Capítulo 02

Sentada na popa da lancha que cortava as águas mais azuis que já vira a toda velocidade, Kagome puxou a gola do casaco para mais perto do pescoço, contente por não ter dado ouvidos à opinião da irmã, que achava aquele casaquinho velho e feio demais até mesmo para ser usado durante uma viagem. Além disso, Kikyou tinha certeza de que Kagome não teria nenhuma necessidade dele, quando chegasse à terra onde havia flores o ano todo e onde as laranjeiras e limoeiros deviam estar carregados de frutos dourados, formando um lindo contraste com o verde luxuriante da vegetação.

Infelizmente, como Jaken - o criado que tinha sido mandado a seu encontro - explicara num péssimo inglês, o tempo nas ilhas gregas podia ser tão imprevisível quanto a natureza dos próprios gregos. Essa era a razão porque o sol tinha se escondido atrás das nuvens e o mar se agitava, escuro e bravio.

Enquanto dirigia a lancha por entre as muitas ilhazinhas que apareciam à sua frente e logo sumiam, escondidas pela névoa que tomava conta de tudo, Jaken lançava olhares ansiosos para a pálida Kagome, que lhe dava a impressão de estar olhando, sem ver, os golfinhos brincalhões e os cardumes de peixes prateados, que cortavam as águas escuras. Felizmente ela parecia também imune às ondas incrivelmente violentas, que já teriam feito outras pessoas praguejarem ou rezarem, apavoradas.

Sem perceber que estava sendo observada, Kagome continuava na mesma posição. Sentia-se terrivelmente infeliz, agora que havia tomado consciência do quanto tinha sido manipulada. A pressão exercida pela irmã foi tão grande, que em poucos dias ela se viu a caminho de Kairos, sem ter tido tempo para pensar direito sobre a insensatez de se apresentar a Sesshoumaru Taisho como mediadora, no lugar da noiva que ele esperava.

Tinha sido mesmo uma tola, permitindo que a convencessem a ir! Se bem que Kikyou não lhe deixara outra saída. Parecia mentira que apenas dois dias tivessem se passado, desde a noite daquela terrível discussão, que ameaçara dividir sua família para sempre!

Kagome ainda podia ouvir a voz zangada do pai, acusando Kikyou de egoísmo, frivolidade e total falta de consideração pelos sentimentos dos outros. No início, Kikyou reagiu com atrevimento, ameaçando até mesmo sair de casa para sempre, se não lhe permitissem levar a vida como queria e não como desejavam os paroquianos de seu pai. Só quando o reverendo lembrou-lhe, friamente de que ela não estava preparada para trabalhar em nada e não teria meios de se sustentar, foi que a garota perdeu a petulância.

Na hora, Kagome suspeitou que a súbita rendição de Kikyou não fora causada pelo remorso, mas pela idéia de que, se tivesse um pouco mais de tempo, poderia levar Inuyasha Montgomery a pedi-la em casamento, saindo da pobreza para a riqueza, da obscuridade de uma paroquiazinha no interior para o mundo da alta sociedade.

Seu pai, no entanto, foi completamente vencido por dois grandes olhos azuis, cheios de lágrimas, que imploravam um perdão mudo, e pelos soluços que sacudiam a figurinha esbelta de Kikyou, quando ela se jogou em seus braços pedindo:

- Prometo me comportar daqui em diante, papai. Tudo o que o senhor disse a meu respeito é verdade. Tenho sido terrivelmente egoísta e sem consideração, e de hoje em diante vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para reparar o mal que fiz ao senhor e a Kagome. - E, vendo o sorriso que começava a aparecer nos lábios do pai, ela continuou, como se tivesse tido uma súbita inspiração: - Tive uma idéia! Essa tarde mesmo, Kagome estava me dizendo o quanto gostaria de tirar uns dias de férias, para escapar dos problemas da paróquia e ter um pouco de liberdade... Pois bem, ela pode ir, papai. Eu vou ficar no lugar dela e assumir todos os seus deveres. Desse modo, terei a oportunidade de pagar um pouco do que lhes devo e quem sabe talvez consiga mudar a opinião que os seus paroquianos têm ao meu respeito.

Kagome lembrou-se do olhar surpreso e magoado que o pai lhe lançara por cima do ombro de Kikyou. Ele nunca ficaria sabendo quando lhe custava engolir as palavras indignadas que gostaria de dizer contra as mentiras da irmã, nem o esforço que havia feito para fingir surpresa quando, no dia seguinte, Kikyou anunciou triunfante que, depois de conversar por telefone com alguns amigos influentes que tinha, conseguira reservar uma passagem de avião que saia para a Grécia naquela mesma noite.

-A jovem Kagome não está se sentindo bem?

Quando seus olhos finalmente localizaram as feições morenas de Jaken, Kagome percebeu surpresa, que a lancha estava amarrada a um ancoradouro construído no meio de uma romântica baía, rodeada por penhascos, em cima dos quais cresciam ciprestes eretos como sentinelas e papoulas vermelhas, que se estendiam na direção do mar como rios de lava.

-Estou bem, obrigada. - Seus olhos apreensivos percorreram os penhascos. - Só um pouco cansada. Ainda temos que caminhar muito?

O corpulento criado grego, que já tinha impressionado Kagome com o seu ar incrivelmente bondoso, explodiu numa gargalhada.

-Aposto que está pensando que vai precisar da força de um cabrito montanhês para escalar este penhasco, não é? - Fez um gesto com a cabeça indicando o penhasco na frente deles. E continuou sorrindo abertamente: - Não se preocupe. Em menos de cinco minutos vai estar na frente do "Sesshy".

Apesar da voz de Jaken ter sempre um tom de afeto e orgulho quando ele falava no patrão, Kagome sentiu o medo aumentar à medida em que caminhavam na direção de um elevador construído junto ao penhasco.

Como o dinheiro facilita as coisas! Ela pensou ao ver o criado apertar o botão que colocava o elevador em movimento.

Teve a impressão de que estava entrando em outro mundo quando saiu do elevador! Um mundo de gramados bem aparados, conservados verdes e viçosos com a ajuda de um sistema de irrigação artificial, cujo irrigadores lançavam água para o ar, ao mesmo tempo em que giravam lentamente; um mundo de mimosas em flor,de gerânios tão altos que chegavam à cintura de uma pessoa,de margaridas,lírios,tulipas e touceiras de campânulas azuis,que cresciam ao longo dos baixos muros de pedra. Caminhos de terra ressecada pelo sol levavam até a vila de paredes pintadas de branco, cujo telhado de telhas vermelhas avançava em direção ao solo, de modo a formar um terraço bem sombreado, um verdadeiro encanto.

- Gostou? - Jaken perguntou, sorrindo de orelha a orelha. - Dentro, nós temos aquecimento central, água corrente e muitos banheiros lindos!

Kagome sorriu também, encontrando coragem pela primeira vez para fazer a pergunta que não saía de sua cabeça desde que encontrara Jaken à sua espera, no aeroporto. Ele tinha recebido instruções para procurar a lá, e escoltá-la durante o resto da viagem. Era evidente que ele esperava ver surgir Kikyou, mas seu rosto moreno continuou impassível quando a viu.

- Por que seu patrão não foi ele mesmo, ao aeroporto? Afinal, a pessoa que estava sendo esperada era a noiva dele.

O rosto de Jaken ensombreceu. Ele hesitou, depois encolheu os ombros, dizendo:

- Há dias que o "Sesshy" não se sente com disposição para viajar. - As palavras pareciam ter sido arrancadas à força de sua boca.

- Está me dizendo que ele não quis se dar ao trabalho de ir até lá? - perguntou, indignada.

O criado corou ressentido, e por alguns segundos deu a impressão de estar tão zangado que seria capaz de responder mal a uma hóspede do seu patrão. Mas conseguiu dominar-se o suficiente para dizer:

- Estou dizendo que um homem precisa se agarrar ao seu ao seu orgulho. Infelizmente - abaixou a voz a ponto de transformá-la num murmúrio - quanto mais alto o bambu, mais baixo ele pode ser forçado a se vergar.

Caminhando atrás de Jaken na direção da porta de entrada da vila, Kagome ouviu os sons de uma "bouzoukia" ao longe. Seus passos tornaram-se hesitantes, ao mesmo tempo em que dentro de si alguma coisa respondeu à música triste, mas terrivelmente selvagem e apaixonada, que estava sendo tirada das cordas de um violino grego.

O som, tão novo e diferente aos seus ouvidos, a fez sentir-se como uma planta transplantada para um solo estranho, para uma terra cujo chão batido pelo sol inclemente, podia ressecar raízes frágeis e delicadas. Estava, agora, entre pessoas que tinham herdado todo o orgulho e paixão de ancestrais legendários, como os deuses do Olimpio.

As paredes do hall de entrada da vila eram todas revestidas de mármore branco, rosa, preto e raiado, que davam ao local a atmosfera fria de uma tumba. Kagome estremeceu e apertou mais o cinto do casaco, tentando se libertar da sensação de que dedos gelados acariciavam a sua espinha, causando-lhes arrepios. Seguiu Jaken através do enorme vestíbulo e depois pela escada branca como leite, feita também de mármore.

Foi um alívio quando finalmente o criado abriu uma porta e afastou-se para o lado, convidando-a a entrar e ver o quarto que tinham lhe reservado, e que era bem menos austero. Apesar das janelas estarem fechadas, para não deixar entrar o calor sufocante, as cortinas e a colha cor-de-rosa, a mobília de madeira clara e o enorme tapete creme davam ao ambiente um ar delicadamente feminino.

- Achei que a senhorita gostaria de se arrumar um pouco antes de ir se encontrar com o "Sesshy" - Jaken explicou sorrindo, ao mesmo tempo em que colocava a insignificante mala de Kagome ao lado da cama. - Minha esposa, Kaede, que é a governanta da casa, vai mandar uma pessoa para desfazer a sua mala. Se a senhorita precisar de alguma coisa, é só pedir. Agora, se me dá licença, vou avisar ao "Sesshy" de que já chegamos.

Mesmo depois que a porta se fechou atrás dele, Kagome não conseguiu relaxar. Apesar do quarto estar agradavelmente quente, ela sentia os dedos duros de frio, e foi com dificuldade que desabotoou e tirou o casaco, jogando-o em cima da cama. Abrindo a porta que Jaken havia indicado, encontrou um banheiro, uma verdadeira gruta verde-mar, cheia de golfinhos folheados a ouro que jorravam água na banheira e na pia. Em um armário de porta de vidro, embutido na parede, viu jarras de cristal, cheias de uma enorme variedade de óleos e sais de banho, arrumadas ao lado de enormes pilhas de fofíssimas toalhas de banho, nas cores verde-mar e creme.

Assustada, Kagome deu um passo para trás, pensando ter visto um fantasma era o reflexo de seu próprio rosto amedrontado no espelho. Desviando os olhos de suas feições pálidas e abatidas, ela se inclinou sobre a pia e lavou o rosto e o pescoço com água fria, enxugando-os, depois, no canto de uma toalha que estava pendurada ao lado, em uma argola folheada a ouro.

Estava tentando, sem muito sucesso, desamarrotar a saia com as mãos, quando uma leve batida na porta avisou-a de que Jaken estava de volta, pronto para levá-la à presença de seu patrão.

- Um momento! – respondeu, enquanto corria até a penteadeira para passar um pente pelos cabelos. Mas suas mãos tremiam tanto que logo desistiu, dizendo para sua imagem refletida no espelho: - Não se esqueça de que você está aqui só para dar um recado. Reconheço que não é um recado agradável, mas isso não é motivo para estar tão assustada. Por mais violenta que seja a reação desse grego, você tem o consolo de saber que amanhã, a esta hora, já estará a caminho de casa.

Parecendo uma professora, com sua saia escura e impecável blusa branca, Kagome saiu para o corredor, decidida a se sair bem da difícil missão de que fora incumbida. Jaken sorriu-lhe aprovadoramente, e então, obviamente ansioso para não deixar o patrão esperando, desceu com ela a escada, atravessando de novo a enorme extensão de chão coberto de mármore negro. Parou ao lado de uma porta no fim do hall, na qual bateu de leve. Em seguida, obedecendo ao comando de uma voz que soou lá de dentro, abriu-a e afastou-se para o lado, indicando a Kagome que podia entrar.

Depois de respirar fundo, para criar coragem, ela deu alguns passos para a frente e sentiu-se completamente sozinha, parada sobre aquele mar de tapete, quando a porta se fechou atrás de si.

A escuridão dentro daquele cômodo, bem como de todos os outros em que estivera ali na viela, parecia completamente contrária à natureza dos gregos, que tanto amavam o sol. E enquanto caminhava para a frente, tateante, Kagome se perguntava por que razão o proprietário daquela ilha tinha tanta aversão pela claridade, a ponto de manter todas as janelas completamente fechadas.

- Kikyou?

O nome de sua irmã, pronunciado por uma voz interrogativa, com um leve sotaque, fez Kagome estacar. Seus olhos procuraram a poltrona de onde vinha a voz, e deram com a figura de um homem que se levantava. Um homem de ombros largos e quadris estreitos, pernas longas e musculosas. A altura magnífica e o modo como ele parou, com os pés ligeiramente separados, trouxeram à sua memória algumas linhas de uns versos que tinha aprendido nos tempos da escola: "Como um Colosso ele se erguia sobre o mundo".

- Eu a julguei mal, "ágape mou" – a voz continuou, e Kagome pôde ver os lábios másculos, que se torciam num sorriso amargo. – Não pensei, nem por um momento, que você viesse.

Boquiaberta, Kagome não conseguia tirar os olhos do grego alto, que se escondia por trás das lentes enigmáticas de um par de óculos escuros. Mas os cabelos escuros e espessos, o rosto magro e intensamente bronzeado pelo sol, o sorriso que mais parecia um rosnado, e o perfil bem-feito correspondiam perfeitamente à imagem que tinha feito dele... A não ser pela falta de chifres.

-Então, não me diz nada? - Uma certa aspereza apareceu na voz máscula. - Ficamos tanto tempo separados, que já não tem mais vontade de beijar o seu noivo?

Kagome abafou uma pequena exclamação de surpresa, mas depois percebeu que a penumbra do lugar e sua ligeira semelhança física com Kikyou podiam explicar o engano dele.

-Kikyou... Não pode vir - disse com voz rouca, dando um passo hesitante para frente. - Por isso mandou-me em seu lugar, para explicar tudo.

- Quem é você?

Ela quase se encolheu quando ouviu o tom zangado da voz dele, lembrando-se mais uma vez do poderoso Colosso.

-Eu sou Kagome... A irmã de Kikyou – respondeu amedrontada, desprezando-se pela própria covardia e pelo fato de não conseguir controlar o tremor de seu corpo. Imaginando o olhar que devia estar escondido por trás das densas lentes, encolheu-se de medo quando a raiva mais do que compreensível do grego explodiu em palavras.

-Mas que interessante! – ele rugiu. – E deve ter sido por puro acaso que Kikyou escolheu como sua mensageira, uma pessoa cujo nome lembra os anjos. Ela jamais teria cabeça para fazer isso de propósito. Pois bem, Kagome, É melhor cumprir o seu dever e me dizer qual é a mensagem que a deusa Kikyou me mandou. Se bem que eu já tenha uma boa idéia do que deve ser.

A antipatia que Kagome sentia pela sua missão aumentou cem vezes, quando ela percebeu a dor e o desapontamento que se escondiam por trás das palavras irônicas e amargas do grego. Apesar de ele não ter movido um músculo desde o momento em que ficara de pé, nem ter lhe oferecido uma cadeira ou feito qualquer um dos gestos educados que um visitante espera de seu anfitrião, Kagome não estava ofendida. Só quando Sesshoumaru Taisho sentou-se, deixando-a em pé,como se não passasse de uma humilde criada à espera das ordens de seu patrão, foi que a indignação tomou conta de si.

Esse homem é um grosseirão, sem a menor noção do que seja educação! Pensou, zangada. Kikyou está mesmo muito melhor sem ele!

Esse pensamento lhe deu coragem, e foi com firmeza e uma voz gelada que explicou:

-Minha irmã mudou de idéia. Não quer mais vir para Kairos porque se apaixonou por outra pessoa. Na verdade, ela está fazendo planos para se casar o mais rápido possível. Em vista disso, Kikyou lhe seria muito grata se você parasse de amolar... De ameaçá-la com uma visita que seria desagradável para vocês dois. Ela também me pediu para lhe devolver isso.

Sem sentir a menor piedade do homem sentado à sua frente, Kagome estendeu a mão em cuja palma brilhava o enorme brilhante. Mas, para sua surpresa, ele não fez o menor gesto para pegá-lo. Na verdade, não reagiu nem mesmo quando ela praticamente colocou o anel debaixo do seu nariz. Respirando fundo, continuou com uma nota levemente implorativa na voz:

- Por favor, aceite a decisão de minha irmã como uma coisa definitiva. Eu sei que está ressentido por ela não ter vindo explicar tudo pessoalmente, mas você, mais do que ninguém, sabe como Kikyou detesta ferir os outros, e como o seu coração é mole. Este anel lhe pertence. Por favor, pegue-o...

O grego se levantou com tanta violência que seu peito bateu na mão de Kagome, jogando o anel para longe.

- Veja só o que você fez! – ela exclamou, zangada. – Pois agora, se quiser este anel, vai ter que procurá-lo sozinho. Não tenho a menor intenção de me arrastar pelo chão atrás dele!

-Então, ele vai ficar onde está srta. Higurashi - o grego disse por entre os dentes. – Acho que a irmã que considera tanto se esqueceu de lhe dizer que sou cego.


Muito obrigada pelos reviews kagome unmei ( eles tambem sao o meu casal preferido), dayahellmanns ( a kikyou ainda vai aprontar muito) e sayurichaan.

Espero que continuem acompanhando, vou tentar postar todos os dia bjos.