Let It Be
.2.
Parte 2
"Aiolia, nem vem! O acordo era noventa dias! Se você quer diminuir, é porque não gosta tanto assim de mim!" Marin falou cruzando os braços sobre o peito. Eu chamei ela para ver se descolava uma tarde de sexo. Qual é! Eu tenho minhas necessidades, e tentar não tira pedaço.
Mas infelizmente ela continuava com a ideia fixa na cabeça.
"Marin, é óbvio que eu sou doido por você... Poxa, eu to na tua faz séculos! É você que só me enrola." Eu me sentei ao lado dela e aproximei os lábios do pescoço alvo, aspirando o aroma doce do perfume dela. Marin estremeceu, e eu a segurei quando ela tentou se afastar.
"Aiolia, para... você tem que cumprir a aposta. Depois disso..." Ela deixou a frase no ar, o que só conseguiu despertar ainda mais minha imaginação – que não foi nada santa. Deslizei os dedos pelo decote comportado dela e comecei a beijá-la no pescoço.
"A gente não precisa transar hoje. Só curtir um pouco..." Murmurei mordendo a pele macia e ouvindo-a suspirar. Puxei-a para um beijo voraz e ansioso antes que ela tivesse tempo de protestar. Eu já estava totalmente excitado e doido para arrancar as roupas dela. Eu estava até com medo de ter ejaculação precoce, pela maneira como meu corpo correspondia facilmente à premissa de sexo no sofá.
Marin milagrosamente correspondeu ao beijo, e aí para eu deitá-la no sofá e me encaixar entre as coxas bem torneadas foi um pulo. Eu passei a mão pela parte interna da coxa dela e tentei subir a saia jeans que ela usava, mas Marin segurou minha mão.
"Sem sexo!" Ela sussurrou, fazendo-me grunhir antes de voltar a beijá-la.
Comecei então a acariciar a barriga lisinha dela por cima da blusa, com meu polegar vez ou outra fazendo o contorno inferior dos seios firmes. Senti que ela estava se rendendo, o que era ótimo, porque a coisa tava bem apertada lá embaixo, a ponto de começar a doer. Abrir o zíper da minha calça seria um alívio.
Quando eu arrisquei enfiar a mão por baixo da blusa dela e a erguer para poder ter acesso aos seios presos por um sutiã fino, o som de algo caindo no chão nos fez pular e olhar para a origem do barulho. Eu grunhi de frustração ao ver Mu desajeitadamente juntar um portarretrato do chão e colocá-lo de volta numa pequena prateleira.
"Desculpe!" Ele pediu apressado. "Não queria atrapalhar!"
"Mas já atrapalhou." Resmunguei irritado. Porra, o cara não tinha um horário melhor para aparecer, não? Nem ao menos havia escurecido! Que tipo de adolescente volta para casa antes da meia-noite em um sábado?
"Está tudo bem. Foi até bom você aparecer." Marin falou levantando e ajeitando as roupas, para minha completa infelicidade. Caí de costas no sofá e tapei o rosto com o braço. "Você é o Mu?"
Eu tinha comentando com ela sobre o Mu pouco depois de ela chegar. Ela encarou o garoto com uma curiosidade simpática.
"Eu sou. Prazer em conhecê-la." Mu se adiantou e estendeu a mão para ela, que retribuiu ao aperto.
"Prazer, eu sou a Marin, amiga do Aiolia." Ela explicou. Amiga? Quem me dera se todas as minhas amigas me deixassem prensá-las no sofá nas horas vagas. "Quando o Aiolia me falou que seus cabelos eram lilases eu não acreditei. Você pinta?" Ela perguntou interessada, e eu soltei uma risada nasalada.
"Discreta como um alce de patins, como sempre." Murmurei sarcástico.
"Cala a boca, Aiolia!" Ela amigavelmente replicou, como a doce garota que era. Mu riu suavemente da nossa bela interação e eu o espiei por baixo do braço. Devia ser minha ereção dificultando meu raciocínio – e sim, ela estava devidamente tapada por uma almofada –, mas eu acabei pensando em como ele ficava bonitinho rindo com as bochechas coradas.
Merda.
"Eles são dessa cor desde que eu me lembro. Acho que é algum defeito genético, sei lá." Ele encolheu os ombros.
"Sério? Nossa que diferente!" Marin exclamou. "Posso tocar?"
"Ele não é uma atração de circo, mulher." Eu avisei revirando os olhos e voltando a me sentar no sofá.
"Não tem problema." Mu replicou, e Marin me olhou por cima do ombro para graciosamente mostrar-me a língua. Mu soltou os cabelos da fita verde-limão e voltou a amarrá-la no pulso junto com as outras.
Ela se aproximou de Mu e tocou suavemente os cabelos dele.
"Nossa, é tão macio! O que você usa? Usa algum creme?" Marin perguntou impressionada. Revirei os olhos, enquanto Mu ria divertido. Sério, desde quando alguém faz esse tipo de pergunta a um homem?
"Não. Eu apenas lavo todos os dias. Xampu e condicionador só, daqueles bem normais." Mu estendeu a mão e tocou os fios ruivos de Marin. Ele era um pouco mais alto do que ela, e a encarava com um sorriso bastante... encantador.
"Os seus também são bem macios. E bonitos." Ele comentou.
"Sério? Você acha?" Ela perguntou retribuindo o olhar dele... porra, que merda está acontecendo? Que eu saiba era eu quem estava quase tirando a blusa dela há alguns segundos! E agora ela ficava toda cheia de sorrisinhos para outro cara?
Me levantei e puxei o braço dela, afastando-a de Mu, que recolheu as mãos e as colocou no bolso, parecendo bastante tranquilo, como se não houvesse feito nada de errado! O cacete que não havia! Mas eu iria me entender com ele depois de despachar a Marin.
"Vem, vou te levar para casa." Falei, arrastando-a para a saída.
"O que, por quê? Eu mal consegui conversar com seu novo amigo!" Ela reclamou, mas isso só fez com que eu apressasse o passo. Ela suspirou resignada. "Tchau, Mu! A gente se fala um dia em que o chato aqui não me queira pelas costas!"
"Até mais, Marin!" Ele replicou simpático.
Larguei Marin em casa – a pé mesmo, já que ela morava apenas a algumas quadras e ainda não estava escuro. Ainda consegui roubar uns beijos dela, e um quase convite para entrar, mas ela morava com os pais, e os velhos estavam na casa, então não teve jeito. O pai dela era ciumento e brabo como um touro.
Quando voltei, encontrei Mu estirado na poltrona, as costas apoiadas no encosto lateral e as pernas jogadas para o outro lado, usando fones de ouvido enquanto lia um livro – A Arte da Guerra. Ótimo para ele, porque era uma guerra que teríamos agora, se dependesse de mim. Fui até ele e tirei os fones do ouvido dele.
Mu pareceu se assustar, só então percebendo a minha presença, e se sentou direito, olhando-me confuso.
"Que foi aquilo de dar em cima da Marin bem na minha frente?" Perguntei irritado. Isso sem contar que ele havia acabado com a minha chance de dar um fim à minha maldita abstinência. Mu me encarou perplexo, com os olhos arregalados.
"O quê?" Ele perguntou.
"Você sabe do que eu estou falando! O jeito que você olhou para ela, bem na minha cara! Endoidou? Eu te deixo ficar aqui, mesmo sem ser avisado de nada com antecedência, e você vai e dá em cima da minha garota na primeira oportunidade!" uma coisa que você precisa saber sobre mim: eu sou extremamente ciumento. Do tipo neurótico insuportável.
Talvez eu estivesse exagerando um pouco. Mas que se foda, a razão estava do meu lado.
"Eu não estava dando em cima dela!" Mu exclamou ainda perplexo.
Eu segurei a camisa dele e o puxei para perto de mim, e ele me olhou verdadeiramente assustado. Tá, eu não ia bater nele, eu só queria dar ênfase ao que eu estava dizendo.
"Ah não? 'Seus cabelos são muito macios e bonitos também.'" Imitei, ou tentei imitar, a voz dele, mas saiu algo bem mais fino e estranho do que a verdadeira voz dele. Ele se desvencilhou de mim com uma facilidade que me abismou, e se afastou alguns passos.
"Já disse que não dei em cima dela! Só estava tentando ser simpático! Eu não tenho nenhum interesse na Marin." Ele falou enfático, começando a me encarar irritado. A ênfase dele me irritou. Como se fosse muito superior para ter ficado a fim da Marin.
"E posso saber por quê? Por acaso não acha ela bonita? Sexy? Gostosa?" E lá estava eu não fazendo muito sentido. "Não acha que ela é boa o suficiente para você?"
Ele piscou aturdido. Devia estar me achando mesmo um lunático. Se ele fosse esperto procurava algum outro lugar para morar o mais cedo possível. Homens em abstinência são perigosos.
A merda foi que ele abriu a boca e acabou com meus argumentos, minha raiva e frustração com apenas uma frase, que foi dita da maneira mais natural e calma possível. E uma pose inabalável de quem não tem vergonha do que diz.
"Eu não tenho interesse nela porque não me interesso por nenhuma garota. Eu sou gay." Foi o que ele disse. Ele cruzou os braços sobre o peito e me encarou seriamente. "É bom até que você já saiba desse detalhe. Se tiver algum problema por isso, por favor, me fale que eu dou um jeito de encontrar outro lugar onde ficar."
Meu queixo estava lá no chão. Eu o olhei de cima abaixo, tentando encontrar indícios de verdade nas palavras dele. Tá certo que ele tinha os traços mais suaves e bem-desenhados que a maioria dos homens, mas isso não indicava que ele era gay; apenas que não era um barbado desengonçado como a maioria dos caras.
"Eu não tenho problemas com isso." Balbuciei com um tom estranho.
Ele me analisou atentamente antes de assentir.
"Certo." Toda a seriedade sumiu do rosto dele numa velocidade espantosa, enquanto eu continuava com cara de tacho, em pé no meio da sala. "Onde eu posso tomar um banho?"
"Ah..." Pisquei desorientado. "Tem que ser no banheiro do meu quarto... O banheiro comum está com problema no encanamento."
"Ok..." Observei ele ir pegar algumas coisas na mala dele.
"Pode subir. Sinta-se em casa." Reforcei quando ele pareceu inseguro em ir para o segundo andar. Ainda bem que eu já havia limpado a cama e me livrado das camisinhas jogadas no colchão.
Ele assentiu e subiu e, assim que ele sumiu de vista, eu caí no sofá, ainda estarrecido.
Ele era gay.
Por que eu sentia que isso só piorava as coisas?
XxX
Pedi uma pizza de janta. Sentei no sofá e coloquei em algum filme. Depois de algum tempo, Mu desceu as escadas cantando 'Hey Jude' dos Beatles.
So let it out and let it in
Hey, Jude, begin
You're waiting for someone to perform with
And don't you know that is just you?
Hey, Jude, you'll do
The movement you need is on your shoulder
Na na na na na na na na
E não é que o desgraçado cantava bem? Olhei para figura dele descendo as escadas. O que não foi uma boa ideia, devo dizer, já que ele estava só com uma calça bege meio surrada. Se lembra quando eu disse que ele era um magricela?
Pois é, eu estava errado. Não que ele fosse muito encorpado, mas o torso dele tinha uma definição bonita e proporcional. E, sei lá, havia algo de sexy em todo o conjunto. Os cabelos molhados e compridos dele escorriam pelas costas e estavam mais escuros que quando secos, de modo que contrastavam fortemente com a pele clara dele.
Tá, o cara é sexy! É um problema tão grande assim eu reparar?
"Eu esqueci de pegar uma camiseta." Ele explicou indo até a mala dele e se agachando para pegar o resto da roupa. Eu engoli em seco e concentrei minha atenção na televisão quando meus olhos acabaram se desviando para os mamilos rosados e endurecidos pelo frio. Era início de outono, então costumava esfriar à noite.
"Você vai acabar pegando um resfriado se continuar com essa cabelama molhada." Funguei. Meus cabelos são castanhos e apenas ligeiramente compridos, um pouco ondulados. Bem mais prático.
Eu não sei como aquele cara aguentava aqueles cabelos até a cintura.
"Eu pedi pizza." Informei casualmente, cuidando pelo canto do olho ele colocar uma camiseta larga e branca que escorregou por um dos ombros dele.
"Legal." Ele assentiu distraído. "O que você está vendo?" Mu fez que iria se sentar no sofá mas parou, olhando desconfiado para o estofado. Revirei os olhos.
"Eu não transei com a Marin aqui, não se preocupa. Você chegou antes que isso acontecesse." Falei azedo, com os lábios torcidos. Mu voltou a parecer constrangido e resolveu sentar. Um cheiro de lavanda vinha dos cabelos dele, o que fez com que eu me remexesse desconfortável no sofá.
"Foi mal mesmo. Sei como é chato quando alguém atrapalha. Teve uma vez-"
"Eu não quero saber sobre suas fodas frustradas." Cortei rapidamente. Não quis ser grosso, mas sexo não era um assunto seguro no momento. Meus hormônios estavam mais incontroláveis do que de um guri que descobriu os benefícios da masturbação pela primeira vez, e o cheiro dele já estava me deixando com um incômodo na boca do estômago. Um formigamento que ameaçava descer mais do que o aconselhável.
De qualquer forma, ele não pareceu abalado pela minha resposta atravessada.
"Você e a Marin são namorados? Ela é muito bonita, com aqueles cabelos vermelho-fogo." Ele tamborilou os dedos nas pernas e se encostou melhor no sofá. Parecia cansado. A viagem até aqui devia ter sido bastante estafante.
"Não somos namorados." Grunhi. "Ela é cheia de frescuras. Me obrigou a fazer essa aposta-" Eu me interrompi percebendo que acabaria falando demais. Mu se virou para mim com uma careta curiosa.
"Que aposta?" Ele apoiou o queixo no punho na mão e me encarou fixamente. Senti um fiapo de suor escorrer pela minha testa e uma vergonha gigantesca de admitir que estava em abstinência por causa de uma garota. Soava ridículo em voz alta.
"Deixa para lá." Falei, e para minha salvação, a companhia tocou, indicando que a pizza havia chegado. "É bom que esteja com fome. Pedi uma pizza família." Avisei.
Nós pegamos uns pratos e guardanapos e jantamos no sofá mesmo, assistindo o filme que não era lá muito interessante, mas dava para o gasto. De qualquer forma, ficamos mais conversando do que prestando atenção no filme.
Mu morou a infância no Tibet e depois com os tios em outra cidade, mais perto da 'civilização', onde fez o ensino médio. Pelo que entendi, ele era um estudante excepcional, apesar de ele tentar não dar muita ênfase nisso. Mas as notas dele, e suas atividades extracurriculares eram suficientes para conseguir uma vaga em qualquer universidade do mundo.
Ele escolheu a Link porque ela era bem conceituada e não tão longe de onde ele estava morando antes. Mu não parecia do tipo ambicioso, apesar de ter pretensões de poder ajudar na manutenção da natureza depois que se formasse. Já eu apenas gostava de brincar com meus números e dar aulas.
Me senti terrivelmente sem propósitos na vida enquanto ele falava sobre desenvolvimento sustentável e a importância da conscientização das pessoas quanto à preservação dos recursos naturais do planeta. Geralmente esse assunto me daria sono, mas ele falava com tanta empolgação e ênfase que era difícil não se sentir envolvido.
"Você vai acabar indo trabalhar na ONU, na parte de Meio Ambiente." Brinquei, mas eu já estava quase convencido disso. Ele era inteligente e idealista. Tinha uma meta, uma ideia fixa, e muita vontade. Isso era algo raro de se ver em alguém tão novo.
Ele sorriu com o meu comentário e se aconchegou nas almofadas. Eu havia esticado o sofá para que pudéssemos deitar. Aí assim já estaria meio pronto para ele dormir. Ele parecia sonolento depois de tanto falar. O filme já havia terminado e a sala estava escura, com apenas a luz da televisão em stand by nos iluminando.
Eu mordi o lábio quando ele chupou a ponta dos dedos com os quais ele havia segurado a pizza. Olhei para o corpo dele, languidamente estendido no sofá, e senti outro fiado de suor escorrer pela minha nuca. E não estava calor, veja bem. Como eu já comentei, era outono, e a noite estava fresca.
Respirando fundo, cutuquei o ombro de Mu.
"Hei, você precisa ir escovar os dentes. Vai lá que eu arrumo aqui o sofá para você dormir." Murmurei.
Mu soltou um resmungo sonolento, mas se levantou, sem dizer nada. Pegou uma escova de dente na mala dele e foi no lavabo perto da cozinha. Balancei a cabeça, afastando pensamentos perigosos, e arrumei rapidamente o sofá. Quando eu estava apagando a televisão, Mu voltou para a sala e caiu praticamente morto no sofá, e em questão de segundos a respiração dele já era de alguém no vigésimo sono.
Eu subi para o meu quarto e tentei não pensar em como, em apenas um dia, eu havia reparado mais nele do que em qualquer outro cara em toda a minha vida. Não era um bom pensamento para logo antes de cair no sono, se é que me entende...
XxX
Era o primeiro dia de aula de Cálculo e Geometria Analítica I para os novos estudantes de engenharia. Eram três aulas por semana, com duração de uma hora e quarenta minutos cada. A sala, como todas as outras da faculdade, era uma espécie de auditório. Eu ficava em um palco mais rebaixado, e os alunos sentavam-se em fileiras dispostas em degraus que iam subindo até os fundos da sala.
Mu, usando uma camisa branca, com manchas coloridas e esparsas de mangas compridas e um cachecol de linho creme no pescoço, se sentou na terceira fileira e sorriu animado para mim. Queria só ver se ele continuaria com esse sorriso até o final da aula. Em geral os alunos pareciam que acabavam de sair de uma sessão de tortura ao final do período.
Não porque eu fosse um péssimo professor, mas porque a matemática não é uma arte muito adorada pela população em geral. Cálculo é bastante subjetivo e não tem nada a ver com nenhuma das engenharias, por ser muito básico. Há conceitos nele que serão usados por toda a faculdade, como derivação e integração. É uma cadeira 'temida', mas não porque difícil, e sim porque é a primeira vez que os estudantes se deparam com o 'clima' de faculdade. Há coisas bem piores mais para frente, mas aí todos já estão acostumados a lidar com a carga de estudos.
"Meu nome é Aiolia. Vou ser o professor de Cálculo I de vocês nesse semestre." Comecei, e recebi alguns assobios. Coisa comum vinda de adolescentes. Adoram tirar sarro. "As aulas têm duração de uma hora e quarenta minutos, sem intervalos. Mas não se preocupem, geralmente eu acabo bem antes, se vocês colaborarem e não fizerem tanto barulho." Essa era uma ótima estratégia para mantê-los calados por pouco mais de uma hora. "Vocês terão três provas por semestre. Todas as informações sobre elas podem ser encontradas no site de Cálculo da universidade. Qualquer dúvida, falem comigo no final da aula, e não se acanhem em me interromper durante a aula para tirar alguma dúvida. Espero que todos tenham comprado o livro indicado no site, porque, acreditem, vocês vão precisar dele."
Durante meu discurso, reparei que um rapaz de cabelos loiros sentou-se ao lado de Mu, e se inclinou para cochichar algo no ouvido dele. Mu sorriu e sussurrou algo em retorno. Me senti terrivelmente ignorado enquanto eles continuavam a conversa em tom baixo, e eu prosseguia com a aula, e as primeiras noções sobre gráficos e essas bobagens que todo mundo sabe. A coisa começava a complicar lá pela segunda semana de aula.
Eu e Mu havíamos passado o domingo meio que juntos. Na verdade, eu o trouxe até a universidade e mostrei todo o lugar para ele, para que ele não ficasse tão perdido no primeiro dia. Mostrei as salas onde ele teria aula, os auditórios, e contei um pouco da história da faculdade. Ela recebera o nome de Link porque integrara várias pequenas 'escolas' de nível superior, há uns quase cento e cinquenta anos.
Mu se empolgou com tudo que viu e escutou atentamente tudo que eu contara. Eu gostava de pessoas que ouviam com atenção, sem ficar virando o rosto, dando a entender que estavam achando o assunto o saco. Mu parecia sempre atento a tudo que os outros falavam.
Mesmo agora, trocando cochichos com o rapaz loiro, ele mantinha um olho em mim, e não parecia perder uma palavra do que eu dizia ou anotava no quadro. Mas eu só percebi isso quando ele ergueu a mão e fez uma pergunta que apenas alguém que realmente estivesse prestando atenção perguntaria.
E era uma pergunta bastante avançada, o que deixou a maioria dos alunos com uma careta contrariada em direção ao Mu.
"Muito boa pergunta, Mu." Elogiei. E depois pigarreei ao perceber que havia usado o nome dele com bastante intimidade. Aí respondi rapidamente tentando soar natural, mas percebi que o rapaz sentado ao lado de Mu estreitou os olhos para mim, desconfiado. Era só o que me faltava – Mu havia ganhado um admirador logo no primeiro dia e eu já estava recebendo olhares atravessados do cara.
Quando dei a aula por encerrada, Mu guardou as coisas na mochila e se aproximou sorridente de mim.
"Muito boa a sua aula, Olia. Gostei muito!" Ele elogiou empolgado.
"Aqui dentro você tem de me chamar de professor." Avisei seriamente, mas Mu apenas dispensou o comentário com um movimento de mão, como se espantasse uma mosca chata. Ótimo, agora eu havia virado uma varejeira.
"Sabe que todos os alunos falam super bem de você? Não sei se você sabe, mas sua aula é disputada. Dizem que os outros professores de cálculo não são tão bons e acessíveis quanto você. E as garotas dizem que nenhum é tão bonito." Mu riu.
Ergui as sobrancelhas. Eu não sabia disso. Quer dizer, eu já tinha ouvido reclamações de alunos sobre um outro professor de cálculo, que já era um porre fora sala de aula, e eu só imagino o pé na bunda que deveria ser dentro, mas que minha aula era disputada, era a primeira vez. Mu sorriu mais largamente perante a minha careta de surpresa.
"Eu dei sorte de cair direto na sua aula." Ele comentou.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, o loiro se aproximou, e percebi como descaradamente colocou uma mão nas costas do Mu.
"Nós vamos nos atrasar para a aula de Introdução, Mu." Ele falou perto do ouvido de Mu, que, percebi, corou ligeiramente. Eu torci o nariz com a cena.
"Seu novo amigo?" Perguntei com um desdém que me surpreendeu.
"Esse é o Saga." Mu apresentou animado. "Conheci ele hoje de manhã. Ele também entrou em Engenharia Ambiental agora!"
Não gostei da empolgação do Mu. Na verdade, não fui nada com a cara do tal Saga. Ele tinha um jeitinho superior e arrogante que eu logo detestei. Não sei como Mu não via isso. Eu duvidava que ele sentisse vontade de mudar o mundo como Mu sentia. No máximo, ele tinha vontade de piorá-lo e explorar os recursos naturais do planeta até a exaustão.
"É melhor vocês se apressarem. Conheço a professora de vocês de Introdução à Engenharia Ambiental, e ela é barra pesada." Informei, e não era mentira. Ela dava outras aulas no setor de engenharia e era famosa por sua exigência ferrenha.
"Certo." Mu assentiu não parecendo preocupado, e saiu da sala junto com Saga, que me olhou por cima do ombro com as sobrancelhas erguidas antes de dobrar no corredor.
Revirei os olhos. Adolescentes, sempre vendo pelo em ovo. Saí dali e fui para o departamento de Design, onde Marin dava aulas. Encontrei ela na sala dos professores do departamento que, felizmente, estava vazia. Sorri malicioso quando fechei a porta às minhas costas.
"Oi." Sussurrei no ouvido dela, pelas costas, fazendo-a levar um susto.
"Aiolia!" Ela repreendeu, virando-se. "Você não deveria estar dando aulas?"
"Acabou agora pouco." Falei colocando as mãos na cintura dela. "Fiquei com saudades."
Ela revirou os olhos e saiu de perto de mim.
"Sabe que não podemos fazer nada aqui dentro. Se nos pegam, perdemos o emprego. Se lembra quando demitiram a Kátia e o Logan? Então trate de manter essas mãos comportadas." Ela avisou duramente, em estilo professora má. "E você ainda tem que terminar de cumprir sua promessa."
Bufei irritado.
"Eu me pergunto se você está sem sexo durante todo esse tempo." Grunhi. Eu e Marin tínhamos uma relação meio estranha. Éramos amigos há muito tempo, já havíamos trocado alguns beijos, mas por me considerar um galinha, ela nunca me deixou ir além de raros amassos. Esse tempo sem sexo seria a prova que eu queria ficar com ela de verdade, e não com as garotas com quem eu me envolvia em busca de uma noite de prazer.
Ergui as sobrancelhas quando ela ficou em silêncio.
"Você está brincando, não está?" Me ergui enfurecido. "Eu estou na seca esse tempo todo, e você fazendo a festa?"
"Eu não fiquei com ninguém!" Ela retrucou rapidamente. "É só... há umas três semanas eu fui numa festa com umas amigas e fiquei com um cara. Não foi além disso."
Eu me virei e saí da sala. Sem querer soar dramático, mas como eu disse, eu sou ciumento. Eu e ela não tínhamos nada, já que não éramos namorados. Só ficantes esporádicos. Mas saber que ela estava se divertindo enquanto eu tinha que me manter longe de festas, álcool e garotas me irritou profundamente.
Ainda ouvi ela me chamar, mas não parei. Eu tinha aula em alguns minutos, de qualquer forma. Não tinha tempo para discussões. No meio do caminho, parei ao escutar a voz de Mu.
"Acho que nos perdemos." Ele falou. "A professora não gosta de atrasos."
"Talvez aquele professor de cálculo só quisesse assustar." Saga replicou. Ou ao menos eu achava que era Saga.
"Hei, achei você, Saga! Vem, a aula é por esse caminho!" Uma outra voz surgiu em socorro. "Oh, olá gracinha, e você quem é?"
Nessas alturas eu já espiava o trio da dobra do corredor. Vi Mu corar e Saga revirar os olhos.
"Esse é o Mu. É nosso colega. Mu, esse é o Shiryu. Não dê ouvidos ao que ele diz, ele não costuma ser discreto." Saga informou em um tom entediado, e o tal Shiryu fungou ofendido. "Onde você estava que perdeu a aula de Cálculo?"
"Ah, o início da matéria é muito ridículo. Qualquer criancinha entenderia, então aproveitei para ir para casa tirar um cochilo." Ele falou com descaso.
Ah, eu lembraria dessas palavras na hora de corrigir a prova dele.
"Você sabe para que lado fica a aula?" Mu perguntou.
"Claro! Sigam-me, rapazes!" Shiryu exclamou virando-se para o lado oposto do corredor e fazendo um aceno para que eles o seguissem. Achei um absurdo a intimidade de Saga ao passar um braço pelos ombros de Mu enquanto se afastavam. Eles recém haviam se conhecido! Essa juventude não tinha jeito mesmo.
E não me olhe como se eu fosse um velho retrógrado. Eu não saía abraçando ninguém no dia em que fazia amizade. E era óbvio que o tal Saga queria mais do que apenas amizade. Era melhor eu alertar Mu sobre isso. Ele tinha um jeito ingênuo que me preocupava.
O resto do dia passou tranquilo, e quando voltei em casa, me preocupei ao não encontrar Mu por lá. Só então percebi que ainda não tinha o número do celular dele. A faxineira que eu chamara, e que vinha vez ou outra, já estava de saída e me cobrou caro por ter que colocar em ordem o quarto de visitas.
"Aquilo mais parecia um buraco negro!" Ela resmungou. É, ela não deixava de estar certa.
Levei a mala de Mu para lá e respirei aliviado, sentando na cama. Alguma coisa me incomodava. Eu sentia que estava esquecendo de algo que deveria ter feito hoje antes de voltar para casa. Só depois de vários minutos me toquei que deveria ter pego o Átila, meu cachorro, na petshop. Que ótimo dono eu era.
Saí correndo de casa e quando cheguei lá, levei uma bela de uma bronca do dono do lugar. Eu deveria ter passado por ali ontem, na verdade, mas me distraíra levando o Mu para visitar a faculdade. Átila voou em cima de mim com seus mais de trinta quilos. Se eu fosse um pouco mais fraco, teria isso ao chão e recebido um banho de baba.
"É bom que não volte a esquecer esse cachorro por aqui!" A veterinária reclamou. "Ele é impossível de se manter quieto e comportado!"
Sorri sem graça e tirei Átila daquele lugar chato.
"Desculpa, amigão. Vou te recompensar." Avisei, acariciando as orelhas dele. "Que tal um passeio no parque? Aposto como esses dois dias ali dentro te deixaram lento."
Átila latiu empolgado e fomos correr no parque central da cidade. Era um lugar enorme e bem bonito, arborizado, com pessoas correndo, andando de bicicleta, fazendo piquenique, jogando frisbe, entre outras coisas que se faz em um parque. Corremos por quase duas horas, com alguns intervalos intercalados.
Chegamos os dois exaustos e encharcados de suor em casa depois disso. Átila entrou correndo casa adentro, feliz por estar de volta. E só quando eu ouvi um berro de susto e o som de algo caindo e quebrando na cozinha é que eu me lembrei que agora eu tinha um hóspede.
Corri até a cozinha e encontrei Mu caído no chão, com Átila em cima dele o enchendo de lambidas. Havia cacos do que restara de um copo no chão, e suco de uva manchando o piso da cozinha.
"Olia!" Mu ofegou tentando fugir das lambidas. "Me ajuda! Eu..." Ele começou a ficar com falta de ar. De novo eu havia esquecido de algo fundamental: Mu tinha asma. Era óbvio que os pelos sujos que Átila estava soltando em cima dele lhe causariam uma crise.
Corri de novo e tirei Átila, que latia animado, de cima dele. Mu rapidamente tirou a bombinha de dentro da calça jeans e levou-a à boca. O alívio ao poder respirar normalmente foi evidente em seu rosto de linhas suaves.
"Átila, fica quieto!" Reclamei, empurrando-o para longe.
Mu conseguiu se levantar parecendo um pouco abalado, com uma mão na testa.
"Que cachorro é esse? É seu?" Ele perguntou, dando um pulinho para trás quando Átila ameaçou se jogar em cima dele de novo, mas felizmente eu consegui detê-lo.
"É meu. Esqueci de avisar que tinha um. Ele estava na petshop." Contei. "Só um pouco, vou levar ele para o pátio dos fundos."
Levei Átila para lá, por uma porta da cozinha mesmo. Levei-o até o quiosque onde ele dormia e mandei ele ficar comportado. Átila soltou um latido desobediente, mas meu olhar fulminante fez com que ele se sentasse e fechasse a boca.
Quando voltei para dentro de casa, Mu limpava a sujeira que Átila havia causado.
"Pode deixar que eu-"
"Está tudo bem. Já estou terminando." Mu falou.
"Desculpa pelo Átila. Ele tem mania de pular em cima das pessoas, e eu esqueci que não estou mais sozinho em casa." Cocei a parte de trás dos cabelos. Mu sorriu divertido ao se levantar com a pazinha de lixo repleta de cacos.
"Relaxa. Eu estou bem. Eu vou ter que fugir dele por causa dos pelos, mas minha asma não é tão severa. Ela piora quando eu estou nervoso ou acabo de levar um susto. Ah, eu vi que o quarto de hóspedes está limpo! Aquele era um caso grave, eu não me lembrava de ter tido um ataque de asma só de olhar para tanta poeira!" Ele riu indo enrolar os cacos em um jornal velho antes de jogar tudo no lixo.
Eu encolhi os ombros envergonhado.
"Sabe como é, eu nunca recebo visitas que ficam para a noite. O lugar estava meio esquecido." Tentei explicar, mas Mu apenas riu um pouco mais.
Ele terminou rapidamente de limpar o chão, depois de me escorraçar quando me ofereci para limpar o suco derramado, e aí eu lembrei o que queria falar com ele sobre o tal Saga.
Interrompi Mu, que cantava Lucy in the Sky with Diamonds enquanto terminava de limpar.
"Não sei se você percebeu, mas aquele seu novo amigo..." Comecei a falar, atraindo a atenção dos olhos verdes de Mu. "O Saga. Ele não parava de dar em cima de você... É melhor você tomar cuidado com ele."
Mu se levantou e piscou repetidas vezes, parecendo processar a informação.
"O quê?" Perguntou admirado, e eu senti um rubor na face. Por que eu havia aberto a boca mesmo?
"Erm... É só para você ficar de olho. Se ele tentar algo que você não queira, er... tentar forçar a barra, você pode vir falar comigo e-"
"Aiolia." Mu me interrompeu com uma seriedade que me fez calar a boca de imediato. "Eu não sou uma garota indefesa. Eu sei me cuidar."
"Eu não quis dizer-"
"Mas obrigado pela preocupação." Ele sorriu voltando a parecer o garoto de índole simpática e descontraída, e eu tive que engolir tudo o mais que queria dizer. "Mas de qualquer forma, Saga é bem bonito, você não acha?" Ele perguntou com uma piscadela, jogando o pano na pia e saindo da cozinha.
Meu queixo caiu.
"É claro que não acho!" Exclamei em retorno, e ouvi uma risadinha divertida de algum ponto da casa.
NA: Obrigada a quem comentou! :)
poke: Que delícia te ver por aqui tb, chuchu! O Mu é uma fofura só, né? Nossa, eu amo esses ukes fofos... tenho uam queda ginorme por eles, então entendo perfeitamente o Aiolia, uahuahaua! E você sinta-se livre para sempre pedir por mais, auhauahu! Beijão!
Lola: Né? Bia nos faz viciar nesses dois, xDD E eu bem que queria um professor como o Aiolia. Juro que matemática seria muito mais interessante e sexy! UHAUAH! Beijinhos!
Musha: Uma review internacional, que inusitado! Obrigada pela review! Eu concordo com tudo que você disse sobre o Mu! Ele é um amor. ;D Aiolia já andou demonstrando ciuminho. XDD Beijos, querida.
