Prólogo
-2021-
ALBUS:
Todas as vezes que eu sou forçado a assistir cenas como a que eu vejo agora, eu me pergunto se estou ficando lentamente louco.
Eu tento desviar meus olhos e prestar atenção nas instruções da poção descrita em meu livro, mas não consigo. O som da respiração ofegante de Scorpius e da voz grave de James sussurrando alguma obscenidade estúpida não permite que eu me concentre. É impossível prestar atenção em ingredientes assistindo Scorpius rebolando lentamente no colo de do meu irmão mais velho, se movendo com uma fluidez que me faz pensar em todas as outras vezes em que ele fez isso, em todos os outros caras que tocaram a pele de Scorpius - até ele alcançar essa destreza. Sinto minhas mãos tremerem diante desse pensamento, mas se de raiva ou desejo, eu não sei dizer. Aperto o livro com mais força, tentando me focar em outra coisa, mas é inútil.
Sempre é inútil quando se trata de Scorpius.
Observo em silêncio Scorpius arquear as costas e oferecer o pescoço para James com um gemido baixo. Vejo os lábios do outro se colarem contra a pele sensível, como Scorpius se agarra com mais força à camisa de James e como investe o quadril com um pouco mais de força contra meu irmão. Já não consigo nem tento evitar que minha respiração se acelere e o interesse despertando em meu corpo. Talvez algum ponto em mim, que eu nego, já considere que é uma batalha perdida e que, no fundo, eu não quero realmente lutar. Permito-me inconscientemente apreciar o rubor no rosto de Scorpius quando James o encara antes de beijá-lo fundo, tão fundo que eu fico sem fôlego de capturar vislumbres das línguas se tocando. Merlin, a expressão de total entrega no rosto de Scorpius me deixa completamente extasiado e eu preciso lutar para não permitir que minhas mãos encontrem seu caminho por dentro das minhas roupas.
Numa última tentativa, inspiro fundo e fecho os olhos, fingindo que minha mente não forma as imagens futuras dos sons que ainda estão claramente presentes na cama ao lado, o que parece impossivel diante da cada descrição erótica James Aperto os lábios, prendendo a respiração por instantes antes de deixar o ar escapar devagar e meus olhos tentarem - apenas tentarem - retornar à leitura. Se somente eu pudesse também ignorar as demais sensações em meu corpo, e os movimentos que capto com a margem do meu campo de visão...
E então sinto um toque em meu ombro, acompanhado pela sensação do colchão afundando ao meu lado. Vejo Fred se aproximar, os lábios bem próximos de meu ouvido - nem mesmo vi quando ele entrou no dormitório - e sussurrar com seu hálito quente (e levemente alcoólico?) enquanto fecha o livro sobre minhas coxas.
"Quer experimentar como ele é apertado, Al? Só sete galeões e ele é seu..."
Eu sinto o arrepio percorrer meu corpo. Sinto cada pêlo se eriçar e a sensação do peso daquelas palavras me faz questionar intimamente se o arrepio foi pela raiva e aversão a Fred, ou pelo prazer subentendido naquela proposta. Mordi o lábio sem perceber e desviei os olhos do sorriso sádico de Fred bem a minha frente. Nesse momento ele riu de um tom baixo, mas propositalmente provocante e audível, e se levantou, passando por cima da minha cama e deixando um dos dedos deslizar pelos meus joelhos.
Não consegui, dessa vez, impedir meus olhos de acompanharem seus movimentos sinuosos até a cama de Scorpius, onde meu irmão estava sentado com o loiro sobre si ainda em sua distração rítmica de gestos insinuantes, murmurio obceno e, vez ou outra, gemidos baixos. Fred me observava sobre o ombro, e eu ignorei esse olhar fixando-me na mão que ele deixava correr pelas costas do meu colega de quarto. Os dedos morenos deslizando pela pele pálida até o cós do short preto que Scorpius vestia. E então os lábios do mulato alcançaram o pescoço longo e branco, e a língua correu ali. Quando Scorpius contorceu-se sob o toque e o aperto que James dava em suas coxas, com a ponta dos dedos já ultrapassando a barra do short curto, eu me levantei, bufando com raiva – deles por estarem claramente me provocando, e de mim, por estar prestes a ceder – e lancei um último olhar para o trio.
As mãos de James fizeram Scorpius se erguer nos joelhos sobre o colchão, de modo que seu quadril ficassem na altura do rosto de meu irmão. Os dedos de Fred puxaram o short um pouco para baixo, e apertaram a pele que expuseram. Então Scorpius olhou para mim, o rosto já assumindo o leve rubor de prazer, e a língua passou rapidamente umedecendo os lábios antes de ele sorrir. Eu odeio quando ele tenta fazer isso...
"Eu tenho nojo de vocês! Eu tenho nojo do que vocês fazem! Eu... Eu..."
Eu não queria dizer aquilo. Joguei o livro no chão com força quando os três na cama voltaram-se para me observarem. E eu não me importei com como James ou Fred me encararam, ambos com um sorriso de deboche no rosto. Mas Scorpius tinha um misto de vergonha e tristeza no olhar que teria me feito voltar e pedir desculpas por aquilo que eu disse. O que me impediu foi Fred, que no momento seguinte pareceu perceber também a insegurança de Scorpius e tomou seu queixo com uma das mãos.
"Não liga pra ele, Scorpie."
"É..." James emendou, passando uma mão pela coxa direita do loiro e beijando a cintura. "Ele tem inveja porque a gente aproveita e ele não."
"A gente podia até fazer um desconto pra ele, não é, Scorpie?" O moreno voltou a dizer, ainda com aquele sorriso cretino no rosto. E, puxando o queixo de Scorpius, beijou-lhe os lábios de maneira quase obscena. "O problema é que ele é covarde demais..."
Eu percebi que, mesmo ainda rindo, meu irmão mudou um pouco a postura e esperou uma reação minha. Talvez eu tivesse prestado atenção nisso, se depois da provocação de Fred, Scorpius não fechasse os olhos e correspondesse ao beijo que recomeçara.
Na verdade, eu não sei se era nojo realmente o que eu sentia...
Inspirei fundo, tendo consciência do calor que subia agora para minha face e que vinha com um misto de raiva, muita raiva, e vergonha, e saí do dormitório do quarto ano com passos pesados.
