Discraimmer: Cavaleiros do Zodiaco ou Saint Seiya, não me pertence. É tudo do Masami Kurumada, Shiori Teshirogi, TOEI, Bandai e o diabo a quatro, menos a mim. Não ganho um centavo com isso daqui.
Como a voz do povo é a voz de Deus, aqui vai mais um capítulo dessa fic q nasceu oneshot e ficou maior que isso!
POV Camus
-Tinha nada. –insisti pela enésima vez nos últimos minutos.
Eu e Milo estávamos sentados em um canto da arena de treinos. Faziamos uma pausa merecida depois de treinar de baixo daquele sol escaldante que, sinceramente, estava me incomodando e muito.
-Tinha sim. Eram azuis e eram de menina! – Milo riu alto a meu lado.
Fazia uns bons minutos que ele teimava que, quando éramos crianças, eu prendia meu cabelo com fitas de cetim azul. Eu não me lembrava de nada disso. Nem lembrava se meus cabelos atrapalhavam a ponto de eu precisar prendê-los. Estava começando a achar que Milo tinha inventado aquilo do nada só para eu achar que não me lembrava deste fato.
- Tá bom então Milo, não vou mais discutir. – falei enquanto bebia mais um gole de água da garrafa de plástico em minhas mãos. Minha voz saindo ligeiramente sem paciência.
- Não fica bravo não, Camyu. Eram de menina, mas ficava uma graça em você! – ele finalizou piscando para mim e abrindo um sorriso. Em seguida se levantou para pegar mais água.
Não consegui me livrar daquele assunto. Não sei o porquê, mas minha mente parecia ultrajada de não se lembrar de algo tão simples - enquanto outra voz continuava a debochar da situação dizendo que aquilo era invenção daquele escorpiano.
De alguma maneira, fiquei pensando naquilo até o cair da noite. Era uma coisa bem supérflua na verdade. Qual era a importância de Milo se lembrar de algo e eu não?
Talvez eu só não pensasse muito naquele tempo e ele sim. Pensando agora, eu nem lembrava como aquela amizade entre Milo e eu tinha começado.
Eu era uma criança bem mal humorada, se querem saber a verdade. Um "mini adulto" talvez. Meu mestre havia me ensinado tudo sobre ser distante e frio. Era necessário para ter vantagem em uma batalha. Sentimentalismos poderiam facilmente servir de ferramenta para o inimigo ter vantagem sobre você, por isso os sentimentos deveriam ficar de lado. Não ter um ponto fraco era o objetivo.
Então eu me mantinha afastado. Creio que Shaka era com quem eu mais falava. Ele tinha um lado culto igual ao meu e isso era algo difícil de encontrar no meio de um bando de futuros cavaleiros de ouro que às vezes agiam com imaturidade demais.
Tá, eu sei que vocês devem estar pensando "mas vocês eram crianças!", porém não éramos simples crianças, nem tínhamos um destino banal. Um pouco de compostura era pedir demais? Talvez fosse para Milo e Aioria, aqueles hiperativos.
Milo, principalmente, gostava de espalhar sua alegria por ai e não sei o motivo, ele tinha cismado comigo. Alias, eu gastava umas horas do meu dia pensando no porque ele tinha aquela mania embaraçosa de me abraçar do nada ou me dar apelidos. Ou pior... Enfim, não vem ao caso.
Porque eu comecei a falar disso mesmo? Ah, claro, a história da fita de cetim.
Como é que ele conseguia, com uma lembrança boba, me fazer perder a paz? Chegava a ser desconcertante o poder que Milo tinha sobre mim. Mesmo crianças, havia vezes em que eu simplesmente me deixava levar. O que ia totalmente contra o meu bom senso. Contra tudo que eu tinha aprendido.
Como a vez em que Milo, no meio de suas – como ele gostava de chamar – "expedições de reconhecimento" pelo santuário, encontrou um cachorro. Um branco e marrom todo peludo e sujo.
Eu havia acabado de devolver um livro na biblioteca do santuário quando ouvi alguém me chamando com um discreto "Shhhhh". Olhei para os lados e atrás das ruínas de uma das colunas gregas, vi Milo acenando para mim. Ele estava para que eu me aproximasse ao mesmo tempo em que olhava para os lados apreensivo. Dei um suspiro de inconformidade e fui até ele.
- Tá, o que você fez agora Milo? – disse logo que estava cara a cara com ele. Foi quando senti algo gelado nos meus pés expostos pelas sandálias gregas.
Franzi o cenho para o cachorro que abanava o rabo para mim e olhei para Milo com uma expressão de reprovação – que era uma das mais frequentes dirigidas a ele.
- Preciso da sua ajuda, Camyu! – sorriu olhando para mim. –Alias, eu e o Scorp precisamos da sua ajuda... – completou apontando para o cachorro.
Virei de costas para ele cruzando os braços. Aquilo daria uma bela encrenca e eu não queria estar por perto para ver o resultado.
- Fale com Aioria, Milo. Ele com certeza é tão louco quanto você para entrar nessa. – ia começar a me afastar quando ele segurou meu braço.
- Mas eu quero você! – Me virei para ele sem graça. Milo tinha a habilidade de me deixar sem graça. Por qualquer coisa. – Aioria vai querer pegar o Scorp pra ele! – completou pegando o cachorro nos braços, possessivo.
-Ham...Ok. Tudo bem. No que exatamente você quer que eu te ajude? – Milo também tinha a habilidade de me convencer a fazer as coisas com um simples olhar mais profundo ou alguma atitude tipicamente infantil. O que eu achava muito embaraçoso.
Ele sorriu e me abraçou com cachorro e tudo. Detestava quando ele me abraçava! Porque aquela sensação boa me fazia pensar em pedir para meu mestre me colocar em um esquife de gelo, pois eu estava precisando sabe?
A ideia brilhante de Milo era dar um banho no cachorro em um dos lagos que se localizavam na floresta próxima ao vilarejo e depois ficar com ele. O que eu considerava uma péssima ideia.
-Ele provavelmente deve ter vindo do vilarejo. Larga ele lá e pronto. – comentei enquanto o seguia até o lago já a vista com ele.
-Não seja cruel, Camyu! Se ele veio de lá é porque não tão tratando ele bem. Eu vou cuidar dele. – respondeu apertando o cachorro nos braços.
- Isso é contra as regras, Milo. Não podemos ter um bicho de estimação!
-Não é contra as regras porque não tem regra contra isso não.
-Porque é uma ideia tão boba que o mestre do santuário acha que está implícito!
-Pare de usar palavras difíceis e tira as sandálias pra entrar no lago com a gente. – respondeu tirando suas próprias sandálias ao chegar a beira do lago.
-Nem pensar, eu vigio e você dá banho. Achei que minha parte fosse essa. – respondi me sentando a sombra de uma árvore. Ele fez um bico de frustração. Ainda arregalou aqueles olhos incrivelmente azuis – resisti a isso fechando os olhos e fingindo que era só para relaxar um pouco - e insistiu por alguns minutos até resolver entrar sozinho com o cachorro. Não me perguntem o porquê de ele entrar no lago também...
Observei Milo dar boas risadas com as palhaçadas do cachorro durante o que ele chamava de banho. Na verdade os dois estavam jogando água para todos os lados enquanto corriam em círculos na parte rasa.
Éramos tão opostos que aquela amizade parecia uma grande brincadeira do destino. Uma brincadeira que eu apreciava discretamente. Mesmo que Milo fosse possessivo, cínico e até mesmo ciumento, a julgar aqueles anos de convivência.
Eu gostava de o observar. Suas brincadeiras, seus gestos tão espontâneos, sua liberdade de fazer tudo àquilo que tinha vontade. Enquanto eu ficava me repreendendo pelo mínimo gesto menos racional. É claro que também fazia parte do meu jeito. Cá entre nós, eu sou tímido. Sério. Então olhar Milo fazendo tudo o que eu não tinha coragem de fazer era um deleite. Eu o admirava muito.
Estava tão distraído apreciando a risada de Milo que só percebi alguém se aproximando quando era tarde demais – uma falha grave para um cavaleiro.
Só tive tempo de ver uma sombra ágil saindo de trás de uma árvore próxima a que eu estava encostado. Um sorriso sarcástico nos lábios.
- Virou playgroud esse santuário agora? – sua risada ecoou alta. Milo parou o que estava fazendo e arregalou os olhos sabendo que, agora sim, estávamos em uma grande encrenca.
-Máscara da Morte, o que está fazendo aqui? – perguntei me levantando. Scorp começou a rosnar para o recém-chegado.
- Até onde me consta, eu posso ir onde eu quiser Camus. – respondeu dando de ombros. Em seguida olhou para Milo e para o cachorro. – Acho que me enganei. Santuário virou petshop...
-É só um cachorro perdido que...- começou Milo, mas foi interrompido por Máscara da Morte.
- ...que não devia estar com vocês. Eu até esperava uma idiotice dessas de você Milo, mas me espantei quando vi que estava por aqui também, Camus.
- É só um cachorro. – respondi. – Para que fazer disso uma grande coisa não?
Máscara da Morte era uma criança muito, digamos, maldosa. Ele gostava mesmo de ver as coisas esquentando. Acho que era como ele se divertia. E a maioria de nós era mais nova do que ele, o que o fazia pensar que tinha realmente um poder de fazer o que quisesse com a gente. Um de seus passatempos favoritos era ver os outros levarem bronca.
- Pois é... Acho que você tem razão. – ele respondeu para mim. Milo se aproximou de nós com o cachorro se escondendo entre suas pernas. –Façamos o seguinte: vocês me dão o cachorro e eu não conto nada pra ninguém.
-Você quer o Scorp pra que? – perguntou Milo desconfiado. Os cabelos levemente molhados e a barra da túnica que usava encharcada.
- Ah, vocês sabem né? Logo, logo eu vou pra casa de Câncer e tava pensando em decorar com umas cabeças na parede! O... Como é o nome? Scorp? Bom, ele pode inaugurar minha coleção!
-Oras seu... – Milo estava prestes a dar um soco no garoto mais alto e naquela época, mais forte que ele quando o detive.
-Não piore as coisas Milo! Nós vamos deixar o cachorro no vilarejo e ninguém precisa saber disso.
-Mas Camus...- dirigi um olhar de reprovação para ele antes que pudesse continuar. Seus olhos perderam um pouco da determinação. Se dirigiu para Máscara da Morte sem encará-lo. – É, vamos fazer isso... ok?
- Mas qual seria a diversão nisso? O que é que eu ganho? – o pior é que ele realmente parecia chateado por aquele assunto se encerrar assim.
-Que tal... Você ficar com as minhas sobremesas pelo resto do mês? – Propus. Entendam que para uma criança abrir mão da sobremesa é uma grande coisa. Assim como receber sobremesa extra. E para falar a verdade eu não consegui pensar em algo melhor naquele momento.
-Do almoço e do jantar. – ele impôs.
- Combinado. – Milo abriu a boca pra dizer alguma coisa, mas apertei levemente seu pulso indicando que era para ele ficar calado.
-Então caiam fora antes que eu me arrependa.
Puxei Milo pelo braço rapidamente. O cachorro nos seguiu e Máscara da Morte foi ficando para trás com ar triunfante.
- E quanto a mim? – resmungou Milo se colocando a meu lado. Nossos passos rápidos.
- Te dou um cachorro de pelúcia no seu aniversário. Pronto. – respondi impaciente.
-Não! Tô falando das sobremesas! Eu ia dar as minhas também e você não me deixou falar!
Diminui o ritmo dos passos e respondi sem encará-lo:
-A culpa foi minha. Eu fiquei de vigiar e me distraí. – com você completei mentalmente. O que muito me espantou porque era a mais pura verdade...
-A culpa foi toda minha porque eu achei mesmo que não teria problema ter um cachorro... – respondeu cabisbaixo. Ele estava realmente triste. Senti um nó na garganta diante da ideia de que, pela primeira vez, fosse eu a abraça-lo e não o contrário.
- Acontece. –foi a única coisa que consegui dizer. Inútil não? Até mesmo ridículo, podem ser sinceros. Fica melhor se eu disser que dei um tapinha nas costas dele? É, não fica. Mas foi o que eu disse e fiz. Só isso.
Ajeitei-me no sofá outra vez. A sala estava escura e eu estava perdido nessas lembranças.
Talvez eu devesse realmente ter dado um cachorro de pelúcia para ele como compensação. Ou ter sido um amigo melhor e tê-lo abraçado. Ou ainda ter deixado ele dar um soco em Máscara da Morte como ele queria...
Agora eu estava parecendo um idiota, sentado no sofá no escuro – uma vez que a noite tinha caído e meus pensamentos estavam voando – e com remorso. Remorso de algo que aconteceu a tanto tempo atrás. Patético. Só o Milo pra me deixar assim mesmo. E tudo por causa de um comentário sobre algo que eu não lembrava: as fitas de cetim.
-Azuis escuras... – comentei comigo mesmo espantado. Era isso... Eu lembrava agora! Aquela lembrança não acabava assim! Havia uma fita de cetim...
Meus cabelos estiveram o tempo todos presos. Um detalhe banal que na verdade fazia toda a diferença.
Quando saímos da floresta e chegamos aos arredores do vilarejo, Milo ficou dando recomendações ao cachorro como uma mãe que aconselha o filho antes da excursão da escola. Segurava as patas do bicho enquanto esse abanava o rabo e, obviamente, não entendia nada. O cachorro era do tamanho dele de pé e a cena estava um tanto engraçada, mas não me atrevi a rir. Observava os dois de soslaio.
Como vi que Milo não queria ir embora e deixar Scorp, resolvi interferir. Me aproximei dele e falei do jeito mais gentil que eu conseguia:
- É melhor deixa-lo ir. Tem umas crianças brincando ali a diante, vão cuidar dele com certeza. – Ele olhou para a direção do som de risadas e depois para mim, os olhos tristes.
- Acha que ele vai lembrar da gente? – me perguntou inocente. Tenho que admitir que a vontade de abraça-lo cresceu ainda mais.
Pensei comigo "Pouco provável".
- Sim, acho que sim... – Respondi. A falta de firmeza na minha voz fez com que ele desse um suspiro triste.
Não sei de onde tirei aquela ideia. Quando dei por mim já estava retirando a fita de cetim azul escura que prendia meus cabelos e me ajoelhando para amarrá-la no pescoço do cachorro. Milo olhou a cena espantando, mas depois abriu um belo sorriso.
-Pronto. Agora ele lembrará. – falei por fim me levantando.
Milo soltou as patas do cachorro, pegou um graveto do chão e jogou longe, com esperança de que tivesse caído perto das crianças do vilarejo. Scorp saiu correndo e latindo atrás do brinquedo.
- Você é demais, sabia? – o encarrei surpreso ao ouvir isso. Sem seguida ele pulou em cima de mim me abraçando. Quando o repreendi, ele simplesmente soltou uma risada alta.
Voltei à realidade e sorri para mim mesmo. Só naquele momento meu cérebro relaxou. Lembrar daquilo foi como um capricho saciado. De quebra me lembrei de muitas outras coisas. Muitas outras histórias. Acabara de chegar a conclusão que era uma sorte Milo ter cismado comigo. Ele provocava em mim sensações boas. Sensações que iam contra tudo que eu tinha aprendido, mas que no fundo eu não dava a mínima se era correto ou não.
O que era perigoso.
Deliciosamente perigoso.
Notas finais: Achei essa que esse capítulo tem um estilo diferente do primeiro. A explicação é que o personagem muda e fazer um POV do Camus muito parecido com o do Milo ficaria muito estranho, já que cada um tem uma personalidade.
Estou escrevendo um terceiro e, provavelmente, último capítulo para a fic. Vou tentar não demorar meses como demorei dessa vez! rs
Deixem reviews hein!
