Nota da autora: Primeiro capítulo da fic, bebês. E aqui começa a realidade alternativa. É uma idéia que eu tenho a algum tempo e que pdoe gerar muito drama e choradeira, mas muita coisa bonita também. Fico com medmo de parecer um pouco surreal, mas vou me esforçar - e tenho a ajuda da Nanda, que está betando lindamente e me ajudando muito!
Alors tu vois, comme tout se mele
Et du coeur a tes levres, je deviens un casse-tête¹
Mesmo que aquela não fosse época de visitas a Hogsmeade, Ron ficou feliz quando recebeu a carta de Hermione que o convidava para um encontro no vilarejo bruxo. Já era fim de outubro e o clima começava a esfriar mais e mais, o que tornava a distância entre os dois muito mais dolorosa. Ron passava muito tempo no Ministério, estudando no Quartel dos Aurores ou dando depoimentos para que os Comensais da Morte fugitivos fossem capturados, mas a única coisa em que queria pensar quando chegasse em casa era Hermione.
Trazia paz.
Ela tinha marcado o encontro para as três. Era o primeiro encontro dos dois e Ron se envergonhava por não ter marcado antes. Então, chegou meia hora mais cedo e ficou esperando, sentado no Três Vassouras, até ver a garota entrar no pub, vestindo seu uniforme da Gryffindor. Ela fechava os botões da capa para se proteger do vento e, quando olhou para ele, deu um sorriso que se dissolveu logo em preocupação. O ruivo pensou que ela estava tão nervosa quanto ele e ficou um pouco mais tranqüilo.
- Oi – Hermione o cumprimentou, sentando na cadeira de frente para ele e cruzando as mãos em cima da mesa.
- Olá! – ele disse, dando o maior sorriso que conseguiu. Esperava que ela fosse ao menos beijá-lo na bochecha, mas isso não aconteceu. – Você... quer beber alguma coisa? – tentou.
- Pode ser – ela respondeu rapidamente. Sua respiração estava muito acelerada e ela olhava para os lados constantemente.
Assentindo, Ron pediu duas cervejas amanteigadas para a garçonete. Os dois ficaram em silêncio enquanto as bebidas não chegavam. Ele notou que Hermione evitava olhar para ele. Estava esfriando. As cervejas chegaram e cada um bebeu um gole longo da sua. O garoto começava a ficar tão nervoso quanto ela.
- E como estão as aulas? – Ron perguntou, ainda forçando um sorriso grande para ver se ela poderia se soltar mais.
- Boas – ela respondeu, olhando para o seu copo.
E foi então que Ron percebeu que aquele não era um encontro casual. Não era só para que os dois tivessem um tempo a sós, Hermione tinha algo importante para dizer. Algo bombástico. Ele imaginou se sua maior dor de cabeça tinha se concretizado. A distância e o tempo que ficaram separados poderia muito bem ter colocado na vida dela alguém especial, ainda mais especial que Ron. Alguém que fosse capaz de fazê-la esquecer das dores que a guerra causou.
Pronto para fazê-la falar o que sentia, Ron esticou sua mão por cima da mesa para alcançar a dela. Mesmo que as notícias fossem ruins, ele queria escutar logo. Não podia adiar.
Quando suas mãos se encontraram, Hermione pareceu acordar para jogar a bomba que abalaria suas estruturas.
- Estou grávida.
- Você tem que fazer, Mione. – Ginny falou, mais uma vez, estendendo para ela um vidrinho com uma poção alaranjada.
Só as duas estavam na enfermaria àquela hora, mas ainda assim, só de imaginar que alguém poderia ver aquela cena, Hermione sentiu que desmaiaria como fizera na aula de Poções.
- Não precisa! Já disse que eu tenho certeza! – ela respondeu, afastando a poção.
Ela não tinha certeza de nada. Sabia que a poção contraceptiva não era cem por cento segura e que estava muito nervosa e atrapalhada enquanto a preparava. Tudo poderia influenciar no funcionamento. Mas não queria estar errada. Queria estar mais certa do que nunca.
- Toma, vai – Ginny insistiu. – Se der negativo você vai ficar mais tranqüila...
- Estou tranqüila! – a morena exclamou. A ruiva olhou para ela significativamente. As duas sabiam que era mentira.
- Então para que eu fique mais tranqüila. Melhor assim? – disse, estendendo o frasco para Hermione de novo.
Olhando para aquele líquido da cor dos cabelos de Ginny e, por isso, da cor dos cabelos de Ron, ela fechou os olhos e murmurou:
- E se der positivo?
Ginny ficou em silêncio e passou a mão pelos cabelos da amiga.
- Você decide depois. Você pode escolher isso, não sabe?
Hermione fez que sim com a cabeça. Era aquilo que a preocupava. Sua escolha. Ela já sabia o que escolheria, se precisasse. Já sabia por que vinha pensando nessa possibilidade desde que enjoara pela primeira vez desde que voltara das férias. Ela suspirou e pegou o frasco da mão da ruiva. Os três goles em que o líquido foi tomado ecoaram nas paredes da enfermaria.
Na manhã seguinte, ainda chorando, escreveu para Ron.
Os dois andavam lado a lado pelas ruas de Hogsmeade, quietos. O vento soprava sempre mais forte, bagunçando os cabelos dela. Ron estaria admirando aquilo se não estivesse tão estupefato. Sentia como se estivesse sendo chutado toda vez que lembrava da palavra. Grávida.
- Eu... – Hermione quebrou o silêncio e parou de andar. O ruivo também parou, de frente para ela, encarando o chão. – Eu pensei em ter... sabe... – Ele a olhou, procurando algo para dizer. – Ter o... o bebê. Eu sei que é uma hora terrível para isso. – Ron apenas balançou a cabeça, sinalizando um "não" que ela não soube interpretar. – Porque você está estudando tanto e eu também e nós somos tão novos... – ela falou tudo rápido demais, como quando dava alguma justificativa para os professores. – Mas eu... mas eu quero isso. Eu estou feliz... por estar grávida de um bebê... – Ela suspirou fundo antes de continuar. - Um bebê seu – completou.
Ron abriu e fechou a boca várias vezes, assim como olhava para ela e voltava a olhar para o chão, procurando as palavras. Mas não tinha o que falar agora. Estava nervoso, desesperado, tinha perdido o pouco chão que ainda lhe restava. Talvez isso significasse que ele deveria largar o Quartel de Aurores, ou pior, que ela teria que sair de Hogwarts. Ele não lembrava se a escola já tivera alunas grávidas. Não sabia o que fazer.
- Ron? – Hermione chamou.
Só então ele percebeu que lágrimas desciam dos seus olhos sem que ele pudesse controlar. Ela também estava chorando, do modo mais contido que podia, tentando manter a calma até o último momento. Quando olhou para os olhos molhados dela, ele teve certeza de que nada poderia se dito ou feito. Que, ainda que ele estivesse sofrendo por estar em uma situação ruim, Hermione estava bem pior. E ainda queria lutar. Queria levar até o fim. Porque, de algum modo, ela estava feliz.
Ele puxou-a contra seu peito e a envolveu em seus braços, abraçando-a forte, os dois chorando silenciosamente. Ficava cada vez mais frio.
¹ Então, você vê, tudo se mistura/ E do seu coração a seus lábios, me dá dor de cabeça. - Comme des Enfants, por Coeur de Pirate.
