H.l. hattai

Por: LoneWolf

Tradução: Aryam


Parte 2

Passei o resto da semana seguinte revisando minhas anotações. O que não era fácil de fazer com Heero no quarto. Além da própria distração que ele proporcionava, tinha medo de que ele viesse furtivamente por trás e visse o que eu estava lendo. Isso realmente o irritaria. Mas, pouco a pouco, juntei as datas, estreitei as lacunas e cheguei a uma conclusão que não fazia sentido, mas se encaixava perfeitamente. Não importava o quanto eu tentasse reinterpretar, havia apenas uma conclusão, e era simplesmente muito estranha.

Todo mês, Heero tinha uma missão que não constava em seus relatórios. Aqueles que o conhecem bem sabem que isso é muito estranho. Ele é meticuloso sobre anotar missões. E essas missões caiam sempre nos mesmos dias do mês.

Por quê? Tipo, o que poderia acontecer todo mês para ele precisar se esconder de mim? Eu só conseguia pensar em umaúnicacoisa que acontecia todo mês e tinha bem certeza que Heero não sofria desse problema. Vi seu equipamento masculino vezes o suficiente para saber que mesmo às vezes sua bunda perecendo um pouco com uma de garota, ele definitivamente não é uma garota. Estava mais determinado do que nunca em segui-lo e gastei o resto do mês matutando, planejando e preparando.

Arranjei roupas novas. Todas de cores claras. Sem preto. Bem, não eram exatamente novas, eram velhas e gastas. E sim, aquele tipo de "arranjar". Tem ideia de como roupas usadas podem ser caras quando o país está passando por uma moda retrô? Eu as escondi para que ele não as reconhecesse quando o seguisse. Memorizei o mapa inteiro da cidade para saber quais ruas poderia usar para me esconder e espiar de diferentes direções. Até pratiquei jeitos diferentes de caminhar cogitando poder enganá-lo caso me visse. Oh sim, posso pensar em tudo quando levo alguma coisa a sério – ou alguém, nesse caso. Pergunte a Heero. Até mesmo ele vai admitir que posso criar um belo de um plano para uma missão. Podem não ser tão perfeitos quanto os dele, mas são muito bons. Ei, sobrevivi até hoje, não é?

Então, o mês passou e, bingo, Heero recebeu outra daquelas missões em cima da hora. Fingi estar interessado. Ele me afastou. Sabe como é. Depois que foi embora, rapidamente coloquei minhas roupas de "perseguição", enfiei a trança atrás da camiseta – achava que tinha esquecido, né? – e vesti uma jaqueta jeans azul simples para o volume do cabelo não ser tão óbvio. Um pouco de maquiagem no rosto para parecer sujo. Um pouco mais pra disfarçar a saliência das minhas bochechas. Mais nos braços para completar o efeito. E, voilá! Parecia uma criança abandona que não tomava banho há um mês. Acredite, sei bem como é isso. Quero ver Senhor Soldado Perfeito me pegar dessa vez.

Eu o segui por umas quatro horas enquanto ele passeava sem direção pelas ruas. Duas vezes acho que ele me viu, mas o disfarce e as esquivas funcionaram. O sol ainda tinha mais uma hora quando percebi que estávamos perto do extremo norte da cidade. Uma brisa suave soprou em minhas costas, fria e sussurrando que o outono batia na porta.

Podia adivinhar para onde ele se dirigia. Sim. Eu poderia ter ido direto para os Gundams e esperado, mas odiava esperar e adorava uma boa caça. Era mais do que justo dar a Heero uma chance de me despistar. Além do mais, ele poderia tomar outro rumo. Segui-lo definitivamente era uma melhor escolha.

Parou, inclinando a cabeça para a direita como se estivesse ouvindo algo. Mergulhei em uma porta dois segundos antes de ele se virar, fitar a rua, detendo-se em meu esconderijo. Droga! Ele tinha me visto. Com certeza. Mas como sabia que eu estava aqui? Fui cuidadoso, silencioso – o que era um feito para mim. Inferno, eu estava tão disfarçado que nem mesmo o Deathscythe me reconheceria.

Seu olhar vasculhou a rua, depois para o outro lado. Talvez não tivesse me visto. Sua cabeça parou em seu rastreamento, vi que estava encarando um gato. O gato estava sibilando para ele, espinha arqueada, pelos eriçados, a cauda naquele arco que fazem quando estão realmente muito irritados e prestes a te comer vivo mesmo se você acabou de limpar a caixa de areia, colocar comida e trocar a água. Ele fulminou o bicho com os olhos por alguns segundos e fez uma expressão rabugenta, como se rosnasse, que eu nunca tinha visto antes. Quase como se ele estivesse pensando em comer o gato. O bichano miou alto e correu.

Já sentiu como se estivesse afundado até os joelhos, mas não pudesse parar? Deixe-me levantar a mão nesse ponto. Eu sabia sem sombra de dúvida que o que quer que estivesse acontecendo era muito, muito, muito acima da minha compreensão, mas isso raramente me deteve. E não foi dessa vez. Heero continuou descendo naquele andar deslizante com os calcanhares levantados que faz sua bunda parecer tão bonitinha. Alguns segundos depois, fui atrás dele, tomei a rua paralela e me apressei na direção dos Gundams. Estavam cerca de uma hora a pé da cidade.


Trotei pela floresta, tomando uma rota que eu tinha mapeado para evitar nosso caminho usual. Ei, te falei que poderia planejar uma missão. Para Heero, "missão" geralmente significava "Gundam", e mesmo não tendo certeza que era para onde ele ia, preparei-me mesmo assim. Já era bem difícil segui-lo na cidade mesmo com muitas pessoas, prédios e lugares para se esconder. Como seria em uma estrada aberta com ninguém por perto por quilômetros? Não sou tão burro quanto pareço.

Porém, esqueci uma coisa: comida. Comprei um prato pequeno de yakissoba e uma cerveja de uma barraca de rua enquanto seguia Heero, mas tinha sido apenas um aperitivo e horas atrás. Meu estômago roncava tão alto que pensei que escalaria minha garganta e me comeria. Localizei uma moita de mirtilo* e parei para encher meus dois bolsos da jaqueta, depois comi as frutinhas enquanto andava. Não era exatamente uma refeição balanceada, mas era melhor do que nada, e calou meu estômago por um tempo. Caramba, era bem o que eu precisava. Finalmente em posição para descobrir o mistério do Heero, apenas para ser traído pela minha barriga enfurecida.

Cheguei ao esconderijo antes dele. Entrei no Deathscythe e direcionei as câmeras para o nosso caminho usual. Sentei, esperando e observando.

Não precisei esperar muito – graças a Deus. Heero entrou no meu campo de visão, examinou a clareira, cabeça inclinada para o lado outra vez. Ampliei a imagem. Ele estava... fungando? Estranho. Acionei um dos microfones direcionais para apontar para ele e pude ouvir. Ele estava mesmo fungando. Encarou Deathscythe por um momento, em seguida subiu no Wing e fechou a cabina do piloto. Ajustei as câmeras e os microfones direcionais de novo. Foram captados uns leves barulhos de amarras sendo atadas. Soava um tanto estranho, mas achei que fosse todo aquele Gundanium bagunçando a acústica. Ativei o sistema de rastreamento do robozão, ligando um sinal que plantei em Wing nove meses atrás – apenas no caso de precisar resgatar Heero de uma missão que desse tudo errado – e esperei o Wing dar partida.

Mais três minutos se passaram. Os raios de sol se extinguiam e as luzes das estrelas começavam a se mostrar no leste. Conseguia ouvi-lo respirando rápido lá dentro. Mudei para infravermelho caso tivesse mais para ver do que a armadura do Wing. Não havia. Então o ouvi gritar. Alto em todos os comunicadores. Esperei. Ele gritou novamente. Esperei. Um longo e arrastado grito de pura agonia dessa vez. Cansei de esperar.

Desci de Deathscythe – pulei do peito para o braço e para o chão – e corri para o Wing. Escalar um Gundam inclinado é um pouco mais difícil do que pular de um, mas sou pra lá de ágil e cheguei à porta da cabina em doze segundos. Apertei o botão para abrir. Trancado. Inseri o código de acesso. Ainda trancado. Ativei o controle manual – eu o tinha convencido a me dar, caso ele ficasse machucado demais para abrir a porta. Funcionou.

Como posso descrever o que aconteceu em seguida sem parecer um louco digno de ir para o sanatório? Provavelmente não há como. Vai ter que confiar em mim no que vou contar. O que vi.

Heero estava no fundo da cabina, atrás do assento do piloto, nu, acorrentado no anteparo traseiro com uma das correntes mais pesadas que já vi. Estava presa a uma coleira excessivamente grande em seu pescoço. Ele poderia facilmente tê-la tirado passando pela cabeça. Mais correntes se dependuravam de algemas laterais grandes demais presas em seus pulsos e pés. A visão – e o cheiro – era muito excitante. Algo saído da minha fantasia "manter Heero amarrado para que ele não possa me matar enquanto transamos". Nunca soube que ele curtia essas coisas. "Ei, Heero, quer uma ajuda?" Ora, experimento de tudo pelo menos uma vez.

Ele se virou e me viu. "Duo, não! Saia!" gritou outra vez e vi seu corpo se contorcer. Inicialmente não entendi porque ele estava convulsionando de dor. Não tinha ninguém o tocando. Talvez fosse eletricidade. Pensei que aquilo seria meio perigoso e bem pervertido – talvez demais até pra mim.

Entretanto, percebi que seus cotovelos estavam se empurrando para seus ombros. Suas mãos não estavam certas – muito longas. Pude ver seu peito tomando forma de barril e sua cintura se alargando. Os ossos em seu quadril se moviam, mudando a configuração. Suas costas se entortaram em um ângulo desumano. Cabelos brotavam daquele corpo se tornando ainda mais musculoso. Quando me olhou novamente, vi seu maxilar pelo menos quinze centímetros mais longo.

Lembro-me de ter pensado: definitivamente isso não é uma cena sexy de masoquismo. É, quando a adrenalina começa a fluir pelo corpo gritando "Mate ou morra!", seu cérebro é uma das primeiras coisas a escorrer pelo ralo.

Ele não falou nada quando olhou para mim, apenas rosnou como um tipo de animal, mostrando dentes que com certeza não deveriam estar na boca de um ser humano. Debateu-se contra as correntes, deslizando a coleira pela cabeça, trabalhando seus punhos nas algemas para tirá-las. Tinha se livrado de uma, quando outra convulsão o atingiu e ele urrou de dor – não era um som humano – e voltou-se para o outro pulso, levantando o olhar para mim enquanto o fazia. O brilho em seus olhos. Era mais assustador do que qualquer coisa que eu já tinha visto antes.

Não sobrevivi por quinze anos sem saber a hora certa de correr. Essa era uma dessas horas. Corri. Como sou idiota. Corri para a árvore mais próxima e trepei nela. Também me esqueci de fechar e trancar a cabina.

Mais rosnados e urros vieram do Wing. Cerca de trinta segundos depois, ouvi um uivo e aquilo... Heero... ou o que quer que fosse, saltou do robô e fungou o ar. Aquilo... Ele...aproximou-se da árvore andando de quatro, olhou para cima e, juro, sorriu malignamente e uivou diretamente para mim. Finalmente percebi que estava olhando para um lobo. Um lobo enorme pra caralho do tamanho de uma moto grande. Um lobo grande pra caralho, excitado pra caralho, macho pra caralho do tamanho de uma moto larga pra caralho. Não, não podia ver seu pênis, mas, caramba, eu podia sentir seu cheiro e finalmente entendi o que eram os ingredientes "animal" e "sexy" do perfume natural de Heero.

E, como sempre, sentir seu cheiro me deixou com muito tesão. Pode apostar. Aqui estava eu, seis metros acima em uma árvore, morrendo de medo, com um lobo gigante rondando lá embaixo na expectativa que eu caísse para poder me comer, e eu armei uma barraca nas minhas calças tão dura e tão rápido que doía. Chame-me de tarado, se te faz sentir melhor.

Subi mais uns seis metros na árvore – meio complicado quando suas calças estão estufadas na frente – enquanto aqueles olhos cintilando me encaravam. Não conseguia ver a cor deles na escuridão, mas sabia que era azul prussiano.

Sentou-se ali por duas horas, observando, uivando ocasionalmente para ver se eu caia com o susto, pulando nos galhos mais baixos tentando me assustar, ficando sobre duas patas apoiando-se na árvore e chacoalhando. Isso sim me deu uma boa visão de seu equipamento, e de repente me lembrei de uma passagem que li em um livro de contos de fadas para adultos. "Quem disse que o grande lobo mau come a garotinha?" Pois é. Eu não era o único tarado.

Contudo, ele estava sem sorte. Quando eu encontro um esconderijo, terá mais chance em tirar um polvo teimoso de uma garrafa de vinho sem quebrá-la. Eventualmente, vagueou para um arbusto. Escutei o som de seus passos sumir na distância.

A besteira de escalar a árvore me veio cerca de dez minutos depois de ter olhado para baixo e visto o lobo. Agora, decidi descer e me refugiar no Deathscythe. Imaginei que, seja lá o que Heero tenha se transformado – se era isso mesmo que tinha acontecido –, não podia devorar Gundanium. Eu já estava a uns quatro metros e meio do chão quando ouvi um graveto quebrar abaixo de mim, para a direita. Congelei, analisei os arredores e vi um par de luzes fracas tremeluzirem nas moitas a uns quinze metros de distância. Outra vez. Olhos. Piscando. Escalei de volta. Alguns minutos mais tarde, ele rondou a área e olhou para cima novamente. "Muito esperto para você, seu maldito." Balancei meu punho num gesto de indignação. Latiu para mim. Pude ouvir a risada naquele som. Ele sabia que eu tinha sido sortudo.

Conformei-me em passar uma longa noite naquela árvore, ficando onde estava mesmo quando o vi ir para o sul em um galope firme. Não, não era estúpido o bastante para tentar descer uma segunda vez.


Acordei na manhã seguinte e murmurei "Que sonho mais estranho." Foi aí que notei estar a doze metros acima numa árvore. Merda. Não foi sonho. Heero Yuy era... o quê? Um lobisomem? Que loucura! Olhei em volta cuidadosamente. Sim, sabia muito bem que lobisomens deveriam supostamente voltar à forma humana na luz do dia, mas eles também deveriam supostamente sair na lua cheia, não na crescente – e eles certamente não deveriam ser pilotos Gundam! Inferno, eles nem deveriam existir! Não sabia de que outro modo explicar o que vi. Então me lembrei do mirtilo. Talvez fossem mirtilos alucinógenos. O que explicaria muito, principalmente em um estômago vazio.

A barra estava limpa. Desci da árvore, a explicação das frutinhas ficava mais e mais atraente. Vi as marcas no chão. Modifiquei minha teoria. Houvera mesmo um lobo e eu alucinei, vendo-o maior do que era realmente. Fui até Wing e olhei lá dentro. O que vi esmagou minha teoria do mirtilo. Ali estavam as correntes, nada menos do que feitas de Gundanium, o cheiro, que me excitou outra vez, e as roupas de Heero, dobradas certinhas na cadeira. Sem sangue. Sem corpo. Sem vestígios. Acho que poderia aguentar encontrá-lo morto sabendo que o lobo era apenas um animal que de alguma forma tinha conseguido entrar na cabine enquanto eu corria para a árvore. Oh, deixaria muitas coisas sem resposta, mas geralmente era mais fácil acreditar em uma explicação simples, não muito complexa, do que aceitar a mais difícil que tapa todos os buracos. Trêmulo, saí da cabina do piloto e voltei para o dormitório. Não havia mais nada a fazer a não ser voltar, esperar por ele e rezar que não me matasse antes de eu prometer manter a boca fechada sobre o que vi.

Quando voltei para a cidade, estava faminto. Então vi a manchete do jornal. Três caras saíram de um bar no extremo norte da cidade indo para o apartamento deles e haviam sido despedaçados por um animal selvagem. Eu tinha certa suspeita de que animal selvagem era esse. Comprei o jornal e andei por mais uns noventa metros em um pequeno restaurante 24 horas. Após fazer um grande pedido, abri o jornal e li. Tinha fotos, mas eram da cena depois de ter sido limpa – não que tivesse muito para ser visto. Um especialista em animais não conseguiu classificar as marcas das presas nem as pegadas. O legista ainda tentava descobrir quais partes encaixavam em qual corpo. A polícia disse que quem fez isso – policiais sempre procuram por alguém – tinha brincado com as vítimas antes de matá-los. Encontraram sangue e partes dos corpos por quatro quarteirões. Lembrei do lobo me atormentando enquanto me agarrava à árvore.

Foi tudo culpa minha. Se o tivesse deixado preso na cabine, aqueles caras estariam vivos. Felizmente, o café da manhã ainda não tinha chegado. Teria ficado enjoado se tivesse alguma coisa no estômago para vomitar. Sei que soa estranho. Tinha matado centenas de pessoas até então, mas fiquei perturbado por três desconhecidos voltando para casa de um bar. Era diferente. Eram apenas inocentes espectadores. As pessoas que matava em batalhas eram inimigas. Pelo menos tinham chance de se defender.

Parte de mim sabia que não era bem verdade. A Terra não tinha nada para competir com os Gundams. Devastar um batalhão de Leões com o Deathscythe não era muito diferente do que Heero tinha feito. Era minha culpa. Ele desenvolvera esse ritual de missões secretas e correntes para proteger as pessoas e funcionou por todos esses meses. Pode contar comigo para meter o nariz onde não sou chamado e estragar tudo. Droga. Ele deve estar muito nervoso.

A garçonete retornou com meu pedido cerca de dez minutos depois. Deixei o jornal de lado e me forcei a comer. Senti o estômago um pouco embrulhado, mas estava com muita fome para ignorar comida. Feito isso, larguei o jornal para trás e continuei a caminhada para o dormitório.

Entrei no quarto e... O cheiro... Oh, merda!

E tudo ficou preto.

Falando em preto, preciso dobrar o spandex dele. Sim, claro que lavo as roupas. Ele ainda não aprendeu que não pode jogar cuecas de seda na secadora no ciclo de algodão. Tive que andar pela casa pelado por uma semana antes de ter a chance de comprar algumas mais! ... Heh. Não acha que ele planejou isso, acha?


Recuperei os sentidos, a cabeça dolorida como em uma péssima ressaca. Porém, sabia não ser essa a razão, pois minha boca não estava com gosto como se um bando de cachorros tivessem mijado nela enquanto eu dormia. Vi o céu acima. Definitivamente havia algo errado, e descobri que não podia me mover.

Uma voz soou à minha esquerda. "Não se incomode. Você está amarrado."

Meu cérebro enevoado associou a voz e o perfume. Heero. Meu primeiro pensamento foi: Talvez isso seja mesmo uma tara dele. Pode ser interessante.

Deixe-me esclarecer um detalhe. Sei que deve estar pensando que sou obcecado com toda essa história de amarrar Heero. Na época, eu era mesmo. A maioria das minhas fantasias com Heero requeriam que ele estivesse amarrado para que não me matasse, então era bem presente em minha cabeça. Desde então, descobri que sexo com Heero é melhor sem um monte de parafernálias. O que não quer dizer que não o amarro de vez em quando e o provoco um pouco, antes de fazer amor com ele. Mas é uma provocação gentil, e ele sempre sabe que vai acontecer e me deixa fazer – o homem pode entortar aço, então não acredito que um pedaço fino de pano poderia segurá-lo se não fosse consensual. Claro, ele me deixa fazer porque confia em mim e mostrar isso o faz sentir um prazer que é ainda melhor do que sexo. Aprecio muito essa confiança. Acho que ele aprecia minha confiança também porque sempre me paga com a mesma moeda alguns dias depois.

Hm. De volta na clareira.

Virei a cabeça. Foi uma má ideia. Quando parou de doer o suficiente para poder focar a visão, eu o vi agachado ali me observando com olhos selvagens – o mesmo olhar da noite passada quando rosnou para mim. Ainda estava muito zonzo para ficar com medo. "Que diabos está fazendo?" surtei. Percebi estar deitado em um saco de dormir.

"Esperando."

Às vezes queria mesmo matá-lo. Ele entende tantas coisas literalmente, ou finge que entende. Acho que sempre sabe o que quero dizer, apenas simula que não para ver minha reação. Tipo eu agindo como um bobo e o provocando.

Minha cabeça doía. Estava atordoado. Um pouco. "O que diabos está esperando?" É, eu estava de mau-humor antes de entrar naquele quarto. Acordar amarrado, com a cabeça palpitando por ter sido golpeada pela pessoa que você quer que te coma mais do que tudo no mundo, que está agindo como idiota e o deixando louco de tesão por causa do cheiro dele – e porque ele está agachado com a virilha a centímetros do meu rosto e duro como uma pedra... e eu podendo ver quase tudo pelo spandex justíssimo. Isso não vai melhorar sua atitude.

"A noite. Então o lobo vai te caçar e te matar." Ele disse isso no mesmo tom de voz que diz "iie", e significava que era melhor mesmo desistir, porque com toda certeza do universo eu não conseguiria fazê-lo mudar de ideia.

Vários pedaços de eventos recentes se encaixaram assustadoramente a essa altura, e entendi o que ele faria. Era pavoroso, pois mesmo com todas as vezes que encarei a morte, foi apenas por um instante, então se acabava – ou era distraído pela batalha a minha volta. Nunca tive muito tempo de pensar nela. Agora, não podia fazer nada além de deitar ali e olhar para Heero, minha Morte Particular, que me mataria de um modo bem desagradável. Sabia que o lobo estaria bravo comigo por ter zombado dele – e ter escapado – e levaria a noite toda pra completar o serviço. Ao menos as pessoas da cidade estariam seguras. Minha cabeça de repente parou de doer. Era algo muito trivial para lidar. Meu cérebro apenas desligou esse assunto.

"Por que não me dá um tiro logo? Seria bem mais fácil e não me faria sofrer tanto." Ei, nunca vai me ouvir insistir em tomar o caminho mais difícil. Ele poderia se trancar no Wing outra vez. Estava bem conformado que morreria de um jeito ou de outro a não ser que ele repentinamente mudasse de ideia. Não achava que isso aconteceria.

Desviou o olhar de mim. "Tentei," murmurou. "Não consigo te matar."

Sim, murmurou. Heero Yuy nunca murmura. Isso me chamou a atenção.

Fiquei de boca fechada e refleti sobre o que acontecia. É, sei que isso te surpreende, mas quando se está de frente a uma morte asquerosa e certa, você desacelera e começa a notar detalhes que poderiam apenas possivelmente te dar uma ínfima chance de salvar sua vida.

Olhei para o céu e supus que faltava cerca de vinte minutos para o pôr do sol. Tinha que fazer algo rápido, mas tinha de ser certeiro também. Um minuto elaborando uma estratégia seria um minuto bem gasto. As cordas estavam apertadas. Não tinha nenhuma esperança de me livrar delas, especialmente com ele tão perto me observando. Portanto, tinha que fazê-lo removê-las. Se conseguisse chegar ao Deathscythe estaria a salvo essa noite. O amanhã podia esperar se eu sobrevivesse até lá. Agora, como convencê-lo a me desamarrar?

Notei que ele olhava para a minha virilha. Sim, mesmo deitado ali contemplando meu fim iminente, a visão e a essência dele me deixaram duro e pingando. O que posso dizer? Eu o desejo tanto quanto o aishiteru. Minha calça era clara – lembre-se que eu estava disfarçado –, então sabia que as manchas molhadas seriam visíveis.

Isso me lembrou de quando ele disse que a revista não fazia o seu tipo "também". Então pensei no que ele acabou de dizer e soube a pergunta que realmente queria fazer. Por que não podia me matar? Precisava saber da resposta antes de perguntar. Por que seria diferente se o lobo me matasse? Parte de mim gritava que aquela coisa toda de lobo era insana, mas como se argumenta com alguém que mais ou menos admite se transformar em lobo quando escurecer? Por que não podia me matar?

Ele olhava para o meu rosto de novo como se ponderando por que eu estava quieto, e vi. Oh Deus, consigo ser tão estúpido às vezes.

Acho que era porque, naquele momento, eu estava num estado devagar de observação. Quantas vezes será que vi antes e não reconheci por que minha mente corria a quilômetros por hora? Agora sabia como conseguir convencê-lo a me desamarrar. Sabia agora que poderia ter uma chance de me libertar. Uma estratégia maluca se formou em minha cabeça. Poderia me deixar vivo. Não tinha certeza se era possível, mas era minha melhor escolha. Talvez não morresse sendo perseguido por um maldito lobo como se fosse brinquedinho para cachorro. Se ele mordesse a isca...

"Faça amor comigo."

Whoo-hoo! Já viu Heero Yuy boquiaberto e de olhos arregalados? Queria tanto cair na gargalhada! Não posso expressar o quanto queria rir. Porém, não podia parar agora. Ganhei sua atenção e tinha que ser sincero, o que significava ter de revelar tudo completamente, sem enrolação. "Você me deixa excitado desde quando te conheci, Heero. Se vai me matar, pelo menos me dê uma transa gostosa com o cara por quem tenho me masturbado o ano todo." Pro inferno, não dava a mínima para o que ele pensasse de mim. Era verdade. E tinha visto aquela olhada momentânea que ele me cobiçava sexualmente – e talvez mais que isso. Pensei ter visto o que realmente queria dele. E se eu estivesse certo, era o porquê de não poder me matar.

"Não temos tempo. Seria..."

Sim! Eu estava certo! Obrigado Senhor! Heero Yuy quer me traçar! "Cala a boca, Heero. Me desamarre, tire a roupa e me coma. Que diferença faz se eu morrer correndo ou com você metendo na minha bunda?" Ele não conseguia esconder agora. Ele estava mais quente que manteiga na frigideira – só por mim. "Vou garantir que você aproveite." Ah sim. Ele sabia que eu não mentia. E também sabia de minha infância desperdiçada em L2. Sabia porque mandei para ele informações anônimas esperando que ele perguntasse. Nem todos os meus planos funcionavam, sabe como é. "Me desamarre." Eu o tinha na mão. Via a voracidade em seus olhos. Era mais libido do que amor, mas não me importava no momento. Queria que ele me fodesse, e eu tinha a esperança de uma chance de fuga antes de ele tentar me matar em seguida.

Tirou uma faca de seu spandex. Nunca descobri como ele mantém tanta coisa ali dentro. Estava nervoso quando ele apontou a faca para meu peito, será que me mataria afinal de contas? Ao invés disso, cortou as cordas que atavam meus braços e minhas pernas. Suspirei aliviado. Fui ajudado a me levantar. Comecei chutando meus sapatos e a desafivelar o cinto.

"Eep." Senti o fio da faca contra minha pele e ouvi o som de rasgo enquanto ele retalhava a frente da minha camisa. Uma minúscula linha de sangue marcou sua passagem. Mal rasgou a pele, mas me assustou. Ele ainda tinha aquele olhar selvagem por baixo do desejo nos olhos. "Ahm, pode deixar que eu tiro."

Em resposta, balançou a cabeça. "Iie". Ajoelhou-se fatiando lentamente a parte interna de uma perna das minhas calças, sem me cortar dessa vez. Parou para lamber o sangue na minha barriga, em seguida passou a lâmina pela outra perna.

Nunca tinha feito nada sexual envolvendo facas, mas o toque da ponta afiada contra a pele da minha coxa foi como o fogo que sinto quando ele morde meu mamilo enquanto fazemos amor e me manda aquelas maravilhosas ondas de prazer incendiando por todo o corpo. Sua língua era quente e molhada na minha barriga e peito enquanto ele limpava a linha de líquido vermelho que tinha feito. Causava-me arrepios. Eu estava com tanto tesão que faria quase qualquer coisa se ele simplesmente me fodesse, antes de me matar.

Deslizou a faca pelo cós da calça e para minha cueca. Estava tão excitado que nem ao menos exclamei "eep" ao sentir o metal frio e duro contra minha pele quente e dura. Segurou-a ali por um momento olhando em meus olhos, então puxou-a para frente e para baixo, cortando o tecido da calça e da roupa de baixo. O resto do meu jeans caiu no chão e a frente da minha cueca estava aberta da cintura até a costura da virilha, deixando meu membro balançando na frente dele. Ele olhou para baixo e o vi sorrir quando pegou meus testículos para tirá-los do caminho e deslizou a faca de volta, passando-a pela minha bunda agora, a parte sem corte da faca esfregando contra minha entrada, então continuou a rasgar. As duas partes da minha cueca caíram aos meus pés.

Todo o processo levou menos de um minuto, e foi a melhor preliminar que já tive até então. Encarei-o impressionado, desejando-o. Coração batendo forte. Ofegando. Suor transbordando, exalando o odor da minha própria libido. Membro pulsante e molhado. Ele deu um leve sorriso malicioso quando viu a expressão chocada e de pura excitação no meu rosto, então me puxou para ele e me cheirou, pressionando-se contra mim. Pude sentir seu próprio membro pulsando na spandex quando o fez. Aparentemente o odor do meu desejo o excitava.

Eu o agarrei e puxei sua camisa, empurrando-a para cima. Ele guardou a faca e deixou-a cair no chão, para levantar os braços, me deixando tirar sua roupa. Comecei a puxar com força seu short para baixo, enquanto ele tirava os sapatos. "Você sabe alguma coisa do que estamos prestes a fazer?" Eu disse que faria quase qualquer coisa para fazê-lo me comer. Bem, essa era uma das coisas que eu não faria. Não gosto de ser arreganhado à força.

"Li livros."

"Merda, Heero. Livros são inúteis. Você já comeu a bunda de alguém antes?"

"Iie."

A spandex saiu e ele sapateou fora dela. Apanhei a faca e a empunhei. Meu pulso foi agarrado. "Quero cortar essa maldita cueca," falei ansioso. Ele cncordou e me soltou. Fiquei bem na sua frente, nossos corpos se tocando de coxa ao peitoral, e inclinei por um beijo, forçando meu caminho em sua boca. Isso o interessou. O cheiro era arrebatador. Se não estivesse tão quente por ele, diria que ele fedia a sexo. Mas eu estava, e isso me deixava fervendo. Podia sentir sua dureza contra mim e deslizei a faca em sua roupa de baixo, então me afastei um pouco e cortei o tecido com duas puxadas rápidas, movendo-me para frente outra vez para pegar a cueca por trás e arrancá-la. Agarrei a nádega que queria segurar a tanto tempo e apertei os músculos duros que via, mas nunca tinha tocado. Era ainda melhor do que imaginava.

Seu pênis encostava-se a mim, duro e flamejante, e eu olhei. Estava na média, talvez um pouquinho maior que a média geral. Fiquei decepcionado. Sempre parecera maior quando o via nu no quarto. Descobri o porquê mais tarde. Em retrospecto, tenho que salientar que é o tamanho perfeito para mim – não longo demais que me machuque se ele enfiar até as bolas, não pequeno demais que não me satisfaça, não tão grosso que me arrebente, não tão fino que não me preencha. Perfeito, como o resto de seu corpo.

"Não temos muito tempo," falei soltando-o. "Deite no saco de dormir."

"Iie." O tom frio, definitivo, nem-aqui-nem-na-China.

Essa foi uma vez que rompi o "iie": "É o meutraseiro que está em jogo e você não sabe o que está fazendo! Ou eu fico por cima ou você não ganha nada." Talvez essa afirmação tenha sido bem ousada de minha parte. Quero dizer, ele estava morrendo de tesão e não tinha dúvida que iria transar comigo. Se ele quisesse, era forte o suficiente para me jogar no chão e me estuprar em qualquer posição que escolhesse – e eu não poderia fazer nada para impedi-lo; mas estava contando com aquela coisa que pensei ter visto nele para fazê-lo cooperar. Ele parecia incerto, então adocei mais a oferta. "Além do mais, posso fazer a trepada ficar melhor para nós dois se eu estiver por cima de você."

Enfim assentiu com a cabeça e deitou olhando para mim. Ajoelhei em cima dele, alcancei meu esconderijo secreto no saco de dormir e tirei um lubrificante que sempre mantinha por conveniência. Nunca se sabe quando vai precisar, ainda mais quando está tentando levar seu colega de quarto para acampar junto só para conseguir abrir suas calças. Passei o gel nos dedos dele. Ele fungou e levou à boca para experimentar. Agarrei sua mão.

"Heero! Você é mesmo um completo virgem, não é?" ri. Minha última transa seria a primeira de Heero. Que irônico. Expliquei a física da situação para ele, mostrei como me alargar e me lubrificar. Ele aprende rápido e eu alargo rápido. Ambos eram coisas boas. A luz do dia se enfraquecia. Trabalhei nele apenas o suficiente para deixá-lo escorregadio. Não queria que ele explodisse antes de ficar dentro de mim, onde eu poderia controlá-lo melhor. Apressamo-nos, mas cuidadosamente.

Esqueci muitos detalhes daquela primeira transa rápida e frenética que pensei ser minha última. Lembro planejar cavalgá-lo por cinco minutos, fazê-lo gozar, e aí disparar para o Deathscythe. Mas saber que era ele dentro de mim fez ser tão bom! Queria aquilo há muito tempo para me precipitar agora, e aprumei meus velhos truques de audição e de sentidos para pressentir em qual ponto do ciclo da transa ele estava para poder retardar. Também vagamente lembro que ele fez todo o tipo de sons estranhos. Talvez não fosse surpreendente. Oh sim, aprendi cada um desses sons desde então.

Porém, lembro precisamente dos detalhes do momento que ele gozou. Sabia que ele estava perto, e eu ficando cansado e um pouco fora de controle. Ao tentar uma última estocada me impulsionando para cima, fiquei preso. Confie em mim, não há nada que vai te assustar mais do que quando se está tomando na bunda e, de repente, fica entalado na base do pênis do seu amante, e senti-lo crescer notavelmente dentro de você quando não se está esperando. E quando se está assustado, adivinha o que acontece com o seu ânus. É isso aí, ele fecha como se não houvesse amanhã. Gritei, em pânico, tentando me soltar dele. Ele urrou, tanto por estar gozando quando por eu estar apertando o membro dele tão forte.

Meu instinto natural de autopreservação tomou as rédeas quando senti o que estava acontecendo dentro de mim e percebi que apenas aquela parte da base do membro de Heero tinha inchado – um nó nos atando juntos. Se eu tentasse forçá-lo para fora, provavelmente rasgaria meu ânus inteiro na barganha. Eu estava preso, sem caminho fácil para escapar antes de ele desinchar. Parei de me debater. Depois me lembrei de quando vi dois cachorros mandando ver e a mesma coisa aconteceu. Droga, pensei, ele é parte lobo! Agora que entendia, era uma sensação muito gostosa, pressionando bem nos lugares certos. E ele ainda estava todo duro dentro de mim, quando a maioria dos caras já estariam amolecendo. Era como um sonho se tornando realidade!

Notei que estava escuro. Talvez fosse o início de sua transformação. Meu sonho foi tomado por um quê de pesadelo: ligado a ele, ouvindo-o arfar, esperando sentir o lobo se transformando bem embaixo de mim. Mais ou menos depois de cinco minutos, ele falou: "Caramba, Duo. Isso foi incrível".

"É. Mas, hum, estou preso."

Ele riu suavemente. "Sempre me perguntei para que servia isso." Ele viu minha expressão confusa mesmo no escuro. "Você acha que nunca me masturbei pensando em você também? Você é lindo e está sempre excitado, e posso sentir o seu cheiro de excitação, o que me deixa excitado também." Ficou em silêncio por um tempo. Acho que decidia se falaria ou não o que disse a seguir: "E não tenho muita escolha entre garotas e garotos. Não quero me reproduzir".

Senti-o ficar tenso por baixo de minhas pernas, mexendo-se levemente. Ah cara! Aquilo agitou meus nervos de um jeito que quase me fez gozar. "Duo, está escuro."

"É. Eu sei. Tenho esperança de conseguir sair de você e escapar para o Deathscythe antes que você vire aquele lobo." Não via sentido em enganá-lo sobre minhas intenções. Se ele não quisesse que acontecesse, tinha certeza que poderia me parar se lhe confessasse ou não. "Morrer entalado no pau de um lobo seria quase tão ruim quanto ser caçado por um." Por outro lado, se fosse uma sensação parecida como essa, seria interessante. Inferno, todo mundo sabe que experimento de tudo pelo menos uma vez. Talvez pudesse manter o lobo ocupado, longe da cidade, e diverti-lo o suficiente para que me deixasse vivo? É incrível as coisas que se considera a fazer quando se está mesmo desesperado.

"Eu já deveria ter me transformado."

A afirmação levou um minuto para ser absorvida. "Tem certeza que é a noite certa? Tipo, lobisomens deveriam sair quando é lua cheia, né?"

"Não sou lobisomem." Retrucou com aquela voz fria, típica de Heero Yuy, como se fosse óbvio, avisando que eu andava em gelo fino.

Foda-se. "Então o que diabos você é?" Quero dizer, do que mais chamaria um cara que se transforma em lobo?

"Os doutores..." ele rangeu os dentes ao falar. Não morre de amores pelos velhotes. "...me chamaram de Homo lúpus hattai."

Continuei o encarando inexpressivamente. Não podia vê-lo, mas percebi que ele podia me ver.

"Se quisesse transformar um garoto no soldado perfeito, que modificações faria? Talvez deixá-lo mais forte, mais robusto, mais resistente, melhor audição..."

"Se regenera como se não fosse nada. Consegue ver no escuro. E quem sabe escala prédios sem escada?"

"Aa. E mais. Como faria isso?"

Fiquei quieto novamente, refletindo. Fiquei distraído ao perceber que ele aindaestava dentro de mim e ainda duro. Era gostoso. Sempre odiei amantes que chegavam ao orgasmo e saiam imediatamente. Pelo jeito, tinha encontrado um que não só não faria isso, mas não poderia mesmo se quisesse. Tudo o que eu precisava era me certificar de que ele não se transformasse em um grande lobo mau e me comesse, literalmente. "Manipulação genética?" Enquanto ele estivesse falando, sabia que estaria a salvo.

"Aa. Mais para reconstrução completa. Usaram Canis lúpus hattai porque apelava para o perverso senso de humor deles."

"Como assim?"

"É uma espécie de lobo que costumava viver em Hokkaido. Pensaram que seria apropriado para o garoto-lobo japonês que criavam." Heero fez uma careta. "Adicionaram um pouco de jaguar para velocidade e flexibilidade..."

"E bode para libido?" ri. "Sabia que o seu cheiro me excita muito?"

"Duo, é sério."

"Eu sei. Desculpa. Sentir seu cheiro me deixa com tanto tesão – o tempo todo."

"Malditos feromônios. São o que fazem você me querer. E então eu sinto seu cheiro e fico excitado, o que piora os feromônios aí você fica mais excitado, o que o faz sentir ainda mais o meu cheiro e–"

"Eles podem fazer parte da razão de eu te desejar." Acho que Heero foi interrompido por alguém assim antes. Certamente não para dizer que ele não sabia do que estava falando. "Mas eles não são o que me fazem te querer."

O que também explicava o porquê eu esperar que ele fosse maior. Ele deveria estar sempre semiduro, quando o via nu no quarto. Mas, como disse, aquela parte dele é perfeita e eu não mudaria absolutamente nada. Já tinha me decidido quanto a isso. Não, não levei muito tempo para chegar nessa conclusão. Tive experiências o bastante para saber exatamente do que eu gostava.

Ele ficou calado um momento. Sabia que estava me encarando e desejei poder ver seu rosto para interpretar o que estava pensando. Será que ele entendeu o que quis dizer? "Eles não reconheceram o problemas dos feromônios e, se tivessem, teria sido um efeito colateral mínimo na escala." Suspirou. "Eles estavam preocupados com apenas uma coisa."

"Você vira um lobo gigante assassino todo mês."

"Aa. Agora. Passei seis semanas como lobo antes que descobrissem como me transformar de volta, e depois por mais oito meses, eu transformava todos os dias pelo menos por algumas horas. Finalmente corrigiram o suficiente a sequência que tinham ferrado, e diminuiu para três noites, mas nunca conseguiram se livrar do efeito. Eles não estavam dispostos a me deixarem normal de novo. Ou não eram capazes. Acho que não sabiam bem o que tinham feito. Era apenas um experimento e..."

"A melhor transa que já tive." Não queria escutá-lo se menosprezando. "Deveria ficar orgulhoso." Eu o aishiteru. "Muito orgulhoso, considerando que foi sua primeira vez." Era melhor ele se acostumar em ser interrompido quando começasse a falar mal de si mesmo. "Então... você deveria ser um lobo agora." Olhei para ele – onde sabia que seu rosto estaria, e sorri. Podia sentir que ainda estava duro dentro de mim, e rebolei um pouco, movendo-me nele. "Por que não está?" Ele grunhiu e senti uma pulsação. Ele parecia gostar disso. Balancei um pouco mais. Ele estava muito, muito gostoso dentro de mim.

"Hnnh. Seu malvado." Ele agarrou meu membro e brincou com ele como eu esperava que fizesse. Eu, eu ainda estava duro também, apenas não tinha gozado ainda.

Ri. "Talvez seja isso. Ah, que delícia... Talvez não possa mudar quando está preso em mim."

"Espero que seja mais que isso. Aaaa. Vou desinchar em alguns minutos."

Juntou a mão livre com a outra e ficou sério com o serviço, então entende-se porque levei alguns segundos para registrar que ele dizia que não me mataria se pudesse evitar. Eu proporcionava pelo menos uma transa boa suficiente para que me quisesse por perto pra uma segunda rodada. Era o que eu tinha esperança no mínimo. "Eu também. Sabe como é difícil encontrar um cara que fica dentro de você – ooohhh, simmmm, assim mesmo! – por mais que – mmm! – sessenta segundos depois que goza?" Esperava por mais que o mínimo. Queria mais que apenas seu desejo sexual.

Ele riu, depois inspirou profundamente quando apertei minha passagem à sua volta, enquanto suas mãos atingiam seu objetivo. Gritei em êxtase. Não precisava, na verdade. Poderia gozar silenciosamente se quisesse. Alguns clientes exigiam isso. Mas eu queria que Heero soubesse o quanto tinha feito um bom trabalho comigo – de novo.

Cerca de cinco minutos depois, senti-o encolhendo e inclinando-se levemente. Grunhi e ofeguei quando ele saiu de mim, ainda um pouco inchado no nó. Deitei em seu peito, sem me importar em estar deitado nos lugares molhados que eu mesmo fiz ali, notando que mesmo com o alargamento prévio em meu ânus, eu não estava vazando. Acho que esse é o sentido do nó do lobo inchar.

"Se você correr, pode chegar no Deathscythe antes que me transforme." Eu estava certo. Ele não queria me matar se tivesse escolha.

"Sabe como seria ridículo eu tentando correr depois de ter essa bola de baseball na bunda por vinte minutos? Prefiro ficar aqui e morrer em seus braços." Tinha a sensação – apenas um desses palpites estranhos que tenho às vezes – que não aconteceria assim. Ele deveria ter se transformado em um lobo muito antes, e pensei saber o porquê de ele ainda permanecer humano. E não tinha certeza se conseguia sequer me levantar naquele momento, quanto mais correr. "Acabei de ganhar uma das duas coisas que mais queria nessa vida." Era verdade. Só havia mais uma coisa que queria mais e...

"Qual é a outra?" perguntou.

E eu não podia contar ou não tinha certeza. Apenas continuei naquela posição, escutando o percurso do seu sangue e sua respiração. Esperando para senti-lo se contorcer e se deformar embaixo de mim, torcendo para que não acontecesse, e o cheirando, sentindo o despertar que me causava, mas não tão forte como geralmente. Acho que não era inesperado já que tinha acabado de ter o melhor sexo até então – o bastante para satisfazer mesmo um tarado como eu por algumas horas.

O que era surpreendente foi que acabei dormindo.


Acordei, ainda deitado nele. Estava vivo. Ele ainda era humano. "Quanto tempo?" sabia que tinha se passado bastante.

"Quase amanhecendo." A noite inteira. Ele não iria se transformar. Levantei a cabeça e consegui ver um pouco de seu rosto na luz fraca. Tinha uma sugestão de surpresa ali.

"Tem certeza...?"

"Tenho, droga!" falou irritado. "Sei como funciona. Devia ter me transformado."

Às vezes sei quando parar de pressionar certo botão. Sabia que ele estava certo. Caramba, por que duvidaria dele? Mas então por que não tinha mudado? Era importante saber, não apenas para me manter vivo, mas porque ele precisava saber como isso funcionava. Se pudesse controlar... Lembrei-me de minha especulação anterior. "Teve apenas uma coisa de diferente dessa vez, não teve?" falei deitando minha cabeça em seu peito outra vez, ouvindo seu coração acelerar algumas batidas para depois voltar ao normal.

Ficou quieto por um momento. Senti sua mão acariciando meus ombros e descendo pelas minhas costas. Acho que ele andou pensando nas razões a noite inteira, mas não tinha associado o que parecia óbvio para mim. "Sim. Mas como–"

"Sexo é algo poderoso. Talvez seu problema seja que precise cruzar de vez em quando." Sorri. "Eu ficaria pra lá de feliz em te ajudar com isso."

"Isso vem acontecendo comigo antes de eu ter idade para me interessar em sexo."

Ri. "Heero, crianças de quatro anos são interessadas em sexo, só não sabem o que é. Com seis anos, meninos têm ereções enquanto dormem." Ele pode ser tão ingênuo com a realidade. "Se conseguir me dar uma explicação melhor, eu engulo, mas acho que é porque eu tenho uma bunda maravilhosa, tá?"

Sua mão deslizou para baixo e apertou minha bunda maravilhosa. "Você tem uma bunda maravilhosa, mas não que eu tenha com quem comparar."

"Eu tenho. Confie em mim." Levantei a cabeça novamente e dei a ele meu melhor sorriso sedutor e voz provocante. "Quer acampar de novo essa noite?"

"É muito arriscado." Ele franziu o cenho. "Não quero te machucar."

Eu estava esperando por isso e dei o bote. "Por quê?" sabia que era agora ou nunca. Olhei para ele e não o deixaria desviar o olhar.

Finalmente, ele falou. Acho que estava apenas com medo. Mas Deus sabe como minha expressão não escondia o que queria. "Aishiteru. E tenho por um longo tempo. É por isso que não te matei na primeira vez que me seguiu."

Isso! Sabia! "Ou na segunda. E provavelmente foi por isso que pisou naquele galho quando se escondia nos arbustos." Sorri largamente pra ele. "A propósito, essa era a coisa que eu mais queria. Você acabou de me fazer uma pessoa muito feliz." Puxei-o para mim e o beijei, deslizando minha língua entre seus lábios. A dele passou pela abertura sem hesitar, entrando em minha boca, e ponderei se os açougueiros de genes tinham deixado cair um pouco de cobra em algum lugar na sequência do seu DNA. Ele encontrou lugares na minha boca que nem sabia existirem. Alguns minutos se passaram antes de clamar minha língua de volta e poder falar. "Vou arriscar com você, garoto-lobo. Pelo menos não vai ter que se preocupar comigo parindo um bando de filhotinhos."

Olhou para mim e sorriu. "Então acha que está disposto?"

"Só três noites por mês? Pode apostar. Posso ter a sua bunda o resto do mês todinho!"

"Hn."

"Falando nisso, estou com tesão outra vez."

"Veremos sobre isso."


Nós "vimos". Como sempre sonhei, a bunda de Heero era tão suculenta quanto parecia. Dessa vez, fomos mais devagar para que eu pudesse ensinar-lhe alguns truques.

E quanto a quem traçaria quem e quantas vezes, eu não era nem um pouco exigente, e mesmo se fosse, gosto de ser penetrado bem mais do que apenas três vezes no mês. Após a primeira noite com ele, eu estava arruinado pra qualquer outra pessoa. Não há nada como...

Oops. Tenho que ir de novo. Ele está me chamando. O pôr do sol é daqui a duas horas. Gostamos de passar um bom tempo nas preliminares.

Ei, é o que eu disse. Eu o aishiteru e o desejo. Igualmente. É sempre a melhor combinação.


FIM.


*Mirtilo (blueberry)= frutinha que parece uma pequena jabuticaba, de coloração azul arroxeado escuro e crescem em arbustos (com gosto um pouco amargo).


Comentários finais da Autora:

Isso começou com o notório Um lobisomem americano em... – inclinando mais para "Londres" do que "Paris" (N/T: a autora se refere a dois filmes = An American Werewolf in London, 1981, e An American Werewolf in Paris, 1997).

Quando pensei sobre isso, percebi que um lobisomem japonês faria mais sentido, porque Heero exibe várias características de licantropia. O Canis lúpus hattai era a maior de duas subespécies de lobo que viviam no Japão lá por 1904.

Agora o C. l. hodophylax está completamente extinto e o C. l. hattai não é mais encontrado no Japão. Finalmente, lobos de verdade não são como a forma de lobo do Heero. Eles tipicamente evitam os humanos (isto é: fogem), a não ser que estejam infectados com raiva canina. Mas a forma de lobo do Heero não é exatamente normal, não é mesmo?