Capítulo 2 - Secrets again?

John fechou os olhos com força e sacudiu a cabeça levemente. Estava tão cansado que não tinha mais certeza se conseguiria segurar a agulha por muito tempo. Era apenas mais uma ferida que tinha que limpar e fechar depois de muitas outras, mas seus olhos ardiam e sua visão embaçava quando mais precisava.

— Tudo bem Doutor? — a mulher questionou com certa preocupação.

Ele não parecia estar bem?

— Claro — John se apressou em responder — Não se preocupe, acabo em um minuto.

Precisou de um pouco mais que isso, um pouco mais do que geralmente precisava e John quase entendia o motivo. Sentado no pequeno refeitório enquanto engolia vários goles de café, podia facilmente culpar Dra. Alexa Georgie, sua supervisora. A responsável pelo seu terceiro dia seguido de plantão. Por outro lado, também sabia que já deveria estar acostumado com aquele horário ocupado. Por que, de repente, estava tão cansado? Afinal, ele mesmo escolhera se afogar no trabalho.

Ergueu a cabeça e encontrou o olhar incisivo da Dra. Georgie o acertando. Levantou-se e caminhou lentamente até ela, rezando a Deus para não escutar mais uma ordem que o obrigasse a permanecer naquele lugar. Só queria sua cama.

— Dra. Georgie.

— Dr. Watson — ela nem se preocupou em forçar um sorriso educado, ninguém poderia reclamar mesmo — Há uma ligação para você na recepção.

John piscou confuso. Realmente não esperava ouvir aquilo.

— Para mim?

A mulher não se importou em responder e lhe deu às costas com desinteresse. John rapidamente se apressou pelo corredor e pegou o celular no caminho, estava sem carga. Começou a pedir a qualquer entidade divina para que não fosse nenhuma emergência, pouquíssimas pessoas tentavam entrar em contato com ele pelo trabalho, mas se alguém havia realmente tentado, o que poderia esperar?

— Steven!

O secretário pulou em sua cadeira e espalhou alguns papeis sobre a mesa, corando no ato.

— Ah, oi, oi Dr. Watson — gaguejou nervoso pelo susto, poderia ser a Dra. Georgie — Chamada, linha 2.

John imediatamente pegou o telefone fixo e discou o número 2 com as mãos tremulas.

John?

— Sra. Hudson — ofegou assustado — Aconteceu algo grave? Com quem?

Oh querido, é o Sherlock — a senhoria choramingou fazendo o coração do médico se apertar — Chegou aqui delirando de febre, eu e o seu amigo Inspetor conseguimos dar um banho nele, ou tentamos, mas Sherlock não para de se espernear e não nos deixa mais tocá-lo! Pode voltar para casa logo? Ele está ferido...

— Ferido?

Greg disse que aconteceu durante um caso e que não é nada grave, mas eu só confio em você para dizer isso John.

— Estou indo imediatamente — John garantiu desligando logo em seguida, então se virou para Steven e avisou enquanto se afastava — Meu turno acabou, diga a Dra. Georgie que tenho direito a pelo menos um dia de folga.

Não ficou para ouvir uma reposta , passou rapidamente em sua sala para pegar sua pasta e saiu do hospital ainda retirando o jaleco branco. Jogou-se no primeiro táxi que passou. Estava mais preocupado que nervoso, Sherlock não ficava doente, nunca, deveria ser a única benção que o acompanhava por toda a vida: a sorte. Ausência de comida, noites de sono, estresse, alta concentração de drogas e cigarro nunca foram um problema, Sherlock poderia até desabar em algum momento, mas não pararia até alguém o internar a força e ainda sim ele fugiria para continuar o que quer que estivesse fazendo. Só podia ser uma puta sorte não ter morrido por tudo isso.

Respirou fundo, tentando se manter calmo. Fazia pelo menos uma semana que não se falavam, desde o dia em que voltara para Baker Street depois de horas vagando pelas ruas da cidade. Nenhum lado cedeu e John se ocupou trabalhando o máximo de tempo que conseguira. Estava exausto agora, mas ainda não sabia como agir com Sherlock.

Certo, descobriria isso agora.

Pagou o motorista e saltou do taxi, olhando para a janela do apartamento com um certo pesar. Que Deus o ajudasse. Subiu as escadas de dois em dois degraus, imaginado como ajudaria um teimoso detetive a melhorar, mas se surpreendeu quando abriu a porta e encontrou não só uma Sra. Hudson preocupada, como também Mycroft e Lestrade.

Mycroft?

— O que faz aqui? — perguntou retirando o casaco e entrando no corredor.

— Ora, ele é meu irmão, estou preocupado — Mycroft respondeu indiferente, seguindo-o.

— Certo e o que mais?

Entrou no quarto de Sherlock sem hesitar e o encontrou na cama, remexendo-se de olhos fechados. Engoliu em seco e sentou-se ao lado dele, na beirada da cama, cuidadosamente passando a mão em sua testa suada e quente, mas sem conseguir ignorar o corte superficial em seu tórax.

— O que aconteceu? — perguntou notando que Lestrade e a Sra. Hudson também estavam no quarto.

— Estávamos no meio de um caso simples — Lestrade respondeu parecendo confuso — De repente o suspeito o atingiu com uma faca, nem é um corte fundo, mas desde então ele está assim.

— E não pensou em arrastá-lo para um hospital? — John rebateu sendo mais rude do que esperava.

— Eu tentei John, juro que tentei. Mas Sherlock se tornou violento e precisei pedir ajuda ao Mycroft.

Violento?

Lançou um breve olhar a Mycroft que, surpreendentemente, parecia preocupado de verdade e constatar isso só deixou o médico pior. O que poderia estar acontecendo?

— Sherlock, consegue me ouvir? — perguntou com calma — Sherlock?

O detetive murmurou algumas reclamações e piscou os olhos com dificuldade.

— John... consigo ouvir.

— Ótimo, sente alguma dor?

— Todo o meu corpo... doí — Sherlock respondeu com a voz rouca.

John suspiro, sentindo-se amolecer com os olhos marejados e avermelhados do amigo, então pegou sua pasta e começou a criar seu próprio diagnostico. A febre estava alta, batendo os 39 graus, a pressão corporal estava se elevando e os batimentos cardíacos estavam tentando acompanhar o ritmo.

— Acredito que alguém tentou envenená-lo, querido irmão — Mycroft revelou.

— Como assim? — John perguntou de olhos arregalados — Envenenar?

— Por isso está aqui, eu sei Mycroft — Sherlock respondeu trêmulo.

— Como pode estar falando tão racionalmente? — John perguntou assustado — Devia estar delirando de febre.

— É só... febre John.

— Não, é um envenenamento.

— Uma tentativa.

— Colete um pouco do sangue dele — Mycroft sugeriu empurrando uma seringa e uma ampola nas mãos do médico — O Inspetor levará para análise.

John não hesitou em obedecê-lo sob os protestos incoerentes de Sherlock e observou Lestrade sair com um misto de preocupação e nervosismo, junto com a Sra. Hudson que prometeu uma deliciosa sopa. Com certeza não estava diante de uma gripe.

— Então Mycroft — John se levantou levemente divertido — Vai me ajudar a dar um banho de verdade no seu irmão ou não?

— Oh meu bom Deus, não — o Holmes mais velho contorceu seu rosto em desgosto e saiu do quarto.

John riu brevemente da reação esperada e começou a retirar as roupas úmidas de Sherlock, sempre sob o olhar atento do mesmo e fazendo questão de não tocar na cueca box. Obrigou-se a não olhar para qualquer ponto especifico do seu corpo e principalmente para não corar com o que estava fazendo, em seguida, ergueu-o com um grande esforço e o ajudou a tropeçar até o banheiro.

— Vai me dar banho, Doutor Watson? — Sherlock brincou quando entraram no box.

— Consegue ficar em pé sozinho, Detetive? — John rebateu sentindo seu rosto queimar.

Ambos riram e John ajustou o chuveiro para um banho morno, mas quando o ligou Sherlock se afastou, apoiando-se precariamente na parede.

— O que está fazendo? — perguntou o puxando de volta.

— Você vai se molhar todo — ele respondeu ainda tentando se afastar.

John revirou os olhos e o puxou com mais força, colocando os braços grandes ao redor de seu pescoço e o segurando pela cintura, mantendo-o debaixo do chuveiro.

— Que parte do "você não consegue ficar em pé sozinho" não entendeu?

Sherlock não respondeu e John se contentou em observá-lo com atenção, seus olhos fechados enquanto resmungava algo incoerente sobre a água, seu corpo que tremia e suas mãos que apertavam fracamente seus ombros. O corte em seu tórax realmente parecia não ser profundo e não sangrava mais, quase ergueu a mão e tocou ali, mas conseguiu se conter a tempo. Seria toque demais para um único dia, não?

— Sherlock, preciso que olhe pra mim. Preciso saber o que, exatamente, está sentindo e o quanto consegue reagir.

Sherlock soltou uma reclamação baixa e entreabriu os olhos.

— Eu... me sinto horrível. Parece que estou sofrendo algum efeito colateral de uma droga errada — respondeu em um sussurro arrastado — Vejo você, ouço você, mas não consigo reagir... no tempo certo. Cada milímetro do meu corpo doí e não consigo fazer ele parar de tremer, minha cabeça está latejando...

— E o corte?

— Nem sinto.

John franziu o cenho e ergueu a mão, hesitante.

— Posso?

Sherlock riu.

— Você está me dando banho, faça o que achar necessário.

O médico tentou não encontrar outro significado para aquelas palavras e forçou um sorriso, em seguida pressionou o corte com extremo cuidado, temendo machuca-lo.

— Nada? — questionou com a falta de reação.

— Nada.

— Certo, tem algo que eu preciso saber antes de começar a te entupir de comida e remédio? Alguma dedução que fez antes de fazer o Greg pedir ajuda ao seu irmão?

— Não vai me vestir primeiro? — Sherlock brincou maneando a cabeça meio desorientado.

— Sherlock!

— Tudo bem John, mas não consegui nada. O suspeito... era comum, a novidade seria pegá-lo em flagrante durante o roubo de uma loja. Ele saiu correndo e eu fui mais rápido que Lestrade... e foi apenas isso.

— Certeza?

— Obviamente.

John comprimiu os lábios e se deu por vencido, não teria muito mais do amigo nem mesmo naquele estado. Sherlock deveria ser o doente mais ativo e teimoso que já conhecera na vida e o único lado bom de um paciente teimoso era sua falta de vontade de erguer o próprio corpo.

— Vamos, Sherlock.

Colocou a toalha sobre os ombros do mesmo e arrastou para fora, sentindo seus próprios braços tremerem com esforço.

— Tudo bem John? — o detetive perguntou enquanto saia dos braços do médico e sentava na cama, sentindo que poderia passar o resto da vida ali.

— Claro — John respondeu rapidamente, procurando o pijama dele.

— Certeza?

John não respondeu, sabia exatamente o motivo para a sua repentina tremulação e era apenas um: exaustão, o resultado de dias trabalhando sem parar. Sherlock não precisava saber disso por enquanto.

— Seja um bom paciente e descanse, okay? — pediu mudando de assunto, empurrando-o levemente.

Sherlock não precisou de muito para desabar na cama e em completo silêncio John o enxugou e retirou sua cueca box, corando violentamente. Foco Watson! Rapidamente o vestiu com o pijama de algodão e o cobriu com os cobertores, notando que o amigo começava a tremer de frio.

— Comida e remédio?

John clareou a voz e o encontrou com um sorriso fraco e divertido.

— Exato — concordou tentando não parecer tão constrangido — E por favor, não dificulte meu trabalho.

Mesmo sem uma reposta, levantou-se e pegou sua pasta, arrumando as coisas que havia usado. Inesperadamente sentiu suas mãos vacilarem e seus sentidos rodarem. Piscou com força e levou as mãos à cabeça, sentindo-a doer.

— John? — Sherlock o chamou parecendo preocupado.

— Estou bem — o médico garantiu, sacudindo as mãos e dispensando mais perguntas — Não ouse levantar, eu volto logo.

Afastou-se do quarto o mais rápido que conseguiu e encontrou Mycroft sentado casualmente em sua poltrona. Havia duas tigelas de sopa quente sobre a mesa que ignorou temporariamente e colocou a água para ferver, prepararia o chá primeiro.

— Como ele está? — Mycroft perguntou sem se mover

— Estou bem — Sherlock respondeu ofegante, apoiando-se na parede.

John pulou de onde estava, correndo até o detetive e novamente lhe servindo de apoio, passando seu braço sobre seus ombros. Sherlock agarrou seus diversos cobertores e aceitou sua ajuda até conseguir chegar ao sofá.

— Ficou louco? Eu disse pra não levantar! — John brigou exaltado.

— Você não parece muito bem — Sherlock murmurou enquanto deitava.

— Só estou cansado, você foi envenenado!

— Foi apenas uma tentativa...

— Isso não importa — John rosnou pegando uma das tigelas de sopa e a empurrado nas mãos do outro — Coma, sem reclamações.

A boca de Sherlock se contorceu em um bico teimoso enquanto ele erguia um pouco mais o corpo para comer.

— Parece que os efeitos estão passando — Mycroft comentou com um sorriso de canto.

— Ainda sinto que vou morrer — Sherlock resmungou ajeitando os cobertores com uma das mãos.

John pegou a outra tigela e sentou-se ao lado do amigo, começando a comer em silêncio. Era o seu plano perfeito, ficar ali em completo silencio, sem dar qualquer abertura para uma conversa mais longa com Sherlock e sem se intrometer no assunto dos irmãos.

— Doutor Watson, parece bastante cansado. Trabalho demais? — Mycroft implicou com os olhos brilhantes de diversão.

— Faz parte — John respondeu fuzilando o mais velho pela provocação. É claro que Mycroft sabia o motivo dele trabalhar tanto.

— Por que não termina de comer e vá ter sua noite merecida de sono? — Mycroft respondeu o fazendo arquear as sobrancelhas de surpresa — Não se preocupe, vou garantir que o meu irmão esteja na cama logo, não sem antes receber alguns sermões necessários, claro.

Sherlock revirou os olhos, mas John se apressou em engolir a comida e, mesmo sem entender o aviso nas entrelinhas, levantou-se e se preparou para um banho muito esperado. Em seguida ligou para Lestrade e insistiu para que não chamasse Sherlock para nenhum caso por enquanto, mesmo tendo certeza de que teria que lidar com o tédio do amigo nos próximos dias. Sabia que estavam lhe escondendo informações, como faziam inúmeras vezes, e tentou não se irritar com a ridícula repetição. Sherlock nunca mudaria e Mycroft não se sentia obrigado a revelar nada para o amigo do irmão, então só lhe restava deitar em sua cama e fingir que nada estava acontecendo.

Exatamente como tentava fazer há meses.

SHSHSH

Seu único dia de folga foi um completo desastre, pelo menos para o controle de suas emoções.

Sua cama estava quente e confortável o suficiente para mantê-lo o resto do dia ali, seus cobertores pareciam prendê-lo e o dia amanheceu incomumente frio e nublado. Soltou um suspiro satisfeito, pronto para ceder à preguiça, mas algo ainda lhe parecia errado, uma sensação familiar o incomodava e John praticamente voltou à sua época como militar, onde seus superiores quase o enforcaram para ser mais perceptivo àquela sensação.

Então decidiu abrir os olhos e encontrou outro par destes o encarando.

— Jesus, Sherlock! — exclamou sentando em um rompante — O que faz aqui?

— Devia estar realmente cansado, estou aqui há horas e você quase não se moveu — Sherlock respondeu com a voz rouca.

John fechou os olhos, tentando obter algum controle sobre seu coração acelerado e a súbita vontade de empurrá-lo da cama. Quando abriu os olhos voltou a observá-lo. Sherlock ainda estava na mesma posição, deitado e enrolado nos mesmos cobertores, seus olhos o encarando com um misto de curiosidade e interesse.

— Vai ficar me olhando?

— Estou esperando você me explicar o que está fazendo na minha cama — John respondeu rapidamente.

Sherlock revirou os olhos e colocou a mão em seu peito agitado, forçando-o a deitar novamente. John respirou fundo e o encarou, ignorando a própria mente que teimava em criar imagens onde cedia ao seu desejo mais recente de abraça-lo, onde simplesmente erguia as mãos e o puxava para o abraço mais significativo de sua vida. No entanto, ceder ao seu desejo mais profundo ainda parecia longínquo e surreal.

— Eu não mordo John — o detetive comentou como se fosse a resposta para algo.

— Também não costuma dormir na minha cama — o médico rebateu controlado.

— Foram algumas horas, apenas.

— Isso não muda nada Sherlock. O que aconteceu?

Sherlock hesitou e John franziu o cenho por isso. O detetive não costumava hesitar em suas respostas, eram quase sempre enigmáticas, espontâneas e diretas, mesmo que em parte fossem mentira ou parte de um plano, mas agora, deitado ao seu lado e encontrando um brilho novo nos olhos claros que tanto admirava, John sabia que seria uma resposta incomum e desafiadora para Sherlock, algo importante o bastante para lhe fazer questionar os riscos de sua exposição.

De repente ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça, levantando-se em seguida:

— Não é nada importante, vou voltar para o meu quarto.

Foi a vez de John puxá-lo de volta para cama e mantê-lo ali com a mão em seu tórax.

— Não mesmo, já veio até aqui, então com certeza vai me contar o que aconteceu. Envolve seu irmão?

— Não, é só... — Sherlock fez uma careta e soltou o ar com irritação — Apenas tive um pesadelo.

John o olhou com seriedade e teria ficado nisso, pensando em significados ocultos naquela frase comum se o coração do detetive não estivesse batendo tão forte sob sua mão. Queria entender como um pesadelo lhe causara aquela reação.

— Conte-me sobre ele... — incentivou com um sussurro — Era uma lembrança?

Sherlock se remexeu desconfortável, mas não escapou da mão de John e nem de seus olhos atentos, então restou responder, mesmo indo contra seu lado racional.

— Sim... aquela noite em brigamos, depois que você foi embora... e passou horas sem me responder.

John tentou não parecer tão surpreso, mas seus olhos se arregalaram inconscientemente.

— Você realmente ficou preocupado — comentou confuso — Vai me dizer o motivo? Você nunca se preocupa, Sherlock.

— Eu sempre me preocupo, John.

— Então me diz o motivo.

O detetive se calou, seus olhos se desprendendo dos de John para encarar qualquer alvo que não se fosse ele. John viu o que estava acontecendo, o que o amigo estava fazendo, fechando novamente as portas do seu fantasioso coração e buscando sua zona segura sem esses pontos de sentimentos, desconhecidos e desagradáveis.

— Não faça isso Sherlock — chamou sua atenção, atraindo seu olhar mais uma vez — Não me afaste novamente.

— Você teve uma semana ocupada, melhor deixá-lo descansar.

— Não.

— John não insista — Sherlock pediu afastando a mão de seu tórax — Não agora.

— O que está escondendo agora? — John rebateu começando a se irritar — Até quando vai continuar com isso Sherlock?

O mais alto o ignorou e saiu da cama, cambaleando até a porta. John saltou de onde estava e impediu, ficando a sua frente.

— Isso não pode continuar, não posso ficar no escuro pelo resto da vida!

— Não ficará, estou apenas pedindo para não insistir — Sherlock respondeu indiferente.

— Já deixei de insistir em muita coisa Sherlock.

— Então mais uma não será problema. Basta John!

— Será, na verdade sempre é um problema — John retrucou entre dentes, cansado da indiferença aparente do outro.

— Inferno, nunca devia ter falado com você! — o detetive exclamou, gesticulando com certa fúria — Será que pode esquecer esse maldito assunto?

— Não, já tive que esquecer muita coisa por você Sherlock, podemos criar agora uma lista imensa de coisas que ignorei por sua causa, mas por favor, vamos ressaltar a absurda falta de informação que eu tenho sobre sua morte e a grande muralha que você coloca entre nós quando acha conveniente. Até quando vai continuar escondendo os fatos de mim Sherlock?

Sherlock o fitou por breves segundos e inesperadamente o empurrou contra a parede, violenta e furiosamente, apertando o ombro com a cicatriz propositalmente, fazendo o médico gemer de dor e o lençol escorregar do seu corpo, revelando o pijama do dia anterior.

— Vou esconder o que eu quiser até o momento que eu quiser, Watson — garantiu entre dentes, grosseiramente — E para que tenhamos uma convivência pacifica dentro desse apartamento, sugiro que esqueça o assunto até que eu decida trazê-lo à tona.

John se viu livre das mãos de Sherlock e observou-o se afastar e descer as escadas com toda a elegância que sempre possuíra, adicionando movimentos mais firmes e olhos furiosos. Ainda confuso massageou a parte de trás de sua cabeça e movimentou os ombros, sentindo o seu ombro danificado doer mais que suas próprias costas. Nunca imaginou que Sherlock usaria tanta força contra ele, nem pensou que algum dia seria tratado daquela maneira pela sobrevivência de mais alguns segredos.

O que estava acontecendo ainda era um mistério, mas qualquer que fosse o caso, John sabia que deveria ficar longe. Mesmo que fosse uma novidade para si. Mas Sherlock estava dentro do seu normal no dia anterior e antes disso também, estava apenas indiferente, no entanto, bastou insistir naqueles tais segredos e John viu o amigo quase ser consumido pela raiva.

Sim, com certeza Sherlock estava com problemas e aquele fora um recado, não muito silencioso, para John se manter longe.