DOIS
Riker estava sozinho na sala do transportador, preferia que seu primeiro encontro com ela fosse assim e, por algum motivo, imaginava que era assim que ela também o queria.
O que lhe incomodava, além de tudo, era estar parado em frente do aparelho sem saber o que esperar.
No fundo, ele queria que aquela lembrança do passado surgisse por entre as luzes, corresse para os seus braços e o abraçasse como a muito tempo atrás.
Queria que ela sorrisse e dissesse que era tudo mentira e que então, todo aquele pesadelo acabasse.
Mas Riker sabia que aquilo não aconteceria.
Sabia que Sheila não seria mais uma criança de nove anos, afinal, onze anos já haviam se passado desde a última vez que a vira. Ela agora já devia ser uma mulher.
Além disso, havia o motivo que a trouxera a Enterprise. Isso, por si só, já quebraria, e muito, a alegria do reencontro.
E se ela realmente tivesse feito o que diziam... Então, não poderia se quer esperar por alguém que ele acha-se conhecer.
Mas ela devia ter uma explicação pra tudo aquilo. Sim, ela com certeza teria.
As luzes do transportador se acenderam e o cegaram por um pequeno instante. Quando conseguiu abrir os olhos, ele a viu surgir por entre o enorme clarão.
Riker sorriu para si, ela era exatamente a mulher que ele imaginava que tivesse se tornado, não, era mais bonita ainda, com os cabelos bem negros lhe descendo em cachos pelos ombros.
Sheila permaneceu parada na plataforma mesmo depois das luzes terem se desligado completamente. Tinha medo de fazer algo que irritasse Riker mais do que ele já devia estar.
Talvez o primeiro comandante estivesse com medo daquele momento, mas com certeza esse medo não se comparava ao que a sua irmã sentia.
-Senhorita Sheila Riker... Se já bem vinda a bordo da Enterprise. -disse Riker quebrando o silêncio.
Ela deu um passo à frente para sair da plataforma juntando toda a coragem que tinha para levantar a cabeça e olhar bem nos olhos do imediato da Enterprise.
-Oi Bill.
"Bill", era assim que ela o chamava quando criança pois não conseguia pronunciar o "W" do seu nome.
-Oi Sely.
Ao ouvir aquele nome, Sheila abriu o sorriso que ele tanto adorava e que, só agora, percebia que sentia saudades. Ele lembrara seu apelido de infância, e então num pulo ela o abraçou.
O primeiro impulso de Riker foi abraçá-la também e ele o fez, por um momento ela voltara a ser aquela menina da qual ele se lembrava.
Então ele disse:
-Ah Sely, o que houve? O que aconteceu enquanto eu estive longe?
De repente tudo mudou. Num empurrão forte ela se soltou dele.
-Não te disseram? -disse ela com um ar revoltado na voz, como se ele não tivesse o direito de tocar no assunto e, Riker notou, que o fizera em péssima hora.
-Sim, - continuou calmo - me disseram. Mas eu queria ouvir essa história de você, da sua boca.
O rosto de Sheila anuviou-se e seu sorriso se fora, ela parecia outra pessoa, a que Riker tinha medo de realmente existir.
-Aconteceu exatamente o que você soube, comandante. Ela deu um tom irônico à última palavra.
-Sely, -ele tentou resgatar a pessoa que se fora - Não posso acreditar que tenha feito aquilo... Não você... Não a...
-...A sua irmã comandante? Realmente, isso deve ser muito desconcertante pra você, não?
-Ora Sely, isso não tem nada haver... - o barulho do comunicador o interrompeu.
-Picard para Riker.
-Riker aqui senhor.
-Desculpe lhe interromper número um, mas estamos tendo alguns problemas na ponte. Preciso de você aqui.
-Sim senhor, estou a caminho.
Nesse exato momento Deanna Troi apareceu na porta.
-Comandante, - ela acenou para Riker - o capitão me pediu que viesse.
-Claro, conselheira. Essa é Sheila Riker... - ele excitou um pouco, então, ao encarar a menina completou - ...Minha irmã. Sheila, essa é Deanna Troi, nossa conselheira.
A betazóide sorriu largamente e a outra apenas retribuiu, com um aceno um pouco simpático.
-Bem, preciso ir - disse Riker, e olhando para Sheila concluiu antes de sair - nós terminaremos nosso assunto depois.
Ela fez uma cara de cinismo enquanto via a porta se fechar atrás dele então se virou para a conselheira.
-Conselheira...Estranho que não tenham mandado ninguém da segurança para me vigiar?
Deanna sorriu.
-Você é livre aqui dentro, lógico que vão pegar mais seu pé do que no dos outros, mas é livre e isso só mudará se você fizer por onde para desmerecer essa liberdade. Estou aqui para lhe mostrar seus aposentos. - ela fez um gesto simpático indicando a porta.
As duas saíram pêlos corredores.
-Definitivamente eu não entendo, - disse Sheila e respondendo a um olhar questionador de Troi continuou - Quer dizer, por que tenho liberdade aqui dentro, teoricamente eu já perdi o direito a minha liberdade. - Deanna continuou a olhar para ela - Quer dizer... Sinceramente eu não entendo.
-O programa o qual você faz parte agora, sugere que você pode ser, desculpe o termo, "re-aproveitável" em alguma sociedade do universo, resumindo, na Frota estelar. Lógico que não vão forçar você a se integrar na Frota, mas, tirar você da sociedade em que não deu certo e colocá-la dentro de uma nave estelar já é um grande empurrão.
Sheila riu da idéia.
-Eu, na Frota estelar... Não aprecio a idéia.
-Bem, então por que veio para uma nave estelar?
-Eu estou cumprindo pena, conselheira, em nenhum momento achei que isso fosse ser agradável.
Troi olhava questionadora para a outra, tinha algo estranho nela que a conselheira não conseguia identificar. Sua mente parecia fugir de algo e, ao mesmo tempo, parecia correr atrás da mesma coisa.
-Essa sua decisão não tem haver com a presença de seu irmão na nave?
A mais nova não esperava a pergunta e não gostou dela também, mas ao encarar a betazóite encontrou paz em seu olhar. Não tinha encarado Deanna ainda por isso não havia sentido nada antes, mas a primeira impressão que teve foi o suficiente para ela reconsiderar a resposta bastante grossa que estava na ponta de sua língua.
Troi viu um leve sorriso se abrir na boca de Sheila.
-Quem sabe, conselheira? - disse em resposta a questão - Quem sabe?
