Título: Rain on me

Casal/Personagens: George/Lee e George/Fred

Sumário: Porque das nuvens mais negras, cai água limpa e fecunda...

Aviso: Esta fanfic contém SLASH, ou seja, relacionamento amoroso entre homens. Se não gosta recomendo a não prosseguir.

Disclaimer: Harry Potter não é meu. Costumo matar personagens de forma mais digna...

Beta: 7Coyote7 - que salvou minha vida!

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Rain on me

Por: Menina Emilia

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Silêncio

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You broke another mirror

You're turning into something you are not

Don't leave me high, don't leave me dry

(Radiohead – High and Dry)

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A única luz da casa era a que vinha da rua invadindo pelas frestas deixadas nas cortinas. A penumbra não incomodava George, poderia até mesmo andar naquela casa de olhos fechados. O que era realmente insuportável era o silêncio. A falta dos sons da rotina de quem tem crianças fazia pesar a ausência do filho. A voz fina falando sem parar, a risada cristalina a todo o momento ou até o choro de manha esmaeciam qualquer lembrança dolorosa. Mesmo as de Fred.

Acabava de voltar da casa de Angelina onde tinha deixado o filho. A loja no piso de baixo já fora fechada por Ron. E sem os fogos de artifício pipocando ao lado do letreiro, ou todos os produtos girando ao som de melodias irritantes, o número 93 do Beco Diagonal só se parecia mais com uma loja no meio das outras, sem ter qualquer coisa de especial. Era apenas um pequeno prédio tão passivo de carregar toda aquela tristeza quanto qualquer outro. Não era todo dia que George Weasley estava disposto a realmente ser George Weasley. Havia os dias de penumbra e silêncio.

Como o dia do seu aniversário. Seu e de Fred.

George não havia comemorado a data nos dois anos seguintes ao da morte do irmão. Tendo sempre as piores reações possíveis quando isso era sugerido. O que não diferia muito de como agia em todo o resto daqueles dois anos. Apenas no aniversário anterior, quando o pequeno Fred já tinha alguns meses e as coisas vinham melhorando a olhos vistos, é que George decidiu que era hora de comemorar. Ele não explicou nada a ninguém – o que fazia muito parecer que o velho George estava de volta – e enviou corujas aos irmãos e a Harry dizendo que precisavam se reunir para comemorar seu aniversário. Passara o dia inteiro sob o olhar interrogativo de Ron, mas ele teve o bom senso de não perguntar nada, ou pelo menos assim Hermione devia tê-lo o aconselhado a fazer antes de ele ir para a loja, pois toda aquela discrição não fazia parte do irmão mais novo.

Não houve ânimo para organizar nenhuma comemoração esse ano, embora tivera o cuidado de não demonstrar isso quando fora almoçar na Toca com seus pais ou quando fora deixar o filho com Angelina, que insistira em ficar com a criança sob a justificativa que George tinha que sair para se divertir e não ficar trocando fraudas. Claro que ela aproveitou para lhe entregar um presente quando ele estivera em sua casa. Mal sabia ela que tudo que ele queria era poder colocar o filho no berço e vê-lo dormir. Não havia muito a fazer agora, se não tomar um banho e se jogar na cama. Aquelas duas semanas que seguiram ao nascimento de Victorie tinham sido um enorme desgaste emocional para ele. A presença constante de Lee o abalava mais do que ele achara que poderia.

Ron tentou conversar com ele na loja logo depois do almoço em que Lee aparecera. O irmão nunca rodeou tanto um assunto quanto naquele dia. Tinha que confessar que a maneira confusa de Ron tentar não ser direto e insensível o agradara bastante aquele dia. Não achou que poderia fugir de uma pergunta direta e também não seria uma boa idéia explicar para o irmão que a presença de Lee não trouxera Fred de volta a sua vida. Ele jamais saíra. Quando se distraia imaginava que, ao se virar, veria Fred observando com aquele olhar maquiavélico a prateleira dos testes, mas encontrava o lugar vazio. Ás vezes podia jurar que fora o hálito quente de Fred em seu pescoço que o acordara, para se descobrir sozinho na cama ao abrir os olhos. E o mais constante de tudo, era ouvir a gargalhada de Fred quando todos os irmãos riam juntos, para depois perceber que era apenas a sua risada.

Não, Lee não trouxera Fred de volta. Mas ele trouxera as lembranças. As coisas que aprontaram em Hogwarts, como se revezavam para fazer o Potterwatch fingindo ser apenas uma pessoa, as Gemialidades que tinham inventado junto. Inúmeras memórias que poderiam ser até de outra vida e que faziam a cicatriz na sua alma doer. Mas por outro lado, ele gostava de ter o amigo por perto de volta. Lee explicara que havia um grande intervalo entre os campeonatos de Quadribol de um ano e de outro e por isso ele tinha aquele tempo como umas férias, já que não havia jogo algum para ser narrado. Ele aparecera na loja várias vezes depois e os dois acabaram indo tomar uma cerveja amanteigada e jogar conversa fora. Depois das duas primeiras vezes que Lee tentou recomeçar a conversa sobre o tempo em que não se falaram e fora cortado por George fazendo alguma gracinha bem boba, ele desistiu do assunto e então tudo voltou a ser divertido. Divertido era bom, confortável. George gostava que fosse assim.

Saiu do banheiro vestindo a blusa e ia seguir direto para o quarto quando ouviu um barulho vindo da sala. A frase saiu pela sua boca tão automática sem nem dar tempo para ele pensar no que estava dizendo:

- Pode desistir Fred. Eu já sei que você está aqui! – ele avisou.

Enquanto ouvia as palavras se formarem em sua voz, ele notou o que falava e já sabia que ao agitar a varinha para fazer as luzes se acenderem seria tomado pela sensação de vazio, de ser só a metade de algo que nunca mais estaria inteiro. Mas na claridade, o que ele viu fez com que a surpresa engolfasse qualquer solidão. Apertados em sua pequena sala estavam um bolo, todos os seus irmão e vários amigos, num total de quase quinze pessoas que nunca teriam imaginado pegar George de surpresa um dia.

E George podia ler o espanto facilmente em seus rostos no segundo de hesitação causado pela frase que todos deveriam ter ouvido. Mas foi apenas um momento antes de Luna puxar sozinha um animado "parabéns para você" e ser seguida pelos outros.

- Um viva porque George não saiu pelado do banheiro! – Ron gritou ao final.

- Viva!!!!

- Um viva porque não fomos atacados por nenhuma gemialidade. – Percy gritou.

- Ainda - Bill completou.

-Viva!!!

- Um viva para o George! – Foi a vez de Ginny.

- VIVA!!!

Um pensamento longínquo dizia a George que aquela era uma boa hora para sair do transe e tomar alguma atitude, assim, ele deu alguns passos e assoprou as velas. Depois das palmas, muitas coisas começaram a acontecer, primeiro alguém colocou música, depois Ginny se encarregou de partir o bolo e então Lee começou a anunciar uma longa lista de bebidas que segundo o próprio estavam disponíveis na cozinha. Para completar as pessoas começaram a vir falar com ele.

Seamus. Dean. Harry. Luna. Nevile. Bill. Percy. Hermione (que acabara de chegar falando algo sobre plantão). Ron. Ginny. Charlie.

Não fora algo realmente difícil. Sorrir e dizer coisas engraçadas fazia tanto parte dele que poderiam ser feitas mesmo que ele não tivesse a menor vontade disso. Não que não estivesse feliz com a presença de todos ali. Era só que também sentia a presença de Fred mais forte que nunca e isso fazia seu coração doer.

Por último veio Lee, que estivera ocupado com inúmeras garrafas, mas assim que pôde, o afagou em um abraço apertado. Mas não lhe deu parabéns ou qualquer coisa do tipo, apenas disse que até o final da noite ele estaria sorrindo de verdade.

Bill foi embora nem meia hora depois do inicio da festa, dando muita ênfase ao explicar que tinha uma recém-nascida em casa, soando completamente orgulhoso, fazendo com que Ginny e Hermione sorrissem e Ron, que não podia deixar passar, soltasse um irônico "oh, que papai fofo!". George já tinha perdido as contas dos copos de Firewisky que bebera a essa hora. De repente se sentia mais disposto a estar ali com todos aquelas pessoas, mais a vontade. Ele conhecia bem aquele conforto proporcionado pelo álcool. Por quase dois anos aquilo fora tudo que conhecera.

A maior parte das pessoas estava sentada em uma roda e jogavam "eu nunca". Hermione conversava com Harry e Percy separados e Luna, que à segundos atrás tinha escutado ele falar confusamente sobre a ultima Gemialidade tinha ido se juntar a eles. Seamus e Dean não estavam em nenhum lugar que ele pudesse ver, por motivos óbvios já que da ultima vez que vira o casal de namorados, os dois estavam se agarrando com animo de mais no meio da sala. Resolveu se juntar ao eu nunca", percebendo que não traçava uma linha muito reta ao se encaminhar para lá.

A garrafa foi passada para ele assim que entrou na roda.

- Qual é a frase?

-Eu nunca dei uns amassos em alguém da sonserina. – Ginny falou.

- Eu mantive minha dignidade – ele disse e passou a garrafa sem beber para Charlie, este por sua vez deu um bom gole.

- O que foi? – perguntou quando percebeu que todos o encaravam espantados – Sonserino são quentes.

A sentença poderia ter chamado ainda mais atenção se não fosse Ron, cuja a cabeça rodara e pendera para frente.

- Acho que foi o choque. – Ginny disse – Saber que eu e você já nos pegamos com sonserinos é demais para uma noite só.

- Ou ele está bêbado como um gambá. – George disse, mas sua voz não mostrava que ele estava muito mais sóbrio também – O que já era de se esperar.

Hermione saiu do outro lado da sala e veio ver o que tinha acontecido com o namorado, quando se deu conta do quão bêbado ele estava achou melhor levá-lo para casa. Depois da saída dos dois, não demorou que mais pessoas começassem a ir embora conforme os níveis alcoólicos dos que ficavam iam aumentando. Os últimos a sair tinha sido os mesmo de sempre: Ginny, para a que saiu andando e ainda quase carregando Harry apesar da quantidade absurda que tinha bebido – "Essa menina é meu orgulho", Charlie comentou ao ver a cena – e então ele próprio também se despediu, não tinha bebido quase nada, o que era de se estranhar. No final restava apenas ele e Lee jogados em um dos sofás.

Nenhum dos dois falava nada e então havia todo aquele silêncio de novo, a diferença é que agora ele não fazia doer. Talvez fosse o fato de Lee estar ali. Talvez fosse porque estava bêbado demais até para lembranças, ele não sabia dizer exatamente.

- Chuva – Lee falou ouvindo o barulho que vinha de fora.

-Uhum – George concordou sonolento.

-Devíamos ir lá para fora.

-Porque? – a idéia de levar daquele sofá não poderia desagradar mais a George.

- Porque nós estamos bêbados. – o amigo explicou como se fosse óbvio.

- Não faz sentido para mim.

- É uma das vantagens de estar bêbedo. – Lee falou levantando e puxando George – as coisas não precisam fazer sentido. Não acredito que você esqueceu dessa regra.

George não teve muito escolha se não seguir o outro. Estavam no Beco Diagonal em plena madrugada, não havia sequer uma loja aberta e em alguns segundos já estavam encharcados. Aquilo era bom. Lee o puxava com cada vez mais velocidade e de repente estava correndo enquanto parecia que toda a água do mundo caía sobre eles. E George estava rindo.

Pararam alguns minutos depois e ambos riam ao mesmo tempo em que tentavam recuperar o fôlego.

- Cara! – George disse com espanto - Ou eu estou mais sóbrio do que deveria e o Beco Diagonal todo está bêbado, ou então estamos os dois tendo alucinação coletiva e aquele ali é o meu irmão se agarrando com alguém.

A uns bons metros de distância Charlie Weasley abrigado debaixo de um pequeno telhado, enquanto imprensava alguém contra a parede em um canto não muito iluminado, mas também nada discreto.

- Não. – ele continuou – Eu tenho certeza que a gente está realmente bêbado, porque aquela coisa loira ali com quem o Charlie está se agarrando me parece ser o Malfoy.

- E ele tinha razão, o Charlie... – Lee disse e George o olhou interrogativo – Sonserinos podem ser quentes.

- Nós devíamos fazer algo a respeito disso.

- Eu não vejo nenhum sonserino disponível no momento...

George balançou a cabeça. Com uma cara que deixava claro que o que estava pensando não tinha nada a ver com aquilo.

-Estou falando sobre descobrir isso... – ele apontou para o casal -... e deixar passar em branco.

E lá estava o sorriso de quem ia aprontar alguma que fazia tanto ele parecer com ele mesmo e não aquela outra pessoa sem graça que por vezes o assombrava. Antes que Lee pudesse proferir qualquer coisa, George gritou:

- Charlie, domador de doninhas!!!

Charlie se afastou de Draco e olhou para onde eles estavam e George acenou calmamente como se estivessem se encontrando em situações completamente normais em uma tarde de domingo. O irmão olhou para ele e despejou a maior variedade de palavrões que conseguiu encaixar no meio das palavras "o que você está fazendo aqui?"

- Nem vem com essa! Você sabe bem – ele disse com o dedo em riste solenemente como se fizesse um discurso – que todo bêbado tem direito de ir e vir em zigzag para onde quiser.

Draco falou algo para Charlie que eles não conseguiram escutar, mas ele parecia zangado o suficiente para que fosse fácil imaginar, Charlie respondeu algo e em seguida ambos aparataram. Lee olhou para George e eles sustentaram o olhar por um segundo antes de caírem na risada.

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~*~*~

Luz.

Luz irritante.

George escondeu seu rosto no travesseiro e quando estava escuro o suficiente de novo ele se sentiu envolvido em um abraço. Apertou os olhos, não querendo acordar. Fred nunca tinha aparecido em seus sonhos antes e ele faria de tudo para que aquele sonho não terminasse. Se aproximou mais do outro corpo que o abraçava, querendo todo o contato que fosse possível. Murmurou o nome do irmão como se implorasse, num tom em que "Fred" ou "Esteja vivo" ou "não vá" teriam quase o mesmo som. Só então percebeu que as mãos sobre o seu corpo eram muito maiores que as suas e conseqüentemente não eram as de seu irmão.

Ele abriu os olhos devagar e numa reação instintiva ao rosto desconhecido à primeira vista, ele rolou para trás e caiu do que agora ele percebia que era o sofá de sua sala. E a pessoa deitada com ele era ninguém menos que Lee e o amigo olhava-o muito confuso e um tanto assustado também. Nunca confundira alguém com quem dormira com Fred.

Oh Merlin!

Lee.

Ele dormira com Lee?

As lembranças da noite anterior voltavam como um turbilhão à sua mente. A maioria não lhe interessava em nada no momento. Festa surpresa. Firewhisky. Bolo. Firewhisky. Eu nunca. Firewiskey. Cerveja amanteigada. Drinks estranhos. Chuva. Draco Malfoy. Muita Chuva. Roupas molhadas. Sofá. Conversas nonsense. O ar pareceu voltar aos seus pulmões. Eles estavam bêbados demais para levantarem do sofá para qualquer coisa. As coisas estavam bem claras agora que ele estava mais acordado. O que ainda não explicava o fato de eles acordarem abraçados.

- Você me deve um café. – ele brincou. Merlin, que voz era aquela?

- Hmm – Lee parecia bem mais grogue que ele – Acho que não, ou você nunca teria esquecido.

-Cara... minha cabeça dói. – ele se lamentou ainda sentado no chão

- Se chama ressaca.

- Pensar dói.

- Isso é porque você não pratica muito.

- Muito engraçado. – ele disse levantando – eu vou fazer um café, a gente ta precisando.

Ignorando o caos que havia se instaurado na cozinha na noite anterior, George conseguiu localizar as coisas que iria precisar usando accio. Aproveitou o tempo da água ferver para lavar o rosto na pia da cozinha, sem ligar muito para a quantidade de louça suja que havia embaixo. Estava meio sonolento e ainda não conseguia lidar direito com o vazio torturante da vontade de sonhar com Fred e, ao mesmo tempo, a sensação boa ainda presente de acordar com alguém, apesar do susto. Não queria pensar nisso, fazia parecer que ele estava perdendo o controle da situação. Era para ser divertido, leve.

Espantou todas aquelas coisas da mente e encheu duas canecas até a borda com café assim que ele ficou pronto. Alguns minutos depois de ter ido para a cozinha já voltava para a sala e entregava uma das canecas saindo fumaça para Lee. Ele provavelmente tinha ido lavar o rosto pois parecia bem mais acordado e menos amarrotado. Procurou se concentrar no gosto amargo do café, uma vez que ainda não conseguia colocar os seus pensamentos em ordem.

- A noite foi boa. – Lee comentou olhando para a caneca que segurava.

- É. – foi tudo que George respondeu também sem desviar os olhos da caneca.

- E essa manhã...

- É. – concordou de novo, interrompendo-o, mesmo que não soubesse o que o outro queria dizer.

E ainda não sabia quando a mão nada delicada de Lee puxou seu rosto para que eles se encarassem. George se perguntou o que estava acontecendo porque embora ele não se sentisse tão bem em muito tempo – e ele nem queria pensar quanto – aquilo não estava mais sendo divertido.

E sem explicação seu coração batia tão forte que podia sentir o som fazendo eco em seu peito.

Mas fora o eco de outro som dentro de sua cabeça que a fizera latejar. Os fogos de artifício do letreiro da loja começavam a pipocar do lado da sua janela. Ele desviou os olhos dos de Lee instantaneamente e largou a caneca quase vazia em cima da mesa reclamando.

- Parece que ninguém tem direito de ficar de ressacar aqui. – ele disse num tom bem humorado tentando resgatar o clima leve de antes.

Levantou e foi fechar a janela, aquele barulho estava fazendo sua cabeça latejar dolorosamente. A penumbra que tomou a sala nem era de todo ruim, dava um bom alívio, mas não parecia uma boa idéia no momento. Ele apalpou os bolsos em busca da varinha e antes que pudesse achá-la foi puxado e forçado a encarar Lee pela segunda vez naquela manhã. Só que agora não houve tempo para que ele se perguntasse o que estava acontecendo, em um segundo o rosto de Lee estava a centímetros do seu, no outro, seus lábios eram esmagados em um beijo faminto.

Aquele beijo tinha gosto de café, álcool e desespero.

George não queria pensar no que aquilo tudo significava, ele permitiu ser reduzido a uma grande massa de nervos a flor da pele e só fez menção de se separar quando os pulmões começaram a arder pela falta de ar. Naquele momento, ele já tinha jogado pela janela qualquer resquício de racionalidade que restara e passou a mão pela nuca de Lee trazendo-o para um novo beijo.

O jovem negro resistiu mantendo a pouca distância que ainda restava entre os dois. Ele parecia querer falar algo e George não queria qualquer explicação sobre aquilo. Tinha gostado, era o suficiente, não precisavam pensar em mais nada. E para seu alívio, antes que o amigo pudesse dizer qualquer coisa, uma terceira voz irrompeu no cômodo.

- George, acabou o momento ressaca, a loja está lotada. – Ron disse abrindo a porta repentinamente sem cerimônias. – Olá Lee, você ficou por ai. Não demora George, a loja está cheia e caótica, para completar um hipogrifo é mais esperto que aquela atendente nova que você contratou.

E saiu sem dizer mais nada. Se ele tinha percebido que quando entrara Lee pulou a distância de uns três passos para longe de George, não tinham certeza, mas ele pelo menos não comentou nada o resto do dia.

~*~*~

A única luz da casa era a que vinha da rua invadindo pelas frestas deixadas nas cortinas. A penumbra não incomodava George, poderia até mesmo andar naquela casa de olhos fechados. O que era realmente insuportável era o silêncio. Silêncio queria dizer a ausência de Fred. Morte. Solidão.

Um berro rasgou o silêncio.

E George percebeu que ele tinha saído de sua garganta, mas não o segundo que o seguiu. Aquele havia sido Angelina. Um trovão pontuou aquele pequeno espetáculo. Angelina nem esperou que o som do lado de fora acalmasse para voltar afalar, tentando sobrepor sua voz ao barulho da tempestade.

- Você me assusta, Fred. Pare de gritar e vamos fazer um brinde ao seu aniversário.

- George. – o ruivo corrigiu.

Ele não conseguia vê-la da onde estava sentado, mas sabia que ela estava no espaço do lado da mesa de centro, ela estivera ali pelos últimos dez minutos depois que usaram. Da outra vez ele tinha realmente se sentido bem como a muito não conseguia mais, e por isso não tinha criado resistências a usarem de novo. Alguma coisa o incomodava em tudo aquilo, mas ele tentou não prestar atenção , tudo que ele queria era não se sentir tão miserável no seu próprio aniversário.

Ele se lembrava vagamente que tinha não só sentido Fred por perto, mas por um momento era como se ele que estivesse morto e aquele pedaço de Fred que estava guardado no fundo dele era tudo o que restava. Fred estava vivo e ele morto. Tudo parecia tão certo assim. Porque não sentia aquilo de novo? Só precisara de duas cápsulas para isso na outra vez e agora brincava com a terceira em cima da mesa considerando se não devia tomá-la logo.

A garota levantou e olhou direto para ele. Os olhos dela estavam vermelhos e George imaginou que os seus também estariam. Ele desejou que ela não começasse a chorar, ela fizera isso naquela outra noite não é? Achava que sim...

- Eu disse que meu nome é George - ele repetiu diante do olhar.

- Você disse que era o Fred naquele dia.

- Você preferia que eu fosse?

Ela balançou a cabeça, mas não parecia saber realmente quem estava falando com ela. Ela se pôs de pé e começou a dar a volta na mesa. Enquanto via a mulher andar em sua direção, George se perguntou de onde tinha surgido aquele tipo de crueldade o fazendo pensar que preferia que ela estivesse chorando e alucinando como da última vez.

- Preferia que eu estivesse morto?

George sabia que a maior parte das pessoas sequer conseguiria responder aquela pergunta. Ele e Fred eram quase a mesma coisa para alguém que não fosse muito próximo. Mas Angelina poderia e fazê-lo certamente a machucaria. George não se importava com isso no momento, ele estava aos poucos se desligando de qualquer preocupação. Se desprendendo de tudo.

Até de si próprio porque ele estava fazendo perguntas das quais não queria ouvir as respostas.

A resposta nunca veio, mas a maneira como os olhos castanhos-quase-pretos de Angelina se prendiam nos seus o fizeram entender tudo. E como uma enxurrada tudo que era racional foi invadido por uma onda de sensações que o levaram a um mundo em que fazia muito sentido ele poder ser Fred. Não havia mais ninguém que podia fazer aquilo. Ele era quem tinha escutado cada risada, colhido cada lágrima. Estivera junto de Fred por cada segundos de suas vidas desde o ventre. E junto com todas as lembranças do irmão vieram outras certezas que se tornavam absolutamente inquestionáveis agora: ele merecia sofrer porque ele ficara vivo, Angelina merecia sofrer. E ele poderia fazer isso.

- Você quer Fred. Eu posso fazer isso para você. – ele disse segurando a cintura dela grosseiramente

Sua cabeça doente e alucinada era tomada por euforia enquanto as roupas eram arrancadas eas peles eram marcadas. Os movimentos eram violentos, embora ele não percebesse que não eram só os seus, ambos queriam machucar um ao outro e a si mesmo. Todas as vezes antes sexo fora uma mera tentativa de conforto entre eles, mas agora era para castigar, punir. Nada nunca estivera tão longe do que Fred era, nem tão longe do que merecia ser feito com Angelina, mas todas essas coisas apenas vagavam pela mente de George sem se conectar a nada enquanto o ecstasy se diluía no seu sangue. Tudo só fez realmente sentido quando ele acordou no chão da sala com o som da porta batendo.

O mais rápido que ele poderia ter sido, não o faria alcançar Angelina e apenas serviu para levá-lo para fora de casa de encontro a um dia ensolarado que nunca parecera ser possível no dia anterior. A única coisa que restava era o desespero pelo que tinha feito, sem saber que Angelina se sentia igualmente culpada, que ela a desculparia com facilidade, que aquilo nunca mais se repetira de nenhuma forma e principalmente que Angelina ficaria grávida. Acima de tudo, ele não sabia que sua vida estava prestes a valer à pena novamente, como parecia nunca mais ser possível em dias como aquele.