— Quanto tempo a gente tem?

— Meia hora, mais ou menos.

— Ta. Então eu vou tomar um banho rápido e me arrumar.

— Eu vou dar uma volta aqui por perto. A gente se encontra no Teatro.

— Mas ta chovendo, Gabs.

— Eu sei. É que eu queria comer alguma coisa antes de a gente entrar. E aqui as coisas são meio caras.

— Tem um bar do outro lado da rua, logo na saída do hotel. Mas não se atrasa, Gabs, por favor!

— Nunca! O primeiro painel é o do Jensen!

— Tudo bem. Então a gente se vê no Teatro.

O céu estava cinza e triste, as gotas finas caíam rapidamente, deixando a rua escorregadia. Os automóveis passavam velozmente, sem se importar com as pessoas que estavam na chuva, apenas esperando uma oportunidade para atravessar. Antes que Gabs conseguisse passar para o outro lado da rua, uma moto passou por ela, mergulhando os pneus na enorme possa de água que se formara no chão, fazendo com que uma onda a encharcasse dos pés a cabeça. Frustrada, ela riu da própria desgraça ao ver sua blusa predileta completamente molhada e suja agora. Era inacreditável! Ela precisava ir comprar alguma coisa logo e voltar correndo para o hotel e trocar de roupa. Ela seguiu pela rua larga, tentando afastar os cabelos molhados dos olhos quando o som alto de uma buzina a surpreendeu. Seus olhos se voltaram para uma SUV preta que vinha em sua direção. A última coisa que ela ouviu foi um grito, mas tinha quase certeza de que não fora ela quem gritara. O resto foi tudo silêncio e chuva. Ela fechou os olhos para que os pingos gelados não entrassem em seus olhos e esperou. O céu parecia mais escuro agora. E o ar estava mais abafado. Ela sentiu uma dor, em algum lugar do corpo, mas não importava muito saber onde era. Tudo o que passava pelos seus pensamentos era que ela não ia chegar a tempo.

— Let me handle this. That's my fault!

— No. Don't worry. I take the girl to the hospital. Will be faster if I go with her.

— I can't let you do that. You need to go! They are waiting for you.

Ela ouviu as vozes de uma forma abafada, mas conseguiu entender que não era a língua comum da cidade. Eram dois homens, ao seu lado, conversando. Ela riu. Parecia estar realmente ferida. Já estava tendo alucinações.

— Screw it them! She needs to go to the hospital! — disse o mais baixo, que puxou a garota com cuidado para os seus braços e a levou em direção ao carro.

— Wait! And what I tell them?

— I dunno! Say I got sick, or that I'm still sleeping... say something! Ask for Jarhead get ahead of me. I'll be back soon. Don't worry.

— But you don't know the town! Wait! You... — antes que o outro dissesse mais alguma coisa, o carro desbloqueou a estrada e cruzou na primeira esquina, sumindo de vista.


Ele sabia que o Hospital Israelita Albert Einstein ficava a 2,1 quilômetros do hotel. Ele tinha lido algumas informações sobre a cidade antes da viagem. Ele só precisava ser rápido e virar na direção certa. Ele conhecia uma boa parte do centro também. Mas chegar até lá seria outra aventura. Ele voltou os olhos preocupados para a garota no banco ao lado. Seus olhos estavam fechados e seus cabelos molhados e sujos de sangue estavam colados ao seu rosto, manchando sua pele clara. Aquele sangue não era um bom sinal. Ele precisava achar esse hospital logo. Talvez tivesse sido até melhor para a garota se ele a tivesse deixado lá e chamado por alguma ambulância. É claro que metade a imprensa da cidade e mais os fãs que estavam no hotel iam falar até cansarem sobre o que acontecera. Mas se ele não conseguisse salvar aquela garota, as manchetes seriam bem piores. Ele bateu com força no volante, irritado, afastando seus pensamentos. Era inaceitável que estivesse preocupado com que as revistas e os jornais publicariam a seu respeito enquanto havia uma menina ali, ao seu lado, precisando que ele se focasse em achar a merda do hospital que simplesmente resolvera desaparecer! Tudo aquilo poderia estar sendo evitado se ele não fosse um completo covarde, essa era a realidade. Se deixasse que Clif levasse a garota para o hospital, ele entraria naquele hotel e encararia as pessoas que estavam lá e daria seu melhor sorriso para as câmeras. Não era nada diferente do que ele viera fazendo desde as últimas convenções. Ele mesmo não entendia o porquê de ele estar agindo feito um completo idiota agora.

O hospital surgiu no final da rua, grande e destacado, como se estivesse ali o tempo todo. Ele contornou alguns veículos lentos e parou com a SUV bem em frente às portas do hospital. Ele pegou os óculos escuros e o seu boné azul inseparável e depois deu a volta no carro para pegar a garota. Ele entrou as pressas no hospital, com um corpo molhado e sujo de sangue em seus braços. Algumas enfermeiras viram sua situação e correram até ele com uma maca, poupando-o de ter que usar seu português deplorável para pedir por ajuda.

— O que aconteceu com ela? — perguntou uma mulher de cabelos escuros e avermelhados que o seguia, enquanto as enfermeiras colocavam a garota na maca e gritaram por mais ajuda enquanto atravessavam o corredor. Os cabelos daquela mulher fizeram com que os pensamentos dele se tornassem um redemoinho novamente. Ele apenas apontou para a garota na maca e tentou dizer que ele ficaria com ela. — Tudo bem, mas o senhor precisa me dizer o que aconteceu!

— Was a... Carro! — gritou ele, correndo atrás da maca e tentando evitar a perseguição da ruiva.

— Ela foi atropelada? — insistiu a mulher. — Senhor, eu preciso que você me dê as informações necessárias para que possamos cuidar da menina corretamente, você entende?

— Sim! — ele respondeu, nervoso e irritado. Ele se sentia completamente inútil ali. A maca se afastara, fazendo com que ele perdesse a garota de vista. — Shit!

— Senhor, se você...

— Escute! — ele pediu, completamente impaciente agora. — Eu não posso perder esta... esta... Eu preciso ficar com ela, você entendeu?

— Eu entendo. Você precisa se acalmar...

— Não! Para onde a levaram?

— Provavelmente para a sala de emergência. Mas não se preocupe. É o procedimento padrão, para evitar qualquer problema que possa ocorrer enquanto eles cuidam do paciente.

— Eu não vou... não vou sair. — disse ele.

— Tudo bem. Você pode esperar naquela sala ao lado. Quando a menina for levada para um quarto nós vamos chamá-lo.

— Okay... — concordou ele, embora só tivesse entendido metade do que aquela mulher dissera. Mas pelos olhos da ruiva ele entendeu que poderia ficar ali e esperar. Era só o que ele queria.


Ela sentiu a luz forte ferir seus olhos e gemeu de dor ao sentir a cabeça explodir. Ela olhara em volta e vira que estava tudo vazio e quieto. Ela observou melhor o lugar onde estava deitada e logo se deu conta de que estava em um hospital. Não fora apenas um sonho ruim. Ela realmente havia sido atropelada. Ela realmente perdera o melhor dia da sua vida, deixara de conhecer o homem mais perfeito do mundo, e tudo por causa daquele cretino que a atropelara! E no meio de toda aquela irritação ela percebera a presença de mais alguém no quarto. Ela se sentou com cuidado na cama, sentindo seu pulso esquerdo protestar de dor, só então notara que seu antebraço estava todo enfaixado. Quando sua mãe soubesse, nunca mais a deixaria sair de casa, disso ela já tinha total certeza. Gabs observou o homem que estava sentado desajeitadamente em uma cadeira que parecia bem desconfortável para alguém do tamanho dele. As roupas do homem estavam molhadas, e sua camiseta cinza estava levemente manchada de sangue. Não foi preciso muito esforço para identificar de quem se tratava: o cara que a arruinara a sua vida, atropelando-a e impedindo-a de ser feliz por um único dia! Ela não conseguiu ver o rosto dele porque ele estava usando um boné azul escuro que cobria os seus olhos. Ela reparou no homem com um pouco mais de atenção e reconheceu alguns traços nele que a fizeram dar uma leve risada. Aquilo só podia ser algum tipo de brincadeira...

— Enfermeira! — ela gritou, tentando se levantar para chegar até a porta do quarto. — Alguém! Socorro!

— No, wait! You... Você... Fique deitada!

— ALGUÉM! POR FAVOR!

O homem foi até ela e forçou-a a ficar deitada na cama. Ela não conseguia entender o que estava acontecendo. Provavelmente ela estava sonhando, ou tendo outra alucinação. Qualquer coisa! Aquilo não estava acontecendo. Simplesmente não estava!

— SOCORRO!

— Por favor, você... você não... pare de gritar! — pediu ele, mas ela continuou gritando por ajuda. Será que ele estava usando as palavras certas? — Please stop screaming! — ele pediu nervoso. O quarto silenciou novamente. Ele observou os olhos verdes da garota completamente espantados, encarando-o, com medo de alguma coisa nele, ou talvez dele. Era como se ela tivesse entendido o que ele dissera. Como se ela entendesse a língua dele e não a da cidade.

— Você...? Não. Não! NÃO!

— Please, you need...!

— O que aconteceu? Onde é que eu estou? SOCORRO! SERÁ QUE TEM ALGUÉM VIVO POR AQUI?

— Eu quero... eu me desculpe! Quero que me desculpe! — ele pediu, assustado. Ele a vira engolir em seco qualquer outra tentativa de buscar ajuda, mas ainda com um olhar indecifrável. Do qual ele temeu.

Inconscientemente ela estendeu o braço machucado na direção dele, tocando a mão quente dele, que parecia estar tremendo por algum motivo que ela não conseguia entender. Ele talvez não fosse uma alucinação. Mas então porque ele estaria tão nervoso? Porque ele estaria se desculpando? E porque ele estava ali? Nada estava fazendo sentido! Nada!