PARTE 2
Hermione POV
Maio, 04 1931
Soube que levaram Ginny, e não consigo não chorar. Todos sabemos qual o fim dela. E já não contamos a comida para ela, a parte dela agora é dividida entre todos nós. Vi Harry chorar, e foi a primeira vez que o vi fazer isso desde que nos encontramos, há mais de seis anos atrás. E sempre que um dos nossos é capturado, agimos como se fosse uma perda, mas nunca abaixamos a cabeça, sempre continuamos, Voldemort não pode nos vencer. Porém, ver Harry sofrer a perda de Ginny conta-me mais do que eu queria saber. Se Harry está a sofrer, está a chorar, essa perda pode mudar tudo.
-Hermione? - ouço alguém me chamar baixo. Estou no porão, separando a ração para a única refeição que faremos no dia. Acostumamos a falar baixo, nos escondendo, tendo medo. Viro-me vendo Ron descer a pequena escada, os olhos vermelhos. Ele estava a chorar, mas não quer que ninguém veja. - Harry perguntou se demora a separar a comida, quer conversar com alguns de nós.
-Diga que já vou. - Limpo as lágrimas com as costas das mãos, também não quero ser vista chorando, odiaria ser vista como mais uma fraca. Apesar não sentir-me outra coisa.
Termino de separar a ração, levando-a para a parte de cima, vendo a movimentação fora da casa, apesar da noite que começa a cair. Saio, erguendo a barra do vestido velho que uso, odeio sujá-lo e então levar toda a sujeira para dentro da casa, apesar de que não adianta grande coisa, todos os outros não importam-se com isso. Paro ao lado de Harry, apoiando meu ombro ao dele, vendo-o fitar-me com os olhos verdes triste. Se ele demonstrar mais fraqueza, algo dará errado. Bill, Charlie, Ron, Arthur, Molly e alguns outros estão ali, reunidos em roda. Não a iluminação de vela, apenas os últimos raios do sol que já querem apagar-se de vez.
-Com... Ginny com eles... temos que nos preparar.
-Ginny nunca... - Bill começou.
-Eles a farão falar. - Ron cortou o próprio irmão, e eu já entendi sobre o que eles falavam antes de unir-me a eles. - Eles fazem todos falarem.
Ficamos em silêncio, apenas pensando. Não quero na verdade, pensar no que pode acontecer se nos capturarem. Não quero pensar no que pode acontecer com Ginny.
-Vamos nos preparar. - Harry diz, e começamos a armar as estratégias. Agora é realmente matar ou morrer.
Maio, 06, 1931
Ontem eles estavam aqui, e achavam que não os veríamos. Ron viu o filho de Lucius Malfoy junto dos soldados, mas Harry não conseguiu acreditar de verdade. Hoje, eles voltaram, e isso significa que Ginny realmente entregou onde estamos. E se Ginny fez isso, algo horrível aconteceu à ela. Eles cercaram a casa, vazia. Estamos bem escondidos, as mulheres na pequena vegetação perto da casa, os homens escondidos desde o amanhecer entre pedras caídas, carroças tombadas, camuflados no chão. Não temos tantas armas, não nessa casa. Mas as que temos, serão suficiente. São quinze homens, apenas cinco a mais que o número de ontem, e Ron estava certo, o filho de Lucius Malfoy, Draco Malfoy, está entre eles. Nossos amigos dão os tiros quando eles aproximam-se demais da casa, pegando vários deles de surpresa.
Molly vira o rosto para o lado, não querendo ver. Já eu, quero ver. Vejo alguns dos soldados do Führer cair, alguns gritam de dor, alguns nunca mais gritarão. Observo como Draco Malfoy vira-se, atira a esmo, eles não percebem de onde os tiros estão vindo, mas continuam atirando. Ele tomba, dois tiros. Vejo vários deles correrem, alguns tentam salvar os outros, mas apenas cinco deles fogem. Levanto-me após alguns minutos, Molly ainda está de rosto virado, as mãos apertadas no peito.
Vejo Harry levantar-se do chão onde estava camuflado, Ron e Sirius à seu lado. Eles caminham até onde os soldados caídos estão, atirando nos que ainda estão vivos. Eu observo tudo isso, não quero perder nada. Eles nos matam, nós também podemos fazer isso. É guerra. Me aproximo devagar de Draco Malfoy, ele está de olhos fechados, mas o peito sobre e desce devagar. Foram realmente dois tiros: um no ombro, um na coxa esquerda. Sangue escapa dos ferimentos. Piso na mão dele que está com a arma, empurrando-a para longe.
Ele abre os olhos de repente, segurando-me pelo tornozelo, mas é apenas um relance de seus olhos cinza, Ron aproximou-se e lhe deu um chute no rosto, deixando-o inconsciente outra vez.
Maio, 07, 1931
Estamos caminhando desde ontem. Ron e Harry brigaram sobre levar ou não Malfoy conosco. Harry gritou com Ron, era uma ordem, como há muito ele não dava. Estava carregando Malfoy, que está desacordado. Fiz curativos precários para seus ferimentos, mas ele ainda não acordou. Perdeu muito sangue, e agora o nariz quebrado com o chute de Ron, desfigurou o seu rosto. Ninguém fala, é perigoso falar enquanto caminhamos na floresta. Temos que nos mover de noite, de dia somos alvos fáceis. Estou ao lado de Bill e Charlie que o carregam, observo-o enquanto ele é movido pelo balanço da maca improvisada.
Não quero pensar no que acontecerá com ele. Ron e Sirius tem planos para ele, e nada pode superar o que os outros, no outro esconderijo, farão com o filho de um dos comandantes de Voldemort. Por um lado sinto pena, por outro, vejo que ele merece.
Maio, 10, 1931
Ajoelho-me ao lado dele, observando-o enquanto ele está fitando o chão. Chegamos ontem, e Harry disse que eu seria encarregada de cuidar de Malfoy. Observo-o enquanto ele finge que não estou presente. Trouxe um balde, uma pano e agulha, preciso costurar os ferimentos de bala, se ele continuar a sangrar, não durará muito; Harry deixou bem claro que ele precisa continuar vivo.
-Vire-se. - digo baixo, acostumada a não levantar a voz com mais ninguém, nem mesmo com ele.
-Não me toque. - ele me fita, os olhos cinzas brilhando no quarto parcialmente escuro.
-Se não lhe costurar vai sangrar até a morte. - o aviso, molhando o pano no balde. - Pode virar-se acordado ou desacordado. Sua decisão.
Ele me mira. Acho que está com certo medo de ficar desacordado e pensa que vamos machucar-lhe. A idéia de Ron era essa, mas Harry o impediu. Vejo-o virar-se, ficando com o rosto encostado na parede. Abaixo a camisa da farda estraçalhada e suja de sangue e terra, vendo por onde a bala atravessou seu ombro. Passo o pano, limpando e vendo onde o ferimento está. Começou a ficar infeccionado, mas aqui tenho alguns remédios, posso tentar conter a infecção. Passo a agulha curva na vela, prendo a linha, costuro enquanto o escuto reclamar. Ele merece isso.
Maio, 15, 1931
Harry abraçou-me hoje, dizendo que Malfoy contou sobre a execução de Ginny. Deus, Harry está caindo aos pedaços, e dessa vez, eu não vou conseguir juntá-los. Por cima dos ombros de Harry vi Malfoy ser arrastado para o quarto que ele fica preso, está desacordado, sangrando, e pelo que vi, os ferimentos a bala estão abertos outra vez. Tenho que continuar pensando que ele merece.
