Jantar em família era sagrado para o Senhor Thomas Shalev. Thomas era um homem que foi criado "à moda antiga". Seus falecidos pais foram perseguidos e torturados na época de Hittler por serem Judeus. Por sorte, conseguiram fujir, mas as sequelas psicológicas permaneceram para sempre, e eles se tornaram pessoas muito severas. Eles acreditavam que a única forma de fazer um filho vencer na vida era sendo duro e severo com ele. Thomas Shalev realmente conseguiu atingir seus objetivos; ele estudou numa das melhores faculdades do país e se graduou em medicina, com especialização em neurocirurgia. Mas por outro lado, se tornou um verdadeiro tirano. Em casa, sua decisão era a única que importava. Embora sua esposa, Judith, fosse uma empresária independente, ela aceitava o machismo dele de boca fechada, sem reclamar. Thomas também era muito severo com Jane. Exigia dela bom desempenho em tudo o que ela fazia, desde a escola até o balé. Por ele ser assim tão duro, Jane cresceu com medo dele. Mas não era um medo de ser punida, era o medo de decepcioná-lo. Tudo o que ela mais queria era fazer algo grande e lhe dar orgulho. Por isso Jane era tão exigente consigo mesma...

E todo jantar era sempre a mesma coisa: silêncio. Ele não era um homem de falar muito, mas quando abria sua boca era só para falar sobre seu trabalho, sobre os negócios de Judith, ou sobre os estudos de Jane. Ou sobre o assunto que Jane mais odiava: David. Thomas acreditava que David era o homem ideal pra ela, e daria um ótimo marido, mas o que ele não sabia ainda era que Jane não sentia nada por ele. Isso a atormentava dia e noite, porque ela estava sendo obrigada a sair com um cara que ela não gostava, e Jane não tinha coragem de dizer aos seus pais que não gostava dele. As vezes, Jane conseguia até pressentir quando seu pai ia falar sobre ele, nessas horas ela evitava fazer contato visual com seu pai, e comia com a cabeça baixa, olhando apenas para seu prato.

-Então, Jane... Thomas disse depois de limpar sua boca com o guardanapo. -Como estão as coisas entre você e David?

Judith e Thomas se entreolharam e Judith deu uma piscadinha para seu marido, Thomas olhou para sua esposa e sorriu com o canto dos lábios. Jane era a única pessoa que não estava feliz naquela mesa. Toda vez que seus pais mencionavam o nome dele, seu ombros encolhiam e ela sentia um frio gelado percorrer na sua espinha. O que mais a irritava era que eles falavam como se os dois estivessem namorando! Jane engoliu o purê de batata com dificuldade e depois respondeu:

-David é um cara legal... Agora se me derem licença, tenho que estudar! Jane disse enquanto se levantava da mesa. Foi a melhor resposta que ela tinha para escapar daquele assunto. Os dois se entreolharam denovo, mas desta vez Thomas e Judith não gostaram nem um pouco do modo malcriado que ela respondeu...

Jane não tinha nenhuma prova no dia seguinte. Aquilo foi uma desculpa para ela sair da mesa. Quando entrou no seu quarto, a primeira coisa que fez foi tirar o celular da sua mochila e se conectar no Whatsapp. April Levigne, sua amiga e também parceira de balé estava conectada. Assim como Jeniffer, Jane também considerava April como uma irmã. As duas se conheceram fazendo aulas de balé aos 6 anos e desde então são melhores amigas. Jane confiava muito nela, ao ponto de contar seus maiores segredos. Um deles: sua virgindade... Jane tinha muita vergonha de ainda ser virgem aos 19 anos, e evitava falar sobre sexo com suas amigas, embora tivesse muita curiosidade sobre o assunto. A única pessoa com quem conseguia se abrir era com April, uma pessoa que Jane tinha total confiança. Mas apesar de April aparentar ser confiável e boa amiga, por dentro ela era uma pessoa bem diferente do que Jane imaginava. April era invejosa e egoísta. Desde quando eram crianças, April sempre invejou sua amiga. Jane sempre se destacava em tudo: no balé, na escola, sempre ganhava as bonecas mais lindas... E April cresceu sentindo-se humilhada por ela ter tudo do bom e do melhor e ela sempre em segundo plano. Jane entrou para a Academia de Balé porque seus pais tem dinheiro para bancar, ela só entrou porque conseguiu uma bolsa de estudos...

Embora April sentisse inveja e raiva de Jane, toda vez que as duas se encontravam ou falavam pelo celular, April escondia seus verdadeiros sentimentos com um sorriso falso.

"Oi, April. Como vai?" Jane escreveu no Whatsapp. Segundos depois, April escreveu:

"Ei! Jane! O que você me conta de bom?"

"Tô aborrecida... :("

"Porque? O que aconteceu?"

Jane se deitou na cama de barriga para baixo, e continuou a escrever segurando o celular com os cotovelos apoiados no colchão.

"Meus pais... eles estão me pressionando para ficar com o David. Eu não sei o que eu faço! Não tenho coragem de dizer que só quero amizade com ele..."

Do outro lado da linha, April vasculhou algo da sua memória e deu um sorrisinho com o canto dos lábios. Após alguns segundos, ela respondeu:

"Um dia você terá que dizer a verdade para seus pais, e para David, por mais que isso vá magoá-los..."

"É... eu sei..."

April rolou seus olhos em desgosto. Estava farta daquele assunto, e achava que Jane as vezes era muito ingênua e demorava muito para tomar uma decisão. Se fosse ela, já teria o mandado pastar, sem pensar duas vezes. Mas Jane não era assim, ela se importava com os sentimentos dos outros.

"Falando nisso... você está interessada em outra pessoa?" April perguntou.

Embora estivessem conversando pelo chat de um celular, as bochechas dela ficaram vermelhas. Elas sempre ficavam vermelhas quando Jane falava sobre esses assuntos, ou quando ela estava perto de algum rapaz que ela tinha uma queda.

"Eu? Não!"

"Tem certeza?" April respondeu provocando-a. Jane demorou cerca de um minuto para responder.

"Está difícil encontrar o cara certo... Homens só querem usar você, e depois largar..."

April rolou seus olhos mais uma vez. O estilo inocente e sonhador dela a irritava. April achava que sua amiga tinha valores antiquados e muito retrogados para essa época.

"Não sei porque você quer tanto encontrar o homem certo! Desse jeito você vai morrer virgem!"

Jane se sentiu um pouco incomodada com o comentário dela. Pois April sabia o quanto Jane se valorizava em relação a isso. Na verdade, desde que ela começou a "sair" com David, April vinha agindo de forma estranha, dando pequenas "patadas" como essa. Então ela rebateu:

"E qual é o problema em se entregar apenas para o homem que você ama de verdade?"

"Nenhum. Mas acho que você não sabe o que é bom. Bem, tenho que ir agora... tchau Jane."

April estava muito estranha ultimamente, Jane pensou. Em outros tempos ela se despedia dizendo: "Tchau, um beijo!", mas agora ela parecia estar fria e distante. Ela então colocou o seu pijama e foi dormir. Porque o dia seguinte seria um dia exaustivo de ensaios...


A bronca da sua professora de balé, foi o suficiente para a perfeccionista da Jane querer ficar até tarde na Academia treinando suas "Pirouettes". Ela achava que precisava se concentrar mais, treinar mais e manter o foco. Mas como poderia manter a concentração com um rapaz martelando uma parede?

-Você pode... por favor, fazer menos barulho? Jane disse tentando matá-lo com seus olhos. Thor parou e olhou por cima dos seus ombros, com uma sobrancelha arqueada.

-Desculpe, o que foi que você disse?

Jane suspirou forte. -Ah, esqueça! E voltou a treinar suas pirouettes. Jane abria seus braços para manter o equilíbrio, e quando se sentia preparada, dobrava sua perna direita em "4" e depois girava três voltas em torno de si mesma. Thor, parou por alguns segundos para observá-la. Ele nunca tinha ido ao teatro antes, nem assistido uma peça de balé também. Thor ficou encantado com a graciosidade e leveza dela para fazer tais movimentos, também ficou impressionado com sua agilidade para girar tão rápido! Thor estava tão admirado que nem notou que seus lábios se curvaram num sorriso fraco. Jane parou por alguns segundos para recuperar o folego, e percebeu que ele a estava observando.

-Tá olhando o que?! Ela disse grosseiramente, achando que ele a estava "molestando" com seus olhos.

-Ah? Ahh... nada. É que... eu estava vendo você dançar... Como, como você consegue girar tão rápido sem cair? Thor perguntou girando seu dedo indicador. Ao perceber que ele só estava curioso sobre seu treino, Jane relaxou e suspirou com mais calma.

-Ah, isso requer muita técnica. Mas acredite, já levei muitos tombos na minha vida! Jane sorriu. Thor também sorriu, mostrando todos aqueles dentes perfeitos e branquinhos. Ela notou que ao sorrir, seus olhos se espremiam, deixando-o com uma aparência angelical. Havia alguma coisa nele que prendia sua atenção, só que ela não sabia o que era. Talvez seus olhos? Jane tinha que admitir, ele tinha um belo par de olhos azuis. E não era somente a cor dos seus olhos que a hipnotizava, era a combinação da cor com o formato deles, e a forma como ele a olhava também. Eles ficaram se olhando por alguns minutos em silêncio, até que Thor sacudiu sua cabeça e quebrou o gelo:

-Então... você vem treinar aqui todos os dias?

-Só quando necessário. Mas agora estou vindo todos os dias, nossa companhia vai se apresentar daqui duas semanas.

-Mas... você vai se apresentar sozinha? Porque todos os dias eu só vejo você por aqui.

Esta pergunta lhe fez se sentir uma garota estranha e solitária. A verdade é que o ensaio com todo o elenco da peça foi marcado para uma semana antes da estréia, e como ela era uma pessoa obcecada pela perfeição, Jane começou a ensaiar uma semana antes da data marcada. Ela encolheu os ombros e disse uma mentira, para tentar não parecer tão neurótica.

-N-Não, meu parceiro deveria estar ensaiando comigo, mas ele nunca apareceu...

-Uhmm... Depois de uma breve pausa, ele disse: -Olha, me desculpe se eu estou te incomodando com o barulho, mas é que fui contratado para trabalhar somente no turno da noite.

-Ah, tudo bem, eu entendo...

-Tem certeza? Se eu estiver atrapalhando muito, posso falar com o diretor da companhia para mudar meu turno.

Jane sacudiu a cabeça e disse: -Não! Não! Não será necessário! Quanto ao barulho, eu tenho isso. Ela disse mostrando seus fones de ouvido. Thor olhou para os fones e sorriu. Ela olhou para ele e sorriu também. Seus olhares se conectaram denovo, como se eles tivessem vida própria. Quando Jane percebeu que estava olhando pra ele com aquele olhar, ela sacudiu sua cabeça e disse a primeira coisa que veio na sua mente.

-B-Bem... Jane disse enquanto colocava sua mochila nas costas. -Acho que agora estamos em "paz" não é? Me desculpa mesmo por ter sido tão grossa com você!

-Ah, esqueça isso... Ah, queria saber uma coisa...

Jane cerrou suas sobrancelhas: -O que?

-Qual é o seu nome?

Uma pergunta muito simples, mas que fez Jane corar e responder timidamente.

-Jane...

-Jane? Belo nome...

Uma bela escolha para uma garota tão linda, Thor pensou.

-Bem, vou indo. Jane disse. Até mais.

-Até.

Antes de girar nos seus calcanhares e ir embora, ela pensou consigo mesma: -Até que ele é bem legal... E acho que me fará uma ótima companhia também...


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