Summary: Não se tratava apenas de uma insanidade comum. O que ele possuía era loucura. Uma loucura enigmática.
Essa fic contém cenas de violência e sangue, portanto, está rateada como M
Centrada no personagem Beyond Birthday da história BB Case, mas em um universo alternativo.
Aconselho que leiam minha fic Esfinge para mais detalhes.
Presente para Nanase Kei
Capítulo I – Morte Rubra.
Corpo encontrado por crianças no lixão.
"Um corpo foi encontrado próximo a um lixão
há muito abandonado. Meninos que jogavam bola
ali por perto, dizem ter tropeçado sobre os
restos mortais enquanto procuravam a bola perdida,
o corpo não foi identificado devido ao seu estado, mas a identificação
em seu bolso o revelava como o detetive particular
Yagami Light. A justiça escondeu os demais detalhes sobre o caso
temendo que isso cause pânico à população."
- Meu Deus, como isso pôde acontecer...? Como isso pôde...? – Esfregou, com força, as têmporas enquanto jogava o peso do corpo para trás. Se Souchirou não fosse um profissional tão competente, sequer estaria ali naquele dia.
- Os legistas estão fazendo os últimos exames, mas não há dúvidas de que o corpo era de Light. – Murmurou baixo sua secretária. Estava também entristecida. Ela e Light não eram o que se podia chamar de amigos, mas já haviam saído algumas vezes depois do trabalho, antes dele ficar noivo.
- Certo. – Ele suspirou pesadamente, erguendo os óculos com o indicador e o polegar para limpar possíveis lágrimas. – Minha esposa e minha filha devem estar chocadas com a notícia. Eu ainda não pude ir até lá pessoalmente para averiguar.
- Acredito que o senhor deva fazer isso, chefe Yagami. Quando os resultados dos exames saírem, eu o avisarei pessoalmente. – Takada suspirou, olhando, com certa pena, para o chefe. Parecia ter envelhecido dez anos após receber a notícia da morte do filho.
- Não, eu pretendo acompanhar este caso pessoalmente daqui em diante. Seja lá quem for esse assassino, é um psicopata muito perigoso para ter pego o Light. – Foi determinado em suas palavras. – E quanto aos resultados do incêndio ocorrido no galpão?
- A equipe de Aizawa nos disse que a arcada dentária pertencia a um médico chamado Leonard Lionheart. Ele trabalhava em um hospício há pouco mais de três meses, mas parece que estava afastado por problemas psicológicos. Não se sabe, ao certo, o motivo da morte, visto que o incêndio cobriu a maioria das evidências. Matsuda e sua equipe não encontraram nada nos escombros que pudesse identificar se o assassino era conhecido ou não. Nem mesmo um fio de cabelo.
Souchirou suspirou pesadamente. – Nós podemos estar lidando com um assassino em série, Takada. É bom que tome cuidado quando estiver indo para casa.
- Sim, eu sei. Não precisa se preocupar. – Ela sorriu levemente. – Tomarei cuidado quando sair daqui.
- Assim espero. – Suspirou. – Tudo o que não precisamos são de mais mortes. – Esfregou repetidamente as têmporas e voltou-se para os relatórios. Aquilo ainda lhe tiraria boas noites de sono.
X
- Há um corte aberto na altura da barriga. – Disse a primeira voz. – Pelo que parece, os rins e o pulmão direito foram retirados. Nenhum órgão foi danificado, mas parece que um dos dedos da mão foi cortado.
- O dedo indicador, para ser mais preciso. – A segunda voz, mais grossa que a primeira, se impôs. – Isso não foi o trabalho feito por um amador, os cortes são muito perfeitos. Talvez seja um médico ou uma nova versão de Jack the Ripper¹.
- Bem, se formos levar em consideração que esta é a primeira morte do caso, não podemos dizer que esse é o Modus Operandi² do nosso querido assassino. – A voz feminina soou suavemente no recinto. - O que você acha, Aizawa?
- Acho que prefiro que não ajam outras mortes tão brutais como essa. – Suspirou o dono da primeira voz. – Mas, de qualquer modo, creio que essa não será a última morte. Procurou algo no banco de dados, Mogi?
- Sim, mas não encontrei nada que pudesse identificar um assassino desse porte. Não há, também, criminosos que ajam deste modo soltos. Não temos nenhuma pista que nos leve diretamente a um assassino. E Light já prendeu muitos criminosos, é difícil não dizer que essa morte foi por vingança.
- Além disso, acredito que não seja apenas uma morte simples. É o tipo de assassinato que costuma chamar a atenção da mídia, então precisamos ficar atentos. – Suspirou.
- Certo, Misora, mas por hora, o que precisamos é de um bom descanso. – Aizawa esfregou os olhos repetidamente. – Você está trabalhando na equipe de investigações, mas o que faz aqui?
- Estou justamente aqui para saber o caso da morte de Yagami Light. Pode ser que isso nos ajude a encontrar o assassino. – Respondeu. – Mas não importa agora. Entregará os relatórios ao chefe Yagami?
- Sim, farei isso assim que terminar, mas posso fazer sozinho. Os demais estão dispensados para ir para casa, já tivemos muito trabalho por hoje. – Suspirou.
- Bem, acredito que terei de ficar pois precisarei da cópia de todos os papéis. – Misora disse, encolhendo de leve os ombros. Aizawa olhou-a por alguns instantes, mas apenas meneou com a cabeça, em sinal para que ficasse.
- O que acha disso, Misora? – Perguntou, depois que todos saíram.
- Acho que isso tudo só está começando. – Suspirou com certo pesar daqueles que sabem do que estão falando. Aizawa encarou-a por alguns instantes e abanou os ombros, como quem concorda. Aquilo tudo era estranho demais para ser real.
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- Ora, ora, mas que peninha! – A voz ecoou esganiçada por todo o apartamento, enquanto os passos tortos e devidamente contados, um, dois, três, quatro passos até que chegasse no armário e estendesse uma das mãos para abrir as portas duplas, pegando um novo pote de geléia de morango. A camisa ainda estava salpicada pelo sangue, mas aquilo em nada o incomodava. – Ele morreu tão rápido que nem pude me divertir! Sequer sofreu tanto quanto deveria, era mesmo um almofadinha medroso. – Um, dois, três, quinze, dezesseis, vinte e três passos e chegou até o sofá do quarto, onde costumava sentar-se. Encarou a parede branca manchada pelo sangue e pela geléia de morango. – Parece que terei que pintar novamente, ele manchou muito. – Suspirou. – Isso é tão triste, não acha? – Perguntou ao manequim abandonado na outra poltrona e sorriu de maneira insana.
- Oh, - Levou uma das mãos à boca e deixou o pote de geléia de morango sobre o criado mudo. Caminhou um, dois, três, quatro, cinco passos na direção da outra poltrona e tirou a venda dos olhos da manequim de cabelos curtos castanhos e impecável paletó. – não é mais preciso que use isso, agora que a tortura já acabou, não acha, Light? – Deu a ele um sorriso cheio de dentes brancos e enfileirados. Depois, uma expressão de fingido espanto tomou-lhe o rosto. – Oras, não fique triste! Eu não fui tão mau assim, fui? Você sofreu apenas um pouquinho, consegue se lembrar? – Encarou os olhos castanhos opacos da manequim e depois sorriu. – É claro que sim! Mas, para todo caso, irei, detalhadamente, contar a você como foi. – Voltou os um, dois, três, quatro, cinco passos e sentou-se na poltrona em uma posição bastante estranha, antes de estender uma das mãos para o pote, abri-lo, encher uma das mãos de geléia e depois chupar os dedos lentamente em um prazer quase doentio. - Foi
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exatamente assim que eu encontrei a cena do crime, Beyond. – A voz polida e séria do detetive particular ecoou por todo o recinto. Light tinha a ligeira impressão de que o eco de suas palavras retornavam demasiado distorcidas aos seus ouvidos, como se o próprio local causasse isso. Mas era bobagem, apenas bobagem. Coisas assim não aconteciam na vida real e Light era uma pessoa bastante realista.
- Ah, é mesmo? – Perguntou com desinteresse, passando o indicador pelo móvel da sala. – Está com muito pó, acho que precisarei limpar a casa depois. – E sorriu um de seus sorrisos mais largos – Insanos, pensou Light, eu tenho que dar o fora daqui o mais depressa possível.
- Sim, é mesmo. – Respondeu. – Onde estava no horário do crime? – Perguntou, talvez rápido demais, talvez de maneira nervosa demais. Era a pressão do ar denso, pensou. Era apenas isso. Aquele lugar é que era muito quente, sem circulação. Precisavam abrir algumas janelas, só isso.
- Eu estava em consulta com o meu psicólogo, - Estendeu uma das mãos até o telefone e tirou-o do gancho, oferecendo-o ao detetive. – gostaria de confirmar? – Arreganhou os lábios em um sorriso assustador na opinião de Light.
- Seria ótimo confirmar isso. – Respondeu, ríspido. Entretanto, sentia que deveria ter-se negado e saído dali o mais rápido possível. Bastava que perguntasse a ele o nome do psicólogo e então acharia o consultório rapidamente. Não seria difícil com suas fontes. No entanto, estendeu a mão para o telefone e tomou-o das mãos de B. – Disque.
- Claro, claro, detetive...- Sorriu novamente, discando os números. O telefone chamou exatamente três vezes antes que alguém atendesse ao outro lado.
- Alô? – A voz despreocupada ressoou ao outro lado da linha. Provavelmente, pensou Light, aquele era o celular do psicólogo de B. Mas não chegou a ver os números; um descuido para um detetive tão bem dotado quanto ele, no entanto estava nervoso. Não. Aquilo era apenas precaução por estar na presença de alguém como Beyond Birthday. Apenas precaução.
Light entreabriu os lábios para dizer algo, mas de repente o mundo ficou turvo. E de turvo, passou para negro. E do negro, não sentiu mais nada. Apenas frio.
- Doutor? – A voz de Beyond preencheu o ambiente. Apartou a queda de Light com o braço direito, segurando o telefone com o esquerdo. – Aqui é o B. Eu apenas queria confirmar se a nossa próxima consulta será na terça-feira no mesmo horário de sempre.
- Sim, Beyond. Assim como foi na terça-feira passada e será nas próximas terças-feiras pelo restante do ano ou quem sabe quanto tempo. – Respondeu metodicamente e teve como resposta um riso descontraído. De um louco, pensou. Mas já estava acostumado a lidar com esse tipo de gente.
- Certo, obrigado então. – Respondeu.
- Ah, e Beyond, - Chamou, antes que o mesmo desligasse.
- Sim?
- Não se meta em nenhuma confusão, está bem? – Nesse instante, B.B lançou um olhar para o detetive desmaiado em seus braços. Sorriu.
- Não, - Respondeu. – claro que não. – E o sorriso tornou-se maior, mais sombrio. Desligou o telefone e ajeitou o corpo sobre os ombros, caminhando com ele na direção do quarto. – Apenas farei algumas...travessuras.
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Quando Light finalmente recobrou a consciência, sentiu que alguma região em sua nuca doía muito, mas havia algo mais incômodo: ele não podia mover os braços. Ainda atordoado pela força de o-que-quer-que-o-tivesse-atingido-na-nuca, notou, com pesar, que estava amarrado à uma cadeira com cabos de aço. Sua vista ainda estava embaçada quando, enxergou, ao longe, a silhueta magra e esguia de Beyond Bitrhday, alisando a lâmina de uma faca.
- Ah, então você acordou, detetive. – Olhou-o de soslaio, causando um gélido arrepio na espinha de Light. O brilho vermelho de seus olhos era apavorante.
- Você deve estar ficando louco se acha que irá se safar depois de me prender aqui, Beyond. Eu o mandarei para o corredor da morte. – Ergueu a cabeça para o alto, tentando recobrar a calma. Era difícil mantê-la quando um psicopata o havia prendido em uma cadeira e, sem pudor algum, alisava a lâmina de uma faca tão afiada quanto aquela. Sentia a nuca latejar e também algo úmido e pegajoso. Talvez ele lhe tivesse acertado com um abajur e aquilo fosse sangue. E se fosse sangue, Beyond Birthday iria pagar caro, muito caro.
- Hum...- Ele levou o indicador ao queixo e ergueu os olhos para o teto em uma imitação barata de um pensador. O pé descalço batia levemente contra o piso do quarto e os braços se mantinham cruzados à frente do peito. Quando tornou a olhar para Light, tinha um sorriso sombrio nos lábios e os olhos de um louco. Um verdadeiro louco. -...na verdade, eu tenho certeza de que vou me safar, porque...- Arreganhou o sorriso e caminhou a passos lentos e arrastados na direção de Light. – você não irá sair daqui esta noite, senhor detetive...Yagami Light.
- O q— - Os olhos do detetive se arregalaram, mas ele não teve tempo de reagir. Sua boca foi coberta por uma mordaça e, em seguida, a faca rasgou-lhe a barriga como se fosse papel. Papel, daqueles simples comprados em qualquer bazar. Lâmina cortando papel ou afundando na manteiga. Dor, ele sentia muita dor.
- Sabe, detetive...eu poderia acabar com isso assim, mas não teria a mínima graça deixa-lo morrer por uma simples hemorragia. Tornarei as coisas...mais divertidas.
Light teve a impressão de ouvi-lo dizer mais algumas palavras, mas o pavor da morte iminente e a proximidade com aquele assassino mesclada à dor que sentia naquele instante - e, ao que tudo indicava, iria ainda sentir – não permitiu que ele as escutasse. Logo, tudo ficou negro novamente. Light teve a ligeira impressão de ver uma cor rubra antes do negro. Rubra como os olhos insanos de Beyond Birthday.
X
- Você está tão quieto, Light... – Beyond lançou um olhar de falso entristecimento para ele antes de encher a mão com geléia de morango e começar a lambê-la
(assim como lambia a faca)
lentamente e com gosto.
- Tudo bem, eu compreendo que ainda esteja assustado, mas eu nem cheguei na melhor
(pior)
parte! – E riu. – Vamos, fique atento. Onde parei mesmo? Ah, sim, eu estava
X
esperando que você acordasse, querido detetive. – Sorriu doentio, enquanto alisava a lâmina de um bisturi. Um bisturi ensangüentado. – Mas, sabe, eu sou um pouquinho impaciente e já comecei a operação. Mas não se preocupe! Você poderá observar tudinho de camarote. – Seu riso preencheu a sala onde agora se encontravam. Era uma espécie de sala de operações e ele pegou-se perguntando onde diabos aquilo ficaria. Aquilo deveria ser um apartamento, não deveria?
Seus pensamentos logo tomaram um novo rumo, quando ele sentiu uma forte dormência tomar-lhe certos pontos do corpo. E aquele bisturi se aproximava lentamente e Light assustou-se ao não sentir a espessura metálica cortar-lhe a pele na altura do peito. Não sentiu dor. Tentou gritar, mas tudo o que conseguiu, foi emitir ruídos com os lábios trêmulos. A voz não saía.
- Ah, parece que a anestesia local já está fazendo efeito, não é? – Arreganhou os dentes em um sorriso esganiçado. – Mas não se preocupe, Lightzinho, isso não vai doer e você acompanhará tudinho.
Mais ruídos foram emitidos por Light – ruídos de pavor – quando o bisturi terminou de abri-lhe a pele. Tentou mover-se, mas os braços estavam fortemente presos por argolas de aço. A anestesia era apenas local, mas todo seu corpo encontrava-se imobilizado. O local onde sofrera o corte na barriga estava enfaixado.
- Vejamos...- B ajeitou as luvas emborrachadas, colocou uma máscara sobre o rosto e uma touca na cabeça. – Primeiro, irei extrair o pulmão direito. Depois, talvez, os rins. Seriam um ótimo troféu! - O terror estacou nos olhos de Light e aquilo foi ótimo. Ah, sim, ótimo! B.B adorava aquela expressão! – Não se preocupe, a anestesia o privará da dor. Eu irei extrair com toda a calma possível, só irá causar dor quando o efeito acabar.
As mãos começaram a trabalhar enquanto suor brotava da testa de Light. Os olhos se mantinham esbugalhados de puro terror enquanto B.B trabalhava. Não parecia importar-se – e até deliciava-se – com a situação em que Light se encontrava. Quando as habilidosas mãos, por fim, extraíram o órgão ainda pulsante de seu corpo, B o mergulhou em formol, de modo a conserva-lo.
- Vê? Um já foi e nem doeu! – Disse por trás da máscara. – Está mais difícil respirar, não é? Mas não morra, querido detetive. Eu ainda preciso extrair outros órgãos! – Riu uma risada que preencheu todo o ambiente de forma sinistra. – Vamos para o restante da operação. – Os olhos brilharam daquele jeito maníaco.
Light ainda tentou raciocinar. Tentou pensar num jeito de livrar-se das argolas de ferro, de sair dali. Mas tudo em sua mente parecia turvo demais quando, com um novo corte, Beyond começou a abri-lo novamente, agora para extrair-lhe os rins.
Ele vai me matar, pensou. Esse maníaco louco por sangue irá arrancar cada um dos meus órgãos e depois vai me matar. Eu tenho que fazer alguma coisa. Oh, Deus, por favor, se você existe, não me deixe morrer.
De repente, quando já estava arrancando o segundo rim de dentro do corpo de Light, os olhos de B.B se voltaram para o relógio e ele constatou que já passava da meia-noite.
– Droga, irei perder CSI³ desse jeito. – Disse, como se fosse a coisa mais importante do mundo. - Irei colocar para gravar. Não fuja, querido Light! – E riu, caminhando para fora do cômodo.
É a minha chance. Talvez a minha única chance de sair desse inferno e tentar sobreviver de alguma maneira. Pensou Light, desesperadamente. Os olhos passaram rapidamente pelo local em busca de algo que pudesse auxilia-lo. Sabia que a anestesia local que ainda mantinha parte de sua sanidade e aliviava a dor, logo passaria. Ele ainda estava aberto e consciente de que sangrava muito.
No entanto, o desespero da morte iminente e a vontade de viver, acenderam uma chama de esperança quando ele, inebriado pelo êxtase da situação, avistou as chaves tão próximas que sequer pensou na possibilidade de aquilo ser proposital. Contorcendo-se como pôde e tentando, ao máximo, ignorar a dor sentida por isso, o dedo indicador esbarrou de leve no molho de chaves. Com um esforço quase sobre-humano, Light conseguiu passar o dedo pela argola que prendia as chaves e puxá-la para si. Se estivesse em seu juízo perfeito, pensaria que aquilo era um fenômeno atípico no qual a natureza humana permitia-se agir por instinto, uma coisa que Light nunca compreendeu. Mas, naquele momento, apenas pensou em sair dali, manuseando, de forma bastante errônea, o molho de chaves.
Contou ao menos quatro tentativas, antes que finalmente conseguisse abrir a primeira argola de aço que o prendia. A segunda não lhe exigiu prática, tampouco habilidade. O problema, e Light descobriu isso apenas quando pôs os pés no chão, era andar. Não era como se ele estivesse em suas melhores condições – aliás, estava longe de estar bem. Tinha o peito e a região dos rins completamente abertas e tinha noção de que morreria por uma grave hemorragia se não chegasse rapidamente a um hospital.
Sem pensar muito, vestiu sua camisa e o paletó, buscando, o mais rápido possível, a saída daquele lugar. O desespero é uma coisa triste, não é? Mesmo um grande gênio como ele, que conseguiu, sem pestanejar, passar em primeiro lugar na melhor faculdade de Tókyo, não era capaz de raciocinar quando completamente tomado por esse sentimento mesclado ao medo. É fato que o desespero e o medo andam de mãos dadas, mas Yagami Light era ridículo.
Cambaleante, ele caminhou para fora daquela sala, sem se dar conta da tolice que estava fazendo. Morreria de qualquer modo se continuasse a perder tanto sangue assim, mas tudo o que conseguia pensar era em fugir, fugir e fugir. Sequer parecia um detetive agindo daquela maneira.
- Eu tenho..- Murmurava baixo, arrastando-se escorado no corredor. - ...tenho que sair daqui...- O sangue espalhava-se pelas paredes à medida que ele caminhava. Se ainda estava vivo após ter andado tanto, por certo era o medo da morte. Avançando mais um pouco, Light perguntou-se como um apartamento podia ser tão grande. Qual era o problema daquele lugar?
- Tsc, tsc...mas que paciente mais desobediente temos aqui. – Uma voz ecoou ao fim do corredor pelo qual Light avançava e ele pôde ver aquela assustadora silhueta avançar em sua direção. Assustadoramente grande, assustadoramente sombria, assustadoramente grotesca. Simplesmente, assustadora. – Agora o efeito da anestesia passará mais rápido e você morrerá antes que eu termine minha obra de arte! Light é um menino mau, um menino muito mau!
- F..f..- A voz morreu em sua garganta enquanto afastava-se dando pequenos passinhos para trás. – Fi..c..fi..ca... – Gaguejava, afastando-se mais. Mas a cada passo que dava para trás, B avançava dois. – FICA LONGE DE MIM! – Berrou e girou nos calcanhares para começar a correr.
- Você pode até correer, mas não pode se escondeeer ~ - Beyond começou a cantarolar enquanto saltitava atrás de Light. Girava uma navalha entre os dedos como se fosse uma caneta.
Céus! Como era divertido ver sua presa fugir tão desesperadamente quando, na verdade, estava completamente encurralada! Era mesmo uma pena que todo aquele andar fosse reservado apenas para ele, certo? O antepenúltimo andar – o décimo terceiro andar¹¹ – era apenas dele. Porque, afinal, quem iria querer morar num andar como aquele? Ninguém era louco o suficiente, apenas Beyond Birthday. Porque ele não acreditava em crenças populares, ele não acreditava em nada disso.
- Fique longe, fique longe! – Light balbuciou, passando de uma porta para a outra. Cada uma das salas - as vezes grandes, as vezes pequenas – o levavam para uma nova porta até que, enfim, alcançou uma que o levou para um lugar mais conhecido. Aquela primeira sala por onde havia passado. Desesperadamente, bateu a porta do quarto e trancou-se ali. Observou o manequim deitado na cama e o espelho estilhaçado no chão. Notou que o manequim utilizava um jaleco branco e sentiu um embrulho no estômago ao ver, dentre os estilhaços, sua atual condição.
Permitiu-se, por alguns segundos, cair de joelhos no chão e sentiu uma forte dor começar a dilacerar-lhe todo o corpo. De repente, a respiração tornou-se falha e ele tinha a certeza de que o efeito da anestesia estava, enfim, se acabando.
Não, por favor, não! Eu não quero morrer, eu não quero morrer, eu não quero...pensava. No entanto, antes que pudesse manter uma linha estável de raciocínio, Beyond entrou por aquela porta e seus lábios se repuxaram em um sorriso muito semelhante ao de uma cicatriz.
- Finalmente eu te achei, Lightzinho! – Exclamou, passando um dos dedos sobre a navalha. – Vamos brincar? – Perguntou de maneira infantil, levando o polegar esquerdo aos lábios.
- N..n...- Light tentou gritar, tentou fazer qualquer coisa, mas já não tinha mais forças. A dor começava a tomá-lo completamente e a respiração falhava. B aproximou-se em passos lentos.
- Parece que você já conheceu o Leonard, não é? – O sorriso tornou-se maior. – Pois bem, devo dizer que ele não gosta muito de você, mas não é nada... – Girou a navalha entre os dedos e desceu-a com rapidez, cortando-lhe o ombro profundamente. Se pudesse, Light teria berrado pela dor. – que uma boa e amigável conversa não resolva! – Gargalhou de maneira estridente e repetiu o movimento, atingindo-lhe o outro ombro. A explosão de dores fez com que Light urinasse nas calças.
- Parece que alguém borrou as calças. – B disse, abrindo mais o sorriso. – Tudo bem, o titio B irá limpar tudinho mais tarde! – Segurou-o pelos cabelos e ergueu o rosto de Light, de modo que pudesse vislumbrar o olhar vidrado e temeroso que ele lançava para si.
- N..n.. – Tentou dizer algo, mas o sangue preencheu-lhe a boca e tingiu o chão de rubro.
- Uhn? O quê? Eu não consigo te ouvir! – Aproximou a orelha dos lábios dele, mas depois afastou-se. – Ah, sim, você está arrependido por ter fugido, não é? Tudo bem, eu compreendo. Apenas um pequenino castigo e eu o perdoarei! – Viu Light debater-se fracamente, tentando negar com a cabeça, mas tudo o que o detetive viu, foi a lâmina descer por mais duas vezes. Na primeira, seu indicador foi decepado e ele tentou, a todo custo, safar-se, manchando as paredes de rubro. Naquela ocasião, Beyond o soltou, de modo que seu sangue marcasse toda a extensão da parede. Na segunda, a lâmina fez um corte ainda mais profundo em sua barriga e Light tentou gritar, mas a voz não saiu.
Eu não quero... morrer...nãoqueromorrernãoqueroEUNÃOQUEROMORRER!
Berrou internamente, tentando livrar-se da dor. Mas de repente, tudo ficou frio, turvo. Light pensou que tudo fosse ficar negro em seu fim, mas não. A morte, para ele, foi rubra, lenta e dolorosa. Ainda escutou, ao longe, uma gargalhada preencher o ambiente. Mas isso foi tudo. Yagami Light estava morto.
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- Parece que esta história te cansou, não é? – B.B lambeu os dedos novamente e deixou o pote de geléia – agora vazio – em cima do criado mudo. Observou o manequim tombado para o lado e depois pegou uma manta, cobrindo-lhe o corpo. Afagou-lhe cuidadosamente os cabelos e sorriu. – Não se preocupe, o titio B não vai incomodar o seu soninho. – Caminhou na direção da porta e apagou as luzes do quarto, lançando um olhar rubro na direção do boneco. – Durma bem, pequeno Light. – Encostou a porta do quarto, saindo dali. Quem olhasse para o boneco, provavelmente se assustaria: havia lágrimas rubras presas em seus olhos de desespero.
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- Senhor Elle? - Uma gentil e idosa voz o chamou, movendo de leve seu ombro.
- Uhn? – Desviou os olhos da tela do computador para encará-lo. Mordia levemente o polegar direito e tinha olheiras tão grande quanto jamais havia tido em toda sua vida.
- Vim apenas avisar que estamos chegando e que seu sorvete de pistache está aqui. – Estendeu a taça para ele. – Com cobertura de morango e uma cereja em cima. – Watari sorriu.
- Certo, obrigado, Watari. – Estendeu a mão para segurar a taça e levou uma colherada do sorvete à boca.
- Senhor?
- Sim?
- Nós descobriremos o que há de errado. – Disse. – Procure descansar um pouco após o sorvete, sim?
L suspirou de maneira cansada, mas meneou positivamente com a cabeça.
- Iremos encontrar B.B e acabar com isso antes que uma nova onda de assassinatos recomece. – Ergueu os olhos para a tela do computador. – A justiça prevalecerá, Watari. – Um vento frio soprou pela janela do jatinho particular e L a fechou. Por instantes, teve a sensação de que olhos rubros o observavam pela tela daquele computador. Os olhos de um assassino, os olhos de Beyond Birthday.
Continua...
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¹ - Foi um famoso serial killer que assassinava prostitutas em Londres. Ficou conhecido como Jack, the ripper (Jack, o estripador, no brasileiro) por seu modo de atuar matando as vítimas com um corte profundo na barriga e também por sua peculiaridade arrancando órgãos. Para mais informações, wikipedia.
² - É a maneira como um determinado assassino age. Seria uma espécie de fetiche para que ele fosse reconhecido pelas pessoas.
³ - Criminal Scene Investigation, é um seriado médico fodástico, transmitido pela AXN e pela Rede Record.
¹¹ - Não sei no Japão, mas, no EUA, eles tem superstição quanto ao décimo terceiro andar e ele não existe nos prédios. Estes mesmos pulam para o décimo quarto e eu decidi usar isso na fic. Quem escolheu o número do andar foi a Nanase Kei.
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N/A:
Eu finalmente consegui! Eu acabei essa porra de capítulo, caralho!
Eu não achei que fosse ficar longo, mas acabou dando dez páginas do Word e eu gostei do resultado.
A pedidos da Aninha, eu resolvi mostrar como foi a morte do Light. Eu não ia fazer de maneira tão detalhada, mas eu até gostei.
Espero que a fic, apesar de doentia, esteja agradando, porque, de uma forma ou de outra, eu gosto muito desse meu Bebê (+ tentativa de trocadilho infame)
Pois é, foi o fim da linha para o nosso querido Light e eu não espero que os fãs dele me perdoem! Gostou dessa, Ray? Nanase? Janão? Débby? Lyan? Espero que sim, porque eu amei 8D
Enfim, espero que gostem e que continuem acompanhando! Para uma fic do B.B, eu fiquei contente com a quantidade de reviews!
E qualquer semelhança com A Coisa ou outras obras do Stephen King não é mera coincidência.
Beijos!
Reviews e críticas sempre são bem vindos desde que sejam construtivos. Eu ainda preciso melhorar muito e, para isso, espero que possam apontar minhas falhas.
