CAPITULO 1

Coração Gelado.

- Ela está olhando para você rapaz! – comentava Miro eufórico.

- Aham... Percebi. Mas aquela moreninha da outra mesa também não pára de olhar para cá. – Kamus comenta com Miro.

Eles estavam na boate em três. Aldebaran devia estar por aí utilizando seus músculos para chamar a atenção das mulheres. Kamus e Miro preferem o trabalho em equipe.

- Que moreninha? Aquela perto da pista? Com mais três amigas...?

- Isso! Vamos lá conversar... – disse Kamus.

- Cara! Presta atenção! – Miro puxou Kamus pela manga da camisa, o aquariano estava decidido a se aproximar das garotas perto da pista, enquanto Miro tentava convencê-lo de conversar com as perto do bar – Dá uma olhada naquela loirinha! Ela tá te encarando faz horas! E a amiguinha ruiva dela não pára de olhar para mim... Elas têm alguma coisa a mais meu velho, tô te falando!

Depois de tanta insistência de seu amigo, Kamus vira-se e fita a loira, da qual ele tanto falava, por algum tempo. Imediatamente concordou com seu amigo de escorpião. A garota parecia ter sido esculpida, tamanha era sua beleza. Uma boca delicada, de traços suaves, porém de lábios volumosos; uma pele alva, lisa e macia como seda – a maciez era um elemento fruto do deslumbramento de Kamus, afinal ainda não a havia tocado – olhos de um azul tão profundo quanto o oceano, cabelos lisos, escorridos, brilhosos. Enfim, uma deusa. Mas não foi só a beleza que atraiu tanto a Kamus. Como Miro havia dito, ela e sua amiga tinham algo a mais, possuíam uma energia diferente das demais.

Em pouco tempo os quatro já estavam em um animado papo.

- Prazer, Louise. – a doce voz da moça parecia ecoar na mente de Kamus. Há muito tempo ele não se encantava assim com uma mulher.

Os assuntos permearam várias áreas de interesse, até atingir um que todos ali apreciavam: música. Para então irem todos para pista de dança bastou a sugestão de Psiqué, a ruiva.

Música eletrônica, trance. Uma batida bem instrumental e melódica, um ritmo mais suave, até romântico.

- E então, você tem namorado? – Perguntou Kamus a Louise, falando alto para ser ouvido em meio ao som alto da boate.

- Pois é... Também achei... – responde ela com um sorriso na face.

- Não... Não foi isso que eu disse... – diz Kamus já quase gritando ao pé do ouvido de Louise.

- Não, não tenho. E você, tem compromisso? – gritou ela em resposta.

- Como é que é?

- Ahn...?

- Ah...Dane-se!

- Oi? Não escutei...! Ahn! – Antes que pudesse concluir a frase Louise é surpreendida com um abraço forte de Kamus e um quente beijo na boca. Tentou resistir, mas assim que pousou a mão no ombro do cavaleiro amoleceu seu corpo e deixou-se embalar.

Alguns instantes depois Miro e Psiqué beijavam-se também.

Kamus não é do tipo que se apaixona facilmente, este também não era o caso. Mas a atração que havia entre ele e Louise era maior do que a que já houve entre ele e qualquer outra mulher. Era diferente, e os dois perceberam isso logo no primeiro beijo que deram. Suas bocas se encaixavam com perfeição, os movimentos não se desencontravam, como costuma ocorrer quando se beija alguém pela primeira vez. O gingado, o movimento de ambos os corpos quando dançavam pareciam ter sido sincronizados, um completava o outro. E então partiram para a provocação física. As cinturas se colavam e se mexiam em movimentos sensuais ao som da batida eletrônica. Um fogo de desejo queimava entre os dois.

- Cara, nos demos bem! – comentava Miro eufórico. Enquanto as meninas tinham ido ao banheiro os dois conversavam na mesa do bar. – Essa Psique é demais! Adorei! E a... Louise, né? Ta curtindo?

Estava nítido pelo sorriso, algo um tanto raro, que Kamus estava satisfeito.

- Nossa! Demais... Essa garota é muito perfeita. E quer saber...? Está pensando no que eu estou pensando, caro escorpião?

- Uh, uh, uh... Claro que sim, caro aquário! Uou!

Os dois caem na risada. Então começam uma brincadeira típica dos homens, batem as costas de uma das mãos contra a palma da outra, simulando uma relação. Os dois se embriagavam com a euforia da certeza de uma noite bem sucedida quando são bruscamente interrompidos pela chegada das meninas. Os dois se recompõem, mantém a postura, com seus copos na mão e conversando como se já tivesse em um mesmo assunto há horas.

- Pois é, como estava dizendo Kamus, não acho que seja bem esse o caminho...

- Concordo com você Miro...Oh! Meninas, você voltaram! – as duas riem, perceberam o fingimento e a brusca mudança de comportamento.

- Pois é...Mas já estamos de saída. – anuncia Louise.

- É. Temos compromisso amanhã cedinho. – diz Psiqué.

- Mas não mesmo! – Miro salta do banco do bar, logo em seguida recobra a postura – Opa...Digo, er... Como assim vão embora? Ainda é cedo.

Kamus se surpreende, mas passa longe de ter uma reação como a de Miro.

- Por que Louise? Costuma ter compromissos sábado de manhã?

- Não Kamus, esse vai ser excepcional...

- Hmm... Seria muito atrevimento meu perguntar o que se trata?

- He, he, he... Talvez seria um pouco. É uma...Entrevista de emprego, isso!

As meninas se entreolham e soltam risinhos. Kamus e Miro empenham-se em convencer as duas a ficarem, mas é em vão. As duas partem, não sem antes deixar os telefones.

- É cara... Sem sexo hoje a noite... – lamentava Miro.

- Hmm... – Kamus observava com atenção alguma coisa às costas de Miro – Caro escorpião, acho que é cedo para desistir. Lembra da minha primeira sugestão?

- A morena perto da pista?

- Essa mesmo. Oi, qual o seu nome?

- Ahn? – Miro não entendeu nada.

- Dá licença po! – Kamus abre caminho. A morena da qual falavam estava logo atrás de Miro.

E um novo jogo de sedução começou. A morena chama-se Athina, e sua amiga Joyce. Eram claras as intenções das duas, estavam decididas a conquistar os dois rapazes. Kamus e Miro tentaram fazer um jogo, ser um pouco mais difíceis. Mas não durou muito, logo eles já estavam com as moças.

Música alta. Bebida. Conversas vazias e uma profusão de cores, sons e sensações. Agora a noite tinha acabado e Kamus espreguiçava-se na cama. Acordara com o raiar do sol. Em outras situações teria dormido até muito mais tarde, mas tinha um compromisso no Santuário essa manhã. Foi então que saltou assustado da cama. Tinha mais alguém ali.

Em posição defensiva analisou por um instante a situação. Olhou com curiosidade e então puxou o lençol, que revelou um corpo feminino nu.

- Mon Dieu! Eu dormi com a morena! Droga... Cadê minhas roupas?

Kamus saiu catando as roupas pelo chão e foi até o banheiro. Entrou debaixo do chuveiro e tomou um rápido banho. Quando voltou se deparou com a garota já acordada, se vestindo.

- Bom dia, Christina! – disse Kamus simpático, ainda que nitidamente apressado.

- Bom dia, Kamus... E é Athina.

- Ahn? Sim eu sei oras...

- Então por que me chamou de Christina?

- Não te chamei de Christina! Você ouviu Christina?

- Jura que falou Athina?

- Claro, como eu poderia errar seu nome?

" Meu deus! Athina! Que nome é esse?" Pensava Kamus "Ela é grega... Droga, vai me dar dor de cabeça. Tinha que ter arrumado uma turista..."

- Athina, se não se importar, dá para ser mais ágil?

- Como é?

- Para se trocar e tudo mais! Tenho um compromisso agora cedo... E ainda tenho que te levar.

Kamus dispensava toda cortesia naquele momento. Vestia-se apressadamente. Trajava roupas um tanto quanto incomuns para o dia a dia, de um tecido fino, com detalhes em ouro muitíssimo bem trabalhados, como uma roupa de cerimônia religiosa. E ainda carregava nas mãos uma capa branca.

- Tá pronta? Vamos logo!

Athina parecia muito desapontada com ele.

- Mas o que você pensa que eu sou? Acha que pode me dispensar assim?

- Mon dieu! Crises sentimentais agora não...!

- Não é crise! Você está ignorando os meus sentimentos!

Kamus respirou fundo e manteve a calma. Sentou-se ao lado dela na cama e segurou sua mão.

- Muito bem... Vamos ser sensatos... Que sentimentos?

- Oras! Sentimento sobre tudo que rolou entre a gente... Esse lance todo! Como fica?

- Olha...Vamos recapitular: Eu estava com uma garota com a qual passei a maior parte da festa junto, assim que ela foi embora você chegou em mim quase se jogando no meu colo. Fiz minha parte oras! Rolou uns amassos, você veio para o meu apartamento, fomos para meu quarto, transamos e só! Não houve sentimentos chérie!

A garota parecia pasma. Boquiaberta olhava incrédula para Kamus, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.

- Que foi? – pergunta ele.

A garota desata a chorar.

- Eu achei que fosse algo a mais! Senti que você era diferente!

" De novo não..."

- Mas por que você pensou isso de mim? Sou como os outros oras!

- Não sei! Você me passou conforto...Um calor especial... Não sei droga! Não sentiu absolutamente nada por mim?

- Senti, claro que senti...

- Estou me referindo a amor!

- Ah...Então não!

A garota chora mais ainda fundando o rosto nas mãos.

- Vamos Athina... Estou atrasado, vamos que eu te levo até em casa.

Ela se levanta furiosa da cama, como se tivesse renovado as forças, limpa as lágrimas com as mãos e sai do quarto de peito estufado.

- Não precisa! Eu chamo um táxi!

- Sério? Ótimo, assim não me atraso!

Kamus cruza a sala apressadamente. Lá estava Aldebaran sentado à mesa, acompanhado de uma garota, fazendo um café da manhã.

- Deba, chama um táxi para Athina, sim? Valeu... Até mais! – Dito isso ele atravessa a porta do apartamento, sem se despedir da moça, que cai sentada no sofá desabando em choro novamente.

- Meu deus... O que houve? – perguntou a moça que acompanhava Aldebaran, sem entender nada.

- Nada não... – Responde o cavaleiro de touro – Foi só mais uma do Senhor Coração Gelado...

Kamus estava atrás de sua escrivaninha, na biblioteca – que quando necessário funcionava como escritório – da 11ª Casa no Santuário. Lia alguns documentos com atenção e então voltou o olhar para a moça sentada à sua frente.

- Então veio se apresentar como amazona?

- Sim, senhor...

A garota trajava roupas típicas do dia a dia, nada tradicionalmente grego. Uma calça daquelas que as garotas usam para malhar e fazer exercício, e uma blusinha básica decotada. Parecia estar confortável, mas ainda sim tinha um certo ar de formalidade. Seus cabelos loiros caiam em cachos pelo rosto, escondido por uma máscara. Tinha um perfume floral delicioso, que Kamus tentava não se sentir atraído. Estava ali para uma conversa "profissional".

- Bem, como encaminharam você à mim, imagino que seja uma amazona do gelo...

- Exato, senhor.

- Sua constelação?

- Coroa Boreal.

Kamus se surpreende com a resposta, mas como sempre isso não transpareceu em sua face.

- Então é discípula de Cristal?

- Sim senhor... Agora que me lembrei! Só um momento.

A garota pega sua bolsa e põe sobre a mesa e procura por algo. Desapontada, não encontra o que queria.

- Com licença...

Então vira o conteúdo da bolsa sobre a mesa e procura algo por entre os batons, maquiagem, um celular, alguns papéis e outras tantas coisas que Kamus nem imagina o que seja.

" Mon Dieu, não é uma bolsa é um baú! Quanta coisa!"

- Ai... Juro que deixei aqui... Só um momentinho. Olha meu celular está louco!

- Não se preocupe. É normal. Dentro do Santuário ele não vai funcionar. Nada que emita ondas eletromagnéticas funciona. Uma magia de segurança... – Kamus mostrava-se indiferente à bagunça que a moça fazia sobre a mesa.

- Ah sim... Ah! Achei. Aqui está senhor. – Ela entrega a ele um envelope e começa a guardar todas suas coisas dentro da bolsa novamente.

Kamus abriu e leu. Era uma carta de recomendações de Cristal.

- Hum... Então você é uma "garota prodígio, com habilidades únicas..."

Ela pareceu ter gostado do elogio e se enche de orgulho, exibindo um sorriso por debaixo da máscara.

- "... mesmo sendo uma garota demonstrou grande poder"

- Ahn! Como assim "mesmo sendo"! Hunf!

Kamus, indiferente a reação de revolta da garota, dobrou a carta e pôs sobre a mesa.

- Apesar de não ser muito difícil receber um elogio de Cristal, ele é um excelente mestre. Se ele lhe confiou sua armadura é por que você é digna da confiança dele...

- Ah sim! Cristal foi u mestre maravilhoso! Ensinou-me tanto sobre a vida, o poder do cosmo e do amor...

- Ele é um tolo sentimental isso sim! Ainda bem que foi sensato e me enviou-te para terminar o treinamento antes que se torne uma tola sentimental também...

A garota não gosta nada do que ouve. Controla seu palavreado, mas não deixa de responder.

- Ele não é tolo sentimental! Treinou-me muito bem! Já sei o que tinha que aprender...

- Não duvido da capacidade de Cristal – Começou Kamus, interrompendo-a – Acredito que você deve ser uma ótima amazona. Mas ainda tem muito que aprender. Para um cavaleiro a vida é sempre um aprendizado...

- Sim, tem razão. Desculpe minha arrogância. Mas não gostei como chamou Mestre Cristal.

- De tolo sentimental ?

- Sim.

- Mas ele é!

A garota cerrou os dentes de raiva e foi mais impulsiva dessa vez.

- Claro que não! Por um acaso é tolice cultivar o amor, a amizade e tirar suas forças dos sentimentos bons do coração humano?

- Sim, é tolice.

- Grrrr!

- Escuta aqui. Sentimentos são fraquezas. Amor pelo próximo só é válido fora do campo de batalha, e olhe lá! Amizade na batalha não é nada saudável, existem traições. Companheirismo no campo de batalha deve haver, mas amizade não. Saiba diferenciar o dentro e fora da batalha.

- ...

A garota ficou em silêncio. Kamus mexeu em alguns papéis em sua mesa e fez algumas anotações.

- Como é mesmo seu nome?

- Sophie...

Kamus fez mais uma anotação.

- Pois bem. Você agora é Sophie de Coroa Boreal, amazona de prata protegida pela constelação da Coroa Boreal!

Kamus estendeu a mão sobre a cabeça de Sophie como se desse a ela uma benção.

- Er... Mestre? – interrompeu ela.

- Sim?

- Posso ser só Sophie de Coroa?

- Ué... Por quê?

- Ah..."Sophie de Coroa Boreal" é muito longo, gosto do jeito como soa... Muito melhor apenas Sophie de Coroa não acha?

- Afs... É só um nome... Mas tudo bem...

Caminhando pelo Santuário Kamus notou que cada vez mais chegavam cavaleiros. O número de aspirantes crescia a cada dia. Athena não falou nada aos cavaleiros, mas Kamus e os outros cavaleiros de Ouro sabiam que em breve algo aconteceria. Dohko, o Mestre do Santuário, parecia apreensivo, disse apenas para que tomassem cuidado, que ficassem em alerta.

Após a última batalha contra Ártemis Athena soube que tempos de paz enfim viriam. Trouxe seus cavaleiros fiéis de volta à vida e pediu-lhes que levassem uma vida comum, ou algo próximo a isso. Hoje Kamus, Miro e Aldebaran dividem um bom apartamento de cobertura em um edifício em Atenas. Levam vidas duplas, ainda cumprindo com as obrigações com o Santuário, mas em seus tempos livres aproveitam a vida como as pessoas de suas idades fazem. Saori arrumou uma identidade para cada um dos cavaleiros que optaram por tentar uma vida comum, moradia de qualidade e um emprego fantasma na Fundação Graad, para justificar o dinheiro que recebiam da Senhorita Kido. Kamus ainda tenta se acostumar, mas tem gostado de sua nova vida, mais ainda tem medo de se tornar relaxado para com suas obrigações no Santuário.

Dohko está estranho nos últimos dias, e Saori sequer tem saído de seu quarto. Os dois estão preocupados com alguma coisa, porém ainda relutam em dizer aos demais cavaleiros. Mas Kamus tinha certeza que algo aconteceu nos últimos dias.

- Então você está aí... – disse uma voz feminina, interrompendo as reflexões de Kamus.

- Ah sim... Serpente. Aconteceu alguma coisa?

A amazona olha com certa desconfiança para ele.

- Serpente?

- Sim... – responde Kamus – Não é esta tua constelação?

- Sim... Mas por que essa formalidade? Me chame pelo nome...

- Por que estamos em serviço... Mas de qualquer forma, o que quer Shina?

- Precisamos conversar...

- Sobre..?

Shina perdeu a calma frente à indiferença de Kamus. Ele sabia exatamente sobre o que ela queria falar, e mesmo assim se mantinha indiferente.

- Meu Deus, Kamus! Como pode ser assim! Você sabe exatamente d que estou falando! – Ela elevou a voz.

Kamus imediatamente assumiu uma postura mais autoritária e apontou o dedo para a amazona.

- Vá com calma Serpente! Não eleve o tom de sua voz comigo! Estamos no Santuário e aqui não somos iguais. Sou seu superior e não posso admitir que fale alto comigo aqui!

- Desculpe, Aquário... – redimiu-se ela. Por debaixo de sua máscara seus olhos se enchiam de lágrimas.

- Agora... – Kamus voltou ao tom usual. – Se que falar do que aconteceu entre a gente... Eu já não fui bastante claro?

- Sinto muito Kamus... Mas não pude acreditar no que você me disse...

- E por que?

Ela se aproxima dele. De forma carinhosa repousa suas mãos sobre os ombros dele, aproximando-se as faces. Por baixo da máscara ela tenta enxergar alguma coisa nos olhos azuis daquele homem que pudesse corresponder aos seus sentimentos. Mas sua busca parecia em vão.

- Não sentiu algo diferente entre nós...? Eu achei que tivesse sido especial...

Kamus balançou a cabeça para os lados, descrente. Aquela situação ruim de novo. Por mais que tentava ser claro em suas intenções com as mulheres, elas acabavam se envolvendo mais do que ele estava pronto. Afastou-se de Shina e se virou.

- Sabe do que me apelidaram?

- ...

- Meus amigos simpáticos, e as garotas do Santuário estão me chamando de Sr. Coração Gelado.

- Sim, ouvi isso, mas... – foi interrompida por Kamus.

- Sempre houve uma certa lenda no Santuário de que eu não teria sentimentos. Parece que isso tomou mais força desde que Athena afrouxou a regra em relação aos relacionamentos entre guerreiros e guerreiras... Não sou eu. Não faço grandes esforços, e tenho uma certa facilidade com as mulheres. Mas não sei por que demônios elas acham que vão poder ter algum relacionamento sério! É... – suspirou – Talvez eu de fato não tenha sentimentos, ou não consiga tê-los...

Shina se mostrou comovida com o desabafo de Kamus, por um instante chegou a nutrir certa pena.

- Kamus... Não diga isso... eu acredito que você tenha sentimentos sim...

- Pois não devia. – Disse ele virando-se para então revelar seu habitual olhar frio ao invés de um triste que Shina esperava. – Você conhece as garotas com quem já... fiquei. Aposto que todas elas te advertiram, mas você veio a mim mesmo assim. Não poderia imaginar que o desfecho seria esse?

Kamus acabara de quebrar as defesas da amazonas. Agora ela estava exposta, pois o cavaleiro estava absolutamente certo, mas ela ainda tenta se agarrar em alguma última esperança.

- Mas eu achei que pudesse...

- Mudar meu jeito? Despertar algo novo em mim?

- Sim...

- Mas não conseguiu. Shina, o que aconteceu entre nós não foi diferente do que aconteceu com as outras... Sinto ser tão duro. Mas você foi mais uma...

- Mas eu pensei...

- Pensou errado. Não pense mais. Tente se esquecer, vai ser melhor para você.

E então Kamus se vira e parte. Sua rispidez foi necessária, ele sabia o quão frágil a amazona estava e era melhor que ela se desprendesse dele de uma vez. Kamus sempre preferiu a via enérgica.

Sua silhueta foi desaparecendo no bosque adiante enquanto a amazona tentava se recompor. Seu alívio era a máscara que podia esconder seus olhos cheios de lágrimas e seus lábios trêmulos.

- Então o bonitão aí é jogo duro? – indagou uma voz feminina.

Shina sobressaltou com a súbita aparição da garota. Tentou disfarçar a voz e transmitir sua dureza característica.

- Hnf... Quem é você, garota?

A jovem exibiu um sorriso simpático, como se a outra amazona pudesse vê-la sorrindo.

- Sou Sophie de Coroa, prazer! – e estendeu a mão.

Shina cumprimentou-a.

- Sou Shina de Serpente... Coroa? Não seria Coroa Boreal?

- Erm... Sim, mas Coroa Boreal é muito longo, prefiro que me chamem de Coroa só. É mais fácil e acho que combina mais...

- Hnf... que seja. – Shina olhou a novata com uma certa desaprovação inicial, ela era moderninha demais para ela. – Então você acha que pode domar o Sr. Coração Gelado?

- Acho que até já domei...

Shina não consegue se conter e solta uma risada aguda.

- Não sabe o que está falando, menina. Não vai conseguir domar Kamus. Pode ser boa e domar qualquer outro cavaleiro, mas Kamus não. Pode até ir para a cama com ele – suspira – o que não vai ser muito difícil se quiser, mas domá-lo, não senhora. Não sei por que achei que poderia fazê-lo.

- Creio que eu tenha uma carta na manga...

Shina achou graça da determinação da jovem amazona. E antes de se retirar disse algumas últimas palavras, dando tapinhas no ombro de Sophie.

- Todas nós achamos... Todas nós...

A amazona de Coroa fica encarando a silhueta robusta de Kamus em direção aos bosques. Seu desejo aumentava cada vez mais que sabia que seria um desafio. Se fosse fácil provavelmente não tentaria. Poderia se decepcionar, mas ao menos a determinação de uma amazona Sophie possuía de sobra.

- Veremos se eu não esquento esse coração gelado...

...Continua...

Palavras do Autor

"O primeiro capítulo já tem a forma com a qual o fic vai seguir. O meu estilo de romantismo não é muito melado, gosto das coisas mais movimentadas... Cenas mais calientes? Aguardem mais um pouco... Ah, perceberam como eu gosto de reticências...? São muito boas!".

... Pingüim.Aquariano...