Hyoga olhou com algum pesar para a pequena capela de Kohotek. Ela existia mesmo na época em que a vila era protegida pelo Santuário, e a verdade era que parecia muito mais bem conservada então que agora. De fato, tudo estava virando parte de um cenário de cidade fantasma.

Claro, uma capela tão pouco frequentada não devia abrir a qualquer hora e os dois teriam que esperar o padre chegar da outra capela em que houvesse celebrado missa naquele dia. Então, voltou-se para Yakov, que parara ali em frente e começara a olhar para os lados. Viu o rapaz encolher um pouco, seu semblante estava cansado, perturbado. E não era por menos. Ainda que quisesse fingir não haver ouvido, Hyoga estava ciente de que Yakov brigava com a esposa na hora em que o chamara em casa. Olga sequer o cumprimentara na ocasião e entrou para o quarto carregando no colo o pequeno Alexander, com seus dois meses incompletos.

O tempo havia se passado rápido, pensou Hyoga ao se lembrar do bebê de quem ele estava prestes a se tornar padrinho. O verão estava no fim e o frio já se seria um incômodo aos não acostumados a temperaturas tão baixas ainda em setembro.

- E chegou a falar com a dona Alissa? – Yakov pareceu resolvido a puxar um assunto, mas não escolhera o melhor tópico se sua intenção era de melhorar o clima entre ambos. – Você nunca me disse o que achou dela; ela é bonita, né?

Hyoga inspirou com o máximo de discrição e concordou com a cabeça.

- Mas não se esqueça de que ela é mais nova até que eu. Então, não vá se encantar, hein? – Ele riu nervoso.

- Que insinuação é essa? – Hyoga se junto à gargalhada, feliz pelos rumos que o tópico enfadonho tomara.

- É que vendo suas namoradas em todos estes anos... Aquela menina loirinha do orfanato no Japão, ou aquela princesa de Asgard, também loira, né? Acho a dona Alissa a mais próxima do seu tipo.

- Meu tipo? – Suas gargalhadas aumentaram.

- É... Ela lembra um pouco o senhor Camus.

Sem poder negar aquele ponto, Hyoga segurou o riso e assentiu, fingindo considerar.

- Esse seria motivo o bastante pra ficar longe dela.

- Uma pena... – Yakov ajeitou sua postura. – Estava torcendo para que se dessem bem. Quem sabe ajudarem a vila e...

Mas Hyoga o interrompeu:

- Eu ajudarei. Pretendo ir ao Santuário e falar diretamente com o Shiryu, ele é o Mestre agora. Não pode ser tão difícil convencê-lo...

- E por que não fala logo com a deusa Athena? – Alissa havia surgido ao lado de Yakov e agora ajeitava seus longos fios loiros de cabelo ondulado. – Vocês devem ser bem próximos, né?

Não era a primeira vez que ouvia alguém se referir à sua amizade com a deusa naquele tom e quanto mais o faziam, mais defensivo Hyoga se tornava no assunto.

- Saori não lida com essas burocracias do Santuário.

Alissa lhe devolveu um sorriso afetado:

- Saori?

- É que o Hyoga a conhece desde criança, dona Alissa. Eles são bem próximos.

- Hmmm. – Por um momento ela continuou a fazer o som, enquanto assentia.

- Por que essa expressão, amazona? – Hyoga não se esforçou em conter um riso debochado. – Não me diga que está com ciúmes?

- Ciúmes? – Ela pensou por um momento, antes de responder: - De fato.

Com a resposta inesperada à sua provocação, Hyoga se retraiu para o contentamento da mulher.

- Não conclua coisas estranhas, Cisne. – Ela sorria vitoriosa. – Eu, de fato, gostaria dessa relação tão especial com a deusa Athena. Resolveria os problemas desta vila.

- Pensei que ajudar fosse uma tolice pra você.

- Ajudar é minha missão como amazona. Queimar-me fazendo reiterados pedidos ao Mestre seria uma tolice.

- O que haveria a perder? Você sequer o vê com frequência morando aqui.

Hyoga pensou ver um rubor em seu rosto. Não sendo a primeira vez que o reparava, perguntou-se se a mulher seria do tipo que ficava vermelha com facilidade apesar de sua pele não dar nenhuma indicação de que o fosse.

- Isso não te interessa, - ela enfim respondeu. – E não mude o assunto, você é a pessoa que nada teria a perder pedindo para Athena diretamente. Ou está com medo de se responsabilizar por esta terra, Cisne?

A presença de alguém atrás de Hyoga a fez parar de falar e cumprimentar o recém-chegado.

- Ah. Dona Alissa, senhor Hyoga... – Era o padre Petrov, o mesmo encarregado da capela da vila desde que Hyoga podia lembrar. Era estranho agora ser chamado de senhor pelo homem visivelmente mais velho e a quem sempre respeitara.

O cavaleiro voltou-se para mulher após cumprimentar o padre também e falou em tom de despedida:

- Sinto muito interromper nossa conversa, mas temos um assunto com o padre Petrov.

- Eu sei, por que mais eu estaria aqui? – Alissa começou a caminhar até a porta da igreja, deixando-o com a expressão perplexa.

Yakov parecia olhar para o próprio pé quando os olhos inquisitivos de Hyoga pousaram no rapaz.

- E-era o que-que eu tava d-dizendo antes, - começou a lhe dizer. Inspirou fundo antes de continuar: - Estava torcendo pra que se desse bem com a dona Alissa, porque os chamei para serem padrinhos do meu Sasha. – E sorriu fracamente, antes de se voltar para onde Alissa e padre Petrov os aguardavam.


Após o treinamento daquele dia, Hyoga carregava lenha nos braços enquanto caminhava ao lado de Isaak. Este ria de alguma coisa que acabara de contar e balançava a lenha para os lados, como se o perigo de elas caírem todas sobre a neve tornasse a volta para casa mais divertida.

Em todos os anos que passaram juntos como irmãos, Hyoga nunca fora um bom companheiro. Sua cabeça sempre estava em outro lugar, enquanto Camus lhes lecionava a importância de seguir os comandos de Athena e a nobreza que era estar entre seus cavaleiros escolhidos. Na verdade, Hyoga só estava lá porque fora para lá que Mitsumasa Kido o mandara. E só permanecia porque vira nas habilidades lecionadas uma boa forma de poder ver sua mãe mais uma vez. Os seus eram tão diferentes dos objetivos intangíveis de Isaak... Não conseguia compreender sua disposição em dar a vida por uma deusa que sequer existia.

Se ao menos, naquela época, Hyoga houvesse se esforçado mais para fazer parte de tudo. Se ao menos não houvesse duvidado das lições de seu mestre e houvesse se dedicado a um objetivo menos egoísta, Isaak não teria que passar por tanto sofrimento como lhe era destinado.

Como se lendo seus pensamentos, o jovem Isaak voltou-se para ele. Não era mais uma criança brincando com a lenha colhida e sim um adulto tal como ele mesmo.

- Conto contigo desta vez, Hyoga. – Então, abriu a porta de uma cabana familiar.

- Espere! – Hyoga chamou-o antes que fechasse a porta. – Isaak, você quer que eu proteja a vila?

Mas o amigo já havia entrado e não lhe respondera. Hyoga apressou-se em segurar a madeira antes que a cabana fosse trancada por dentro e escancarou a porta.

Não era a cabana de Camus. No interior, a esposa de Yakov o olhava com os olhos aflitos, vermelhos, enquanto exibia o pequeno Alexander no colo.

- Olhe, Sasha está chorando. Ele está com fome.

Hyoga acordou suado apesar da temperatura negativa que fazia. Levando a mão à cabeça, tirou as mechas de cabelo coladas em sua testa e esfregou os olhos; precisava afastar as imagens do sonho. Por que vinha vendo essas coisas? Nunca fora de ter sonhos estranhos assim. Voltou a se deitar; seu corpo estava esgotado. Olhou para o relógio na mesa de cabeceira e constatou que fazia pouco mais de uma hora que fora dormir.

Mas não logrou pegar no sono mais uma vez.