Um pequeno lago muito azul, surgia bordado por pedras brancas arredondadas. Uma ponte ligava o jardim, passando sobre o lago. E pessegueiros e macieiras esparsamente mostravam suas flores perfumadas. Umas brancas, outras róseas.

Estava enlevado espiando tudo, quando ouviu o grito de uma criança. Atravessou a ponte enquanto uma voz de homem chamava em tom bem alto.

- Tetsuo!... Tetsuo!... Cuidado, meu Príncipe!

Mas o menino não dava atenção ao chamado. Corria e, ao encontrar Watanuki, lhe grudou as mãos.

- Você veio... Eu sabia que você vinha.

O pálido menino tinha os olhos cheios d´água e arfava. Aparentava uns oito anos de idade. Parecia boneco de porcelana, com traços finos e bem delineados.

Um outro velho aproximou-se, trajando hakama e um casaco largo e liso.

- Não pode correr assim, meu Príncipe.

- Titio, não o deixe ir embora.

O velho alisou os cabelos do menino.

- Se você também prometer que sai desse sol e vai se sentar no terraço, eu prometo.

Contudo o menino não parecia querer soltar as mãos de Watanuki, cuja expressão era de apreensão e curiosidade.

- Brinca comigo?

Watanuki analisou a face do menino. Sorriu, segurando as mãos dele.

- Sim, eu brinco. Mas como seu tio disse, melhor que vá se proteger do sol.

Tetsuo atravessou a ponte e no meio olhou para ver se Watanuki não desaparecera. Só então subiu os degraus da escadaria e foi-se perder no interior do palácio.

- Não quer entrar, Kimihiro Watanuki?

Watanuki espantou-se com o velho, tio do menino. E antes que pudesse perguntar como adivinhara, o velho lhe respondeu.

- Nós o esperávamos, há muito tempo. Meu nome é Kankuji, o Mestre.

Achegaram-se no palácio e sentaram-se na varanda. Watanuki ouviu o suave tilintar de sinos e ergueu o rosto, deparando-se com um bonito furin (sino decorativo).

- Foi bom você ter vindo. Sente-se bem?

- Sim. Estranhamente bem.

Logo Tetsuo retornou, sentando perto de Watanuki. Olhava-o com atenção e curiosidade. Estava empolgado, aguardando o momento em que pudesse brincar.

- Kimihiro Watanuki... Você vai ficar comigo, não vai?

- Posso ficar um pouco.

- Um pouco, não. O dia todo. Sabe, nós poderemos de tarde passear no jardim. Se a minha febre não aumentar, assim que o sol se esconde Titio deixa que eu brinque no lago, passeie no jardim e acaricie as flores. Você gosta de flores?

- Sim, gosto. Mas...

Começaria a explicar sobre Yuuko, dizendo-lhe que tinha trabalho a fazer. Entretanto, Kankuji murmurou.

- Acredito que ela não vai se importar.

- O que? Tá falando... da sra. Yuuko?

- Isso mesmo.

- Conhece ela?

- Ah, conheço sim.

Tetsuo empertigou-se, desinteressado daquela conversa.

- Ei... Vamos brincar, Watanuki-kun?

Antes que o rapaz pudesse responder, o menino emendou.

- Tio... Posso mostrar o Palácio a ele?

- Calma. Você precisa descansar.

- Ah, tá bom.

Tetsuo segurou a mão de Watanuki e foi fechando os olhos, sentado escorado à parede. Watanuki sorriu, olhando-o adormecer.

O cochilo do menino deve ter durado cerca de vinte minutos. Talvez mais, talvez menos, Watanuki não teve certeza. O tempo parecia correr de modo diferente ali.

Enquanto isso, Watanuki ficou quieto, observando a paisagem.

Assim que despertou, Tetsuo foi logo perguntando.

- Posso ir agora, Titio?

- Sim. Mas nada de correr. Ou terá que ficar de cama o dia todo, o que será pior.

- Não se preocupe, senhor. Eu tomarei conta dele.

Tetsuo e Kankuji sorriram para Watanuki. E o menino grudou nas mãos dele, chamando para que o acompanhasse.

Tetsuo o guiou por vários cômodos. Primeiramente, visitaram a sala de brinquedos, cujas prateleiras estavam apinhadas de jogos de tabuleiro, bichinhos de pelúcia e brinquedos.

Diante do pedido do menino, Watanuki deu corda em alguns dos brinquedos. Riram quando os bonecos se mexeram, batendo palmas ou andando pela sala.

Recomeçaram a caminhada, passando por enormes estátuas nos corredores, e adentraram a sala de armas. Um mundo de facas, lâminas de vários formatos a que Watanuki não sabia classificar. Eram adagas, alfanjes, espadas, foices, machadas e facas de todos os tamanhos.

- Algumas delas pertenceram a grandes samurais. Veja esta armadura... pertenceu a Miyamoto Musashi. Esta outra, a Saigo Takamori. Aquela, era do...

Tetsuo foi citando inúmeros nomes famosos na história japonesa, cujas armaduras e armas ali estavam guardadas.

- Como sabe tudo isso?

- Quando não estou passando muito bem, Titio me traz aqui e fica lendo e explicando as lendas e histórias.

- Você viajou muito?

- Quase todo o mundo. Enquanto havia esperança, viajávamos muito...

- Esperança do quê?

- Esperança de que eu me curasse. Visitamos todos os especialistas do mundo. É assim mesmo. Os livros das Ciências Eternas me classificaram como um dos milhares de meninos escolhidos para um fim que não poderei explicar a você tão já. Um dia, o saberá.

- Que idade você tem? Não parece ter a idade que aparenta.

Tetsuo ergueu os olhos calmos para Watanuki. O rapaz teve uma sensação estranha, inexplicável.

- Tenho oito. Mas talvez tenha oitenta, oitocentos, oito mil anos...

Watanuki piscou, confuso. Mas tentou continuar a agradável conversa.

- E não viaja mais?

- Não. Minha missão termina aqui, com você.