Capítulo II – Wings In The Past

Os dias eram lentos ali. Senti que estava preparado para seguir por outro rio. Tinha recebido graças a Cass uma nova oportunidade. Então decidi que contaria tudo a ela... Ainda olhava pela janela quando ela entrou, podia sentir sua aura ali dentro. Era intensa demais para ser camuflada.

- Bom dia raio de sol!!!! Até que enfim! Pensei que passaria a eternidade dormindo.

Eu viro os olhos para a expressão de desaprovação da garota, ela sabe ser irritante quando quer, mas, sinceramente, não sei mais viver sem ela. Ela faz parte disso tudo e está decidido: Vou levá-la comigo nessa nova viagem. Não posso deixá-la para trás, seria morte na certa, a Organização apesar de muito fraca agora, ainda existe. Apesar de estarmos oficialmente mortos para o imbecil do Antares. E traidores pagam sua divida em sangue, então ela é minha responsabilidade agora.

- Cass... Ainda quer saber quem sou eu?

A garota me encara surpresa, não me responde apenas senta-se displicentemente no sofá puído do encardido quarto de motel e me responde num gesto afirmativo, é toda ouvidos.

- Meu nome é Shiroyama Yuu, tenho trinta anos, nasci em Mie, distrito pequeno e afastado de Tóquio, eu tive sim uma família.

- Oriom não é filho de chocadeira como eu! Vamos brindar! – Ela fala tentando ser engraçada, mas, eu a percebo levemente desconcertada.

- Quer ouvir ou não? – digo meio impaciente. Ela apenas coloca a mão sobre os lábios, numa promessa muda de não me interromper mais. Então eu respiro fundo e continuo. – Eu tinha pouco mais de três anos quando minha mãe chegou com dois bebês em casa...

- Aoi... Aoi querido? Onde está?

- Mamãe? – Um garotinho de três anos de olhos vivos e sorridente responde e parte em direção da voz de sua mãe.

- Filho estes são seus novos irmãos. Você é responsável por eles.

- Por que mamãe? – O garoto perguntou não entendendo bem o que aquilo significava.

- Eles perderam a mamãe deles, são pequeninos e precisam de nossa ajuda, como você já é um homenzinho estou pedindo que me ajude com eles. Você vai me ajudar Yuu-chan?

- Naquele momento eu imaginei um mundo sem minha mãe. E fiquei com pena dos garotos que mais pareciam duas trouxinhas azuis que mamãe e a senhora Mitiko, nossa funcionária, seguravam com tanto cuidado. Então eu seria responsável por eles também. Claro minha mãe nunca esperou que eu ajudasse, ela apenas queria que eu não me sentisse trocado por aqueles dois chorões que invadiam nossa vida de repente. A partir daquela tarde de verão, minha vida jamais seria a mesma. Eu jamais deixaria de cuidar deles. Mais tarde descobri que meus irmãos eram na verdade filhos de aberrações como nós, mas que de alguma forma conseguiram tirar as crianças de dentro da Organização. Meus pais sabiam da verdade, sabiam que eu também era diferente, mas, acreditavam que se eu vivesse em um ambiente normal, nenhuma de minhas habilidades se desenvolveriam. Meus irmãos ao contrário haviam recebido um tratamento genético inibidor dessas habilidades. Algo experimental que salvou suas vidas. Tudo isso era um segredo guardado a sete chaves que descobri ao acaso, em um diário de mamãe. Ela pesquisava algo definitivo para mim desde o meu nascimento. Ainda me lembro do seu olhar... Um misto de terror e decepção. Eu a havia decepcionado. Ela me colocou para fora do seu quarto sem maiores explicações. Eu sabia então que teria que proteger meus irmãos de algum mal, não sabia o que era, mas era meu dever.

- Mas ela não te contou que você era um fricazóide? – Ela ainda tenta ser engraçada, mas, está falhando a cada piada.

- Já disse para não me chamar assim! – Viro os olhos, ela não tem jeito mesmo. – Na escola eu sempre me metia em brigas por conta deles, era impossível eu não revidar quando eles se metiam em encrencas. Aprendi a atacar, não admitia que ninguém ousasse tocar neles. As coisas começaram a mudar e por algum motivo que eu desconhecia quando completei dez anos começamos a nos mudar. Meu pai dizia que o seu serviço assim o exigia. No primeiro ano passamos por quatro cidades diferentes. Muitas vezes ocupávamos quartos de motéis como esse aqui. Minha mãe se tornou taciturna e triste. Mas, sempre tinha um sorriso para nós. Em meu intimo eu sabia que estávamos fugindo de alguém ou alguma coisa. Perdemos a mamãe em uma dessas fugas, meu pai bateu o carro... Eu... Eu... – Cass toca meu ombro em apoio, eu respiro fundo e continuo. – Eu retirei meus irmãos do carro, arrastei meu pai, não sei como. Mas minha mãe, ah... Ela estava presa nas ferragens do que sobrou do carro. Lembro de sua voz... Seu sorriso ali no meio da dor, tentando me dar forças...

- Meu bem... Faz um favor para a sua mãe... Cuide de seus irmãos é sua responsabilidade... Yuu-chan me prometa que jamais vai fazer coisas estranhas, coisas que outras pessoas não fazem. Eu me orgulho de você... Te amarei além da vida... Quando a saudade apertar, olhe para as estrelas, eu serei uma delas. – Ela me puxou para um abraço sufocante. – Agora quero que saia daqui rápido! Vai Yuu-chan... Vai... – Ela sorria para mim enquanto me empurrava para fora do carro. Segundos depois uma explosão me alcançou, me deixando desacordado por um longo tempo.

Limpo uma lágrima que teima em cair. Cass me abraça, a garota chora agarrada a mim, de alguma maneira ela também começa a sentir sua parte humana. Nunca havia visto lágrimas em seus olhos, e agora ela chora comigo. Deve ser minha sina, a fraqueza que tenho pelas pessoas. O amor que sinto por elas é minha fraqueza. É minha ruína. Por algum tempo tentei matar isso dentro de mim... Em vão. É mais forte que eu. Eu não pude. E com ela não será diferente.

oOo

Naquele dia não consegui dizer mais nenhuma palavra. Era a primeira vez que eu me lembrava de minha mãe. Eu havia enterrado fundo na alma sua lembrança, seu sorriso doce. Não era digno que aquele sorriso me acalmasse me acompanhasse, eu deixei que ela morresse naquela explosão. Só agora ousava abrir minha caixa de lembranças. A canastra da minha vida. Ainda não estava certo de que deveria seguir em frente deixando que Cass soubesse de tudo, mas agora não havia volta. Passei a noite vagando pela floresta, ainda era uma aberração. Contudo eu não podia mais ser encontrado, eu podia usar minhas habilidades sem medo, não existia ninguém mais que pudesse me detectar. Então deixei que o vento varresse minha face e o frio da noite me envolvesse. Quando percebi que o dia estava prestes a nascer, lembrei-me de Cass, ela deveria estar maluca, sem saber onde eu estava. Não havia carregado meu celular comigo, ela ia me matar com certeza.

- Onde diabos você estava Oriom? – Ela grita assim que abro a porta. Sim, ela está nas raias da insanidade.

- Já te falei que meu nome é Yuu. Meus amigos me chamavam de Aoi. – Digo com um sorriso amarelo, tipo, "me perdoa, foi mal".

- Aoi, Yuu, Shiroyama, não acha que é muito nome para uma pessoa só não? – Ela começa a atirar qualquer coisa que tem por perto em minha direção.

- Hey! Calma! – Desvio facilmente de um cinzeiro.

- Calma!? Eu vou até o inferno, ferro com minha vida, E VOCÊ NÃO É CAPAZ DE CARREGAR UM MALDITO CELULAR??? – Ela está vermelha e eu começo a gargalhar, não fazia isso a tempo demais, ouvir o som da minha gargalhada foi muito estranho, e ela ficou mais irritada ainda. Eu tratei de ficar mais atento a seus arremessos.

- Está tudo bem... É que a noite me chamou, eu estava na floresta, ninguém me viu.

Ela começa a se acalmar e também começa a rir. No fim temos lágrimas escorrendo dos olhos e as bochechas doendo de tanto rir. Tomo um banho e sentamos para o café da manhã. Não ter nada o que fazer é estranho. Não há mais nada, treinamentos, pesquisas, mortes, nada. Olho para a garota e vou para a porta. Não quero ficar aqui. Estou enjoado deste lugar.

- Você vem comigo? – Digo e estendo a mão para ela.

- Onde? – Seu olhar é surpreso.

- Só dar uma volta.

- Alguém tem que trabalhar aqui, e eu já estou atrasada!

- Você não precisa ir hoje, vão sobreviver sem você, acredite. Não quero ficar só.

- O negócio tá feio por aqui. Você, o assassino mais temido da Organização depois de Zeus, PEDINDO minha companhia? Onde está Oriom e o que você fez com ele?

Eu apenas olho para ela e capricho no sorriso, eu havia esquecido que sempre soube manipular as pessoas com meu sorriso, 'fazia parte do meu charme natural' dizia a diretora do nosso colégio em Tóquio. Claro isso antes de Zeus cruzar meu rio, mudar seu curso e fazer com que ele desaguasse na sucursal do inferno. Mas, isso é passado! E pelo visto a garota à minha frente não resiste a mim.

- E o fricazóide aprendeu a sorrir também! Estamos perdidos!

Atravessamos a rodovia e entramos na floresta que fica de frente ao motel, velhas e enormes árvores cobertas de musgo, vegetação rasteira, meio sombria, mas posso sentir sua magia fluindo em minhas veias.

- Depois que minha mãe morreu tudo ficou em tons de cinza em nossas vidas, os pequenos ficaram meio que perdidos. Mas, eu e meu pai cuidávamos deles. Por um tempo ficamos na estrada. Depois fomos para Tóquio. Lá nós encontramos verdadeiros amigos. Meu pai arrumou um emprego, e nós tínhamos uma casa que não era muito diferente daquele quarto nojento que você me trouxe. Cara, você poderia ter escolhido um lugar pior?

- Tá bom, ta bom, você vai me atazanar pro resto da vida por isso. Queria que eu fosse para algum lugar que costumeiramente íamos senhor sabe tudo?

- Claro que não, enlouqueceu? Mas, não podemos ficar aqui por muito tempo. Há limites pra burrice de Antares, visto que foi o único com cérebro que você deixou vivo na organização. – Olho atravessado para ela me lembrando do dia em que ela me salvou. Nunca a havia visto tão fora de si em combate.

- Mas, por que vocês pararam em Tóquio? É uma grande cidade, e seria fácil serem encontrados ali.

- A principio eu também não entendi. Não falava sobre esses assuntos com meu pai, sobre o que sabia, ou o que sentia. Apenas cumpria suas ordens à risca, levar os garotos para a escola e de volta para casa. Não ficar na frente da casa brincando, portas e janelas sempre trancadas, me ensinou a atirar e quando saía para o serviço sempre dizia que se alguém entrasse em casa que eu atirasse primeiro e perguntasse depois, coisas do tipo.

- Pelo que sei da vida de um humano normal, são coisas bem naturais para se pedir a uma criança né? – Ela é sempre irônica em seus comentários.

- Eu nunca o questionei. Ao nosso grupo se juntaram Yutaka e Takanori. Yutaka, que chamávamos de Kai era um líder nato, quando chegamos a Tóquio ele e Takanori, que chamávamos de Ruki deram as boas vindas aos meus irmãos que eram da mesma turma que eles na escola. Para me adotarem também não foi preciso muito, eu não desgrudava mesmo dos meus irmãos. Kai nos manteve unidos, tínhamos nossas diferenças sim, e mesmo eu sendo o mais velho, ele sempre me vencia nas palavras, ele tinha argumentos incontestáveis para tudo, nos mantinha na linha, mas quando o assunto era meus irmãos, ele dizia que eu era uma porta, que não ouvia nada e nem ninguém, apenas seguia meus instintos. Quando eu completei dezessete anos, Kai resolveu que tínhamos que montar uma banda, eu já tocava guitarra e meus irmãos Akira e Kouyou já faziam aula a um bom tempo, eu havia aprendido só de acompanhar eles nas aulas.

- Ah! Quer dizer que Oriom o assassino mais temido da Organização pertencia a uma banda? Tá de gozação? – Olho pra ela com cara de quem não gostou do comentário. – É acho que não... – Ela assume uma expressão de quem jamais vai acreditar naquela informação. Então eu continuo.

- Papai não gostou nada da idéia. Mas como a banda só se apresentava na escola, festinhas, coisas pequenas, ele acabou permitindo. Então a banda ficou assim Kai – Baterista/Líder da Banda, Kouyou – Uruha/Primeiro Guitarrista, (ou seja, guitarra solo) arranjos e acompanhamentos, Akira – Reita/Contrabaixista, eu – Aoi/Segundo Guitarrista (Guitarrista Base), Takanori – Ruki/Vocalista, estuprador de microfones. Foi nessa época que comecei a me sentir desconfortável com relação à Kouyou, eu não sabia o que significava aquele sentimento. Eu tentava até me manter um pouco longe, mas, não conseguia. Minha preocupação com ele era quase doentia até para mim. Brigávamos muito, por coisas bobas, e ele sempre vinha para minha cama depois, com algum pesadelo, como sempre fazia desde criança. Eu tinha vontade de abrigá-lo em meus braços. Beijar sua boca macia... Mas, ele era meu irmão, não poderia ser assim. Aquilo era errado. Minha mente não processava aquilo. Morri mil vezes por esses pensamentos. Ainda não sabia a extensão de todos aqueles sentimentos, comecei a sair sozinho, ficar com algumas garotas, e até garotos. Dizia que estava aproveitando minha maioridade. Contudo nunca deixei de seguir os passos dos garotos de perto. Os mais novos diziam que eu não podia ficar longe das garotas. Na verdade eu era bem popular. Meses depois da formação da banda papai faleceu, infarto fulminante. Eu digo que ele apesar de amar os filhos não agüentou viver longe da mamãe. Eles eram cúmplices, almas gêmeas. Eu me senti traído, a vida me tirava mais um que eu amava muito...

Nesse momento uma lágrima corre pelo meu rosto. Eu não sei bem ao certo onde estavam todos esses sentimentos, todas essas lembranças. Escondidas. Eu as julgava perdidas. Mas não. Elas estão vivas aqui para me torturar um pouco mais! Eu apoio a cabeça nas pernas de Cass que está recostada ao tronco de uma árvore. Ela acaricia meus longos cabelos. Tem um leve sorriso nos lábios, me transmite paz. Onde ela guarda sua porção assassina nessas horas, eu não faço a mínima idéia.

- Por um tempo eu fiquei meio sem rumo, não falava com ninguém, tive que arrumar um emprego, pois o dinheiro que o velho havia me deixado não duraria muito, e meus irmãos tinham que continuar estudando. Eu me tornei algo que ninguém queria ver. A banda continuou sim, agora cobrávamos pelas apresentações. Precisávamos de dinheiro, Kai e Ruki compreenderam isso e me apoiaram. Meus irmãos sofreram muito também. Eu os mantinha mais pressionados ainda. Eles não sabiam de nada. Foi aí que eu melei tudo. Estava discutindo com Kouyou, pra variar...

- Quer saber eu não entendo mesmo! Você não conversa com a gente. Você apenas dá as ordens como um maldito sargento! Você não é normal! Você não é o papai!

Nesse momento eu acerto meu irmão com um murro. Akira se coloca entre nós, calado, nossas respirações estavam alteradas. Kouyou apenas me olhava desafiador.

- Pode me bater o quanto quiser. É assim que eu me sinto, sei que você nos esconde algo. Suas porradas não vão mudar o que sinto.

- Meu coração falhou uma batida e eu saí porta afora, não sabendo bem ao certo o que fazer. Ainda ouvi Reita me perguntar aonde ia ao que respondi apenas "Sair". Naquele dia tinha a intenção de tomar um porre, mas não o fiz. Meus irmãos mereciam saber. Eles tiveram uma infância longe da verdade que eu sabia. Eles mereciam saber por que eu era um irmão pé-no-saco. Voltei para casa depois de rodar pela madrugada. Não havia esfriado a cabeça ainda, mas eu tinha que voltar e encarar meus medos. Quando entrei em casa, eles estavam acordados e com sinais que não haviam dormido na minha ausência. Kou exibia um hematoma feio no olho. E Akira tinha um olhar de reprovação. Eles não disseram nada. Inesperadamente Kou chegou perto de mim e me abraçou. Um mudo e forte abraço. Então desmoronei.

- Vocês querem saber por que eu sou um mala. – Vejo que eles vão se justificar e eu os interrompo. – Eu sou mesmo! O irmão mandão, pé-no-saco, idiota, burro, super protetor, esquisito... – Eles baixam a cabeça eu respiro fundo e continuo. – Sim eu sou tudo isso. Tudo começou quando mamãe os trouxe para casa. Sim vocês são adotivos. As mães de vocês eram algum tipo de pessoa que possuíam poderes estranhos, e trabalhavam para alguém perigoso. Eu tentei descobrir mais a esse respeito, mas o segredo morreu com mamãe. Vocês receberam algum remédio experimental quando nasceram e não tem super-poderes, ou coisa parecida, são normais. A identidade de seus pais também é algo que concluí que nem mamãe sabia. Eu também deveria ser diferente, mas, mamãe acredita que minhas habilidades não vão aparecer enquanto eu tiver uma vida normal... Vida normal. Conclui também que sempre fugimos dessas pessoas que de alguma forma podem nos encontrar e nos fazer mal. Eu não sei quem são. Nossos pais talvez soubessem, mas tinham um medo terrível deles. Por essa razão fugimos boa parte da nossa infância. E acho que é por isso que papai fez aquele ritual de proteção e nos deu esses amuletos. Para que quem quer que seja não possa nos achar. – Eu os encaro, tenho lágrimas nos olhos que escorrem silenciosamente pela minha face. Meus irmãos estão chocados é muita informação para ser processada de uma só vez. Eu errei não deveria ter falado nada... – Satisfeitos?

- Não aguardei resposta, fui para o quarto que dividíamos e torci para que não viessem atrás de mim. Eu queria ficar só. Eu queria morrer. Não deveria ter dito nada a eles. Eles eram minha responsabilidade. Eu havia falhado.

- Eu sinto muito Aoi. Nós sentimos muito. Você e seus pais fizeram o melhor que puderam. E você ainda faz. Do seu jeito "porta" como diz o Kai. Mas, tudo isso não muda nada... Não muda o amor que sentimos por você, pelo papai e pela mamãe. Você perdeu sua infância por nossa causa. Então me perdoe por ser tão cego...

Kou disse o que tinha que dizer e se retirou do quarto ele me conhecia bem sabia que eu queria ficar só naquele momento e respeitou minha vontade. Troquei de roupa e fui para o trabalho. Não poderia me dar ao luxo de ficar em casa. Tinha contas a pagar. Reita me ligou no meio do dia e pediu permissão para ficarem na casa de Kai para um trabalho em grupo. As coisas não mudaram, eu ainda tinha autoridade ali, ou então não queriam me ver mais. Apenas disse que sim. No final do dia, não queria voltar para casa, também não liguei para Kai como era de costume. Bebi alguma coisa em um bar qualquer e acabei indo para casa. Fiquei surpreso, encontrei Kou na sala. Era tarde. Não entendi bem o que se passava.

- Onde esteve? Você não ligou. Estou aqui há muito tempo. Seu celular está desligado. Você nunca fez isso!

Kou tinha a mesma postura que eu assumia quando eles pisavam na bola comigo. Tinha o tom de voz firme.

- O nenenzinho da mamãe não ia ficar na casa do Kai? O que houve? Ele te colocou pra fora é?

Digo em tom de troça, mas ele se manteve firme, me olhou confuso, sua respiração estava alterada eu percebi que o caso era sério.

- Tá tudo bem irmãozinho eu não vou a lugar nenhum sem vocês, ainda sou um mala e mando aqui. Ok? Feliz agora? Então vai dormir pirralho amanhã você tem colégio!

Ele corre até mim e me abraça. Eu ainda posso sentir seu cheiro. Ele tremia. Estava meio febril também. Mais que depressa, afastei-o de mim, e limpei suas lágrimas. Ele estava apavorado.

- Hey carinha tudo bem. Seu mano 'ta bem aqui. Não vou a lugar nenhum.

- Promete?

- Eu prometo.

- Levei o garoto para a cama e ele dormiu agarrado a mim naquela noite. E eu não dormi é claro. Sua presença ali tão perto me perturbava demais. Depois daquele dia, a vida se tornou mais fácil para mim. Por algum motivo eu me sentia seguro. Kou não me olhava mais com olhos reprovativos, seu olhar era um misto de cobiça e adoração. Implicava com todas as namoradas que eu arrumava. Ah sim, os namorados ele não sabia. Eu ainda não tinha definido o que eu gostava. E nem ficava muito tempo com uma garota, não poderia haver outro compromisso em minha vida. Não enquanto não tivesse certeza de que não era uma aberração.

- Hummmm. – A garota espreguiçou como um gato. – Estou faminta, já é hora do almoço e nem vi as horas passando. Que tal conhecer a cidade hoje, e dar um jeito nisso que você chama de cabelo?

- O que há de errado com meu cabelo? Não preciso de mudanças aqui.

- Ah precisa sim! Precisamos de um novo visual. Esse seu é muito comportadinho pra não dizer que parece meu avô!

- Hey!...

- Oriom!... Eu sei o que estou fazendo, apenas me escute tá bom? Confie em mim!

- Isso é perigoso!

- Seu chato! Eu vou fingir que você não disse isso!

Abraço a garota a minha frente e seguimos para fora da floresta. Paramos a frente de um Honda novinho em folha preto, bem diferente dos carros que eu escolho para minhas missões.

- O que é isso?

- Nosso carro. Você tem um péssimo gosto para carros. – Para de frente a ele e começa a descrever sua mais nova aquisição. – Suspensão rebaixada, motor 2.4L DOHC i-VTEC 166 cavalos, roda/pneu bem largo, para aumentar a performance do carro, a economia de combustível é muito boa, para os padrões americanos, com médias de oito quilômetros e meio por litro na cidade e dez quilômetros e meio por litro na estrada. O crossover Honda Element foi redesenhado nos EUA, com tração quatro por quatro, equipado com sistema de navegação e outros equipamentos. Mais os brinquedinhos que eu coloquei por conta. E... – Ela abre o porta mala, mostrando um fundo falso com armamento para começar uma pequena revolução, meu antigo material de serviço. A irritante garota à minha frente havia pensado em tudo. – Seus brinquedinhos preferidos! Sou ou não sou eficiente?

- Eu nem sei o que dizer! Você é demais!! – Estou de queixo caído com tudo! – Roubou esse carro onde?

- Pagamos por ele. Agora temos uma vida legal, quase tudo dentro das regras. Desviei muito dinheiro da Organização para uma conta. Eles vão levar o resto da vida atrás do dinheiro. E quando, e se encontrarem a conta ela já estará vazia, com os votos: "Parabéns! Você finalmente encontrou otário!"

Apenas balanço minha cabeça ela pensou em tudo mesmo.

- Vamos fricazóide entra no carro! Eu tô com fome!