Capítulo 2
O presente
James Potter já estivera no Beco Diagonal muitas vezes. Sua mãe, Dorea, sempre o levava junto com ela quando precisava de algum artefato mágico para a casa. Fora com Charlus — seu pai e seu herói — em muitas ocasiões também, uma delas no seu aniversário de sete anos para comprar uma vassoura de verdade, o último modelo da época. Ele voava maravilhosamente bem desde então, praticando no quintal de sua casa com bolas de borracha e aros improvisados. Era um garoto travesso e alegre, amado e mimado desde o momento em que chegara do Hospital St. Mungos, embrulhado num coberto azul, enrugado e do tamanho de uma baguete. Toda sua infância estava documentada em fotografias que se moviam, expostas orgulhosamente na sala de estar. Muito popular no bairro, liderava uma turma de garotos barulhentos, não fazendo distinção alguma entre bruxos e trouxas.
Quando atravessaram a passagem do Caldeirão Furado na semana anterior ao início de suas aulas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, porém, o pequeno James sentiu como se nunca houvesse ido ao Beco Diagonal. Um sentimento inominável que vinha crescendo dentro do seu peito desde que recebera a carta anunciando sua admissão, pareceu explodir quando ele contemplou a rua torta de paralelepípedos, entulhada de lojas mágicas e bruxos de aparência formidável, usando belas vestes farfalhantes.
— Bem — disse sua mãe num tom energético, tirando a lista de material da bolsa — Onde você quer ir primeiro, meu querido?
— Olivaras — ele disse sem rodeios. Dorea sorriu, melancólica. Seu bebê estava crescendo.
A compra dos materiais de Hogwarts durou um dia inteiro. No final da tarde, mãe e filho estavam sentados debaixo de um guarda-sol da Sorveteria Florean Fortescue. O garoto devorava um imenso sundae de muitos sabores, com calda de chocolate e nozes moídas, e a senhora Potter lia O Seminário das Bruxas e bebericava uma bebida com muito gelo e um guardachuvinha colorido espetado num pedaço de fruta. Aos seus pés, havia muitas sacolas cheias de livros, ingredientes de poções, dois caldeirões (por precaução), uma gaiola com uma coruja de penas amarronzadas e profundamente adormecida e duas sacas com vestes novas. Em cima da mesa, bem a vista de James, estava um pacote fino e comprido contento sua novíssima varinha. 28 centímetros, mogno, elástica, cerne de corda de coração de dragão.
O rapaz só desviou os olhos da varinha para observar furtivamente a mãe, registrando as rugas em seu rosto e as mechas brancas no seu cabelo preto. Ela era mais velha do que as mães de seus amigos, James sabia, mas nunca se importara com isso até então. A iminência de sua partida para Hogwarts e as visitas cada vez mais constantes dela aos curandeiros, porém, lhe despertavam um estranho sentimento de falta de tempo. Chacoalhou a cabeça para afastar isso da mente, então enfiou uma colher especialmente grande de sorvete na boca e voltou a admirar a varinha. As magias que faria com ela! Estava tão concentrado nas possibilidades infinitas que aquele pedacinho de madeira encerra que não percebeu o seu pai chegando, sorrateiro. Charlus deu-lhe um susto, agarrando seus ombros pelas costas. Era um homem alto e totalmente grisalho, com o rosto corajoso marcado pelo tempo. Ostentava um sorriso branco e sábio e segurava um embrulho disforme nas costas.
— Olá, garotão — disse fraternalmente, bagunçando seus cabelos negros e espetados. Beijou Dorea nos lábios e sentou-se debaixo do guarda-sol — Gostou da surpresa?
— Sim — disse James, arregalando os olhos castanhos por trás dos óculos de aro retangular — O que você tem ai, papai? No pacote?
— Aaaah, isso? Bem… — sorriu de leve para Dorea, que murmurou qualquer coisa sobre acertar o preço dos sorvetes e se pôs de pé, percebendo aquele como um momento especial entre pai e filho. Charlus, por sua vez, colocou o pacote sobre a mesa — Isso é um artefato mágico muito especial, meu filho. Meu pai ganhou do pai dele, que ganhou do pai dele e assim por diante. Chegou a minha vez de passá-lo para você, James. Você já é um menino crescido e logo começará seus estudos em Hogwarts. Está pronto para assumir responsabilidades e para lidar com a sua liberdade. Isto — apontou para o pacote — É a herança de nossa família, meu filho. Agora pertence a você.
James rasgou o embrulho marrom, pressuroso, revelando uma espécie de capa macia e fluída feito água. Sua cor mudava conforme a luz: verde, azul-marinho, dourado. Maravilhado, ergueu os olhos para o pai, uma pergunta brincando em sua boca. O senhor Potter não precisou ouvi-la para respondê-la.
— Sim, é uma capa de invisibilidade muito poderosa, James. Use-a bem.
