Um arrepio percorre meu corpo de alto a baixo. Será que algum dia vou conseguir escolher entre os dois? Será que precisarei fazer essa escolha? Ou será que algum deles estará morto até o final da guerra? Terminarei os dias com o outro, mas sempre pensando em como seria com o um... Não, não quero isso, definitivamente. Não tenho condições de decidir nada com relação aos meus sentimentos agora, mas sei que prefiro tomar essa decisão mais adiante a ser obrigada a conviver com alguma decisão feita pelo destino. Por isso, agora se torna uma questão ainda mais profunda manter ambos firmes e fortes até que esse inferno termine. E foi com esse pensamento que bolei o plano durante o café da manhã: nos dividiríamos em dois grupos de refugiados. Peeta, Gale e eu em um grupo, Finnick, Pollux e Cressida no outro. Iríamos no mesmo passo, de modo que conseguíssemos sempre enxergar uns aos outros, mas separados porque provavelmente as pessoas procurariam os seis infiltrados juntos. E, como eu nem precisava dizer, meu plano era perfeito para mim. Assim, poderia manter Peeta e Gale salvos a qualquer custo. Não importa o que aconteça, no final dessa septuagésima sexta edição dos Jogos Vorazes, teremos no mínimo dois vencedores. Peeta e Gale. Nem que para isso eu mesma tenha que me eliminar.
Não sei se é porque agora sou a capitã do time ou se o plano era realmente bom, mas não houve nenhuma objeção, embora as expressões nos rostos de Peeta e Gale não fossem as mais agradáveis. Seja lá qual foi o lapso de amizade que eles tiveram ontem, não perdurou até hoje. Tenho certeza de que eles não gostariam de ficar me seguindo, um ao lado do outro, como se fosse uma metáfora da situação toda, mas eles não tem outra opção. Eles sabem que não vou deixar nenhum dos dois pra trás, não importa o quanto Peeta tente me convencer de que pode ficar louco e tentar me matar. Se isso acontecer, Gale pode tentar interceptar ou eu mesma vou lidar com isso.
Tigris preparou um ótimo café da manhã para nós. Estou aliviada, depois de ter passado tanto tempo imaginando que ela poderia nos denunciar devido aos anúncios que eles faziam na TV. Quem entregasse um dos seis, ganharia uma quantia exorbitante de dinheiro. Mas ela não o fez. Ainda bem, porque estávamos totalmente a mercê do seu caráter. Comemos bem, ovos, pães, cremes, presunto. Ela fez compras no mercado que havia se formado próximo de onde estávamos. Enquanto eu tomava o leite, que normalmente costumava ser mais fresco na antiga capital, mais uma leva de refugiados passou pela rua da loja. Eles estavam todos se acumulando em torno do Círculo da Cidade, o que levava a pensar que os rebeldes estavam cada vez mais próximos.
- É capaz deles chegarem à mansão antes mesmo de nós – Comentou Finnick. Todos concordamos. Mas estávamos particularmente calados nesse café da manhã. Acho que o medo de sermos pegos antes mesmo de entrar na mansão tomava conta de nós. Como se tudo isso, todas as pessoas mortas, tivessem sido em vão. Foi por isso que, logo depois de levantarmos da mesa, já começamos a bolar mil maneiras de ficarmos irreconhecíveis. Tigris nos ajudou muito, com perucas, roupas e outros acessórios usados na capital. Ela retocou nossa maquiagem, colocando mais quilos de pó e sim, ficamos bem diferentes, o que dava uma alívio tremendo considerando a situação.
Foi depois disso que nos despedimos dela com míseros agradecimentos que jamais cobririam nossa dívida. Ela nos ajudou em um momento crucial, e nunca me esquecerei disso. Saímos da loja já divididos nos grupos que propus. A neve estava alta, e apesar do frio ser nosso aliado no disfarce fazendo com que usássemos muita roupa, dificultava nossos passos. Mas não era a neve o maior empecilho, e sim a quantidade de refugiados da Capital, que criavam uma multidão naquela rua e nas que se seguiam até o Círculo da Cidade. Dessa maneira, mesmo tentando manter o passo rápido, nosso trajeto foi bastante demorado, e várias vezes Peeta, Gale e eu acabamos perdendo Cressida, Pollux e Finnick de vista por alguns segundos ou até minutos.
Então, finalmente, avistei a mansão do presidente. Havia uma fila enorme de pessoas nos largos portões que ficavam nas laterais da mansão. Elas tentavam desesperadamente adentrar no local, e os guardas quase não podiam mais contê-las. O que foi ótimo para nós, claro. Nos encaixamos em meio à multidão e no instante seguinte já estávamos lá dentro. O lugar era lindo. As paredes tão altas que dava a impressão de que podiam tocar o céu. Os muitos pilares de mármore quase iluminavam o local, agora lotado de pessoas desesperadas e até esfomeadas. Mas, é claro, não iríamos encontrar o presidente nesse longo corredor onde estávamos.
- Agora que estamos aqui dentro, qual é o próximo passo para achar Snow? – pergunto. Não havíamos trocado muitas palavras até esse ponto, até porque é difícil conversar em meio à multidão. O máximo que conseguíamos dizer e o outro ouvir – ou talvez fazer linguagem labial – eram coisas como "venha!", "por aqui", entre outras palavras do gênero. Mas agora o meu grupo composto por Peeta e Gale estava em um cantinho um pouco mais silencioso. O outro grupo estava um pouco distante, mas parado também e provavelmente esperando que eu desse algum sinal do que iríamos fazer.
- Katniss, – diz Peeta – Tenho algumas memórias desse lugar. Viemos aqui após anunciarmos nosso casamento. Verdadeiro ou falso?
- Verdadeiro – respondo – Mas não passamos por esse corredor. Entramos pela porta da frente e fomos direto para o salão de festas.
- Sim. Eu me lembro... E, mesmo que vagamente, também me lembro que atrás do salão existiam algumas janelas de vidro, que mostravam um longo jardim externo. Acho que se seguirmos esse corredor até o final, podemos encontrar o jardim, e então tentar entrar pelo salão de festas. Não sei, é só uma ideia para tentarmos avançar um pouco.
Olhei para Gale, que parecia gostar da ideia. Acho que porque não conseguia pensar em nenhuma opção. As pessoas caminhavam no corredor e entravam e saíam nos quartos ao redor. Havia muitas portas, portanto, muitos quartos, mas não tínhamos conhecimento se algum deles poderia nos levar à Snow. Provavelmente não, já que o presidente é um sobrevivente nato, e não ficaria tão exposto assim. Acho que Gale também pensou assim, pois disse:
- Bem, é um plano.
- Vamos lá! – Concordei e começamos a andar de novo rumo ao final do corredor. Pollux, Cressida e Finnick logo nos seguiram. Peeta estava certo. Havia um jardim ao final. Porém, havia também três pacificadores montando guarda em frente à porta que levava ao tal jardim. Poderíamos passar por eles tranquilamente do meu jeito. Eu, Gale e nossas flechas acabariam com eles em segundos, mas também causariam um pânico estrondoso nas pessoas e Snow logo saberia da nossa presença, o que poderia prejudicar bastante nosso plano.
Olhei para Peeta e soube de imediato o que ele estava pensando. Ele queria ser a isca. Chamar a atenção com sua presença revelada, fazendo com que os pacificadores se ocupassem e então e Gale poderíamos continuar sua missão. Mas não o deixei nem continuar a pensar nessa ideia, pois segurei firme em seu pulso e disse:
- Nem pense nisso. Não vou te soltar, e se você por acaso tentar fazer algo do tipo, todos nós seremos pegos.
Ele balançou a cabeça em negativa e abaixando os olhos, como se não pudesse discordar mais de mim.
- Então me dê algum plano melhor. Como nós podemos passar por essa porta se não for chamando a atenção dos guardas?
Peeta estava certo. Só conseguiríamos avançar se os guardas se distraíssem de alguma maneira. Mas não, eu jamais usaria Peeta como a distração, mesmo ele querendo tanto se tornar esse mártir. Alguma outra coisa deveria chamar a atenção dos guardas. Um tumulto, quem sabe...
Pedi para Gale tomar conta de Peeta e caminhei em direção aos outros três, que estavam parados a cerca de cinco metros atrás de nós. Disse a eles que precisava disso, de um tumulto, de uma agitação. Foi Cressida então que bolou o resto do plano.
- Bem, se vocês concordarem, posso puxar alguma briga com os refugiados. Posso tentar fazer com que eles briguem entre si, o que não é muito difícil aqui na Capital. Assim que os guardas vierem para tentar controlar a situação, eu vou embora. Acho muito difícil alcançar vocês, mas posso sair da mansão e seguir outro caminho para que eles não me peguem.
Todos concordamos. Estamos totalmente vazios de ideias, e quando surge qualquer uma, por mais tosca que seja, acabamos acatando. Peço para Cressida tomar cuidado e para Finnick e Pollux manterem uma boa distância quando o plano estiver em ação. Retorno para Peeta e Gale.
- Então, pensou em algo melhor? – pergunta Peeta.
- Não exatamente, mas acho que pode dar certo – respondo. Logo, em um determinado bolo de pessoas há uns dez metros de distância, as vozes começam a se elevar. Os guardas procuram entender o que está acontecendo, mas não vão até o local. Então, algumas pessoas começam a empurrar as outras, causando, agora sim, uma tremenda confusão. Berros, empurrões, chutes. Imagino o que Cressida possa ter inventado para fazer com que eles se revoltassem tanto. Penso que talvez agora eles estejam passando pelo que nós vivenciamos a vida inteira no 12. A fome, a carência, a dor. E não estão preparados para isso. Então, não deve ter sido difícil leva-los ao desespero.
A boa notícia é que dois guardas começam a andar acelerados para o local. A má notícia é que resta um em frente a porta de vidro. É claro que eles não iriam deixa-la assim, com tanta facilidade. De repente, Gale sai de perto de nós e vai de encontro ao guarda. A única coisa que consigo perceber é o olhar de espanto que lhe ocorre no momento em que reconhece Gale. Um segundo depois, está no chão. Gale havia quebrado seu pescoço.
Estremeci no mesmo instante. Não, ele não podia ter feito isso. Agora nosso plano acabou, não teremos tempo de alcançar Snow antes que notem o pacificador assassinado no corredor. Gale havia jogado tudo pelos ares. Porque ele faria isso? Será que imaginava que eu o deixaria para trás assumindo toda a responsabilidade enquanto eu seguia em frente? Exatamente como Peeta queria fazer alguns segundo atrás, quando rejeitei qualquer possibilidade? Será que ele queria que eu fizesse o mesmo por ele, implorasse para que ele não se entregasse?
Meus pensamentos desse tipo não duraram muito, pois Gale abriu a porta com facilidade – pelo visto, não estava trancada, sua única proteção eram os pacificadores – empurrou o corpo para o jardim e fez um sinal como quem dizia: "venham". Peeta e eu fomos em passos largos. Nem consegui conferir se Finnick e Pollux nos seguiram. Estava muito irritada com Gale por causa dessa atitude precipitada. Mas acabei entendendo. Precisávamos agir rápido, antes que os pacificadores acalmassem a agitação e voltassem. Eu provavelmente teria feito a mesma coisa, se soubesse o que encontraria atrás daquela porta.
O jardim era tranquilo. Não havia ninguém lá. Nem pacificadores, nem refugiados, nem Avoxes. Apenas nós três. E depois, cinco. Fechamos a porta e ficamos longe da vista de qualquer pessoa que chegasse próximo a ela, de maneira que ninguém poderia nos ver através do vidro. Enquanto isso, Gale levava o cadáver para trás de uma árvore, tentando escondê-lo, eu acho. Eu ainda o olhava perplexa quando ele voltou soltando um sorrisinho, como quem dizia: "não atrapalhei seu plano, Catnip". Então, achei melhor ignorar ao invés de soltar qualquer bronca.
- Precisamos nos apressar. Esse lugar está tranquilo agora, mas ninguém garante que daqui a pouco ainda estará – disse.
- Eu duvido muito – refutou Finnick – Nunca havia vindo aqui, mas já ouvi falar desse lugar através de uma mulher da Capital a quem fui prestar serviços uma vez, a mando de Snow. Ela me disse que esse jardim é como um local sagrado para Snow, onde ele brinca com sua netinha. Nenhum empregado entra aqui a não ser em último caso.
Ótimo! Pensei. Pelo menos é uma preocupação a menos.
- Se esse é um local sagrado para ele, você acha que ele pode estar aqui, em seus últimos dias de vida, já que os rebeldes estão avançando tanto? – pergunta Peeta, sempre muito prestativo, a não ser quando insiste em se sacrificar. Aí fica insuportável.
- Não, não... – Finnick abaixa a cabeça, como quem está pensando em algo mais importante – Havia um lugar ainda mais importante. Uma estufa. Onde ele cultiva suas rosas. Garanto que esse é o local que Snow esperaria pelo seu fim, diante dessa situação.
Rosas, como as brancas, róseas e vermelhas que ele já me deu. Com certeza, cultivadas em seu jardim, em seu local sagrado. Um jardim para uma serpente. Irônico. Me lembro que meu pai uma vez me contou alguma história assim, só não consigo me lembrar como terminava. Acho que a serpente convencia um homem a fazer algo que foi prejudicial a ele. Ah, se encaixa como uma luva na personalidade de Snow. Prejudicar os outros é sua especialidade. Prejudicar, envenenar, matar, qualquer coisa do gênero se aplica muito bem.
- E alguém tem alguma ideia de como chegar nessa tal estufa? – pergunta Gale
- Não, vamos ter que procurar – responde Finnick – Mas não deve ser muito longe. Ninguém construiria uma estufa muito longe do jardim.
Então, caminhamos. Com tranquilidade, pelo fato de não ter ninguém, mas muito alertas, pois dadas as atuais circunstâncias, não seria muito estranho se Snow passasse a aceitar pacificadores em seu local sagrado.
Caminhamos entre diversas plantas e árvores, até que chegamos a uma fonte, que eu julgo ser o centro do jardim. Dessa fonte, posso ver a janela do salão de festas que Peeta havia se referido anteriormente. Mas algo chama mais minha atenção do que isso. E não é uma visão, não... Quem me dera fosse uma visão. É algo pior, algo que envenena minha mente. É um cheiro.
O cheiro de rosas com sangue.
