Prólogo: Lei e Desordem

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Hogwarts, diferente de qualquer outra escola, é escura, tem passagens temporárias e escadas que se reposicionam durante o dia, sendo assim um lugar realmente fácil de se perder, especialmente no fim da noite quando você realmente não devia estar fora da cama. É um castelo assombrado onde os fantasmas não têm medo de aparecer pra você e oferecer um conselho, ou no caso de Sir Nicholas, dicas de maquiagem (nós aprendemos que é melhor não perguntar quando ele virou um expert em maquiagem; para um homem morto, ele certamente pode corar convincentemente.).

Tentar não ser visto normalmente faz você mais visível, e eu quase fui pega duas vezes, uma por Filch, o zelador, e outra por Sra. Nora, a gata de Filch. Agora eu estou presa aqui, escrevendo em meu diário, num canto escuro e apertado e me perguntando se sou claustrofóbica e nunca notei. É quase insuportavelmente quente, mesmo que o castelo seja gelado e eu ainda ouço vozes quando não há mais nada. As costas das minhas mãos estão começando a suar; eu nem sabia que elas podiam fazer isso.

Eu não tenho um diário desde aquela coisa com Tom Riddle durante meu primeiro ano em Hogwarts. Honestamente, aquele tipo de coisa poderia fazer qualquer garota desistir de manter algo escrito sobre si, mas eu ando tendo vontade de me deixar registrada em papel. Então aqui estou, escrevendo no escuro, esperando intensamente que minhas mãos suadas não estraguem tudo.

Eu nunca fiz nada de errado antes. Houve ocasiões em que eu quebrei as regras ajudando Rony e Harry com qualquer problema que eles sempre arranjam -- mas eu só estava fazendo meu papel de boa irmã; papel de qualquer garota loucamente apaixonada pelo melhor amigo do irmão.

Estou exagerando, eu acho. Teve certamente uma hora em que eu achei que estava loucamente apaixonada por Harry Potter, mas passou, como tudo, com o tempo. E, claro, com o desligamento de Harry. Ele gostou de Cho Chang por quase um ano inteiro e isso também passou um pouco depois. O que Cho tinha, afinal, que eu não tinha? Só porque ela era mais velha e mais bonita e melhor bruxa e não tinha que usar as vestes dos irmãos porque ela não tinha corpo de um garoto de 16 anos -- quer saber, não quero mais pensar sobre Cho. Ela se formou no final do ano passado e eu não tenho a menor idéia do que aconteceu com ela. Nem Harry, já que uma vez que sua paixonite desapareceu (elas sempre passam) ele olhou para o lado e encontrou Hermione, onde ela sempre esteve, meio que no geral em seu coração, e foi isso.

E é realmente difícil odiar Hermione, então eu tive que desistir de Harry. Pra melhor. Eu dizia isso pra mim na esperança de algum dia acreditar; e eu finalmente acredito. Então não é como se eu estivesse apaixonada por Harry ou algo assim -- é só mais fácil ter uma paixonite por ele. Mais como um herói, realmente, do que como algo bobo e romântico, e é uma dessas coisas que não vão passar não importa o quanto eu tente, não importa quanto tempo passe.

Felizmente, é também uma dessas coisas que empacam com você. Harry é um bom amigo, ridiculamente leal e estupidamente corajoso, e quanto mais eu penso nisso, mais agradecida eu fico de não estar apaixonada por ele. Hermione deve se preocupar mortalmente o tempo todo.

Aqui está a coisa que me incomoda às vezes: eu sempre pensei que o Harry não havia me notado porque eu era raquítica, meu cabelo nunca perfeito, excesso de sardas, preferência pelos estudos e essas coisas. Obviamente, eram garotas como Cho que captariam sua atenção. Lindas garotas com grandes olhos escuros e faces exóticas, os cabelos longos e sedosos que eu sempre quis ter ao invés dessas odiosas cenouras pendendo da minha cabeça. Mas aí ele se apaixona por Hermione, e não quero ser malvada, mas a Hermione não é a garota mais bonita da escola.

Eu acho que ela é linda, esperta, engraçada e carinhosa, mas ela certamente não vai para a competição de Miss Vassoura. Então se a velha Hermione é boa o suficiente para Harry... Qual é o problema comigo?!

Esse é o tipo de pergunta na qual eu gastaria (gastei) horas pensando sobre, mas

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Oh meu Deus. Oh meu... DEUS! Tudo bem, deixa eu me arrumar aqui e pegar de onde eu tinha perdido. Então eu estava pensando sobre... Algo... E então, de repente, a parede atrás de mim desapareceu e eu caí por muito tempo... Era uma escuridão inacabável e eu me senti horrível, pensando em como Rony diria à mamãe que eu morri e como isso partiria seu coração.

O 'inacabável' era exagero, porque eu eventualmente parei de cair, mas não aterrizei. Em vez, me encontrei suspensa no ar, livre para mexer minhas pernas e braços, mas incapaz de ir a qualquer lugar. Eu não podia ver nada.

"Olá?"

Queria que minha voz fosse mais de uma deusa bruxa e menos de um rato aterrorizado.

"Bem-vinda, Srta. Weasley."

Eu pulei no ar, a voz melódica me assustando na quietude da sala.

A escuridão saiu e eu me vi em uma larga câmara. Deveria estar a uma milha ou embaixo da escola, as paredes altas feitas de pedra ou algo bem terreno. Grandes pilastras nos lados das paredes lembravam um campo de quadribol. Dúzias de pessoas mascaradas estavam paradas, quietas, quase como dementadores, mas um pouco (só um pouco) menos assustadoras. Velas suspensas no ar explicavam como eu podia perceber o que estava nos arredores e quando eu olhei pra baixo, engasguei quando vi que o 'inacabável' não era nenhum exagero.

Abaixo de mim, a escuridão parecia se esticar e desesperadamente tentei lembrar de algum tipo de feitiço que me fizesse flutuar se alguma força mágica viesse a me puxar pra baixo.

"Você me chamará de Cassandra." Disse a mesma voz de antes. Eu a vi ali, na minha frente com o resto deles. "Por que nos procura?"

"Para ser parte de um futuro," eu tirei de minha memória.

"O que nos oferece?"

"Sou apenas uma leal e obediente serva da Ordem."

"Fazer parte é caro. Que preço você está disposta a pagar?"

"Sou apenas uma leal e obediente serva da Ordem."

Meu lábio inferior estava machucado e sangrando do quando eu tinha o mordido mais cedo. Eu imaginei se eles podiam ouvir meu coração batendo no meu peito como uma borboleta enlouquecida por um feitiço de energia. O papel que recebi semanas atrás era bem claro; uma vez dito o código eu não deveria dizer nada além de 'Sou apenas uma leal e obediente serva da Ordem.' Mas e se eu tivesse lido errado? Cassandra estava quieta. Deveria eu falar outra coisa? Eu não tinha nada a oferecer, realmente, além da minha total obediência. Era por isso que eu precisava deles, não era?

Eu ouvi coisas sobre eles antes, claro. Quando as garotas chegam no segundo ano em Hogwarts, elas ouvem sobre a Ordem. Tão desconhecidos quanto os Comensais da Morte, mais secreta que os Centauros e possuindo mais poder que o Ministério da Magia. Isso era porque a ordem não tinha a quem responder. Eles eram a sociedade mais antiga de todas as sociedades secretas mágicas, e a única a sobreviver a Você Sabe Quem.

Todo ano um novo membro é escolhido, e esse ano, serei eu.

A Ordem faz tudo para que você nunca precise de nada. Eles fazem com que as melhores pessoas te notem quando você sai de Hogwarts, fazem com que você tenha o melhor emprego e o melhor lugar para morar. Pelo menos é isso que as garotas falam nos corredores. Eu não tenho muitos amigos de verdade. Eu converso com outros grifinórios, mas as únicas pessoas realmente próximas são Rony, Harry e Hermione. Eu sei que eles não me consideram amiga. Eu sou a irmãzinha de Rony e eu sei que Harry e Hermione também pensam que sou irmã deles, já que eles não têm nenhum pra chamar de seus.

É outra razão pelo qual eu queria tanto isso. Vai me fazer bem. Mamãe e papai não precisarão se preocupar comigo mais e eu não vou precisar voltar pra casa depois da escola e Percy vai ficar sem palavras quando eu conseguir um emprego melhor que o dele.

E finalmente eu vou poder comprar uma veste nova que não cheira lição de poções de Carlinhos.

Mas de volta aonde eu estava flutuando no ar:

"Você deve se provar." A voz de Cassandra ecoou pela câmara e eu respirei fundo, mais cometida a conseguir aquilo que nunca.

"Sou apenas uma leal e obediente serva da Ordem."

"Sua vontade será testada, junto com sua obediência," Cassandra declarou vagamente. "Você é da Grifinória. Qual casa você acha mais repugnante, Srta. Weasley?".

Eu senti o gosto de sangue em minha boca e soltei meu lábio. Aquela era uma questão direta. Certamente ela não queria que eu respondesse usando aquela frase...

"Então?" Cassandra perguntou, impaciente. "Fale garota."

"Sonserina!" Soltei, um pouco mais alto do que pretendia.

"Ah. Honestidade é necessária atrás dessas paredes," Cassandra me disse.

Eu me senti absurdamente feliz comigo mesmo por ter passado em tão simples teste.

"E de todos os alunos sonserinos, quem você acha mais odioso?"

Eu pensei imediatamente em Pansy Parkinson e o jeito que ela sempre me fazia pior que algo que Hagrid criaria. Então pensei em Crabbe e Goyle com suas burrices e vontade de fazer a vida do meu irmão miserável. Pensamentos de Crabbe e Goyle naturalmente me levaram a pensar sobre o chefe e minhas mãos se fecharam de raiva.

"Vejo que você pensou em alguém." Eu podia ouvir um sorriso na voz de Cassandra.

"Draco Malfoy," eu disse, lembrando de todas as vezes que aquele imbecil estúpido fez algo para as pessoas que eu mais amo, tentando fazer Harry ser expulso, chamando Hermione de sangue sujo, começando brigas com Rony quando todos sabem que Rony não tem senso pra evitar briga.

Malfoy, com seu horrível sorrisinho e cabelo sedoso que seria bonito se seu coração não fosse tão negro; olhos como o céu num dia nublado, olhos que escondem uma alma cheia de maldade e crueldade. Sim, é justo dizer que eu odeio Malfoy, Cassandra.

"Draco Malfoy," Cassandra disse alto, "guarda seu lugar na Ordem. Você irá e se oferecerá a ele por um mês. Você será obediente para esse garoto que você odeia, como será para nós. Assim você se provará."

Provar-me? Eu não podia nem respirar. Ela não podia -- ela simplesmente não podia. Mas ela fez. Eu podia dizer pelo silêncio na sala. Silêncio além da maldita borboleta no meu peito que decidiu acelerar novamente.

Tudo. Não podia significar tudo, não é? E... Me oferecer? Isso não pode significar o que eu acho que é. Eles não podem realmente querer que eu -- não, eu só vou pegar seus sapatos, cortar sua carne, coisas como essa, ser humilhada, não... Não ser humilhada. E se -- oh, deus, e se --

"E se ele recusar?" Eu disse antes que pudesse me segurar. Queria poder ver olhos de Cassandra. Tenho quase certeza que veria dó neles. Não é como se eu estivesse numa fantasia de um sonho. A família de Draco Malfoy tem mais dinheiro do que eu já vi na minha vida. Ele compraria um servo se quisesse um. Ele poderia comprar uma prostituta se ele quisesse uma!

"Um membro da Ordem não será recusado," Cassandra explicou com mais paciência do que eu achei que ela seria capaz de ter. "É seu dever ver que ele preenche um papel no seu futuro. Você entende?"

Isso foi a cosa mais impensável que eles poderiam me pedir, e eu me odeio, porque por mais que eu estivesse aterrorizada, assim mesmo, eu sabia qual seria minha resposta.

"Sou apenas uma leal e obediente serva da Ordem."

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