Para Sadie, obrigada pelo seu dom de cura.
Feliz aniversário, para você, meu anjo da guarda, eu não o esqueci.
Se Você Partir
Capítulo 2 – Laços entre pais e filhos.
Os portões estavam abertos e os sentinelas atentos, o peregrino chegou caminhando; ele não se sentia a vontade no cavalo, a longa caminhada para ele traduzia um prazer muito maior do que a agilidade elegante dos cavalos, tão amados pela princesa daquela terra.
Seus amigos discordavam dele e Legolas provavelmente esconderia atrás de seu olhar pacífico ( e travesso) a preocupação se soubesse o pequeno tesouro que trazia. Gimli cumprimentou os guardas vendo o anuir e o semblante amigo deles. A senhora daquelas terras fizera amizade e o afeto que tinha pelo membro da Sociedade após seu casamento com Faramir, ela levara para seu novo lar.
Vivemos tempos negros, Gimli. E sobrevivemos para contar história. – confidenciara Lady Éowyn, nos primeiros anos.
E fora em atenção a senhora branca que o mestre anão se afastara de seus amigos para compor um maravilhoso presente. Influenciado pela amizade de Legolas, o presente detinha a determinação dos anões combinada a sabedoria dos elfos; conspirando com seus pensamentos Gimli meditou se a princesa de Ithilien perceberia os ajustes que fizera a sua encomenda, o sorriso escondido pela bigode e a longa barba do valente guerreiro brincou em seus lábios ao avistar os infantes e abraçar os seus queridos amigos, a hora dos presentes se anunciara com sua presença.
Ao seu sinal os convidados, os convidados seguiram para o salão de festas: um extenso átrio. O átrio da casa branca de Emyn Arnen foi construído após o casamento de Faramir e Éowyn; o mestre de obras teve a inaudita tarefa de mesclar, sem traços de vulgaridade, a austeridade de Minas Tirith e o espírito aventueiro marcados nos salões de Denethor e Théoden. O resultado satisfez o olhar perspicaz de Faramir e colocou um sorriso nos lábios da senhora branca que nesta época guardava o segredo de seu primeiro filho, Ecthelion.
As colunas esculpidas pelas mãos habilidosas do artesão revelam um arco coroado pela sete estrelas e árvore branca da Cidade dos Reis, o desenho havia sido entalhado com toques sutis, e o material utilizado (segredo impossível de ser descoberto, tamanho o orgulho do artesão) brilhava e emitia uma luz discreta e presente. A mistura: cal com água, posteriormente das cores ofereceram ao desenho a fé e grandiosidade de Númenor e a valentia da Terra dos Cavaleiros.
Naquele espaço embelezado pelo talento esquecido de Númenor, os primeiros passos de Ecthelion foram dados, bem como sua primeira aula, ao som da voz profunda e melodiosa de Faramir. Apesar de apaixonada pelos jardins de Ithilien, tinha sido no átrio coberto pelo casaco de Faramir, que ela sentira o primeiro chute do bebê. Se Henneth Annûn era o lugar secreto dos amantes, o átrio havia se tornado da pequena família nascente, da Quarta Era.
Os convidados admiravam o átrio, sentindo o ar benfazejo da felicidade. Os anos buscavam redimir ou curar as feridas da distante e não esquecida Guerra.
Emyn Arnen, como muitos lares na Terra-Média, havia sido abençoada com o dom da cura – a mensagem final da ilustre Sociedade do Anel, e de seu portador, o amado Frodo.
O prínciipe de Ithilien examinava o rosto da esposa, curioso, involuntariamente arqueou as sobrancelhas e seus olhos cinzentos faziam perguntas que sua jovem esposa não pretendia responder, ignorando-as com um sorriso enigmático. Faramir exalou um suspiro resignado, Éowyn conspirava, o quê? Apenas o dia poderia revelar.
Quando o sino tocou baixo, as crianças calaram-se, Sam se surpreendeu com o súbito silêncio, evidenciando apenas a voz alegre e satisfeita de Pippin ( em seu terceiro pedaço generoso de bolo), o silêncio conquistado nascia da certeza infantil do costume adquirido dos senhores de Ithilien de presentear a todas as crianças.
A jovem ama trouxe os doces; preparados para aquele momento, e Bergil apontou os presentes, sem quaisquer cerimônia, as crianças correram até a mesa. Os infantes recebiam os presentes, cada um deles, indicado conforme a idade. E não havia criança que lamentasse a oferenda. Apenas Elanor sabia que eles haviam sido criados pelo próprio Faramir. E descubrira de forma inusitada, contudo sua lembrança foi interrompida quando o pequeno Merry ergueu-se do chão com o rosto avermelhado. Não havia momento para lembranças, lamentou a pequena e bela Elanor, levaria horas até os pequenos se acalmarem, refletiu vendo os pequenos exaltados a aborrecerem Legolas, pedindo com suas vozes manhosas e cheias de orgulho que os ensinassem a utilizar o belo arco, presenteado pela Senhora da Luz.
Revezando-se entre si, os adultos criavam um círculo para alimentar e satisfazer a inesgotável saúde dos pequenos. Segundo o costume daquela terra, cabia a eles fornecerem atividades para as crianças até Ecthelion abrir seus presentes. Esse círculo parecia roubar o fôlego dos adultos, e muitas vezes podia se ouvir o suspiro delicado de Arwen atrás de uma das crianças, ou a risada do rei Elessar ao ouvir as teorias do filho de Samwise.
Éowyn dividia-se entre o próprio filho e as outras crianças, em seus pensamentos havia muitos planos para aquela noite, se ela ainda tivesse forças, a um sinal, o anão se aproximou:
Gimly... – sua voz foi abafada pelo grito das crianças, que perseguiam Legolas.
Eu trouxe, milady. Está aqui. – e ofereceu o pacote a dama branca.
Como posso agradecê-lo, Gimly? – perguntou aproveitando que atenção das crianças estava ainda voltada ao jovem arqueiro, e o rei que parecia ter entrado na brincadeira para defender o amigo.
A honra foi minha, Lady Éowyn. – e sorriu, com sua voz generosa. O entendimento de ambos fluía de forma fácil, talvez pela natureza guerreira do anão. Éowyn encontrava caminho na amizade com Gimly, criada entre guerreiros, lidar com sua cunhada, a despeito do caráter nobre de Lothíriel, sempre lhe parecera mais complicado. Com a rainha Arwen a situação era então única. Éowyn reconhecia as qualidades da escolhida do rei, contudo não encontrava ponto comum para travar uma amizade sincera. Ela sabia do desejo de Faramir por essa amizade, mas alegava faltar afinidades entre a mulher criada entre guerreiros e a rainha filha do sábio senhor de Valfenda. Aos olhos de Éowyn, a existência de Arwen fora perfeita, desprovida de dores, e ela simplesmente não conseguia alcançar esse mundo sem dor, completa por palavras que ela desconhecia. As crianças se aproximaram agitadas, e Éowyn guardou o pacote pequeno na túnica que acompanhava o vestido. E afastou-se com passos decididos, impedindo Faramir de avistá-la, com seu segredo.
Gimly, não conseguiu escapar do interesse dos infantes, e por muitas vezes traía a visão dos admiradores das brincadeiras ao se misturar as crianças. Ecthelion ria-se das anedotas de Merry, grande contador de histórias, e sua voz ( com tons e personificações ) levava até mesmo o riso aos lábios ao sério rei da Terra dos Cavaleiros e sua bela esposa Lothíriel, filha de Dol Amroth.
Sam, apesar de negar o fato com veemência, deliciava-se ao som da voz de sua filha ao ouvi-la cantar as canções de uma Lórien que a pequena desconhecia, levando Arwen e Legolas ( renovado, pelas brincadeiras) a reverem a terra que sempre habitaria em seus corações e mentes.
Alto e majestoso, Éomer se ajoelhou perante o sobrinho, que se fez sério, com os olhos acizentados, como os do pai.
Para você, Ecthelion, a espada dos filhos de Rohan.
As palavras do tio, apesar de sérias, continham afeto e emoção. As inscrições na lâmina da espada nasceram na época de Eorl, o Jovem. Éowyn conhecia bem o costume de seus parentes, pois ela mesma vira Theodréd entregar a espada a seu irmão Éomer, ansiosa por também ganhar a sua, algo que nunca aconteceu. Seu casamento com Faramir, deveria estar transformando-a em uma tola, pois sentiu as lágrimas em seus olhos, lágrimas felizes,contudo ela não estava habituada a chorar.
Éomer recebeu o abraço do sobrinho, E voltou-se para sua esposa entrelaçando seus dedos aos dela, Lothíriel conhecia bem os gestos de seu esposo, ele nunca professava sua dor ou tristeza, apenas a abraçava, envolvendo-a em uma tentativa de protegê-la dos seus fantasmas, em um ato de entrega e de cautela, seu toque eram mais eficientes do que as palavras tão ineficientes as experiências que ele carregava.
Antes que alguém falasse, Eldarion se adiantou, e entregou o presente ao seu amigo.
Este é o nosso presente, Ecthelion. – não escapou a surpresa do casal real a Faramir. Finalmente, próximo a esposa,.acompanhava a entrega dos presentes, lembrando que o filho talvez não dormisse aquela noite devido ao dia animado, repleto de amigos.
O filho de Éowyn deixou sua mão correr pelo pano avermelhado que protegia o presente, ao ser liberto do tecido, a luz ofuscou a visão dos convidados, e todos ficaram boquiabertos. Especialmente, Arwen.
Um globo dourado refletindo os raios do sol e emitindo a suave fragrância das árvores de Lórien.
Pippin fixou o olhar e cochichou com os hobbits ao seu lado: ---Não, não, o palantír é totalmente diferente. – resmungou o hobbit, tendo sua voz levada pelo vento a todos os ouvintes tão fascinados quanto ele. ---Este globo é muito mais belo, e parece inofensivo.
Você tem razão, Pippin- exclamou o rei. É um belo presente.
Respondendo a pergunta muda dos adultos. Eldarion esclareceu:
O globo estava na arca, ada. – A explicação deixou-os atônitos, e Arwen completou:
Minha avó e meu pai presentearam Eldarion com uma arca, que cabe apenas a ele decidir sua utilização. – a postura segura e elegante da rainha de Gondor, ocultava seus pensamentos, há muito ela sabia do dom da visão do filho. De certa forma, era esperado. Contudo aquela ocasião marcava o início do destino do filho. Galadriel previra, e Arwen percebia que ela tinha adiado o momento. E acreditado que caberia a ela decidir. Naturalmente, os cursos da vida pregavam uma peça; Eldarion estava pronto para seu caminho. Olhou para o rosto belo e inocente do filho, vendo suas preocupações refletidas no semblante do esposo, contemporizou. Laços de pais e filhos nunca seriam dissolvidos, nem mesmo o tempo podia dissolver. Ela, Undómiel, não era prova viva que os corações estão sempre ligados quando existe o amor? E um pensamento sombrio ocorreu a Grande Rainha. E ela temeu pelo absurdo e força daquele pensamento: o ódio também ligava as pessoas. Em uma cadeia doentia e cruel. Interrompida apenas pela...
Arwen interrompeu seus pensamentos. Que tolice! Tratava-se de uma festa infantil do filho querido de Faramir e Éowyn, porque seus pensamentos ousaram cursar aquele tortuoso caminho? Ela bloqueou a passagem dos pensamentos angustiantes. No entanto, a sensação ficou gravada. E Arwen se lembraria deles, semanas depois.
A felicidade de Ecthelion ao ganhar o presente só era comparada ao do filho do rei em ofertá-lo.
Os presentes ricos em cores e criatividade; e Ecthelion abria-os e correspondia a todos com sua inesgotável alegria, mantendo no entanto, o presente de Eldarion muito próximo a si.
As crianças animadas entre as guloseimas e as cores dos brinquedos recebidos esqueciam o cansaço.
RAS...RAS...RAS...
O som dos pacotes sendo abertos criava uma estranha música. A suavidade do início substituída pela ferocidade da curiosidade.
Bergil fez um sinal para Éowyn, recebendo a confirmação com o anuir da senhora branca. O jovem se afastou e ao retornar uma exclamação de surpresa de fez ouvir.
E a palavra sussurrada seguida do grito animado do filho da escudeira.
Mamãe!
Belo e altivo, o pêlo preto do pônei reluzia a luz da tarde; escolhido entre os melhores cavalos de Rohan, afortunamente, o filhote de Brego, transformava-se no amigo do pequeno senhor.
Valentia e nobreza corriam no sangue do pônei, e as crianças alvoraçadas seguiram até o cavalo. Bergil e Elanor cuidavam dos pequenos.
Tão animada quando as crianças, Éowyn viu o filho montar o cavalo, acompanhado sempre do olhar vigilante de Bergil, sentiu o leve toque de Faramir em suas mãos. Aquele momento pertencia a eles, e a senhora branca acreditou em seu coração a escuridão inescapável havia ficado para trás, eles estavam livres.
A noite trouxe um novo alento para as crianças e para os adultos, os convidados se recolhiam exaustos pela animação do dia.
Enquanto Faramir guiava os convidados aos seus aposentos, e ouvia pensativo a conversa de Sam e Pippin, Éowyn travava a difícil e ingrata batalha de levar Ecthelion para dormir.
Obrigado, mamãe.- O garoto enlaçava a mãe pelo pescoço, cansado demais para andar.
As palavras saltavam da boca do infante, os presentes, as brincadeiras, Ecthelion enfatizava como havia vencido o tio em diversos rounds na luta.
Éowyn mantinha-se muito séria, tentando não rir das perguntas do filho; chegando no quarto, ela alisou o rosto do filho em uma carícia. Ele parecia tanto com Faramir!
Mãe? – ela tinha se perdido em meio às comparações.
Papai virá se despedir de mim? – a voz começava a dar sinais de sono.
Você sabe que sim, disse ela, ele não passa uma noite sem se despedir de você antes de dormir.
Hoje eu fui muito feliz, mãe.
Eu fico feliz! – Éowyn ficou parada, buscando a compreensão do filho. Às vezes, ele parecia o garotinho que era, em outros momentos, tão adulto.
Quando a senhora branca viu o sorriso do filho abrir, repleto de devoção e inocência, ela soube, sem ao menos se virar que Faramir estava no umbral da porta.
Boa noite, filho.- a voz dele, revelava orgulho e amor. Éowyn pode sentir a mesma grave ternura que havia trazido a primavera e o verão para sua vida.
Eu trouxe meu presente para você.- E sem qualquer enfeite, ele entregou o trabalho que estivera preparando.
A corneta de Gondor – rica e delicada, o trabalho era adornado com as Sete Estrelas e a árvore branca, e o nome de Ecthelion nas inscrições.
Os olhos do filho de Faramir brilharam em êxtase.
Igual à corneta do tio Boromir? – perguntou tocando o presente como se fosse sagrado.
Faramir sorriu ao ouvir a forma que o filho falava do irmão. Boromir teria amado o sobrinho.
Não, eu fiz modificações, Ecthelion. A antiga tradição pertencia aos regentes, meu filho. E eles não mais serão necessários. – a certeza de Faramir em seu rei, trazia um brilho aos seus olhos acinzentados. – A corneta – continuou ele, narrando com voz baixa e suave como a um de menino – a partir de hoje será nossa tradição, de pai para filho. Apenas isso.
O filho do príncipe de Ithilien guardou com um cuidado especial ao lado do globo de Eldarion, a corneta. Em seu coração, infantil, ele podia admitir, o presente do pai seria sempre seu favorito.
Faramir abraçou o filho, acalentando seu sono. Entregue ao abraço, o filho de Denethor, lembrou do primeiro momento que o segurou. Quando Yoreth lhe entregou o bebê, tão frágil e tão belo. Sentiu seu coração cantar uma canção doce e inimaginável. Os Valar o havia abençoado, ele ninou o filho como fazia naquele momento e jurou; jurou que entre eles não haveria abismos. Mesmo que seu filho admirasse a outro. Ele nunca se afastaria. Seu pai havia lhe ensinado a dor de esperar o que não podia corresponder. Sua visão correta sabia que seu pai o amara, de sua forma.
Lembrou das noites que implorava a graça de satisfazer os anseios do pai. E a cada dia, a distância entre eles aumentava. Boromir havia tentado com seu afeto uni-los. Quando Boromir se fora o caminho ficara perdido.
"Não, Ecthelion", Faramir reviveu a promessa," eu o amarei, mesmo que você escolha outra a quem admirar. Estarei próximo para amparar suas quedas. E o ouvirei, serei seu amigo. Se eu tiver outros filhos, juro que meu amor por você não se alterara, e não farei diferenças entre vocês", Faramir sabia que chorou no dia que segurou o filho pela primeira vez. E as palavras da promessa estavam gravadas em sua alma.
" Você nunca derramara lágrimas escondidas tentando me entender. E se um dia você deixar de me amar, eu saberei esperar, seu retorno, e os laços entre nós nunca será rompido". Faramir, então beijou a testa do filho, selando seu compromisso, seu voto.
Sete anos havia se passaram daquele dia, e o príncipe de Ithilien acalentava o filho todas as noites, com o leve pressentimento da verdade de Ecthelion. A verdade presenciada por Éowyn todas as noites. Ela contemplava a cena, assim como nas noites anteriores. E observou os homens a quem amava unidos, ela conhecia o coração deles. E sabia a verdade do filho: Ecthelion venerava o pai, nos anos a nascer, ela sabia que o filho se tornaria nobre e austero, pois tivera Faramir para guiar seus passos, ela sabia que o filho a amava e a protegeria. Contudo, sabia que o filho buscaria a cada momento seguir os passos do pai. E que as trevas nunca poderiam se apossar do coração de Ecthelion, pois a luz da sabedoria de Faramir a expulsaria. E por amar o pai, ele não se curvaria à desonra ou a morte. Ele buscaria a vida e defenderia a justiça.
Quando chegasse o momento de se casar, ele escolheria alguém que amasse profundamente, como vira o pai amar a mãe, pois ele teria aprendido que a única forma de honrar a vida seria amando completamente, sem medo da entrega. Da forma que o pai amava. Da forma que Faramir a amava. Laços entre pais e filhos que não podiam ser rompidos.
Éowyn viu o esposo beijar a testa do filho entregue ao sono. Faramir passou por ela, puxando-a pela mão. Encostou suavemente a porta do filho. O dia havia exigido deles. E estavam entregues a segurança da noite, encobertos pela névoa misteriosa do futuro.
Lady Éowyn.
