Onee-san, o que você tinha dito para ela vir até aqui, apesar de tudo?

- Yuu. - ela me chamou.

- Oi.

- Tá pronto. Já estou indo aí. - e ela andava com uma bandeja de alguma coisa bem quente.

Eu não sabia se amaldiçoava minha irmã por ter chamado ela. Ou se eu a agradecia.

- Vamos lá, abra a boca!

- Mas... Espera aí! Eu sei que era para cuidar de mim, mas... Não está exagerando? - E fiz uma careta tal qual uma criança que se recusava a comer.

- Você já fez isso comigo! Eu só quero retribuir. - e fez um muxoxo.

Ah, é mesmo. Quando ela ficou estressada com as provas de setembro, entrei no quarto dela e a fiz comer.

No fim me rendi e deixei que ela me alimentasse. Já não lembrava de como era bom comer zousui no café da manhã.

- Realmente.. Você estava com fome, hein? - e sorriu.

- Não comi muito... Onee-san não sabe cozinhar assim, tão bem...

- Como não?

- Airu-san: Minha irmã pode ser linda, mas ela não tem toda essa habilidade na cozinha. Normalmente, quem cozinha sou eu.

Ela ficou calada, e logo corou. Ela percebeu que eu a elogiei.

- e-Eu vou por a louça na máquina, ok? j-j-Já volto.

Eu sorri. Ela realmente estava fazendo seu melhor. Peguei o controle da tv e coloquei em um canal qualquer. Na verdade, nunca passa algo realmente bom na tv nessa hora, que supostamente eu deveria estar na escola.

Ah... Como o pessoal deve estar? Com certeza a Mami-san notou minha falta. E o Tagiru? Se ele souber que eu fiquei doente e que ela está comigo, eu vou ter problemas na segunda...

- No que é que está pensando? - ela perguntou, e se sentou no sofá.

- No pessoal da sala. Acho que eles sentiram minha falta.

- Você acha?

- Acho, sim. E vou ter problemas se o Tagiru ficar sabendo que você está aqui comigo.

- Ah vai? - ela me olhou desconfiada.

- Vou. As meninas vão querer vir aqui.

- Se elas ousarem subir naquele elevador, eu vou tirar elas uma por uma na base da porrada! - e mostrou os punhos.

Comecei a rir da cara dela, e ela fechou a cara para mim.

- Do que você está rindo? Eu estou falando sério, viu?

- Eu sei disso!

- Eu estou falando muito sério! Eu mato elas!

Eu ri. E depois deitei nas pernas dela.

- Folgadinho, você... - ela fez cara feia.

- Não faça essa cara, nunca fiz isso antes!

- Comigo?

- Na vida. - suspirei e olhei para a tv - As meninas pedem para que eu faça isso com elas, mas... Não tenho tanta intimidade com elas.

- Agora estou surpresa. - o tom de voz dela parecia mesmo surpreso.

- Você não tem noção do quanto elas te invejam. Elas dariam a vida para me ter assim.

- Elas podem dar a vida delas quantas vezes quiserem, não vou trocar de lugar. - Ela começou a mexer no meu cabelo. - E nunca vou trocar.

A manhã lá fora era clara por causa da neve. Eram dez da manhã, nós dois assistíamos um programa infantil em um canal qualquer. Eu deitado nas pernas dela, e ela mexendo no meu cabelo.

Tudo o que eu queria é que este momento durasse para sempre. Ou o máximo que pudesse.

- Airu-san, você avisou a sua mãe que você estaria aqui?

- Avisei. Quando eu falei que você estava doente, ela me despachou de casa gritando "Vá cuidar do seu marido!". Sabe, ela gosta de você.

- Disso eu não sabia. Quando você voltar para casa, vou fazer alguma coisa para ela. De qual prato ela gosta?

- Rattatouille. Daquela vez que você apareceu lá em casa com um rattatouille e eu não quis comer, ela comeu tudo sozinha.

- Sério? Aquele lá era uma porção pra umas seis pessoas.

- Pois é. Quando o Akira apareceu na cozinha perguntando dele, ela estava na última garfada.

Rimos.

- Eu queria te perguntar uma coisa... O Akira-kun não vai muito com a minha cara, não é?

Ela pensou.

- Não é que ele não vá com a sua cara, sabe... Ele só tomou minhas dores...

- Ah... Entendo... - meu tom de voz me entregou.

Acho que eu estava dominando o tempo e eu não sabia. O céu ficou escuro quando ela falou isso. Eu me senti péssimo com tudo o que eu a fiz sofrer. Me senti o pior cara da face da Terra por tê-la feito sofrer tal como eu fiz. Senti... Que eu não merecia a ter por perto. Não merecia o que ela sentia por mim.

E quando dei por mim, estava chorando.

- Yuu? O que foi? Onde está doendo?

- Meu coração...

- Como assim? Não me diga...

- Airu-san... Me desculpa... Me desculpa o que eu fiz com você... Eu não merecia...

Ela me fez sentar e me abraçou forte, como se quisesse roubar a febre do meu corpo.

- Pare de chorar.

- Mas Airu-san...

- Pare de chorar. Só isso.

- Mas..

- Não se culpe. Também fiz você sofrer. - a voz dela dava a entender que ela estava chorando. - Eu também não acho que eu merecia estar aqui com você.

Ela se calou.

- Você vai ficar comigo, não vai?

- Eu vou. Juro. Não vou te abandonar.

Me soltei do abraço e a beijei na testa.

- Que bom.

O céu voltou a ficar claro e branco, como a neve. Me voltei a deitar nas pernas dela, e entrelacei minha mão com a dela. Para nossa sorte, começou a passar Ponyo na tv, e assistimos, sem pronunciar uma única palavra.

Ao meio-dia, como eu tinha imaginado, muitas meninas apareceram aqui na porta. Elas estavam desesperadas para saber como (e com quem) eu estava.

- Yuu-sama, como você está? E com quem? Ela está te tratando bem?

- Está... Mami-san, não precisa se preocupar! Ela me trata muito bem!

- O idiota do Tagiru disse que você estava com uma três meninas! Onde elas estão?

A Airu-san colocou uma mão no meu ombro.

- Eu as matei e joguei pela janela. - ela foi até a porta e lá se escorou. - Ele não precisa de mais ninguém aqui. Vão embora.

As meninas tinham se arrepiado.

- E quem você pensa que é? - Mami retrucou, engolindo o medo dela.

- Eu sou a maior mestre de armadilhas e caçadora de todo o Japão. A mais linda. A mais peituda. A mais sexy, e a mais poderosa, Airu Suzaki. Este general aqui não precisa de mais ninguém, agora voltem para a aula. - ela concluiu, com um tom autoritário.

As meninas olharam para mim.

- Yuu-sama, não sabia que você gostava de mulher que tinha seios grandes. - disseram em coro.

- Ah! e-Então...

- O que vocês estão fazendo aqui? Vão embora! Ou preferem que eu - ela estralou os dedos ao ponto de os estalos serem audíveis - indique a saída?

Elas correram e se amontoaram no elevador, quase quebrando os botões que davam o comando para a máquina descer. Enquanto isso, a Airu-san dava risada.

- Airu-san... Você sabe em que problema me meteu agora?

- Ah, sério? - ela se fez de inocente.

- É claro! "Não sabia que você gostava de mulher de seios grandes" Sabe o que elas vão falar na escola, depois? - protestei puto.

- Sei sim.

- Se sabe, por que disse aquilo?

- Pra elas darem o fora logo. Francamente, Yuu, você fala como se elas fossem bruxas.

- Mas Airu-san, os boatos...

- E dai? Agora vamos entrar, está frio demais aqui. - ela me empurrou para dentro de casa - Tá na hora de você comer alguma coisinha.

- Como é que vou me explicar essa história...

- Que história? - e fechou a porta.

- "Não sabia que você gostava de mulher de seios grandes" - imitei a voz da Mami-san em um tom fajuto - Isso vai dar o que falar na escola, sabe...?

- Bom, pelo menos os boatos divagando sobre sua opção sexual vão parar, né? - e saiu correndo para a cozinha.

Eu só sei que fiquei com cara de papel branco depois dessa.

...

Segundo a Airu-san, depois do almoço eu tomei um remédio para a febre e tosse e dormi. Ela só me acordou lá pelas oito da noite para saber se eu estava bem.

- E então?

- A febre abaixou.

- Quanto?

- Não muito. Ainda está em 37.9 ºC. Melhor da tosse?

Depois de um acesso de cinco minutos tossindo sem parar, ela concluiu que eu ainda não estava tão bem.

- Eu vou preparar uma sopa. Você toma ela, toma mais um remédio pra essa tosse e volta a dormir.

- E você?

- Vou jantar e tomar um banho, depois vou dormir. Pode não parecer, mas cuidar de você cansa.

- Obrigado pela parte que me toca.

- De nada.

Ela saiu do quarto e fez tudo aquilo que tinha dito. Eu só fui acordar às nove horas do dia seguinte. Ela abria as cortinas da janela.

- Bom dia, Airu-san. - eu disse, ainda deixando meu olhos se adaptarem a luz.

- Bom dia, pinguim.

- Pinguim?

- É. Você todo enrolado desse jeito só com o rosto de fora parece um pinguim.

- Tanta coisa no mundo para me definir, e você me chama de pinguim? - protestei.

- Bom, eu não vou te chamar de "Lollipop-chan", por mais que realmente pareça. Não seria fofo.

Me levantei.

- Lollipop... Aquela boneca que é um bebê todo enrolado?

- Ahhan. Tenho uma dessas em casa, é tão fofinha de apertaaaar~~~ - e se abraçou e balançou de um lado a outro, como se estivesse com aquela boneca nos braços.

- Fiquei feliz por você não me chamar de boneca, então. - sorri.

Ela "se soltou" e pegou o termômetro no meu criado-mudo.

- Vamos ver se você está melhor... - coloquei o aparelho debaixo do braço e esperamos quietos o 'bip' que depois de um minuto se manifestou - 36.4 ºC. É, da febre você está melhor. Já da tosse...

- A tosse é o de menos, eu estou moído. Parece que fui sapateado pelo Tagiru.

- Credo não fale isso. Mas de qualquer maneira melhor você tomar um banho, para acordar de vez.

Concordei.

- E vê se dessa vez você coloca sua pantufa nos pés antes de pisar no chão frio! - ela gritou da sala.

- Tá! - gritei de volta. Pensei comigo: "Ela daria uma ótima mãe, sendo desse jeito".

...

Aparentemente ela não quis fazer zousui e desceu na padaria. Tinha vários pães na mesa (tem pão de creme! *u*), café quentinho e uma variedade grande de coisas a se por no meio do pão.

- Eu não sabia que tipo de pão você gostava, então comprei esses... - ela parou de falar, com certeza estava abismada enquanto me via comer sozinho os pães de creme.

- Ahnnumchêprrocupha - Tomei vergonha na cara e engoli o pão para falar com ela - Os que eu mais gosto você trouxe. E trouxe muitos!

- Tá bom, então... - e ela se sentou, pegando um pão pequeno.

Depois de terminarmos de comer, ela levou a louça para a máquina.

- Nene-sama ligou.

- Ligou? Como que ela está? E os outros?

- Estão bem. Na hora que ela tinha ligado, ela tinha dito que estava voltando para Tóquio pra ajudar o pessoal daqui. Tem alguns digimons teimosos para se lidar.

- Ah! Entendo...

Ela suspirou.

- Queria ir ajudar eles.

- Se quiser ir...

- Está louco? E te deixar desse jeito, sozinho? Nada feito, você vai me aturar até sua irmã voltar. - ela fez muxoxo - Você não vai se livrar assim tão fácil de mim, Amano.

Eu dei uma risada alta.

- Você fala como se eu quisesse de fato me livrar de você!

- E não quer?

- É claro que não! Não vou achar uma enfermeira tão legal quanto você por aí!

Ela me encarou, com o rosto fofo e vermelho. Depois ela correu para a TV, e estava passando um programa de boybands japonesas. No fim sentei no sofá e a vi cantar as músicas de algumas bandas.

Quero te dizer isso: Eu gosto dela, e por mim gritaria pro mundo inteiro isso, mas não acho que eu esteja pronto pra um relacionamento. Pelo menos foi o que eu tinha dito para ela. Mas a verdade é que eu não consigo mais ficar longe dela. Não sei como aguentei ter ela longe de mim todo esse tempo que ela se afastou. E não vou aguentar se ela se afastar de novo.

Perdido nestes pensamentos chegou a noite. Depois da janta, ela disse que ia tomar banho e que antes de dormir iria ver como eu estava.

- Febre não tem mais, e só um pouco de tosse... É, você está curado! - Ela comemorou depois que viu o termômetro.

- Yaaay!

Ficou gravado na minha mente. Os cabelos longos e soltos dela pareciam fazer uma brincadeira com o pijama, branco e rosa, dela.

Eu não sabia que ela era mais encantadora do que o normal.

- Bem, vou dormir. - ela se levantou para ir. Eu segurei a mão dela.

- Fica, por favor.

- E você quer que eu faça o quê aqui? - o rosto dela ia corando mais e mais.

É, eu me dei conta do que eu falei agora.

- É que eu queria... Que você dormisse aqui...

Ela ficou calada. Mas depois me respondeu, ácida.

- Olha, eu sei que você tem dezessete anos e o talz mas... Não vim aqui com essa intenção.

- Eu não falei nesse sentido! - protestei violentamente - Eu só quero que você durma aqui!

- Como assim?! - ela protestou - Acha que eu sou um travesseiro de dormir, é?

- Não, mas... Acho, sim. Por isso eu te pedi para ficar.

Ela me encarou. Perdi a paciência e puxei-a pra cama, enrolei a nós dois no cobertor e eu a abracei.

- Vai deixar mesmo a luz ligada?

- Se eu sair você vai embora.

- Eu juro, não vou.

Corri até o interruptor e voltei.

- Alguém já te disse que você é folgado? - ela falou, baixinho.

- Sim. Você mesma disse isso várias vezes. - devolvi.

Ela se aninhou na cama e me abraçou.

- Se tentar alguma coisa, eu vou matar você e largar os restos na casa da Mami, ouviu?

- Ouvi. - disse por fim.

Nunca dormi tão bem quanto essa noite.

Freetalking: cortei de novo porque tava grande demais. E antes que vocês perguntem: já se passou uns três anos depois do fim de hunters, não? Mas de qualquer maneira, o Yuu tá indo pro terceiro ano, acho... E não se preocupem, não vai virar um fail que nem aquela minha fic em inglês. Esse é o máximo do Yuu.

A propósito: comecei a desenhar o doujin. É uma pena que o SAI não reproduz aquela caralhada de efeitos que o Manga Studio tem, mas ainda dá pra desenhar. Até agora, eu só desenhei uma página. :)