Alguns dias antes.

Maura acordou com a boca seca, se remexeu incomodada, virou-se na cama procurando uma posição mais confortável para voltar a dormir, mas o que o seu corpo pedia era água e iria continuar a exigir até que a tivesse. Ela olhou para o relógio que apontava 2:04 da manhã, levantou-se da cama e, sonolenta, arrastou os pés até a cozinha para se hidratar. Distraída, não se apegou aos detalhes incomuns na sala geralmente tão organizada: copos de papel vermelho jogados ao chão, uma tigela em cima da pequena mesa da sala, long necks vazias, pipoca espalhada por todo lado. Tomou todo um copo de água antes de fazer a meia volta, rumo ao quarto. Mas, no meio do caminho, um pouco mais desperta notou que a televisão estava ligada. Mas o que houve?, perguntou-se ela. Aproximando, começou a se lembrar da noite anterior: uma empolgada Jane abrira uma cerveja e se acomodara no sofá, enquanto seu irmão Frankie também tinha em mãos uma cerveja e uma tigela cheia de pipoca. Os dois tagarelavam e berravam com os jogadores enquanto Maura e a mãe de Jane conversavam entre si na cozinha. A médica estava exausta porque durante todo o dia havia lecionado em palestras na Conferência Médica de Patologia Forense, um evento que acontecia em Boston pelo menos uma vez por ano, e foi a primeira a se retirar. Deixou que os convidados ficassem a vontade, do seu quarto não podia ouvir qualquer barulho, mesmos os gritos aborrecidos de Jane, e assim caiu no sono pesado quase que instantaneamente.

Agora, se adiantava para o sofá, procurando pelo controle remoto e se perguntando por que Jane deixara a TV ligada. Quando dobrou o corpo sobre o encosto, se assustou com o volume da coberta sobre um corpo. Jane, concluiu ela, acabou dormindo aqui. Deu a volta em torno do sofá e observou. A amiga dormia de bruços, o rosto virado para a TV, um braço caído ao chão, os pés descobertos e o cabelo muito bagunçado. Maura se curvou, balançou o braço da mulher levemente e chamou:

"Jane?"

"Hum..." Foi o melhor que ela pôde responder.

"Jane... Acho melhor você ir para a cama, vai acabar acordando dolorida."

"Minha vida acabou, Maura! Eu estou morta", murmurou Jane.

"Hum, não. Não está." Mesmo naquela hora da madrugada Maura insistia em ser lógica. "Você está respirando, posso dizer pelo movimento de suas costas... Além disso, está falando, seus lábios estão se mexendo, se estivesse morta isso seria indiscutivelmente impossível. Então, você ainda está viva." Concluiu ela.

"Maura!" Resmungou Jane, aborrecida e enfiou a cabeça em baixo da almofada. A médica pensou por um minuto.

"Imagino que esteja chateada porque... seu time perdeu?" Arriscou ela.

"É, é, é. Não precisa me lembrar"

"Ah Jane, sinto muito." Maura sabia o quanto Jane gostava daquilo e o quanto era importante para ela. "Mas ainda acho melhor você ir para a cama, ok? Hoje é nosso dia de..."

"Ok." Jane se rendeu, sabendo que a médica não a deixaria em paz até que se levantasse dali.

Ela se levantou do sofá tão atordoada que parecia mesmo estar com muita dor no corpo ou então tão cansada que quase não conseguia andar. Havia um nome para isso que Jane sentia: ressaca. Ela arrastou o corpo pela casa e entrou no quarto. No quarto de Maura. A médica tentou lhe advertir, mas a mulher estava tão desligada que não ouviu, tão pouco percebeu onde estava. Jogou-se na cama, fechou os olhos de uma vez e caiu no sono. Na sala, Maura apertou os lábios suprimindo um sorriso. Era de certa forma engraçado ver Jane assim. Decidiu que também voltaria a dormir. Já tinha dividido a cama com Jane algumas vezes, isso era normal entre as duas. E assim o fez. Entrou no quarto e deitou-se em seu lado, devagar para que não acordasse Jane novamente. Virou para ela e tirou uma mecha de cabelo do seu rosto. Ela parecia bem tranqüila dormindo, o rosto relaxado, o cabelo preto criando um contraste com a pele branca. Mas toda essa tranqüilidade que é quase angelical, pensou Maura, vai acabar pela manhã quando ela acordar e se lembrar da derrota do time. Com esse pensamento, virou-se para o lado, agarrou o cobertor e se entregou ao sono.


- Como eu vim parar aqui? – Perguntou Jane assim que acordou e notou que aquele não era o seu quarto, aquele não era o quarto de hóspedes em que sempre dormia na casa da amiga. Maura não respondeu, pois ainda estava dormindo, o corpo de costas para Jane. A morena se lembrou vagamente de Maura a acordando mais cedo do sofá, mas eram apenas memórias distantes. Inclinou o corpo para observar a médica. Estava com uma mão sob o rosto, outra muito próxima ao queixo, encolhida de um jeito que pareceu a Jane muito confortável. O rosto pacífico e branco, descansando sobre o travesseiro macio coberto agora por mechas de cabelo douradas, o cobertor cobrindo até a cintura. Ela sorriu em compaixão com a imagem. Maura era delicada e parecia tão desprotegida assim... Decidida a sair da cama, Jane puxou o cobertor até os ombros da loira, deu um leve beijo na cabeça da amiga que se remexeu e se encolheu.

"Jane?" murmurou ela.

"Hey, dorminhoca."

"Você ainda está brava?"

"O que? Não, não... Por que eu estaria brava?"

"Yankees..." disse Maura, mais dormindo do que acordada.

"Ah não!" Exclamou Jane e se jogou na cama de novo com um estrondo. Maura se levantou com o barulho e olhou para Jane.

"O que foi isso?"

"Eu bati minha cabeça na sua cama!" Informou Jane com uma mão na cabeça, outra dando um soquinho na cabeceira da cama. Maura tentou segurar, mas um sorriso escapou pelos lábios.

"Ok, deixa eu ver isso." Maura passou os dedos pela cabeça de Jane, ela soltou um outch!. – Hum... Um pequeno hematoma cabeça. Oh! Está ficando maior! Rupturas nos vasos linfáticos, sem dúvidas."

Jane revirou os olhos.

"Eu devo me preocupar? Preparar meu testamento?"

Maura juntou as sobrancelhas e disse naturalmente "Não, um pouco de gelo resolve."

"Droga!" A mulher se levantou da cama resmungando e foi até a cozinha, mais precisamente à geladeira, pegar um pouco de gelo para fazer compressa.

Enquanto Maura preparava um café, Jane segurava uma bolsa improvisada de gelo contra a cabeça, sentada no sofá, comendo o resto de pipoca da noite anterior.

"Credo!" Exclamou ela quando mastigou um punhado de pipoca murcha. Maura apareceu com uma xícara de café e sentou-se ao seu lado com um pote de biscoitos.

"Pés no chão", disse ela ao encostar-se no sofá também. Ela vivia repreendendo esse mau costume da amiga, embora uma parte de si dissesse que Jane, em relação a isso, era incorrigível. "Nós podemos correr mais tarde, correr pode te deixar um pouco mais feliz, você sabe."

"É, nós podemos correr. Pelo menos hoje não vamos ser interrompidas no meio da corrida, já que é nosso dia de folga." Jane pareceu um pouco mais feliz ao se lembrar disso. Poderia passar o resto do dia vendo TV em seu pijama, jogada no sofá.

"Hum, nós podemos fazer outras coisas também."

"Eu definitivamente não vou às compras com você, Maura." Jane se virou para ela na defensiva. Na última vez que fora ao shopping com Maura, a detetive foi obrigada a comprar um vestido. Um vestido rosa. Ela não sabia como a médica fazia aquilo, mas sempre acabava se vendo fazer o que a loira queria. Controle mental, era como Jane decidira chamar. Talvez Maura fosse mesmo um alienígena, ou algo do tipo, e esse era seu super poder. E funcionava muito bem com Jane.

"Por quê?" compras parecia uma idéia ótima para Maura. Quase nunca os dias de folga das duas coincidiam e passar um dia todo de lazer ao lado de Jane era uma idéia bastante animadora para ela.

Jane abriu a boca pra responder, mas foi interrompida pelo som do celular. Porque alguém estava ligando tão cedo? Saco.

"Rizzoli." Ela atendeu, mal humorada.

"Jane, nós temos um." Anunciou Korsak do outro lado da linha.

"Korsak, hoje é meu dia de folga." Ele tinha se confundido, concluiu ela. Todos sabiam que era o seu dia de folga, qual é?!

"Eu sei Jane, sinto muito. Mas eu vou testemunhar hoje sobre o caso da Trilha, Dr. Pike vem comigo, já que ele foi o médico legista responsável."

A Trilha tinha sido um caso difícil. O maluco que havia matado a mulher e os dois filhos e jogado os corpos no meio da mata, um longe do outro, enterrado por folhas secas. Jane jogou o corpo contra o sofá e fez uma careta. "E Frost?"

"Frost está a caminho, mas vai demorar um pouco para chegar aí. Não se esqueça de avisar Maura."

Jane olhou para a médica.

"Talvez você queira ligar para ela também."

"Eu sei que você está na casa dela, Jane." Ele fez uma pausa. Era claramente uma provocação. Jane não mordeu a isca. "Vou te mandar uma mensagem com o endereço do local." E desligou.

"Droga! O dia pode ficar pior? Maura, nós temos um caso, é melhor nos vestirmos. Droga."


N/A. Ok, tô seguindo em frente e esperando um feedback. :) Espero que estejam gostando! (Se é que tem alguém lendo! hahaha xD )