Cap. 2 Momento de amizade
Sentada na sala de JJ me senti como se estivesse a ponto de fazer uma importante confissão, não sobre o que tinha acontecido, mas sim sobre mim. Na realidade não era algo que quisesse fazer, mas não tinha sentindo continuar a guardar segredo diante de uma amiga tão preocupada.
Não é que JJ e eu fossemos amigas intimas ou algo assim desde sempre, porque me exigiu esforços adaptar-me a ela assim que cheguei a UAC. Mas as estranhas casualidades da vida me levaram a conversar sobre tudo com JJ, ao encontrá-la num restaurante por coincidência e sentir que devia lhe contar sobre o homem que me acompanhava e o romance que vivia. E JJ, encantadora como só ela sabe ser, permaneceu por perto para me escutar sempre que precisei e, por sua vez, sentia-se livre para me contar o que acontecia em sua vida. Foi assim que se iniciou uma bela amizade.
- Que houve, Emily?
- Acabou, ele se foi. É uma bobagem completa, mas é tudo tão estranho...
- Está sofrendo, isto é o que está acontecendo. Você está triste, como qualquer mulher normal que acaba de passar por um rompimento.
- Não sou assim.
- Talvez não, mas é normal que aconteça às vezes. – Garcia disse enquanto entrava. – Lamento ter me intrometido, mas Hotch disse que estava aqui e que alguma coisa errada acontecera. Assim, vim participar desta conversa de mulheres.
Enterrei meu rosto nas mãos e quis desaparecer dali. Não era nada contra Garcia, mas não queria que todo mundo estivesse ciente de minha situação e que sentissem pena de mim. Senti-me totalmente frágil ao me dar conta de que o rumor estava correndo pelo trabalho, mas JJ me trouxe de volta a realidade tirando meu rosto das mãos no seu melhor estilo consolador.
- Não aconteceu nada... – Murmurei. – Porque todos têm que ficar sabendo? – Queixei-me
- Acho que porque somos seus amigos. – Respondeu Garcia. – E os amigos sempre estão prontos para escutar e ajudar.
Este argumento me deixou sem palavras. Era a verdade: eram meus amigos. Eram com quem conversava, trabalhava, viajava, compartilhava e mil outras coisas que fazia com eles. Eram pessoas essenciais em minha vida, as únicas com quem sabia que podia contar. Eram, afinal, meus amigos.
- Conte tudo.
E foi o que fiz. Contei o bom e o ruim. O inicio casual e o final quase inesperado. As dúvidas, as palavras e os silêncios. Falei de quão tonta me sentia, de que lembrava que JJ tinha me alertado que poderia não terminar bem. Contei que tinha percebido que não estava inteiramente envolvida por ele. Tantas coisas que trazia dentro de mim e que precisava colocar para fora. Não era somente ter terminado um longo relacionamento, era ter terminado sentido que nem sequer havia começado de verdade. De todo jeito isto me doía, mas contando para elas sentia que a dor diminuía.
Não me surpreendeu que a equipe tenha ficado sabendo disto tudo antes de começar a tarde. Não me surpreendeu ver suas expressões ao me olhar, depois de tudo não podia ficar chateada com suas preocupações, pois era tudo que eu tinha.
Sobrevivi ao dia de trabalho sem saber como. Sobrevivi a sair da cidade e solucionar um caso dos que nos tiram o sono, o que me ajudava a não me sentir tão mal com meus problemas sentimentais. Mas voltar três dias mais tarde e ter que retornar para casa não foi confortador. Sem a companhia de minha equipe não sabia se conseguiria sobreviver muito tempo sozinha. Por isto fiquei um pouco mais de tempo que o normal na UAC naquela tarde.
- Porque ainda continua aqui? – Perguntou Hotch ao se aproximar a noite, soando preocupado. – Está tarde.
- Eu... Não sei.
- Não quer ir para casa, não é? – Perguntou astutamente.
- Não quero ficar sozinha... – Confessei.
- Venha comigo, Emily. Precisa falar um pouco disto.
Não sei o que me levou a aceitar este convite de meu supervisor. Não sei exatamente porque aceitei ir a sua casa conversar, porque quando penso agora era algo que não fazia sentido. Mas Hotch se mostrou um excelente ouvinte e confortador no tema. Ainda que eu não estava certa de que queria dizer a ele o que tinha acontecido, não pude evitar contar. Em nenhum momento ele me pressionou e foi entendendo os motivos do que tinha visto até aquele momento. Cheguei a ponto de me dar conta de que a única pessoa que podia me ajudar era ele, ainda que não entendesse porque. Surpreendi-me chorando diante da ultima pessoa que gostaria que me visse tão frágil.
- Está bem, tudo ficará bem. Venha cá. – Ele me consolou ao me ver chorar, tomando-me suavemente entre seus braços.
- Não, não está bem. – Eu soluçava abraçada a ele como uma criança pequena.
Achar-me entre seus braços foi a experiência mais tranqüilizadora de minha vida. Prontamente as lágrimas cessaram, assim como as explicações, pois me sentia a salvo. Sentia que em seus braços estava protegida de todo o mal do mundo. Ele não permitiria que nada me machucasse. Era muito tarde e não sei em que momento acabei adormecida.
Despertei com o som da buzina de um carro próximo dali e me surpreendi ao perceber onde estava. Olhei ao redor e me dei conta de que ainda estava no apartamento de Hotch, adormecida em seu sofá e ainda em seus braços. Estava recostada em seu peito e ele me abraçava protetoramente. Tentei me soltar de seus braços (não sem lamentar um pouco) e me preparar para ir embora, mas ele se acordou com o movimento.
- Tenho que ir... – Sussurrei.
- Fique, Emily. – Sussurrou sem me soltar, levando suas mãos a minha cintura.
Porque em seguida o estava beijando? Não sei. Porque sentia que deveria ficar naquela noite, pensando que depois não lamentaria? Não sei. Porque me sentia derretendo com seu pedido para ficar? Não sei. E porque ainda assim fui embora? Porque estava preste a ultrapassar o limite onde podíamos ter uma simples amizade e fiquei tão confusa que não tinha certeza se que queria cruzá-lo.
Continua.
