II Capítulo

Bella abriu a porta do escritório e topou de bruços com seu passado. Edward Cullen!

Tinha que se tratar de uma miragem. Edward estava de volta a Atenas e dirigia o império familiar de engenharia. Não tinha negócios em Sydney, mas estava de pé no vestíbulo da sede de Promoções Imobiliárias Denally.

E menos ainda em um dia comum em que o escritório reabria suas portas depois do funeral de Eleazor, falecido por causa de um enfarte, e ela acumulava um atraso de vários dias no pagamento das faturas dos aluguéis. Além disso, esperava a qualquer momento a chegada de seu novo chefe. Ao que parecia, tratava-se de algum familiar longínquo.

Em um dia comum? Acaso estava brincando? Nunca. Mas não podia tratar-se de Edward. Piscou várias vezes, mas seguia ali quando abriu novamente os olhos.

E seguia sendo Edward.

Era curioso que não existisse a mínima margem de engano e que estivesse tão segura de havê-lo reconhecido, depois de tanto tempo. Apesar de estar de costas para ela, falando com Rosalie, sabia que era ele. Era um pressentimento. Apenas um brilho fugaz de seu perfil e a ondulação de seu cabelo cobre em contraste com o pescoço branquíssimo de sua camisa tinham bastado. Essa atitude, viril e segura era inconfundível. Mas também soube pelo repentino aumento do ritmo das batidas de seu coração.

A adrenalina acelerou seu pulso, preparando-a para a luta ou para a fuga. Mas não houve jeito de que seus pés retornassem. Tampouco o aroma do café recém feito conseguiu atraí-la. Voltaria sobre seus passos imediatamente e assim evitaria que a visse. Desse modo, possivelmente quando retornasse já teria ido, teria saído de sua vida e teria voltado para seu passado, onde pertencia.

Deixou o braço morto sobre a porta e recuperou a posição. Possivelmente, se não fizesse ruído…

– Já está aqui – disse Rosalie, que apareceu por trás do ombro de Nick, vestida de rigoroso luto com um traje de seda negra e sua juba loira recolhido em um impecável rabinho alto.

Estava perfeita em seu papel de dor. Mas antes que tivesse a oportunidade de lhe responder, Edward tinha se virado e paralisado sua retirada graças à pureza de suas feições, de maneira que só pôde estremecer por culpa do calafrio que percorreu suas costas.

Estreitou seus olhos verdes e seu olhar varreu sua figura de cima abaixo antes de deter-se em seu rosto. Então se alargaram um pouco as asas do nariz e curvou os lábios com um gesto muito leve.

– É você – assinalou com o queixo altivo.

Ela engoliu saliva. Nos oito anos que tinham transcorrido desde a última vez que se viram, ela tinha imaginado frequentemente quais seriam suas primeiras palavras e que tom empregaria Edward se alguma vez voltassem a se encontrar. Mas nunca tinha suposto que se limitaria a esse frio e desapaixonado. "É você".

– O que esperava? – disse convencida de que já não tinha escapatória enquanto empurrava a porta e acessava ao vestíbulo – A Kylie Minogue?

Estremeceu-se por dentro diante da crueldade de suas próprias palavras.

– Bella? – Rosalie, um pouco confusa, olhou alternadamente a um e outro – Quero te apresentar a meu primo, Edward Cullen. Chegou ontem. Mas… por acaso eu perdi algo?

Não podia articular uma só palavra. Tinha a garganta fechada e a boca seca. Edward seguiu olhando-a com muita intensidade até que ficou apanhada no olhar acusatório desses insondáveis olhos negros. Tinha uma conta pendente com ela. A contundência desse olhar não deixava dúvidas. Além disso, parecia tão pouco impressionado ao vê-la como ela estava comovida.

Edward, finalmente, rompeu o silêncio.

- Isabella e eu já nos conhecemos, não é verdade?

Sempre submetida a seu implacável escrutínio, a laptop que levava na mão se tornou inesperadamente pesado e ameaçou cair por culpa do suor. Apertou os dedos com força ao redor da haste até que cravou as unhas na pele, de modo que a dor assegurasse a sujeição. Agora que já havia se ocupado de seu laptop só tinha que se preocupar com a estabilidade de seus joelhos.

– Acredito que sim – respondeu – Ao menos, estou bastante segura. Mas foi há muito tempo.

Um músculo se contraiu na bochecha de Edward.

– É tão difícil se lembrar de mim?

"Não é tão difícil como te esquecer", pensou Bella. Esse pensamento se desdobrou de algum ponto de seu cérebro e, por mais que detestasse essa verdade, era inegável. Muitas noites solitárias, sem esquecer o tempo que tinham compartilhado em Creta e desejava que as coisas tivessem tomado um rumo diferente era a prova desse fato.

Ele tampouco tinha esquecido, mas de acordo com seu olhar, recordava coisas distintas. Possivelmente o modo em que lhe tinha dado as costas e a frieza de sua despedida.

Tomou ar, mas Rosalie parecia muito impaciente para a réplica de uma conversação que, a seu julgamento, era muito pessoal.

– Será melhor que se expliquem de uma vez – apontou – Como se conheceram?

Os olhos de Edward se cravaram em Bella. E ela recebeu esse gélido olhar como um chute no intestino.

– O que foi? – acrescentou Rosalie – Também não se lembram disso?

Ela levantou o queixo e dirigiu seu olhar para Rosalie. Ainda estava comovida por seu repentino encontro com Edward depois de tanto tempo e parecia muito mais fácil concentrar-se se não o olhasse diretamente no rosto. Desse modo, as irrefutáveis perguntas que crepitavam em seus olhos não podiam alcançá-la.

Tinha que se acalmar e pensar com serenidade. Rosalie ainda estava afetada pela inesperada morte de seu pai. A pesar do efeito da maquiagem, o inchaço das pálpebras e as olheiras eram muito evidentes. Rosalie não necessitava de outra carga sobre seus ombros.

– Em Creta. Foi… – fez uma pausa e umedeceu os lábios – faz alguns anos. Estava de férias com minha família. Edward estava trabalhando em uma escavação arqueológica. Nos conhecemos no Palácio do Minos.

– Genial – disse Rosalie, embora Bella notasse que o tom que tinha utilizado refletia um escasso interesse – E sabia que era o sobrinho de Eleazor?

– Não, não tinha a menor…

Uma quebra de onda de terror invadiu todo seu corpo. Deus, não! Não seria esse o parente de Eleazor? Não seria o mesmo que vinha para cuidar da companhia?

– Estupendo! Então não terei que lhes apresentar. Isso fará com que seja muito mais fácil agora que vão trabalhar juntos – assinalou Rosalie.

Bella não podia pensar em nada pior enquanto seu mundo se desmoronava. Quando tocou o telefone direto de seu escritório, conteve-se para não sair correndo e atendê-lo.

– Me desculpem. Estou esperando essa chamada. Nos encontramos mais tarde.

Então se afastou o mais depressa que pôde enquanto tentava manter o equilíbrio em um mundo que girava sobre seu eixo com cada passo que dava.

Fechou a porta, soltou o laptop sobre a mesa e atendeu a chamada o melhor que pôde enquanto seu cérebro só registrava duas palavras: Edward, aqui!

Uma hora mais tarde, Bella seguia com o olhar perdido nas paredes, e a tela acesa de seu computador oferecia o único sinal vital da habitação. Não sabia quanto tempo poderia esconder-se no escritório, mas faria tudo o que estivesse a seu alcance para se relacionar o menos possível com o Cullen. E até que não tivesse um plano de ação, iria se manter afastada dele.

Era muito estranho voltar a vê-lo depois de tantos anos. Curioso que ambos se considerassem tão amadurecidos naquela época. Comportou-se como um homem, forte e seguro. A seus vinte e um anos, tinha visto mais mundo e tinha vivido mais experiências que ela. Entretanto, agora se dava conta de quão jovens tinham sido. E saltava à vista que o menino se fez todo um homem.

Parecia um genuíno homem de negócios. Tinha desaparecido a franja que estava acostumada a afastar-se dos olhos com uma sacudida da cabeça, substituído por um corte limpo, impecável. Os traços escuros, que inclusive então haviam possuído uma certa profundidade oculta, encaixavam melhor em um rosto mais amadurecido. Inclusive parecia que seus ombros se alargaram um pouco.

Era uma pessoa muito distinta do menino que tinha conhecido anos atrás.

Bom, ela também tinha mudado muito.

Era mais velha, mais inteligente e era mãe.

A mãe do filho dele!

Um pouco parecido a um chiado incoerente escapou de seus lábios. Jacob!

Como, em nome do céu, impediria que Edward descobrisse a existência de Jacob?