Notas da autora:

No último capítulo:

Depois de uma agradável "troca de elogios", Mu se depara com um Santo de Virgem aparentemente irritado e de olhos abertos. O que teria feito o sempre plácido

Shaka se alterar dessa forma? E como Mu reagirá diante da verdade? Nos acompanhe em mais um episódio da nossa saga Santuariesca (neologismo rulez!).

Parando um pouco com a palhaçada de novela mexicana... hehehe... Esse capítulo foi escrito praticamente de uma tacada só, me surpreendendo imensamente. Fiquei razoavelmente satisfeita com o resultado, e o que mais importa, a Arietide gostou. Espero que vocês gostem também. Como comentários adicionais, confesso que me inspirei no Mu da própria Arietide em sua "Elegia" para construir a cena das farpas. A quem interessar possa, é uma excelente leitura, recomendo a todos. E se identificarem as semelhanças entre o meu Mu e o dela, ficarei contente em saber. Além disso, acredito que cabe aqui ressaltar, eu tenho uma interpretação muito pessoal tanto do Mu quanto do Shaka. Imagino que algumas pessoas possam não entender/gostar, mas deixo desde já avisado que não se trata de uma AU, e sim e uma visão diferente dos mesmos personagens. Sei que não dá pra agradar gregos e troianos ao mesmo tempo (e não, isso não foi uma tentativa de trocadilho com Saint Seiya), mas ninguém pode me impedir de tentar ao menos não irritar. Findas as notas, vamos aos agradecimentos.
Agradecimentos:
Novamente a minha deliciosa Beta, Arietide. Quando a enxurrada de reviews que eu sei que vou receber (AHAM! Senta lá, Claúdia... XD) chegar, eu acrescentarei mais agradecimentos... =P
Disclaimers:
Blablablá, mimimi, yadda yadda yadda, eles não são meus. Eu sento, choro, e é isso aí. Sou professora, logo não tenho dinheiro, se quiser processar alguém, processe o Kurumada por não aproveitar os personagens da forma como nós, fãs, gostaríamos que ele fizesse. E tenho dito. HUNF!


~o~o~

Uma estátua. Tinha certeza, agora. Ele era uma estátua, que encontrava-se ali, postada à sua frente, esperando receber vida dos deuses para assim demandar sua vingança daquele que a causara injúria. Uma estátua imóvel, porém, com a fúria dos sete céus estampada em duas piscinas azuladas as quais tinha por olhos.

Mu perguntava-se o que poderia ter dito de tão grave que ofendesse Shaka a ponto deste ter aberto as portas de sua alma e cosmo. Um silêncio espectral seguiu-se ao rompante do virginiano, em que o Santo de Áries aproveitou para levantar-se em meio aos escombros do que um dia fora sua mesa de refeições. Ainda tonto e com algumas farpas penetrando a sua pele em pontos variados, pôs-se de pé e sacudiu da túnica que vestia os restos de madeira. Olhou à sua frente e nada disse, esperando alguma justificativa, ou comentário, ou ainda que o outro se fosse.

Sabia que às vezes Shaka poderia ser imprevisível como uma tempestade de verão, e algo que o fizesse perder seu tão precioso controle com certeza era grave por demais. Mas não atinava com o que poderia ter sido. Nada do que dissera estava muito além das já tradicionais provocações e alfinetadas que costumava trocar com o indiano. Recostado na parede, ainda tentando recuperar o fôlego, Mu encarou firmemente o outro, e finalmente resolveu dar voz ao que lhe perturbava.

– O que... O que foi isso? Vossa santidade tornou-se humana? – Impossível controlar o escárnio contido na voz, que vazou de língua e dentes como veneno reptiliano. Estava ferido. Não fisicamente, estes eram insignificantes diante do que Mu já havia enfrentado em seus anos de treinamento. Seus ferimentos jaziam muito mais profundamente. E somente aumentaram quando da estátua majestosa que tinha diante de si veio uma resposta.

– Irônico ouvir isso de alguém que nem humano é.

Estupefato e com o espírito sangrando em silêncio, Mu caminhou até o móvel que lhe servia de mesa de cabeceira e obteve material de assepsia médica. Poderia livrar-se das incômodas farpas com seu cosmo ou telecinese, mas fazê-lo fisicamente lhe dava a ilusão de poder desfazer-se também da dolorosa farpa verbal de Shaka. Sentou-se em meio às almofadas e cobertas que tinha por cama e começou a ingrata tarefa de retirar os minúsculos restos de madeira do rosto e mãos, limpando um por um. Levantou os olhos, tentando esconder inutilmente a dor que havia por detrás deles, e dirigiu-se a Shaka, na esperança de que este o deixasse lamber suas feridas em paz.

– Se não se importa e não tiver mais nada de útil a dizer, então, por favor, retire-se. Já causou destruição demais por uma noite.

Mu temia estar referindo-se mais à dor que sentia em seu peito do que à porcelana e aos móveis despedaçados.

– Eu estava fazendo isso quando você decidiu questionar minha humanidade.

– Eu questionei sua humanidade depois de você questionar minha dedicação.

– Eu questionei sua dedicação após você questionar minha motivação.

Ao ver o quão sério Shaka estava ao proferir as últimas palavras, Mu não resistiu e riu baixinho. Qualquer outra pessoa teria achado hilária a discussão quase infantil entre os dois; e verdade fosse dita, o tibetano havia, sim, achado deveras engraçado. Mais pela gravidade que Shaka dava ao assunto do que pela forma como a questão estava sendo conduzida.

– O que achas tão engraçado? – Sem se dar ao trabalho de nivelar a cabeça com o movimento ocular, Shaka olhava superior para o outro sentado ao chão, que, calmamente, retirava uma última farpa da mão esquerda. Sem levantar o rosto para o olhar corrosivo, parou de rir e pausou um segundo ou dois antes de responder.

– Eu devo admitir que você é muito bom em apresentar ofensas, mas falha em justificar-se... Entretanto, ainda não entendo o que eu posso ter dito que provocou a sua reação.

O Santo de Virgem virou-se de costas para Mu, respirou profundamente e ensaiou dois passos para a frente, mas deu a volta e encarou Mu, dessa vez olhando para baixo por inteiro.

– Você não tem ideia das próprias palavras. Você não sabe o que perturba meu coração.

– Começo a achar que você não tem um, para começar. Vou repetir a pergunta, Shaka. Você ainda é humano? Se ainda o é, porque se recusa a demonstrar? – Já livre da tarefa de cuidar de si, Mu guardou os objetos que usava e recostou-se à parede, uma perna esticada e a outra erguida, o joelho flexionado. Apoiou um braço na junta suspensa e esperou, encarando o indiano com intento, o sorriso que outrora iluminava o próprio rosto agora perdido na semiescuridão do aposento.

– Não tenho necessidade de demonstrar nada. Nem para você, nem para ninguém. Não tenho intenção de me rebaixar a desejos ou sentimentos mundanos, os mesmos que segundo a sua concepção seriam prova de que "sou" humano.

O silêncio pesava no ar, denso, quase sólido. Mu olhou pesaroso para o virginiano, decepcionado. Para alguém que entendia dos mistérios do universo, Shaka poderia ser bem obtuso quando se tratava de assuntos do coração e da alma. Ou talvez o orgulho em demasia não o permitisse, como havia dito, "se rebaixar" ao mesmo nível dos mortais ordinários que o cercavam, e discutir com propriedade a questão.

– Diga-me, Shaka, o que o leva a crer que todo sentimento ou desejo humano deve obrigatoriamente ser mundano?

A expressão de choque na face do virginiano seria impagável se o assunto não fosse demasiadamente sério e incômodo a Mu. Gostaria de rir, mas sabia que se o fizesse, estaria afastando qualquer possibilidade de ser respondido a contento. Preferiu então permanecer quieto, à espera de qualquer indicação de retorno por parte de Shaka. O que ouviu definitivamente não era o que aguardava.

– Diga-me você, Mu. Que desejo humano não seria mundano? Que sentimento o ser humano é capaz de ter que não seja guiado pelo egoísmo, ou carência psíquica? Mesmo a doação e a abnegação por vezes demonstradas por almas ditas iluminadas têm sua origem em uma necessidade primal de ser aprovado ou sentir-se bem consigo mesmo. – Triunfante em seu argumento, Shaka se aproximou lentamente de Mu enquanto proferia suas palavras cáusticas. – Mesmo o nosso amor por Athena fora incutido em nossos corações ainda em nossa mais tenra infância. Não tivéssemos dentro de nossos corpos e almas o cosmo sagrado, não tivéssemos conhecido o seu nome, a quem adoraríamos? À frente de que Buddha ou deus cristão estaríamos nos ajoelhando?

Pasmo, Mu não conseguia tirar os olhos dos lábios do indiano, que não descansava em meio às sílabas que destilava como ácido por entre os dentes. Shaka se aproximava mais e mais, até parar a meros dois passos de onde o ariano encontrava-se sentado. Olhou para baixo e continuou, incansável em sua palestra.

– Fossemos nós seres humanos comuns, em que templo prestaríamos nossas preces? E se não nos ensinassem a reverenciar qualquer outro deus, a quem dirigiríamos nosso "amor"? E com isso, quero somente demonstrar que o que chamam de o mais puro sentimento não passa de algo aprendido. Como uma lição filosófica em um fórum ateniense. – Um longo suspiro deixou o peito do Santo de Virgem, em sua primeira mostra de cansaço. Ou tédio. Mu não sabia dizer. – Se o que supostamente é natural e inerente à natureza humana não pode ser digno de confiança, que confiança deveria eu ter na pureza de qualquer outro sentimento humano?

Antes que Mu pudesse começar a responder, Shaka levantou o dedo indicador da mão direita na direção do tibetano, em sinal de silêncio. Mu aquiesceu, ainda perplexo pela torrente de informações recebidas, tomando-as como um golpe quase fatal em seu coração. Não podia crer na desilusão que habitava a alma daquele homem em pé, parado, postado a alguns centímetros de distância de si.

– Entenda-me, Mu. Quando criança, presenciei sofrimentos de toda espécie. E percebi que são os sentimentos e desejos humanos que nos levam a sofrer. Aquele que busca a iluminação e o cessar de todo e qualquer sofrimento deve buscar a eliminação de necessidades humanas. Ou mundanas, como você colocou. A eliminação dos desejos. Sobre os quais, aliás, não vou nem me pronunciar. Pois estes são mais abjetos do que qualquer sentimento. Sentimentos são escusados, características criadas e cultivadas pela condição humana. Desejos não passam de uma desculpa dos homens para se comportarem como animais descontrolados.

Se não fosse igualmente orgulhoso, Mu teria chorado pelo virginiano. Pois não concebia a ideia de viver em um mundo tão desprovido de vida e cor como aquele em que vivia Shaka. Agora entendia parte da fúria do outro. Mas não conseguia digerir alguma coisa em meio a tudo aquilo. Algo estava fora do lugar, e que Athena o perdoasse, iria descobrir, não importava o custo.

Shaka virou-se como se a ir embora, mas percebeu, ao ouvir um sussurro de Mu, que uma barreira invisível ocupava o espaço à sua frente, impedindo o seu progresso. Seus olhos azuis e brilhantes de indignação voltaram-se novamente às orbes verdes pertencentes ao tibetano, que agora encontrava-se em pé.

– O que significa isto, Áries? Não se cansou ainda? Falta algo à sua compreensão limitada que demande mais alguma satisfação?

Mu ignorou a alfinetada e riu suavemente, sem sequer saber a razão. Mas riu, e a enxurrada de pensamentos que dominavam a sua mente pelos últimos minutos encontraram uma brecha na represa de sua razão, que partiu-se provocada pela pressão que Shaka exercera com suas sentenças.

– Significa que ainda sinto falta de algo, sim, mas não em mim. Em você. Qual a sua motivação, Virgem? Pelo que você luta? O que te guia? Pelo que você vive? Por quem você volta a cada luta, cada missão, cada ferida? E não me diga que é por Athena porque você já deixou bem claro o que pensa da nossa... Devoção. Sabe de uma coisa?

Agora era Mu quem pedia com o dedo silêncio, observando cuidadosamente as reações do virginiano a cada palavra que dizia.

– Uma vez Shion disse-me que nossos maiores medos estão dentro de nós mesmos, e que localizar a sua fonte no exterior não passa de uma tentativa frustrada de fugir às nossas próprias faltas, culpas e fantasmas. Que fantasmas te assombram, Shaka? E por que... Por que você veio aqui, hoje, dividir um gole de chá comigo? Seu espírito iluminado não o libertou de todos os sentimentos e desejos humanos? O que poderia então ter o feito abandonar sua tão preciosa meditação e ceder a um momento tão... Humano... Mundano... Veio pelo chá, pela companhia, ou por algo que a sua mente ainda não consegue discernir?

Os músculos da face do Santo de Virgem tremiam, espasmos denunciantes de que o ariano havia tocado em um nervo exposto. A tensão no aposento crescia exponencialmente a cada pergunta, cada afirmação. Por não ter feito muito esforço ao criar a Crystal Wall situada às costas de Shaka, Mu sabia que era apenas uma questão de tempo até que pequenas rachaduras surgissem. E com elas, esperava confirmar o que tanto desejava. Que o virginiano à sua frente não estava alheio ao que dizia. Que ele não era... Totalmente santo. Que ele ainda poderia ter uma reação explosiva como qualquer outra pessoa. Mu decidiu, em um ímpeto de coragem, deitar o golpe final ao orgulho de Shaka. Tentando ignorar as borboletas que flutuavam em seu estômago, sem saber se estas eram de ansiedade ou receio, avançou subitamente, eliminando o espaço já ínfimo entre os dois. Olhou de um olho ao outro para o homem que encarava, em um momento de antecipação.

E o beijou.

~o~o~


Notas finais do capítulo: Pois é, pessoal... Parei aí de propósito... Imagina que ninguém percebeu (rsrsrsrs)... Próximo capítulo: Será que o Shaka vai mandar o Mu pra um dos seus infernos? O_o

Até a próxima!