Últimas Chances

Capítulo 2

Foi com muito custo que Tsunade permitiu que Sakura se levantasse da cama. Certamente aquela não era uma atitude medicamente recomendável e as duas sabiam disso, mas Sakura não se importava. Não queria ficar deitada naquela maldita maca fazendo nada enquanto Sasuke estava a alguns poucos metros de si, em coma. Precisava vê-lo; tanto por ela quanto por ele.

No banheiro do quarto de hospital, Sakura trocou o seu uniforme de paciente pela calça e blusa esterilizados usados pelos médicos e enfermeiros. Ela não tinha ideia de onde Tsunade colocou a roupa que ela usava antes de atender Sasuke, quando estava pronta para ir para casa. "Eu não vou facilitas as coisas para você," a ex-Hokage disse, "se quer ir mesmo para casa ou ver o moleque Uchiha, arrume uma roupa você mesma. Eu não quero participar desse ato de irresponsabilidade."

Sakura segurou um sorriso quando ouviu aquilo. Nada disso a impediria de sair dali e ver Sasuke. Tsunade já deveria saber disso. Se fosse preciso ela o procuraria por todos os quartos do hospital usando aquele vestidinho nada decente aberto nas costas. A saúde de Sasuke era infinitamente mais importante do que o pudor dela.

Terminada de se vestir, Sakura se olhou no espelho. A sua aparência não era nada boa. Olhos fundos, pele pálida, boca seca, as bochechas visivelmente mais magras. Parecia até mesmo que o seu cabelo perdeu um pouco da cor vibrante que antes lhe era característico. Ela já estava assim há semanas, ela reparara, mas toda vez que ela se via, assustava-se. Estava longe de parecer aquela mulher saudável que sempre procurou ser.

Muitos dos seus amigos próximos também já notaram. Você está muito magra, Sakura-chan, Naruto sempre dizia. Por que não está se alimentando direito, Testuda? Você está mais feiosa do que o normal. Seria melhor se desse uma diminuída no trabalho.

Ela sempre respondia com um sorriso apertado e uma desculpa torta.

Sakura passou uma mão entre os seios. Não sentia dor, mas um desconforto, uma quentura, um leve aperto. Era algo tão constante no seu dia-a-dia que muitas vezes ela se esquecia dele.

Assim que ela saiu do banheiro alguém bateu e abriu porta do seu quarto. Um homem alto, esbelto, de cabelos castanhos grande e desarrumados, a encarou com olhos igualmente escuros.

"Posso entrar?" Mayama perguntou com um sorriso.

"Claro." Ele o fez e fechou a porta atrás de si.

Sakura o conheceu dois anos atrás, na Vila da Pedra, quando foi chamada para atender ao líder da vila quando os médicos de lá já não tinham mais competência para trata-lo. Mayama era um deles. Ficara impressionado com a habilidade da famosa pupila da Sannin que em poucos dias conseguira o que os médicos da Pedra talvez nunca conseguissem. Ele lhe implorou que ela o tomasse como aluno e transmitisse o seu conhecimento a ele. Com um sorriso, Sakura recusou. Infelizmente não tinha tempo nem disposição para aquilo. Tinha muitos pacientes, muitas missões, e ainda muito o que aprender para poder dividir o seu tempo com outra pessoa. Mayama então perguntou se podia ir a Konoha acompanha-la por um período, sem qualquer compromisso. Ela não teve como recusar.

Ela viu que ele tinha talento. Controlava o chackra muito bem e era muito inteligente. Seria um médico muito melhor se tivesse as oportunidades que Konoha oferecia. Sakura achou que seria um desperdício deixa-lo na Vila da Pedra quando ele realmente poderia aprender no hospital de Konoha, onde ela, Tsunade e Shizune também poderiam ajuda-lo quando pudessem.

Sakura não se arrependeu da sua decisão.

Mayama acabou se tornando um excelente médico, tão talentoso e inteligente quanto ela imaginou. Sempre muito solícito, preciso e dedicado. Ele, por fim, decidiu se estabelecer em Konoha por tempo indeterminado, e desde então se tornou uma ótima aquisição para o hospital de Konoha.

"Vejo que você já está de pé," ele disse, balançando a cabeça em reprovação. "Eu brigaria com você por causa disso, mas eu acho que seus ouvidos já devem estar cansados de ouvir Tsunade."

Sakura riu. "Você não poderia estar mais certo."

Com um sorriso, ele foi até ela e a abraçou forte. Sakura retribuiu o gesto. Gostava de abraça-lo. Ele tinha um cheiro bom e era quente e acolhedor. Sempre que ela precisava ele lhe transmitia uma sensação de calma, como se tudo fosse ficar bem – mesmo quando ela sabia plenamente que não iria.

"Como você está?" ele murmurou contra o cabelo dela. "Você me deu um baita susto, mocinha. Não faça mais isso comigo."

"Eu estou ótima. Você não tem com o que se preocupar," ela respondeu enquanto se afastava dele.

"É óbvio que eu tenho com o que me preocupar." Ele a encarou sério. "Você continua fazendo essas extravagâncias mesmo sabendo que não tem mais condições." Os dois suspiram em irritação: ele, por ela não se mostrar tão preocupada quanto ele; e ela, por ele se preocupar demais. "O que eu tenho fazer para entrar nessa sua cabeça dura que as coisas já não são mais como antes?"

"O que você queria que eu fizesse, Mayama? Deixasse Sasuke morrer?" ela perguntou, alteando o seu tom de voz. Estava cansada de ouvir aqueles sermões. Quando não era Mayama era Tsunade ou Shizune, praticamente todos os dias. "Eu estava pronta para ir para casa quando ele chegou à beira da morte! Eu não podia simplesmente virar as costas para ele e ir para casa como se nada tivesse acontecido!"

"Ninguém pediu que fizesse isso," ele rebateu. "O mais sensato era que só acompanhasse o caso dele, deixasse que outra pessoa assumisse o comando no seu lugar. Você tinha acabado de acabar um plantão longo, Sakura. Quase já não tinha chackra – e nós sabemos que a falta de chackra não era o seu único problema."

"Mayama, eu não quero soar arrogante, mas não havia ninguém melhor do que eu para assumir o caso." Ela realmente não queria ser arrogante – ela não era arrogante. Mas todos sabiam que ela era a melhor daquele hospital, quiçá do país. Não havia lugar para falsas modéstias ali. "Tsunade e Shizune estavam em outra cirurgia, você não estava aqui." E mesmo assim ela não teria aberto mão de ajuda-lo. "De forma alguma eu iria deixar outra pessoa tratar Sasuke, especialmente quando era óbvio que o quadro dele era gravíssimo."

Mayama a encarou por alguns instantes, sério. "Se não fosse Sasuke você teria deixado outro médico assumir." Não era uma pergunta. Era uma afirmação.

Sakura hesitou antes de responder. "Talvez." Ela queria negar, mas era inútil mentir para Mayama. Ele sabia exatamente quando ela não estava dizendo a verdade – e sabia também o que Sasuke significava para ela. Afinal, ele era um dos melhores amigos dela. Passavam tanto tempo no hospital, vivendo todos os tipos de adversidades, que era inevitável que uma amizade surgisse entre eles.

Mayama suspira derrotado e passa uma mão pelos cabelos. "Desde que eu ouvi dizer desse cara, tudo o que sei é que ele parece te trazer mais mal do que bem."

Sakura estreitou os olhos para ele. "Você não nos conhece, Mayama. Não sabe a nossa história."

"Mas eu te conheço. Eu sei que o que ele fez e faz com você. Quantas vezes você já chorou no meu ombro por ficar meses e meses sem ter uma mísera notícia dele toda vez que ele parte? Eu cansei de te ver assim, Sakura. Triste, infeliz, por causa de um idiota que dá as costas para você sem qualquer remorso."

"Não fale assim dele," ela retrucou com rispidez. "Eu já te disse que ele tem os motivos dele e eu o entendo."

"Então por que sofre tanto?" ele perguntou. "Se estivesse realmente de acordo não se sentiria tão miserável."

"Entender o que ele está passando não é o mesmo de aprovar ou gostar." Ela respirou fundo. Céus, como doía falar daquilo. "Eu sinto muitas saudades dele. Eu entendo que ele tem que se redimir e que tenha a necessidade de ver o mundo com outros olhos, mas eu ainda sinto saudades dele." Ela volta a encará-lo com severidade. "De qualquer forma, não cabe a você julgá-lo. Isso não é problema seu."

"É claro que é, Sakura," ele murmurou. "Se algo te entristece, automaticamente é problema meu. Eu detesto te ver assim, principalmente por alguém como o Uchiha."

Sakura engoliu em seco e desviou o olhar. Mayama sentia alguma coisa por ela, ela sabia. Ele nunca tinha dito nada diretamente, mas não era difícil de perceber o jeito como ele a olhava, como a tratava, como a tocava. Ela sabia que havia uma espécie de gratidão misturada com admiração e uma pitada de paixão ali desde que ele chegou em Konoha. Ele era um homem bom, quase perfeito – e seria tão mais fácil gostar de alguém como ele.

Ela tentava ao máximo não passar a falsa ideia de que ela também sentia alguma coisa por ele. Ela não queria alimentar falsas esperanças. Por muitas vezes ela pensou em se afastar para, quem sabe, os sentimentos dele diminuíssem, mas Sakura se descobriu uma pessoa um pouco egoísta. Precisava dele. Precisava da amizade dele. Naruto estava sempre ocupado com o seu casamento e o treinamento para Hokage – e ela jamais o culparia por isso. Era um novo ciclo da vida dele, tudo que ele sempre sonhou, e ela nunca iria fazê-lo se sentir culpado por se dedicar mais aos sonhos dele do que a ela. Ela não poderia estar mais feliz por ele.

Mas ela sentia a falta dele. Dele, e de Sasuke – que, por mais que ela quisesse contrariar Mayama, tinha que admitir que ele tinha razão: Sasuke nunca estava em Konoha, e isso não a fazia bem. Passava no máximo um mês na vila para depois sair em uma nova jornada, ficando tempo demais fora.

Ela se sentia sozinha, e Mayama era o seu ponto de apoio. Para ocupar a cabeça Sakura passava mais tempo no hospital do que em casa – onde tudo era escuro e vazio e solitário – e, consequentemente, com Mayama. Ela gostava de rir com ele, de discutir casos, compartilhar experiências e jantares. Ele era bom para ela.

Em alguns momentos ela se sentiu culpada por achar que estivesse tentando preencher o vazio que Naruto e Sasuke deixaram com Mayama, mas o que mais ela podia fazer? Talvez aquilo fosse um jeito de se curar, de se manter sã, e não era como se ele estivesse reclamando. Também gostava dela – muito mais do que ela gostava dele. Ela não estava forçando nada. Era algo natural para eles estarem um com o outro.

Talvez ele também precisasse dela. Ela era praticamente uma mentora para ele – mesmo que ela tivesse negado quando ele a pediu e jamais ter se rotulado dessa forma –, a primeira e mais próxima amiga dele em Konoha e quem o abrigou de braços abertos quando chegou. Ele até mesmo ficou na casa dela nos primeiros meses até achar um apartamento para se estabelecer.

Ela respirou fundo e voltou a encará-lo. "Mayama, eu não gosto do jeito que fala de Sasuke. Ele é meu amigo, está bem? Eu sei que ele... que ele às vezes me machuca." Mayama resfolega em ironia. "Eu sei o que ele faz comigo, mas ele continua sendo uma das pessoas mais queridas para mim. Ele me faz triste, mas também me faz muito feliz. E-Eu não quero que você o olhe como se ele fosse um monstro que me entristece por prazer. Não é assim."

Mayama ergue as mãos em rendição. "Tudo bem. Eu não vou falar mais nada."

"Obrigada."

Ele suspirou, pousou uma mão na bochecha dela e a encarou com uma ternura verdadeira. "Eu só quero que fique bem, ok? Não só em relação ao Uchiha, mas a você. Você sabe que eu morro de preocupação toda vez que uma coisa dessas acontece."

"Eu sei. Sinto muito que tenha te feito passar por isso," ela diz, sorrindo fraco. "Eu prometo me esforçar para que isso não se repita."

Ambos sabiam que era impossível.

Ele a puxou para perto de si para dar um beijo na testa dela, bem no selo em forma de losango. "Tudo o que eu quero é te ver feliz e com aquele sorriso lindo no rosto. É só isso."


Assim que assinou os seus documentos de alta e estava finalmente livre para transitar pelo hospital Sakura foi até o quarto de Sasuke. O peito dela apertou ao vê-lo. Ele estava entubado, conectado a vários fios e máquinas, desacordado.

Mas vivo, ela se disse. Deveria estar agradecida só de ele ter sobrevivido. Um homem mais fraco talvez não tivesse resistido aos ferimentos que ele sofreu – e ele mesmo quase não sobreviveu. Tinha praticamente morrido duas vezes na sala de cirurgias. Sakura sentiu um arrepio descer a espinha ao se lembrar.

Ela não se surpreendeu a encontrar Naruto na cadeira ao lado da cama de Sasuke. Sakura sorriu para si mesma. A lealdade dele era emocionante. Não era à toa que ele cativava tantas pessoas com tanta facilidade – e não era à toa que muitos o apontavam como um dos Hokages mais promissores. O corpo e coração dele eram mais fortes do que os de qualquer outro que aquela vila já viu. Ela tinha sorte de ter alguém como ele.

E como o amava. Platonicamente, é claro, como um irmão, mas com muita intensidade. Ela se enchia de orgulho toda vez que pensava nele. Um garoto excluído, desacreditado, que se transformou em um homem que salvara o mundo – e bem diante dos olhos dela. Um homem que nunca desistiu dos seus propósitos nem dos seus amigos, que sempre tinha uma mão estendida para ajudar quem quer que fosse.

Ele estava tão compenetrado em um pergaminho que só notou a presença de Sakura quando ela tocou o seu ombro. Ele se sobressaltou ao ver que era ela.

"Que bom que já está bem, Sakura-chan," ele disse com um sorriso, dando um beijo carinhoso no dorso da mão dela. "Menos um para me matar de preocupação. Eu ia passar no seu quarto para ficar mais um pouco com você, mas Mayama disse que Tsunade autorizou a sua liberação e eu resolvi vir para cá. Imaginei que você correria para cá também assim que possível."

Ela sorriu e bagunçou o cabelo dele. "É claro que sim. O que está lendo?"

Ele soltou um grunhido de insatisfação. "Políticas. Relações entre nações. Agora eu entendo por que Tsunade-obaa-chan estava constantemente bêbada. Só um bom porre para aguentar uma chatice dessas."

Sakura riu. Não era surpresa para ninguém que Naruto fosse achar aquilo entediante. "Ainda há tempo de você desistir."

"Nem pensar," ele rebateu imediatamente. "Se Kakashi-sensei que é o homem mais desinteressado desse planeta conseguiu se acostumar com isso, eu também posso."

Ela continuou a sorrir. "Tem razão."

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos enquanto contemplavam Sasuke com tristeza. Sakura procurou a mão de Naruto e lá estava ele para segurá-la e apertá-la como se dissesse: "eu estou aqui".

"O que será que aconteceu com esse idiota?" Naruto indagou, agora, sem mais um pingo de risada. "O que ele aprontou para ficar desse jeito?"

"Eu não sei," Sakura murmurou. "Ele teve muitos ferimentos perfuro-cortantes, queimaduras e fraturas. Tenho quase certeza de que foi alguma luta."

"Eu não consigo imaginar nenhum filho da puta que possa ter coragem de enfrentar Sasuke e ainda deixa-lo assim."

Sakura fungou, tentando afugentar as lágrimas. "E-Eu imaginei que algo assim pudesse acontecer," ela disse. "Quero dizer, ele ainda não tem um dos braços. Ele não quis ficar tempo suficiente em Konoha para que Tsunade-shishou o substituísse."

"Sasuke com um braço é muito mais forte do que a maioria dos outros shinobis, Sakura-chan."

"Eu sei, Naruto." Ela não tinha dúvidas quanto a isso. Sasuke sempre fora um ninja excepcional, muito acima da média – assim como o próprio Naruto. "Mas ele também tem muitos inimigos. Talvez muitos dos quais a gente nem saiba. Ele pode ter enfurecido alguém durante a viagem, ou alguém que ele tenha incomodado anos atrás decidiu enfrenta-lo e, por mais forte que ele seja, um braço a menos é uma desvantagem, até para Sasuke."

"Bem, nós nunca vamos saber o que realmente aconteceu até que esse desgraçado acorde," Naruto concluiu e se virou para Sakura, sentada em um dos braços da poltrona. "Ele... Ele está muito mal, Sakura-chan?"

Ela suspirou com tristeza. "Já esteve pior." Ela não sentiu a necessidade de detalhar o verdadeiro estado em que Sasuke chegou nem do quão perto ele chegou da morte – duas vezes. "O que Tsunade te disse está correto. O pior realmente já passou. Se ele sobreviveu a esses dois primeiros dias, as chances de ele sair dessa são bem maiores."

"Maiores e grandes, certo?"

"Creio que sim." Ela passou um braço ao redor dos ombros dele. "Mas não há nada que possamos fazer agora." Bem, pelo menos Naruto não podia fazer nada, não medicamente falando. Ela podia – e iria. Faria o possível para tirar dali. "Ele ainda está em um estado crítico e delicado. Nós só temos que esperar, ver como ele vai evolui e estar sempre preparados para qualquer mudança."

Naruto engoliu em seco e apertou com mais força a mão de Sakura. "Você acha que ele vai sobreviver?"

"Acho," ela respondeu prontamente. "Quero dizer, é melhor que ele sobreviva. Se ele morrer agora depois de todo o trabalho que me deu, eu o mato uma segunda vez."

Naruto riu brevemente. Confiava em Sakura. Se ela achava que Sasuke ia sobreviver e tinha humor para fazer piadinhas a respeito, ele iria viver.

"Eu soube que ele te deu muito trabalho mesmo," ele comentou. "Foi por isso que você apagou, não foi? Gastou todo o seu chackra nesse imbecil."

Ela assentiu. Era bom que ele estivesse convicto dessa teoria. "Eu e toda a equipe tivemos que nos esforçar bastante. Mas valeu a pena. Eu não me arrependo. Faria tudo de novo, se fosse preciso – o que eu sinceramente espero que não aconteça. Nunca mais quero vê-lo assim."

"Nem eu." Naruto acariciou o joelho dobrado dela. "Não deve ter sido fácil para você."

"Não mesmo," ela admitiu. "Vocês dois estão me devendo jantares grátis pelo resto da vida. Primeiro, você me força a abrir o seu peito e bombear o seu coração com os meus próprios dedos, depois, me aparecem cada um sem um braço e, depois disso tudo, Sasuke tropeça no meu hospital nesse estado. Eu acho que passou da hora de eu receber um aumento, Hokage-sama."

"Pode ter certeza que essa é a primeira coisa que eu farei quando assumir," Naruto respondeu com um sorriso. "E eu vou também fazer uma lei que te proíba de trabalhar tanto. Você está muito magra, Sakura-chan."

Ah, lá estava. Ela sabia que esse momento chegaria. "Eu estou ótima, Naruto. É você que se acostumou com a exuberância de Hinata-chan e agora acha que eu pareço um palito perto dela." Ela estava realmente mais magra, mas o que disse não deixava de ser verdade.

Naruto desviou os olhos para o busto de Sakura sem qualquer vergonha. "Tem razão. Hinata-chan tem peitos muito maiores que os seus."

Ela deu um tapa na cabeça dele – não tão forte quanto eles estavam acostumados, mas só porque estavam em um hospital e Sasuke estava em coma a menos de um metro deles.

Eles ficaram lá por mais algumas horas, ora conversando, ora em silêncio, sempre observando Sasuke adormecido. Qualquer enfermeira que chegasse era bombardeada de perguntas pelos dois, e quando uma delas anunciou que o horário de visitas a pacientes em tratamento intensivo havia terminado, eles a ignoraram, e ela ignorou o ignorar deles.

Eles só saíram dali quando uma Tsunade furiosa invadiu o quarto e os expulsou de lá a pontapés.


O estado de Sasuke não mudou pelos próximos dois dias. Sakura ainda não sabia dizer se isso era bom ou ruim. Ele não melhorou, mas também não piorou, e isso a estava deixando louca.

Diariamente ela ficava ao lado da cama dele o máximo de tempo possível. Ela usava toda e qualquer folga que tinha no trabalho para visita-lo, por mais breve que fosse. Trocava o seu almoço e períodos de descanso para checa-lo, segurar a mão dele e sussurrar que tudo ficaria bem. Era um consolo para ambos. Ela só se permitia relaxar, fechar os olhos só por alguns minutinhos, quando Naruto tomava o seu lugar e Sasuke não ficava mais sozinho.

Mesmo cochilando – porque ela não conseguia dormir de verdade – era impossível descansar. E como poderia? O quadro de Sasuke poderia se alterar a qualquer momento e ela se recusava a estar inconsciente se isso acontecesse. Ela usava de todas as suas forças para ficar acordada, apoiando-o ou buscando soluções para ajudá-lo. Ela não relaxaria enquanto ele não estivesse pleno.

A ansiedade dela aumentou no quarto dia.

Ela tinha terminado de atender um paciente com uma simples infecção bacteriana de garganta quando, ao sair da sala de consultas, encontrou uma enfermeira a aguardando, nervosa.

"O que aconteceu?" Sakura perguntou sem delongas. Algo no fundo da sua mente já dizia que era relacionado a Sasuke, e a semente do desespero foi devidamente plantada.

"S-Sakura-san, me pediram para te avisar que... que o Uchiha-san – que não é para a senhora se preocupar, que já está tudo bem –"

"O que aconteceu?" ela voltou a perguntar, dessa vez com rispidez, sacudindo os ombros da enfermeira. O seu coração já estava demasiadamente acelerado. "Ande, diga logo!"

Alguns dos pacientes que a aguardavam na sala de espera viram a cena com estranheza. Aquela não parecia a Sakura-san de sempre, tranquila, serena, composta.

Sakura nem se lembrava de que eles estavam ali.

"O-O Uchiha-san teve uma p-parada –"

Sakura não esperou a mulher terminar a frase.

As pernas dela a levaram sem que ela percebesse. Ela subiu escadas, abriu portas, empurrou pessoas que estavam em seu caminho sem a menor das cerimônias. Meu Deus, por favor, não faça isso comigo. Não com Sasuke, por favor, por favor, por favor.

Uma infinidade de imagens passou pela cabeça dela. O sorriso, a voz, o cheiro, o toque, o calor de Sasuke – o que seria dela sem ele? Ela não suportaria. Ela já tinha passado por tanta coisa nos últimos anos – por favor, Deus, por favor.

Naruto estava na porta do quarto. O rosto dele fez o coração de Sakura já descompassado se desregular ainda mais. Ele estava pálido, de olhos arregalados fixos na porta, e tremendo muito. Sakura terminou de correr até ele e o segurou pelos ombros trêmulos.

"Naruto...?" Ela não conseguiu dizer mais nada. A sua garganta estava seca de medo e os seus pulmões já não tinham mais ar para dar depois da corrida até ali. Ela ofegava, suada, desesperada, e o peito doía como nunca. Ela sentia como se uma kunai atravessasse o seu tórax, mas aquela era a última das suas preocupações.

Naruto demorou para desviar os olhos da porta para Sakura. Ele abriu e fechou a boca algumas vezes antes de conseguir falar – o que só agravou a angústia dela. "Ele está bem, Sakura-chan. Eu só..." Ele balançou a cabeça e pressionou o calcanhar das mãos nos olhos. "Eu só estou assustado. Mas já está tudo bem, ele... Ele já está de volta. Os médicos já cuidaram de tudo. Ele está bem."

Aquilo não era o bastante. Precisava vê-lo, tocá-lo, senti-lo.

Naruto estava tão chocado que nem pensou em impedir a sua amiga de entrar no quarto com brusquidão, batendo a porta. Ela ficou paralisada ao ver Tsunade e Mayama ao lado de Sasuke.

"O que ela está fazendo aqui?" a ex-Hokage gritou para ninguém em particular. Ninguém teve coragem de responde-la. "Tirem-na daqui!"

"O que aconteceu com ele?" Sakura quis saber também aos gritos, a respiração entrecortada, aproximando-se de Sasuke – mas foi impedida por Mayama, que rodeou a cintura dela para arrastá-la dali. "Me solte! O que diabos aconteceu com ele? Ele estava bem e do nada ele parou – e ninguém teve a decência de me chamar?"

"Sakura, ei, olhe para mim. Já está tudo bem, já está tudo sob controle. Por favor, se acalme," Mayama implorou, tentando fazê-la olhar para o seu rosto, mas foi em vão. Ela não tiraria os olhos de Sasuke.

"Eu quero saber o que aconteceu com ele!" ela gritou, lutando contra o médico.

"Cale a boca e saia daqui! Eu sou a médica no comando aqui e você está me atrapalhando! Saia!" Tsunade usou as palavras de Sakura contra ela.

"Eu quero saber o que – me solte, Mayama! Eu quero vê-lo! Me solte!"

Ela se debatia nos braços de Mayama quando Naruto surgiu e o ajudou a tirá-la do quarto. Ela ainda gritava, esperneava e chorava, precisando estar ao lado de Sasuke para ajuda-lo – e se Tsunade-sama e Mayama não conseguirem? Eu tenho que ajuda-lo! – mas a força dela não se comparava a de dois homens. Logo a porta voltou a ser fechada na cara dela e ela se viu no corredor com Naruto a puxá-la pela cintura, apertando as costas dela contra o peito dele.

"Naruto, me solte, eu preciso estar lá..." ela chorou, a sua energia diminuindo gradativamente. Ela estava cansada, fraca, as suas emoções embaralhadas para todos lados. O aperto em seu peito se tornou insuportável, terminando de roubar o pouco de ar que lhe restara. Ela não conseguia mais lutar.

"Está tudo bem, Sakura-chan, se acalme," o seu melhor amigo sussurrou contra o seu ouvido, mas ela pouco escutava. Tudo girava, tudo doía, tudo a nauseava – e o seu peito parecia estar sendo perfurado pela mais afiada das espadas.

"Naruto, eu..." Ela tentou falar, mas não tinha forças nem fôlego. Tentava inflar os seus pulmões, mas eles não respondiam. Não conseguia respirar. O seu coração parecia querer saltar pela boca, batendo freneticamente. Pontinhos pretos embaraçavam a sua visão. Ela levou uma mão ao peito, torcendo o tecido da blusa dali como se isso fosse aliviar a dor lacerante. Naruto gritava por ajuda.

A consciência de Sakura estava quase se esvaindo quando ela foi deitada em uma maca. Sentiu uma agulhada no seu antebraço, mas não sabia discernir do que se tratava. Uma máscara foi colocada na sua boca e nariz. O rosto aflito de Naruto apareceu em seu campo de visão, falando com alguém de frente para ele e depois alguma coisa com ela que ela não foi capaz de entender.

"... pânico," alguém falou ao lado dela. Quando ela virou a cabeça para tentar identificar, viu Mayama. "Ela está bem. Já está melhorando." Ele percebeu que a consciência dela já estava melhor e sorriu, acariciando o rosto dela. "Ei, tudo bem?"

Ela assentiu. Sentia-se melhor. Já não respirava mais com dificuldade e a sua mente desanuviava. A dor em seu peito ainda estava lá, incômoda, persistente, mas já não era tão insuportável.

"Meu Deus, eu preciso me sentar," Naruto gemeu e desabou no chão. "Você e Sasuke estão combinando de passal mal juntos só para testar a minha resistência? Porque se esse for o caso, podem parar com isso. Da próxima vez eu juro que o meu coração não vai resistir – e eu vou voltar para assombrar vocês dois."

Mesmo ainda grogue Sakura conseguiu sorrir por debaixo da máscara de oxigênio.

Ela sentiu um beijo na sua testa. "Eu disse a ele que foi só um ataque de pânico. Não se preocupe," Mayama sussurrou no seu ouvido para que só ela escutasse.

Quisera ela que aquilo fosse um simples ataque de pânico.


N.A.: Eu estou muito emocionada com o carinho de todos vocês. Muito obrigada pela compreensão. Eu juro que, dessa vez, eu termino essa história nem que seja a última coisa que eu faça. Escrever os capítulos dessa nova versão já não está me deixando tão para baixo quanto da outra, e isso é um sinal de que a minha decisão de recomeça-la talvez tivesse sido mesmo a mais correta.

Estou tentando fazer o ritmo dessa história ser um pouco mais rápido do que a anterior, pelo menos até chegarmos onde paramos na outra. Por tê-la inserido no contexto do término do mangá, vocês podem ter notado que eu tive que fazer algumas modificações no enredo, mas nada que mude a essência da história. Os próximos capítulos provavelmente serão mais longos.

Ah, e para quem ainda não sabe, eu fiz um perfil no tumblr com o mesmo nome daqui! Se tiverem interesse, por favor, chequem-no! Estarei postando um teaser de "Seja Você Mesmo" em breve!

Outra coisa: eu não sou médica, não sei ABSOLUTAMENTE nada de medicina e seus procedimentos. Tudo o que usarei nas minhas histórias são provenientes do auxílio do Dr. Google. Portanto, se notarem alguma incoerência, por favor, me avisem ou simplesmente ignore!

Mais uma vez, muito obrigada!