. Sua voz sussurrou por entre as luzes do raio.

- Está tudo bem. Está tudo bem.

-Quem...? Quem está aí?! Quem?!

Ela se aproximou perto do pai, á frente dele. Suas mãos se levantaram e seguraram a cabeça do velho entre elas. Ele se debateu e gritou.

-Nã...Não! não me toque! Não, não!

-Está tudo bem. Está tudo bem, acalme-se. O perfume de rosas revelou logo a sua identidade para o velho que jamais esqueceria do perfume sedutor e mortal de uma rosa. Ele nunca se esqueceu.

-Kyoko, é você, Kyoko? Você veio me ver?Ah, Kyoko.

-Está tudo bem. Já... Está tudo bem.

-O que foi? A sua voz.O que aconteceu com a sua voz?

Ela só conseguia repetir a mesma mentira para mantê-lo calmo. Seus dedos ossudos, finos, longos, e com os nós dos dedos saltando em lombadas e unhas grandes tamparam o rosto do pai. Ele se assustou com a temperatura tão fria e a pele tão dura das mãos dela. Isso só um morto tinha. Pressionou suas mãos no rosto dele por poucos segundos, e então deslizou lentamente. Toda a idade que ele possuía havia ido embora. Seus olhos estavam da cor do topázio novamente, seu cabelo curto e escuro como se nunca tivesse ido embora. A pele lisa e jovem novamente. Era como se nunca houvesse nenhuma cicatriz. Lá estava o rosto que ela conhecia.

-Abra os olhos. Olhe-se no espelho.

Obedeceu. Era como se o tempo tivesse parado na sua idade jovial para ele. E então, pouco a pouco, seu corpo de velho caiu de cansaço na cadeira á janela. Ele sorria. Ele sorria serenamente. Milagre. Era o que ele pensava, enquanto a respiração se encurtava a cada segundo e o coração diminuía as batidas dentro do peito a cada passo que ela dava indo embora. E então, todas as paredes, tetos, janelas, portas, cômodos, tudo foi desabando após seus pés tocarem o chão.

Ela se perdeu na chuva, outra vez.

-x-x-x-

Apoiou-me na pia. Os cabelos molhados pingavam e caíam como uma cortina cortada em frente ao meu rosto. As pontas das mexas se desfiavam como fitas ao afundar-se na água de dentro da cuba. A respiração estava curta e acelerada. Os lábios tremiam, as mãos tremiam, o corpo inteiro tremia de frio. A roupa molhada no corpo apenas me mantinha com mais frio. Os olhos lacrimejavam. A dor e a raiva contorciam meu rosto perfeito. A solidão e o nojo distorciam-se em um choro de gritos. O rancor e o ódio grudavam-se em mim e prometia nunca me abandonar. A dor de continuar a viver me encorajava a arrancar minha vida. Gritava e gritava enquanto eu destruía tudo o que minhas mãos podiam encontrar. Encostei em um canto do banheiro. Eu queria desaparecer. Ir para o lugar mais longe. Mas dentro de mim, tudo queimava de um jeito que me fazia cair. Eu quis acabar com tudo ali. Olhei no espelho. Os olhos esmeralda mar. Os lábios de rubi. O cabelo noite. A pele de mármore. Senti nojo. A perfeição de meu rosto contradizia a imperfeição de minha existência. Não havia razão alguma para viver. Desnecessária. Maldita. Inútil. Monstro. Assassina. Desprezível. Sem honra. Desgraça. Filha daquela mulher. Cretina. Culpada. Monstro. Desnecessária. Desnecessária. Desnecessária!

Soquei o espelho. Os cacos de vidro entraram na mão, na lateral do pulso, o líquido vermelho fedendo a ferro começou a tingir a pele pálida. Encostei-me á parede e escorreguei até o chão. A cabeça tocou o chão, os olhos vinham a água da pia vazar para o chão. Levantei a mão machucada. A outra segurou o caco maior que havia entrado e começou a rasgar o que quer que havia no caminho. O liquido vermelho escorria por todo o chão. A água se misturava com o sangue, como se fosse uma pintura mágica. Eu pude sentir a dor. Sentir queimar. Ondas eletrizantes passavam como choque de altas voltagens pelo corpo. Tossi. Tossi por mais algumas vezes. Tudo rodou e toda a minha vida passava em minha mente. A garganta começou a sentir falta de ar, o coração a bater com mais dificuldade enquanto meu sangue fazia um mar vermelho em forma de caminho na água. O som como se nunca estivesse ali. A luz como se fosse um algodão. Apagando-se aos poucos. Um sono quente e confortável me chamava. Eu não quis acordar.

-Arisa? Arisaa?! Você está aí no banheiro? Arisa!- um garoto grande, forte, de olhos de mel a chamava em frente á porta do banheiro. Os dedos já batiam nervosos quando chamou pela enésima vez e não obteve resposta. Podia ouvi-la gritar. Foi até o começo da escada e gritou por ajuda. Voltou até a porta do banheiro. Silêncio. Não podia mais ouvi-la gritando. Arrombou a porta. Gelou. Atirou-se ao lado dela, segurando o braço ferido. Ela estava quieta.

-Alguém! Rápido, ela está sangrando! Alguém, por favor, venha! Chame uma ambulância! Alguém!

-x-x-x-

'-Arisa. Arisa. Você me deixou orgulhoso. Arisa, sinto muito. Eu não queria isso. Arisa, você é a prova, não é? A prova viva de tudo. Arisa, você é a prova de que eu sou necessário, não é? De que eu e sua mãe, por gerar a Primogênita, a Herdeira dos Ben Toph, a Mestra do Vento, eu e sua mãe também somos necessários, não é? Arisa. Arisa. Por que você não foi boa o bastante para que a Kyoko a amasse?Por quê? Arisa. Arisa. Me perdoe,Arisa. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe...Kyoko.'

Eu abri os olhos. Estava tudo borrado. Muita luz. Luz até demais. Respirava pesadamente. Suspirei. O teto era branco. Branco até demais. Uma mão conhecida me evitou levantar.

-Você está bem?- perguntou a voz. Ouvi alguém dizer para outra voz alguma coisa do tipo: 'Sorte que ele chegou a tempo. Senão, seria um desperdício'. O cheiro de luva plástica invadiu minhas narinas, e me incomodou. Eu ouvi o som de algo pingando e olhei para ver o que era: sangue. Ouvi o som da máquina de batimentos cardíacos. Eu ouvi a outra voz de novo. E então eu entendi que eu estava no hospital. Em algum maldito hospital e não debaixo da terra.

-Arisa. -eu ouvi a voz chamar pelo o meu nome. - Arisa. Você está bem?

Neguei com a cabeça.

-Nunca mais faça isso, entendeu? – a voz disse. Séria e amedrontada. Ouvi suspirar. Ouvi o ar de sua respiração se descontrolar. E foi a minha vez de ficar nervosa. A voz suspirou.

-Por quê?- a voz disse. Eu respirei descontrolado, torci os lábios. Senti meus olhos molharem. Virei o rosto para o lado onde a voz não estava. Fechei os olhos. Eu sussurrei.

-Eu não quero acordar.

-x-x-x-

Boa noite.

Aqui está mais um capítulo. Presse cap eu escrevi um novo. Sim, eu não tinha gostado muito daquele e pelo visto, eu também não gostei desse. Um lixo para falar a verdade. Maaas, aqui apresentei a Arisa. Esse cap teve inspiração em uma das cenas de A Passagem(Stay), e como trilha sonora a do filme mesmo. A cena é quando ela vai na casa do pai e devolve a juventude para ele. Na verdade, ela estava entregando a morte para ele, e como ele foi em paz, por achar que era a mãe dela, ele voltou ao que a Arisa conhecia quando ainda era uma criancinha de nada, que era quando a mãe e o pai ainda estavam juntos. No filme, Henry(Ryan Gosling)devolve a visão para o pai, que seria uma analogia com o que se ocorre no filme: que é tudo uma ilusão e também ele se redimindo ao que causou aos pais num acidente de carro. Bom, eu fiz isso sem ter nenhuma ligação, eu acho. Mas foi meu ponto de partida pra que ela tentasse se matar e também uma maneira mais poética de dizer que o pai dela só enxergava a mãe dela, e também, de mostrar a morte dele, hãn, não sei bem dizer, mas não da maneira como estava antes.

Ah sim, eu mudei a cor do cabelo da Arisa, agora é preto.

Beijos!

BenToph.