CAPÍTULO 2 – Dever de Casa

N/A: Obrigado pela boa acolhida a essa estória. Infelizmente não muita ação nesse capítulo, apenas fechando o ano. Mas as férias de verão começam no próximo capítulo com muitas novidades!

Os dias seguintes foram de muitas descobertas para Harry. Sua nova amiga ficara com Rabicho, e se encarregara de cuidar para que Sirius fosse reabilitado. Ela veementemente recusara o plano do menino de entregar o rato para Dumbledore, e mostrou forte desconfiança no renomado diretor, o que acabou chamando a atenção do menino para alguns fatos, a maioria citados por ela ao defender seu cinismo e desconfiança: como chefe do Wizengamot, Dumbledore poderia ter feito mais por seu padrinho, e como seu alegado guardião mágico durante a ausência forçada de Sirius, deveria também ter feito algo para melhorar a vida de Harry com seus parentes; além de outras coisas, como as contínuas falhas de segurança em Hogwarts.

Contar suas aventuras anteriores para ela foi uma lição em pensamento crítico que Harry jamais esqueceria. Como pudera ele acreditar que Dumbledore não soubesse da presença de Voldemort em seu primeiro ano? Como pudera ele acreditar que as proteções para a Pedra Filosofal, que três alunos do primeiro ano venceram, pudessem ser uma segurança séria contra a investida de um poderoso mago das trevas? E o basilisco andando pela escola? E os dementadores invadindo a escola, apesar das proteções em volta do castelo? Ou um animago escondendo-se por anos sem ser desmascarado?

Mas havia ainda mais. Toda aquela fama que o menino recebera, e que o colocara em perigo, só existia porque Dumbledore resolveu que o mundo mágico precisava de um herói para idolatrar. O mundo mágico poderia ter sido facilmente convencido de que ele também morrera naquela noite, ou que era apenas uma criança comum que em nada havia contribuído para o desaparecimento de Voldemort. Sua vida poderia ter sido tão mais simples e feliz!

Astória Greengrass era um enigma para o menino-que-sobrevivera. Bonita, de família rica e antiga, altamente inteligente, com conhecimentos além do que se esperar para sua idade, corajosa como o melhor dos Grifinórios, a menina era capaz de se comportar como um anjo em certos momentos, e como a rainha da mordacidade e da esperteza em outros.

Para espanto do garoto, ela iniciara o projeto de ajudar Harry a melhorar dando-lhe alguns pequenos 'deveres de casa' cujo propósito escapara completamente ao menino no início, mas que vinham revelando frutos agora, e frutos com um sabor bastante amargo. Um desses deveres era o de fazer algumas novas amizades, que a menina escolhera a dedo: Neville Longbottom, de seu ano em Grifinória; Susana Bones, também em seu ano, mas de Lufa-Lufa; e Luna Lovegood, uma Corvinal um ano abaixo que ele.

A tarefa deveria ter sido simples, e Harry ficara feliz com a ideia. Ele sinceramente achava que já passara do tempo de expandir suas amizades. O que ele não contava é com a interferência de seus dois principais amigos, Rony principalmente. Juntando essa interferência aos resultados de sua segunda tarefa, elaborar listas de qualidades e defeitos de seus amigos, os resultados preocuparam bastante o garoto.

Uma das primeiras coisas que Harry percebeu era o quanto seus dois melhores amigos eram diferentes e o quanto essas diferenças manifestavam-se em constantes brigas e discussões, nas quais ele acaba tendo que interferir como mediador e apaziguador. Também não foi difícil perceber que Rony se apegava bastante ao título de melhor amigo do menino-que-sobrevivera, e parecia lutar contra cada tentativa de Harry em expandir seu círculo de amizades. Por outro lado, embora Hermione não parecesse se importar tanto com Harry buscando novas amizades, seu estilo mandão e controlador dificultava bastante a tarefa, especialmente no caso dos três nomes sugeridos por Astória, os três sendo naturalmente tímidos e quietos.

Mesmo com tão poucos dias de aula restando, Harry conseguiu evoluir muito com suas novas amizades. Colaborou muito para isso a atenção que prestou aos detalhes, e o que pôde fazer por seus novos amigos. Fora fácil perceber que Neville estava lutando contra uma varinha que não lhe obedecia. Uma conversa com a professora McGonagall bastara para que essa entrasse em contato com a avó do garoto e arrancasse dela a promessa que o menino teria sua própria varinha para o próximo ano letivo. Outra conversa, dessa vez com o professor Flitwick, fez com que os abusos contra a doce e pacífica Luna parassem de vez. Por fim, uma dura e ríspida conversa com Zacharias Smith, acompanhada de algumas ameaças, convenceu o inoportuno e irritante garoto de que Susana nada queria com ele e que qualquer novo avanço seria motivo para retaliações. Harry ficou muito feliz quando Astória o elogiou por ter percebido sozinho os problemas e resolvido todos por sua própria iniciativa.

A terceira e última tarefa que Astória pedira para Harry executar era relativa às disciplinas optativas oferecidas em Hogwarts. Não demorou muito para que o garoto percebesse a tremenda besteira que havia feito na seleção de suas eletivas. Sim, Aritmância e Runas eram difíceis, mas eram também extremamente úteis e importantes. Uma conversa séria com as duas professoras, uma forte determinação em fazer melhor, e um comprometimento de que ele estudaria a matéria do terceiro ano durante suas férias de verão garantiram-lhe a chance de mudar aquele triste quadro, desde que ele mostrasse um mínimo de aproveitamento em um exame no início do próximo ano letivo.

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Os encontros de Astória e Harry ocorreram em dias alternados, mediante um esquema bastante seguro elaborado em conjunto por eles, fazendo uso de dois recursos especiais de Harry: sua capa de invisibilidade e o mapa do maroto. Astória tinha a si a tarefa de arranjar um local adequado para o encontro, afastado e pouco utilizado. Harry então simplesmente se escondia sob a capa e a procurava com o auxílio do mapa.

Foi no último desses encontros, na véspera de partirem para casa em férias, que Astória contou ao menino seu novo plano.

"Eu realmente fiz todo o possível, Potter, mas o julgamento de Pettigrew só ocorrerá na próxima semana. Ele foi entregue diretamente à madame Bones, a tia de Susana que controla o Departamento de Execução da Lei Mágica, com instruções bastante diretas. Ela fará a coisa certa, mas teve que agir com cuidado. Você não imagina as repercussões que a falha de justiça para com o senhor Black pode acarretar. Carreiras importantes estão em jogo..."

"Eu compreendo, e agradeço profundamente por sua ajuda" respondeu ele sinceramente. "Acha que algo ainda possa dar errado?"

"Apenas se uma dessas pessoas com a carreira ameaçada descobrir a existência de Pettigrew antes do julgamento. Madame Bones está fazendo o possível para que ninguém descubra, e eu confio nela. Não há ninguém com mais integridade do que ela em todo o Ministério."

"É por isso que você me aconselhou a fazer amizade com Susana?"

"É um dos fatores, mas nem de longe o único" respondeu a menina com um sorriso maroto. "Não acha Susana bonita e gostosa o bastante para valer a pena por si só?"

Após gaguejar, engasgar e tossir, Harry finalmente respondeu com um simples "Tori!"

"Ah, tomando liberdades com meu nome já, senhor Potter?"

"Uh, não, desculpe. Mas, por favor, não fale assim... Isso me deixa constrangido."

"Eu sei, e irei dar um jeito nisso, Potter. É um de meus próximos projetos para você."

Harry lançou um olhar preocupado para Astória, mas resolveu mudar de assunto o quanto antes para evitar outros embaraços.

"Vejo que terei então que passar algum tempo com os Dursleys..."

"Nem pensar!" respondeu a menina com veemência. "Você voltar para aquele inferno está totalmente fora de cogitação! Além do mais, desfaria todo o progresso que consegui com você nesses últimos dias!"

"Talvez eu pudesse ficar no Caldeirão Furado, como no verão passado..."

"Não, Potter. Não vê que seria o primeiro lugar onde iriam procurar? Você ficará em minha casa!"

"Mas... seus pais..."

"Estarão viajando pelo continente, enquanto minha irmã e eu ficamos sozinhas com nossos deveres de casa até que eles voltem e decidam algo chato e inútil para fazermos o resto do verão!"

"Ainda assim, como vai convencer sua irmã a não nos dedurar?"

"Chantagem, é claro! Como esperava?" respondeu ela e Harry mais uma vez assustou-se com a forma direta e nada convencional como a menina enfrentava todos os problemas.

"Não se preocupe, Potter. Minha irmã já concordou com tudo, e você irá colher alguns frutos disso tudo. Você fará a viagem normalmente pelo Expresso, mas quando pararmos na plataforma 9 e ¾ você virá até a coluna oposta à saída sob sua capa especial e iremos acionar de lá a chave de portal para casa. Quem quer que olhe para nós verá apenas duas irmãs indo sozinhas para casa."

"Meus tios irão odiar ficar esperando por mim e voltar para casa tarde e sem ter em quem descontar suas raivas... Gostei!"

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Para o desagrado de Rony e Hermione, Harry fez questão de que seus novos amigos compartilhassem o compartimento do trem com o trio. Susana ainda trouxe suas amigas Hannah e Megan junto, para alegria de Harry e, aparentemente, também de Neville, e amargor de Rony, que cruzou os braços e ficou olhando para fora da janela a maior parte do tempo.

Hermione também não se sentiu muito melhor, especialmente quando Harry fez um esforço para entender melhor a visão de mundo da pequena Luna. Harry fez um jogo de perguntas e respostas com a loirinha enquanto fazia um esforço enorme para ignorar os comentários frequentes e mordazes de Hermione, que rebatia cada sentença de Luna com expressões como 'Bobagem', 'Sem provas', 'Loucura' e similares.

A situação mudou repentinamente quando Harry teve uma ideia e pediu que Luna descrevesse como ela o via em detalhes. Quando a menina terminou de descrever o que Harry estava começando a achar que fosse sua aura mágica, ele se concentrou como se estivesse a ponto de soltar seu Patrono, mas sem varinha ou encantamento, e perguntou se algo mudara.

"Oh, sim! Lindo, lindo! Você está muito mais brilhante agora, Harry, e de um tom prateado tão bonito! E sua mão direita, ela parece ter ficado enorme, e está brilhando como uma daquelas luzes que os trouxas usam para iluminar as ruas! É como os professores ficam quando estão para lançar um feitiço realmente poderoso."

"E os nargles? Ainda estão por aqui?"

"Não em você, Harry. Faz dias que eles não se aproximam mais de você. Desde a última lua cheia, eu acho..."

"Ótimo! Você vai me ajudar a me manter longe deles, não é?"

"Claro, Harry. Mas acho que você não vai mais ter problemas com eles, não é?"

Harry estava pasmo! Luna dera para ele um sorriso que tinha algo de maroto que ele não conseguia conciliar com a expressão quase sempre angélica da menina. Por sorte, Susana e Megan, convencidas agora que Luna era capaz de ver auras e interessadas em saber sobre a aparência das suas, tornaram-se o novo centro de atenção e deixaram o menino só com seus pensamentos.

Harry aproveitou para ver cada um de seus companheiros. Rony parecia estar ainda mais enfezado do que antes, como se a possibilidade de haver algo de verdade por trás das afirmações de Luna fosse uma ofensa pessoal contra ele. A única vez que o ruivo abrira a boca durante toda a viagem fora para propor uma partida de xadrez, que ninguém aceitou.

Hermione estava pensativa, aparentemente fazendo um sério esforço para tentar entender as afirmações de Luna em um novo contexto. Sim, a menina era um pouco mandona e assertiva demais em suas afirmações, mas tinha, como Hagrid disse, 'seu coração no lugar certo' e se esforçava constantemente por agir da melhor forma possível. Bastaria aparar algumas arestas mais contundentes de sua personalidade e ela seria uma ótima pessoa para ter como amiga.

Harry esperava ansioso por ver como Neville se comportaria com uma nova varinha. O menino era bastante quieto, mas parecia muito atento a tudo o que se passava à sua volta e, se seu desempenho com a nova varinha fosse significativamente melhor, poderia vir a ser um mago importante no mundo mágico. O garoto era também muito atencioso e solícito, e raramente falava mal de quem quer que seja, mostrando qualidades que, com um pouco mais de autoestima, fariam dele um excelente amigo.

Susana estava perdendo aos poucos as gordurinhas e adquirindo uma forma fascinante. Junto com Lavanda e Dafne, era uma das garotas que mais chamavam atenção em sua turma, pelo rápido e volumoso desenvolvimento de seus seios. 'Ops, outro assunto, outro assunto' pensou Harry, tentando não enrubescer. Voltou então seu pensamento para a personalidade da menina, e notou as semelhanças entre ela e Luna. Ambas eram muito gentis e suaves, quase angelicais. Falavam de uma forma macia e controlada, quase um sussurro. As duas eram igualmente pacatas e com uma alegria de viver, e de fazer o possível pelos amigos, que Harry muito estimava. Luna ainda se destacava por sua originalíssima visão de mundo, e sua mania de dizer o que pensava de uma forma totalmente franca e com uma ingenuidade deliciosa.

Harry não sabia muito sobre as outras duas garotas. Hannah parecia um pouco extrovertida demais para seu gosto, mas ela ria fácil e costumava estar de bom humor, o que a fazia facilmente tolerável. Megan era mais difícil de examinar. Assim como Neville, era bastante quieta mas muito observadora. Revelava muito pouco de si, mas parecia uma companhia agradável.

Despertado de seus devaneios pela desaceleração do trem, Harry foi deixando os demais se despedirem e partirem um a um, prometendo entrar em contato, e feliz por ter expandido seu grupo de amigos. Finalmente a sós, vestiu a capa de invisibilidade e partiu para o local onde combinara encontrar Astória.

Foi fácil encontrar as duas irmãs, e logo Harry abraçava Astória pela cintura com uma mão, para que ela soubesse de sua chegada, enquanto colocava a outra sobre o laço de fita que lhes serviriam como chave de portal. Imediatamente após Astória, sorrindo, tocava a fita com sua varinha e dizia com clareza "Lar" ativando a chave de portal.