Sinnoh através de dois lados: Bom
Se eu soubesse com quem estava lidando na época, não teria me aproximado tanto. Eu era muito ingênua, inocente e com a esperança de que as atitudes mudariam o mundo. Eu sai de Celestic, fugindo das crenças da cidade e de minha avó, que queria que eu seguisse seus ensinamentos e me tornasse uma anciã por assim dizer. Como meu parceiro na época, apenas um Gible, mas que companheiro! Eu o encontrara em meio as ruinas da cidade, desde então, vem me acompanhado em minhas jornadas.
Eu não devia ter mais de treze anos na época em que fugi de Celestic. Após chegar a Veilstone, a cidade mas próxima de minha cidade natal, procurei no mapa por uma cidade chamada Canavale. Estava sentada em um café próximo ao Cassino, trocando olhares entre as pessoas que iam lá para apostar e meu pequeno mapa, que comprei com o pouco do dinheiro que me restava de batalhas entre treinadores. Eu não havia experiência com leitura de mapas, então arrastava meu dedo pelo papel, procurando por Canavale. Com um sorriso apontei para que Gible que estava no topo de minha cabeça visse. Ele guinchou com felicidade.
Eu não achava que a cidade ficasse tao longe de Veilstone. Meus pés doíam e Gible estava cansado a ponto de pedir para voltar a pokeball. Quando cheguei, fui direto para o centro Pokémon onde passava minhas noites lendo tudo que havia disponível. No dia seguinte fui explorar a nova cidade, observando com curiosidade praças, o ginásio, e havia até mesmo um porto onde treinadores iam e vinham com seus Pokémon. A única parte da cidade onde não me atrevi a explorar era a periferia da cidade. Aquilo para mim era algo inexistente, fora do normal, algo que não deveria existir.
No dia seguinte acordei bem cedo e segui com Gible rumo a biblioteca. Cantarolava para o sol ainda escondido por entre as nuvens, parecia com medo de aparecer. As ruas ainda estavam um tanto desertas, e as calçadas apenas com um punhado de pessoas ainda sonolentas. Nos próximos meses você poderia passar por algumas ruas da cidade, e observar cabelos loiros esvoaçando ao vento, cantarolando alguma musica para o sol, seu único ouvinte.
Em alguns dias na biblioteca notei alguém intrigante. Era um jovem de aproximadamente dezesseis anos, seus cabelos pareciam congelados pelo tom de azul e totalmente penteados para trás. Como eu estava a meia hora tentando pegar um livro de uma das prateleiras de carvalho que era mais alta do que eu mesma, pedi pela ajuda dele. Achei que estivesse atrapalhando como ele não falou nada, mas se levantou e pegou o livro para mim. Ele deu uma rápida olhada, e voltou ao seu lugar habitual.
Ainda lembro que eu corria alegremente pelas ruas, cada dia eu ansiava por uma aventura diferente. Todo o dia me arriscava a sentar junto de um jovem que adquiriu o habito de frequentar a biblioteca a partir das quatro da tarde. Eu não sabia muito sobre ele, exceto seu nome, Cyrus. Ele era muito observador. Eu achava que também era mudo, ou mesmo antissocial. Esta segunda me parecia mais provável.
Estava guardando meu livro de volta em seu lugar na prateleira, quando o observei sair com pressa. Não virei a cabeça, mas reconhecia seus passos rígidos fazendo barulho sobre o piso de madeira. Ele estava praticamente correndo sobre as escadas como se estivesse com medo de alguma coisa. Fui pegar meu casaco preto parado na cadeira que a pouco ocupara, e notei um casaco bem maior, marrom como a mesa em que estava apoiado. Era de Cyrus. Primeiro corri para a janela, mal consegui ver algo além da fachada da biblioteca, a escuridão da noite parecia engolir qualquer coisa que se aventurasse nela. Com um pouco de trabalho achei o jovem indo em direção a uma lanchonete. Depois corri em direção ao casaco. Vasculhei os bolsos e encontrei alguns maços de dinheiro. Coloquei de volta no lugar, então peguei o casaco, coloquei em volta dos meu braço e corri para fora, para devolver o casaco.
A noite não é um lugar para garotas desacompanhadas. Vasculhei em meu cinto e tirei a Pokeball de Gible, que passou a andar do meu lado. Cheguei a rua paralela a lanchonete, então pedi para que meu Pokémon aguardasse ao lado do poste, olhei para os dois lados e atravessei.
"Você esqueceu na cadeira da biblioteca, então achei que seria correto devolve-lo...Até amanhã Cyrus!" Eu disse, tentei sorrir para amenizar o clima, entregando-o com cuidado para não amassar a peça de roupa. Virei e voltei para o outro lado da rua, com vontade de olhar mais uma vez, porem me contive. Fiz sinal e Gible veio comigo através da escuridão rumo ao centro Pokémon.
Alguns dias se passaram e nada de contato um com o outro. Algo nele me fazia perder a vontade de falar, e não esperava qualquer atitude dele. Mas para minha surpresa, um dia, estava lendo sobre a mitologia de Hoenn, quando ele finalmente falou, e foi uma pergunta...para mim.
"O que você acha de um mundo perfeito?" Ele soltou a frase e rapidamente se voltou ao livro. Comecei a pensar, mas a parte 'perfeito' era um tanto...diversificada. Haviam muitos conceitos da perfeição, em inúmeros contextos. Resolvi que, argumentos e palavras complicadas ajudariam e muito naquele momento.
"Acho que seria muito monótono. Quero dizer, é a imperfeição é o que faz as pessoas serem elas mesmas." Respondi. Não pude deixar de mostrar minha curiosidade para a pergunta, de qualquer maneira.
"Mas não acha que um mundo sem imperfeições seria algo melhor? não teríamos acidentes nem nada do tipo." Ele debateu a resposta. Ótimo, como eu falaria que nada pode ser perfeito? Pensei rapidamente.
"Seria bom, mas tudo tem seus prós e contras, mas isso depende, de que tipo de perfeição você está tratando?" Novamente rebati. Acho que me sai bem, pois ele passou a mão pelo cabelo, com leve suspiro , procurando a palavra certa.
"Digo, as emoções, se elas diminuíssem ou mesmo sumissem o ser humano não faria varias das coisas que faz agora, como depressão, suicídio ou a ideia imaginaria de ser sempre superior."
Quase soltei um 'oh', mas parecia-me mais adequado ficar quieta. Pensei mais um pouco, e respondi.
coisas que faz agora, como depressão, suicídio ou a ideia imaginaria de ser sempre superior."
"De qualquer maneira, se retirassem essas que você fala, seria retirado as emoções boas também, não acha?"
Eu fiquei tão indecisa entre continuar o pequeno debate ou continuar a ler o livro que acabei fechando-o. de qualquer maneira ele não me pareceu querer continuar a conversa, então após uma ultima frase dele ficamos em silencio novamente.
