Capítulo – 2
- Falou com ele? – Chamou-me Kozi, em algum lugar a minha direita. Eu tinha entrado no estúdio e sequer tinha me dado conta.
Esbocei um sim com a cabeça, pelo jeito meu péssimo humor não respondia por si só, ou eles estavam se deliciando em querer ouvir isso da minha própria boca. Vi pelo canto do olho que os outros se olharam.
- E como foi? Ele aceitou numa boa? – Dessa vez eu não me contive, por puro impulso olhei na direção de Yuki com um olhar que deu muito bem a entender. Eu decididamente só queria pegar a minha guitarra e esquecer de toda aquela conversa. Ainda estava tentando digerir tudo o que acabara de acontecer. Sim, no fundo eu realmente acreditava que era passageiro, que ele iria entender, que iria mesmo ficar tudo bem. Bem no fundo, eu queria acreditar.
- Ah, bem, ele supera, certo? – Disse Kozi dando um tapinha nas minhas costas. Tudo bem, ele era meu amigo, mas nessa hora eu desejava que ele não me tocasse, aliás, que todos eles ficassem bem distantes de mim, e pudessem sofrer só uma parte do inferno sentimental pelo qual eu estava passando.
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Kozi não estava errado. Gackt superou sim, da melhor forma que eu já vi alguém superar uma "demissão": Declarando para a mídia que tinha se demitido, e usando os mesmos argumentos que nós tínhamos citado para ele sair. Divergências bla, bla, bla... O velho e rodado papo que todos conhecem e ninguém acredita.
Todos ficaram chocados com a declaração, mas estávamos "cansados" demais para brigar e esclarecer a situação. Eu deveria ter previsto, ele tinha um ego grande demais para admitir publicamente que não precisavam mais dele, na época não pude culpá-lo.
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"- Gackt, você e os outros membros da banda eram diferentes entre si. O que todos tinham em comum para fazer parte da mesma banda?
- Hum... todos gostavam de homens?"
- AHHHHHHHHHHHHH NÃO! ELE NÃO FALOU ISSO!
- Quer se acalmar, por favor, Kozi? A televisão não tem culpa... – A verdade era que Yuki nunca se importava com qualquer especulação da mídia, para ele tanto fazia se Gackt fosse em rede nacional e declarasse que já tinha dormido com cada um de nós.
Eu só conseguia olhar para isso, e sem querer baixar guarda para aquele velho ressentimento. Fazia agora quase seis meses. Seis meses sem Gackt no vocal. Seis meses tentando encontrar um novo vocalista. Seis meses de telefonemas, cartas e e-mails não respondidos. E logo depois do ressentimento vinha a tristeza, e o sentimento de solidão. Era tão clichê, tão esperado. E mesmo assim, eu não conseguia me acostumar, não conseguia aceitar que tudo tinha acabado daquele jeito mesmo e simplesmente seguir em frente. A diferença era que agora eu também não conseguia mais demonstrar qualquer indignação, não, definitivamente isso ficou guardado nos três primeiros meses. Noites inteiras sem dormir, calmantes, e muita maquiagem no dia seguinte para conseguir disfarçar tudo. Para a banda era uma nova fase, com novas perspectivas. Para mim, era o término dos melhores momentos da minha vida, o inferno pós paraíso, o fim. Para a banda, era só a saída do vocalista problemático. Para mim, a perda de alguém que havia sido muito mais que um amante.
Dramático? É, eu até poderia estar sendo, não fosse o fato que ele cortara qualquer ligação que tinha comigo. As chaves do meu apartamento ele devolveu, nunca mais foi aos lugares que freqüentávamos, aliás, nunca mais deu qualquer sinal de vida. Era como se, como se quisesse me excluir de sua vida, como se tudo que tínhamos sido fosse apenas um erro, o qual ele estava tentando consertar. E eu não podia demonstrar nada; por orgulho, meu e dele; por fachada, minha e dele. Ninguém sabia, mas todos desconfiavam. Era basicamente isso. E definitivamente, não éramos o tipo de casal que poderia sair por aí de mãos dadas sem chamar atenção. Por sermos homens, por sermos da mesma banda, por sermos famosos.
Engraçado né? Como sempre colocamos outras coisas de menor importância na frente daquilo que realmente nos faz feliz. Nunca assumimos nada, só para manter a imagem. Quanta futilidade, quanta hipocrisia, quanta perda de tempo...
Agora eu tinha que engolir o fim assim, calado, como se estivesse numa entrevista eterna. Sem demonstrar dor, sendo engolido pela personagem que eu mesmo criara. Com quem eu poderia me abrir? Quem iria entender o que era estar dividido do jeito que eu estivera? Gackt? É, eu achei que sim. Pelo jeito eu estava cruelmente enganado.
E sempre me perdia pensativo, olhando as entrevistas que ele fazia em diversos programas, ficando o mais próximo que eu podia ficar da sua imagem, e fantasiando a sombra de um contato. Eu me perguntava se por trás daqueles sorrisos falsamente tímidos, daquele sarcasmo escondido na voz, se ele também não sentia minha falta. Era difícil acreditar que só eu sentia falta das noites que passávamos juntos, das conversas, das brincadeiras, até mesmo dos ensaios e das entrevistas. Sentia falta de estar ali, ao lado dele, com o mesmo sorriso sério, sem falar, e confortável, apenas por estar ao seu lado. Me perguntava se ele ainda procurava inconscientemente as minhas pernas por baixo da mesa...
- Mana? Você está chorando? – Que dúvida que era o Kozi, sempre preocupado comigo. Parecia que tinha um radar para saber quando as coisas não estavam bem.
Ele olhou na mesma direção que eu estivera olhando, e descobriu o mesmo aparelho com o mesmo rosto que minutos antes estivera amaldiçoando.
- Você não pode estar falando sério... – Disse voltando-se para mim, mas agora já não era o único. Os outros também tinham sua atenção concentrada em mim.
- Olha, acho que o intervalo já se prolongou por tempo demais, não acha Kozi? - Disse, levantando-me da poltrona onde estivera sentado, e voltando para dentro do estúdio sem querer olhar para trás. Eu tinha esquecido o quanto ver ele ainda me afetava. Não tinha como negar que eu ainda o amava, e muito. Coloquei os óculos escuros, pouco me importando que a claridade do local não me afetasse em nada, e pelo contrário, fosse fraca e prejudicasse a minha visibilidade. Eu só queria me esconder atrás deles, para que os outros não me vissem no meu momento de fraqueza. Comecei a afinar minha guitarra, o que fez com que os outros viessem ao meu encontro, e tomassem cada um a sua posição. Não preciso ressaltar que o ensaio foi um fracasso. Kozi ainda me procurou depois, quando estávamos indo embora, mas eu não estava com cabeça para conversar, aliás... a lista de coisas que eu estava disposto a fazer era muito, muito, muito restrita mesmo.
E sem perceber, eu fui deixando as coisas que traziam minha alegria de lado. A banda não mais parecia fazer sentido para mim, os ensaios eram sem nexo, as conversas eram banais, profissionais, casuais. Escolha o adjetivo que quiser. O meu projeto, meu grande projeto estava escorrendo por entre meus dedos, e veja, não que a banda estivesse mal, ou pelo menos era isso que diziam os empresários, era só que... tudo tinha perdido a graça. Sem vocalista ainda, e ensaiando apenas por ensaiar. Admirável perspectiva.
Acho que o único que chegava a sentir a falta de Gackt tanto quanto eu e não demonstrava, era Kami. Compreensível, visto que eram tão amigos. Lembro-me que não foi uma ou duas vezes que o peguei com o olhar distante e triste, convenientemente o mesmo que o meu. Nosso sentimento de perda, era em parte diferente, mas compartilhávamos da mesma saudade. E da compreensão que não precisava ser dita, bastava um olhar, e já sabíamos quem estava roubando nossos pensamentos. Provavelmente foi a época que mais estive em contato com Kami, sentia naquela amizade invisível e sem toques exagerados o apoio que eu precisava muitas vezes para seguir em frente. Só de saber que não estava sozinho já me bastava para conseguir levantar dia após dia e continuar. Nós nunca chegamos a conversar diretamente sobre Gackt, e sobre o que cada um sentia, mas eu sabia de alguma forma que ele entendia perfeitamente o quão profunda era minha perda, e hoje eu me pergunto se era devido ao fato dele e Gackt serem tão amigos, ou se Gackt havia lhe comentado algo. Mesmo que tivesse tido a oportunidade, não me convinha perguntar. Tarde de mais.
- Ele ainda não tem falado com você? – Perguntou-me, lendo no meu jeito de estar. Contraído e sentido.
- Não, e com você? – Tentei ao menos não parecer desesperado.
- Às vezes... – Kami sorriu tentando me tranqüilizar. – Ele está com um projeto solo em andamento sabe, acho que tem tudo para dar certo.
- Hum... – Não sabia se isso me deixava mais feliz ou triste. Optei pelo meio termo. Começava sem querer a alimentar um ressentimento dentro de mim, que crescia com o passar do tempo, e com cada telefonema não atendido. Aos poucos eu também me convencia que talvez eu já fosse bom o bastante sem ele. Que se ele queria tanto manter distância e ignorar tudo, então, então por mim tudo bem.
- Olha, mesmo que leve tempo, eu sei que um dia ele pára de querer ser tão arrogante e volta a te procurar. É só que... acho que foi muita decepção para ele sabe... receber a notícia... logo de você... – Claro, como se para tivesse sido muito agradável da-la e mais ainda ficar tentando consertar as coisas depois.
Kami deve ter reparado o quanto eu já estava desacreditado com essa possibilidade, pois colocou a mão em meu ombro e sorriu – Só não desiste dele, Mana. – Sorri de volta, tentando demonstrar um pouco mais de confiança. Kami, Kami, Kami, o que teria sido de mim se não tivesse você ali para me fazer acreditar em "nós"?
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Aquela manha de quarta-feira estava morbidamente ensolarada, e isso me incomodava. Não sabia dizer o que, mas algo parecia estar ironicamente errado; as pessoas nas ruas, o tráfico, tudo corria com certo movimento suspeito. Era a mesma sensação que precedia um terremoto, a paz antes do caos.
Estava em casa, descansando, quando o telefone tocou. Era Kozi.
- Mana...?
- Kozi ? Que voz é essa? O que é esse barulho atrás de você? Onde você está?
- Mana... o Kami... ele... – e se calou.
- O Kami? O que tem o Kami?
- Eu... eu to no hospital -------, precisavam de alguém para...
- Pelo amor de Deus, não...
- Foi derrame, acharam ele em casa... eu, eu sei que é pedir muito, mas será que você pode vir para cá agora? Não quero ficar sozinho aqui, o Yu-ki ainda não chegou...
Larguei o telefone e peguei as chaves do carro no mesmo instante. Eu já não conseguia conter as lágrimas, e até hoje não sei como cheguei até o hospital. Entrei por uma porta lateral para fugir da imprensa e encontrei Yuki e Kozi que estavam na recepção. A dor... eu não saberia descrever mesmo agora. Ficamos os três presos em nossa angústia, eu já não era o único que chorava. Vazio. Era de onde brotavam as lágrimas, e as tendências suicidas a que cada ser humano se prega, jogando por cima de nossa dor as lembranças mais felizes que tivemos. Era irreal, o ambiente, as luzes, os sons. Tudo era confuso e eu só queria sumir dali, esquecer, apagar.
Foi Kozi quem teve a iniciativa e puxou eu e Yuki para um abraço, nosso sofrimento libertando-se a medida que tentávamos conte-lo. Sentia que não iria conseguir suportar aquilo por muito tempo, mas calava-me, quando minha vontade era de gritar, espernear, machucar.
Nem sei quanto tempo passamos ali, juntos naquele abraço regado a lágrimas de despedidas, conseguindo adiar o momento em que tornaríamos público.
O funeral foi só o buraco negro de onde todos tentavam escapar, mas ninguém conseguia. Era difícil aceitar que nosso amigo e companheiro havia nos deixado tão de repente. Eu queria acreditar firmemente que olharia para o lado, na tentativa de desviar o olhar da imagem do caixão, e o veria ali, logo do meu lado, rindo de todos que choravam por ele, fazendo mais uma vez com que tudo não passasse de uma grande piada. Ah Kami, que saudades do seu sorriso.
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A entrevista aconteceu três dias depois. Foi dada por mim.
- É muito abrupto, mas temos que anunciar-lhes más notícias. Um membro do MALICE MIZER, o baterista Kami, morreu de hemorragia cerebral em sua casa, quarta feira agora. O funeral foi fechado para parentes e membros do MALICE MIZER, por desejo de seus pais. Uma forma de "homenageá-lo silenciosamente".
- Foi tão abruptamente, que a tristeza dos membros da banda não pode ser descrita. De qualquer forma, nós não podemos fazer nada a não ser nos entristecer. Nós pensamos que para superar essa tristeza, e continuar com a expressão MALICE MIZER vamos fazer um tributo de nossos trabalhos com Kami.
- Nós gostaríamos que vocês respeitassem a determinação de sua sobrevivência e como membro, prestando-lhe suas últimas homenagens e o guardando-o em seus corações.
