Entre a Cruz e a Espada – Capítulo 2
Autores: Mary Spn / Thygoo (Nyah)
Personagens principais: Jared / Jensen (Padackles)
Nota: Esta fic se passa mais ou menos no século XV, na época da Inquisição e da caça as bruxas. Trata-se de pura ficção, com base em alguns acontecimentos da época, pesquisados pelo Thygoo. Os créditos pela idéia também são todos dele, que fez com que a nossa imaginação desse origem a esta fic. Mais uma parceria que deu certo, espero que curtam tanto quanto nós.
Sinopse: Um homem com uma vida amaldiçoada, lutando contra os desejos do próprio corpo. Um padre católico se entregando a um amor proibido, em uma época em que tal pecado era punido sem piedade. Até onde este amor iria os levar?
Jared tentou abafar seus gritos, ao sentir o couro do chicote cortar sua pele, mas não foi possível, a dor era insuportável. Fora açoitado dezenas de vezes sem piedade, e a última coisa que sentiu foi o calor do sangue escorrendo por suas costas, antes de apagar.
Acordou horas depois, deitado nu sobre o manto, e sentindo alguém limpar suas feridas. Tentou levantar-se, mas sentiu muita dor, então olhou para cima e viu um par de olhos profundamente verdes, o encarando muito próximo.
Neste momento, Jared se perguntou se não tinha mesmo morrido, e ido para o céu, porque esta sem dúvida era a imagem mais linda e perfeita que tinha visto em toda sua vida.
Além dos olhos verdes com cílios longos, que o faziam parecer irreal, tinha também a pele muito clara e com algumas sardas. Seus lábios eram carnudos e avermelhados, pareciam ter sido desenhados naquele rosto perfeito.
- É melhor o senhor permanecer deitado, ou isto vai doer muito.
A voz grave tirou Jared de seus devaneios, e foi então que reconheceu aquela voz, da Igreja, onde o ouvira ensaiando seus sermões para a missa de domingo. Então Jared deduziu que só podia ser ele, o Padre Jensen.
- Padre? – Jared perguntou espantado.
- Aguente só mais um pouco, estou colocando unguento em seus ferimentos, creio que vá aliviar um pouco a dor.
Jensen terminou de cuidar dos ferimentos e lhe deu água, verificando também se estava com febre.
- Por que o senhor veio, Padre? Por que está fazendo isso? - Jared não podia entender, estava sendo acusado e mantido preso pelos membros da Igreja, e no entanto um Padre estava ali, cuidando de seus ferimentos.
- Ao meu ver, todos são filhos de Deus, sem distinção. – Foi só o que Jensen respondeu.
- Padre, o que... o que vai acontecer comigo? - Jared não conseguiu esconder seu nervosismo.
- Senhor Padalecki, dentro de alguns dias será o seu julgamento, só então saberemos qual a punição que receberá.
- Punição? Mas eu não fiz nada de errado! Não fiz mal a ninguém, eu só estava me banhando, e estava em minha propriedade!
- Você sabe que banhar-se é considerado um pecado, não sabe? Quem tem a alma e o corpo puros não necessita de banho.
- Mas não é só por isso, não é Padre? O senhor também acredita nesta história de bruxaria? Acredita que foi por isso que eu sobrevivi a peste? - O olhar de Jared era de súplica, praticamente implorando para que Jensen acreditasse nele.
- Pronto, o senhor já pode levantar-se agora. Vou pedir para que lhe tragam uma túnica para vestir.
- Mas Padre...
- Senhor Padalecki, o senhor deseja confessar-se antes do julgamento? - Jensen tentava manter-se frio.
- Não, eu não desejo.
- De qualquer forma eu voltarei amanhã, caso o senhor mude de idéia. Fique com Deus.
Depois de três dias, Jared permanecia trancado em sua cela, enquanto o clero se reunia para decidir o seu destino. Rezava para que tivessem piedade, pois apesar de sua vida ser extremamente solitária, apesar de não ter um propósito para continuar vivendo, ainda assim temia a morte.
Sempre mantivera acesa a esperança de que a vida lhe reservava algo de bom, algo em que acreditar, algo por que lutar. E não queria morrer agora, aos vinte e cinco anos de idade, completamente sozinho, sem ter sequer alguém que chorasse por sua morte, sem ter alguém para visitar seu túmulo, e que sentisse a sua falta.
Andava de um lado para o outro dentro da cela, já não sentia mais fome, nem sede, sentia apenas o pânico e o desespero crescendo dentro do peito.
Sem poder apelar, sem poder se defender, tudo o que podia fazer era rezar, então ajoelhou-se e rezou.
Não tinha noção de quanto tempo havia se passado, quando viu padre Jensen parado diante da cela, o observando. Pode perceber que o padre tinha lágrimas nos olhos, e um ar cansado e triste. Derrotado seria a palavra certa.
Era um homem bom e justo, Jared podia ver em seu semblante. E bastava olhá-lo para saber que as notícias não eram nada boas.
- Então Padre, o que foi decidido? – Jared perguntou apreensivo.
- Senhor Padalecki, o senhor foi... - Jensen não conseguia olhá-lo nos olhos – Foi acusado de bruxaria, sendo julgado culpado, e condenado a morte.
- Mas eu... Eu nem tive chance de me defender!
- Alguns vizinhos e criados testemunharam, afirmando que o senhor tinha atitudes consideradas estranhas, vivia sozinho, e os criados afirmaram ouvir gritos vindos do seu quarto no meio da noite.
- Eu tinha pesadelos! Eu não posso ser culpado por ter pesadelos! - Jared suplicava.
- E o fato de nunca ficar doente, inclusive de ter sido o único sobrevivente em meio a uma epidemia de peste, tornou tudo ainda pior. O clero sequer hesitou em declará-lo culpado.
- E não tem nada que possa ser feito? Eu não quero morrer, padre! Não ainda! - Jared implorava, se segurando para não chorar, pois de nada adiantaria.
- Você quer saber como será a execução? – Jensen tentava manter-se firme.
- Se eu vou mesmo morrer, não me importa como. Quando será?
- Em uma semana, o senhor será levado a forca em praça pública. – Jensen falou com a voz embargada.
- Uma semana? E eu vou ter que ficar nesta cela até lá?
- Sim. Eu virei aqui todos os dias, caso decida se confessar, ou precise de alguma coisa.
- Padre?
- Sim?
- O senhor acredita mesmo que eu seja um bruxo? - Jared implorava com os olhos que Jensen dissesse que não, precisava desesperadamente que alguém acreditasse nele.
- Não cabe a mim julgá-lo, apenas fui incumbido de lhe comunicar a decisão.
Quando Jensen saiu, Jared sentou no chão da cela, sem acreditar no que estava acontecendo. Dentro de uma semana estaria morto, e passaria seus últimos dias ali, naquela cela úmida e fria, provavelmente sendo torturado e espancado.
Jensen deixou a cela sem conseguir encarar Jared. Tudo o que mais quis a sua vida toda fora tornar-se padre, poder servir a Deus e a igreja. Mas tinha muitas coisas com as quais não podia concordar. Julgar alguém desta maneira, sem provas concretas, condená-lo a morte, era algo com que Jensen jamais poderia se acostumar.
Para ele a vida era algo sagrado, e no entanto tantas pessoas eram mortas de uma maneira tão cruel, outras eram torturadas e humilhadas. Não podia concordar que um ser humano poderia se julgar no direito de decidir pela vida de alguém desta maneira.
Jensen ficou observando os outros padres, inclusive os seus superiores, conversando como se nada tivesse acontecido. Como se não tivessem acabado de decidir pela vida de alguém. De um jovem com apenas vinte e cinco anos de idade, que teria, ou deveria ter, toda uma vida pela frente.
Jensen pensou que pelo menos teria que tentar alguma coisa, não conseguiria dormir com sua consciência limpa, caso nada fizesse a respeito.
- Esperem! – Jensen os chamou ao vê-los se afastarem. - Por favor senhores, eu gostaria de recorrer da vossa decisão.
- Padre Jensen, a decisão já foi tomada, não há nada que possa ser feito agora.
- Mas senhor, ele é muito jovem ainda para ser condenado desta forma, talvez ainda haja salvação. - Era o que Jensen realmente acreditava, existia salvação para todos, e definitivamente não considerava a morte uma salvação.
- E de que forma o senhor acredita, Padre Jensen, que pode haver salvação para alguém assim?
- Deve haver alguma forma, talvez fazê-lo prestar serviços a Igreja, sendo vigiado por algum de nós. Ele tem apenas vinte e cinco anos, ainda pode ser convertido. Ele não teve uma família para lhe dar apoio e fundamentos religiosos, sempre viveu sozinho, creio que ele mereça uma segunda chance.
- E o senhor estaria disposto a vigiá-lo, padre Jensen? E a ensiná-lo a servir a Deus, ao invés de praticar atos de bruxaria, e pactuar com o demônio?
- Sim, eu posso me encarregar disso. - Jensen assumiria esta responsabilidade, se esta fosse a única forma de salvar alguém que ele próprio julgava inocente.
- Eu levarei o seu pedido aos nossos superiores, apesar de não concordar que ele mereça piedade. - Padre Phillipe respondeu com frieza.
O clero se reuniu mais uma vez, a portas fechadas, e então foi anunciada novamente a decisão.
- Padre Jensen, nossos superiores concordaram que o que o senhor sugeriu, seria uma pena muito leve para alguém que infringiu as leis da Igreja desta forma. Então foi decidido que ele será poupado da pena de morte, mas além de ter que prestar serviços a Igreja, sob sua responsabilidade, será condenado também a doar todas as suas terras e seus bens em nome da Igreja. E ficará por um ano sob sua custódia, Padre. Se dentro deste período ele tiver uma recuperação notável, terá sua liberdade de volta, mas não os seus bens, e caso não se recupere, voltará a pena inicial, e será enforcado.
Jensen sabia perfeitamente que ninguém dali tinha dado uma segunda chance a Jared por piedade, mas sim por sua classe social. Tinha sido poupado porque viram uma chance de enriquecer mais ainda a Igreja e seus dirigentes. Se Jared fosse um pobre coitado, a esta hora já estaria sendo queimando em uma fogueira, disso Jensen tinha certeza.
Quando deu a notícia a Jared no dia seguinte, este suspirou aliviado, e concordou com os termos. Apenas exigiu que o ouro que lhe pertencia fosse colocado a disposição de Jensen para ajudar os necessitados. Quanto aos seus bens e propriedades, não se importou que lhe fossem tomados. Afinal, ainda era melhor estar pobre e vivo, do que milionário e morto.
Teve que abandonar tudo em sua casa, inclusive suas roupas. De uma vida de conforto e riqueza, agora passaria a viver como um miserável, as custas da bondade de Jensen.
Nos fundos da igreja, havia uma casinha com poucos cômodos, uma cozinha, um quarto pequeno onde Jensen dormia, e mais um quartinho minúsculo, onde cabia apenas uma cama e um armário antigo, que seria onde Jared passaria a dormir.
Deitou-se na cama, nada confortável, onde seus pés ficaram de fora, devido a sua altura. Suspirou com tristeza, sem saber o que o futuro lhe reservava.
Jared acabou adormecendo pelo cansaço, e Jensen resolveu deixá-lo dormir, afinal seus últimos dias não tinham sido nada fáceis. Ter outras pessoas decidindo por sua vida, e a mudança brusca pela qual estava passando, tendo que deixar toda sua riqueza para viver uma vida miserável, tudo isso devia estar mexendo muito com sua cabeça, talvez no dia seguinte acordasse revigorado.
Jensen sempre acordava muito cedo, fazia suas orações, e em seguida seu desjejum. Acordou Jared, que deveria estar faminto, depois de dias sem se alimentar decentemente.
- Padre? - Jared acordou assustado, sentindo uma dor terrível em suas costas, um tanto pelos ferimentos, e também pela cama nada confortável em que dormiu. - Me desculpe, eu acabei dormindo.
- Tudo bem, não se preocupe, achei que algumas horas de sono lhe fariam bem. Posso olhar seus ferimentos? Para ver se estão melhores?
- Eu... Não... Não precisa, eu já estou bem.
- Deixe de ser teimoso, garoto. Pode ficar muito pior se infeccionar. Vamos lá, tire a sua roupa, eu não vou te machucar.
Jared tirou sua túnica, constrangido, afinal era a única coisa que vestia, ficando completamente nu diante do Padre, que pegou uma bacia com água e uma toalha limpa e limpou seus ferimentos.
- Logo estarão curados, por sorte não houve infecção, mas ainda deve doer muito, não é?
- Eu posso aguentar.
- É assim que se fala. - Jensen disse sorrindo, e Jared ficou o observando, porque era a primeira vez que o via sorrir.
- Padre, o que eu vou fazer? Quero dizer, quais serão minhas tarefas daqui para a frente? - Jared estava apreensivo, sempre viveu sozinho, e tomava suas próprias decisões, não gostava nada de não ter controle sobre a sua própria vida agora.
- Bom, nós teremos muito trabalho pela frente, e com o seu ouro que foi destinado aos necessitados, eu tenho idéias excelentes para colocarmos em prática. Mas primeiro, você pode fazer sua higiene pessoal, e depois fazer um desjejum, e então vamos fazer nossas orações na igreja. Tem roupas limpas no armário, vou deixá-lo a vontade agora.
Jared olhou para a mesinha ao lado da cama, onde havia velas, uma bíblia, e uma bacia com água e um paninho.
- Higiene pessoal? - Jared teve que rir sozinho, com certeza sentiria falta de um banho de verdade, mas este prazer quase havia lhe custado a vida.
Jared então se limpou da melhor forma que pode, se vestiu, e foi até a cozinha, onde tinha pão e um copo de leite o esperando. Só então percebeu o quão faminto estava, e sentou-se a mesa para comer.
Jared já ia pegando um pedaço de pão, quando Jensen o repreendeu.
- Não vai fazer seu agradecimento? Você não aprendeu que devemos agradecer pelo alimento antes de saciar a fome? - Jensen o olhou de cara feia.
- O que? Ah, claro. Me desculpe. - Jared disse envergonhado, tinha aprendido sim com sua mãe, mas devido a sua fome no momento, esse pequeno detalhe havia sido esquecido.
Baixou a cabeça e cruzou as mãos, seguindo Jensen, e agradeceu em silêncio.
- Pronto, agora você já pode comer. - Jensen falou com um sorriso, e Jared percebeu então o quanto gostava de vê-lo sorrir.
Continua...
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Respondendo a Review:
Alexia: Bom, não foi lá muito agradável a forma como eles se conheceram, não é? Ficamos muito felizes em saber que você achou a fic interessante, e esperamos que continue gostando. Como pode ver, haverá muito sofrimento, afinal eram tempos difíceis. Obrigada por ler e comentar! Um grande abraço: Mary / Thygoo.
