CAPÍTULO II
Semanas se passaram, caçou ao lado dos antigos, ou sozinha. Muitas noites, passava inteiramente no cômodo dos adormecidos. Notou que um novato a observava insistentemente, mas muito disso já havia ocorrido na sua vida vampírica. Muitos estranhavam sua observação, principalmente os mais jovens. Esses costumavam deixar de tomar o sangue dos adormecidos logo na segunda ou terceira noite de covil, quando já se sentia ansiosos e seguro o suficiente para caçar presas despertas. Só retornavam quando percebiam que caçar não era assim tão fácil. Ela mesma já havia passado não dias, mas meses alimentando-se dos adormecidos sem sair da gruta, sem sair ao menos da galeria dos imóveis.
Com o covil já consolidado passaram a planejar muitas investidas pelas cidades abandonadas, conquistando cada vez mais os preciosos corpos inertes. Numa dessas investidas decidiram atacar uma cidade conhecida por armazenar corpos que achavam em antigos centros não fortificados. E foi lá, lá que reconheceu os cabelos negros, mesmo com os olhos comatosamente cerrados sabia que eram também negros e profundos... O rosto era arredondado e liso, sem marcas ou manchas.
Lembrou-se da canção... do blackout e do desespero. Sua mente vagou por épocas remotas e doces antes da Noite Maldita, quando ficava sentada apenas ouvindo o dedilhar dos dedos nas cordas do violão, de olhos fechados, ouvia a melodia. Passou a ver o corpo forte e resistente, flexível e ágil. Via a execução quase perfeita dos movimentos, a face séria e compenetrada. Suor escorria pelo seu rosto, seu corpo... quanto tempo fazia que treinava? Uma, duas horas? Não, eram mais... Era muita dedicação e responsabilidade para ser menos que isso. E o blackout voltou novamente ao seu pensamento.
Despertou dos devaneios para agarrar num frenesi indescritível o corpo adormecido. Durante todos aqueles anos nunca havia tido coragem de procurar ninguém que conhecera pré-Noite Maldita, muito menos Orali. Após o blackout havia ficado desnorteada e passado muito mal com o que sabia agora ser a transformação, não conseguira procurar por seus pais, amigos ou parentes. Tudo que pode constatar pelos registros do hospital era que havia sido levada na noite do blackout com hematomas e feridas pelo corpo, nunca soube realmente o que aconteceu, apenas tinha vagos flashes de pessoas correndo assustadas e eles tentando ajudar, era na faculdade. Num dos flashes pode ver que ele se afastava levado pela multidão de alunos desesperados, virava a cabeça em todas as direções e gritava seu nome. Gritou de volta... Lin! Ambos chamavam um ao outro, lembrou de que, por um último momento seus olhares se encontraram e ela viu nitidamente sua boca formar seu nome, mas não lembra mais nada, após isso ela caiu... Lin... caiu e desmaiou. Lin... Provavelmente havia se ferido desmaiada na confusão.
Após o episódio de Orali, nunca mais cogitou a possibilidade de procurar nenhum ente querido seu. Que loucuras poderia fazer contra eles? Nesse estado livre da sanidade em que se encontrava agora era um perigo a todos que fossem humanos. Mas, ao vê-lo ali, tão perto, tão docemente adormecido... Lágrimas de sangue jorravam de seus olhos enquanto corria abraçada ao corpo em direção ao covil. Quem mais estaria ali depois de trinta anos? Se estivessem despertos como Orali, poderia já ter morrido pela idade. Se estivesse adormecido como ele, como poderia achá-los? E o pior... se tivessem acordado bentos?
Moveu-se desconfortável e fitou o novato intensamente. Desviando o olhar esperava que ele tivesse entendido o recado de que era para deixar o corpo em paz. Sentiu a aproximação daquele que a observava e novamente voltou a fitar a criatura nos olhos. Era uma garota, baixa e esguia, tão morena quanto um dia Orali havia sido. Os olhos tão vivos quanto os de Orali, parecia tanto com sua luz... Não dizendo palavra a novata continuou ao seu lado e, após algumas horas, finalmente se cansou e saiu do cômodo dos adormecidos. Orali havia partido de sua vida há tantos anos, mas ele havia voltado... e quem mais voltaria para ela? Estava tão nostálgica e ele era sua única ligação com a época antes da Noite Maldita... com a vida...
Após recuperar o corpo, ela passara meses se alimentando apenas dos adormecidos... como poderia sair do lado dele e deixá-lo a mercê dos bebedores de sangue? Então teve origem seu ritual. Todas as noites, logo ao crepúsculo, levantava-se aflita antes de todos e seguia ao encontro de Lin, por momentos chegou a conversar com ele como se esperasse resposta, mas sabia ser impossível.
Durante muitas noites pousou a cabeça no peito dele, que continuava a se mexer ritmado, e era como se sonhasse... ouvia novamente o dedilhar do violão, a melodia... chegava até a sentir suor escorrendo por suas costas quando imaginava as noites quentes em que ela o via treinar por horas no quintal de sua casa. Mas ninguém sonhava após a Noite Maldita, muito menos ela. Quando acordava dos devaneios e sentia o ritmo da respiração, o leve pulsar do coração de Lin, chorava lágrimas rubras até encharcar as roupas dele. Roubou roupas novas para por no corpo no lugar das sujas de sangue. Após muito tempo sentiu-se segura para deixar Lin sozinho enquanto caçava os despertos. Ninguém mexeria com Lin, não depois de vê-la tantas noites, por tantos meses ao seu lado... os próprios antigos advertiam a todos quanto a isso. Eneas muitas vezes colocou-se ao seu lado enquanto olhava o corpo inerte... Ele havia tido uma filha ela era uma adormecida, mas receberam a notícia, pelos mulos que as vendiam, de que havia desperto há dois anos numa cidade ao sul da antiga Curitiba, e havia sido morta numa investida de um covil da região. Ele entendia minha dor. E minha esperança... Será que algum dia Lin acordaria? Será que algum dia se tornaria um deles?
Vagariam pelas noites eternas juntos novamente, e eternamente? ...
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Dias mais tarde a novata novamente se colocou ao seu lado. Não sabia dizer o que ela deveria querer... Sabia apenas que ela lembrava dolorosamente Orali, com seu rosto moreno, olhos e cabelos muito negros... Após algumas horas observando o corpo de Lin, ela resolveu dirigir a palavra à novata.
– Suponho que possa ajudar em alguma coisa... – falou virando o rosto na direção da novata. Os olhos se encontraram, nenhum exibia o brilho rubro, era uma inteiração totalmente cordial.
A novata manteve-se calada. Por algum tempo permaneceu fitando o corpo de Lin.
– Devo lhe dizer que não seria prudente beber dele, arranje outro. – falou em tom de ameaça à novata que apenas confirmou com a cabeça e se manteve na mesma posição. Após longos minutos abriu a boca tentando formular uma frase, mas tornou a fechá-la sem nada expressar. – Vamos, pode falar, o que está pensando?
Após novos instantes de silêncio a voz rouca e cadenciada da novata encheu a gruta apinhada de adormecidos e livre de outros vampiros àquelas horas.
– Você... se chama Ágata, não é?
Que fim aquela conversa poderia levar? Devia apenas ser mais uma neófita perdida que se achava mais confortável ao lado dos adormecidos, de seu leve ressonar. Confirmando com a cabeça a informação, que ela poderia ter obtido com qualquer um do ninho, esperou pelo desfecho.
– Você... algum dia... conheceu Orali?
Ágata arregalou seus olhos. Orali... A dor e prazer foram tão intensos ao ouvir aquele nome sendo pronunciado por uma voz que não a sua, como se pudesse ser a confirmação de que Orali havia sobrevivido! E era a confirmação! Como alguém poderia saber dela se a árabe não houvesse encontrado companhias no grande e iluminado hospital. Virou-se para a novata, estudando todos os detalhes de seu rosto pela primeira vez. Quando formulava a pergunta de seu nome, a voz não conseguiu trespassar a barreira que se formava em sua garganta... Nurin... "Ela tinha cabelos tão escuros, Ágata! Você terá que conhecer a minha menininha! Terá que conhecer Nurin e meu marido!", lembrava-se das conversas com Orali. Tão nitidamente. Aquela era Nurin, sua filha! Sua filha... Lentamente os músculos que permitiam a fala foram voltando ao normal, o nó que se formava em sua boca foi desfazendo-se.
– Nurin...
A garota, a confirmação de seu nome, desatou num lamurioso e sentido choro. Enfiou as mãos nos cabelos e encolheu o corpo contra as pernas. Ágata sentiu-se chocada com a cena. A filha de Orali, da sua luz, estava à frente, e chorava copiosamente. Ela era apenas um bebê na Noite Maldita. Não podia ter despertado vampira e naquela idade... Lentamente o cenário formava-se em sua mente. Nurin havia despertado, e encontrara sua mãe Orali, que lhe contou sobre as noites no hospital. Anos haviam se passado, e o pequeno bebê mostrava indícios de tornar-se uma bela mulher. O que ela estava fazendo naquele covil? E na condição de amaldiçoada? Ágata passou a mão pálida e fria sobre os cabelos da garota. Ergueu sua face ainda morena, mas mostrando os sinais de morte, enxugando suas lágrimas rubras. Por tudo que ainda havia de sagrado e profano naquele mundo! Já não existiam sugadores de sangue demais sobre a terra? Ele a haviam transformado!
