Capítulo DOIS.

Ward deixou o laboratório para informar a Agente Hand sobre o telefonema e May novamente passou os braços em torno de Ann. O que a deixava muito mais confortável e era um excelente consolo. Desde que sua mãe morreu, quando ela tinha apenas dezesseis anos, Ann tinha dificuldades para confiar nas pessoas, e May era sua pessoa mais próxima do sexo feminino, uma figura constante e sólida em sua formação. Parte das habilidades em artes marciais de Ann se devia basicamente a May e o interesse de May por computadores se devia basicamente a Ann.

-Querida... –May disse suavemente, acariciando os cabelos da moça- Mantenha a calma.

E a cada interação que Fitz-Simmons podiam ver entre elas parecia que eles estavam diante de um extraterrestre. Entreolhavam-se com estranheza e desviavam os olhos. Skye não iria acreditar naquilo quando retornasse. Eles tirariam algumas fotos, disfarçadamente, para poder provar a historia. E Skye, certamente argumentaria que aquelas poderiam ser montagens.

Quando Victoria Hand finalmente foi até eles, no laboratório, Ann parecia mais calma, ainda que sua imagem derrotada desse a impressão a todos que eles estavam diante de um Coulson bastante sentimental. Eram os mesmos olhos bondosos inundados de lagrimas doloridas, vermelhos e inchados.

-Marie. –Victoria Hand disse com um certo desprezo- Você realmente não tem o mínimo respeito por regras e hierarquia.

-É meu pai. –e aquele argumento ali era inválido.

-Você sabe que isso significa muito pouco aqui. Praticamente nada.

-Eu sou uma agente da SHIELD nível seis! –ela argumentou, buscando os termos corretos para conseguir se impor- Eu sou muito mais necessária aqui do que rastreando sucata alien no mar da Grécia!

-Sucata Alien que poderia definir de onde o metal utilizado para a fabricação das Centopeias estava vindo!

-Nada na Grécia parece ser Chitauri! Eu venho lhe dizendo isso há semanas.

-Você abandona uma missão, infiltra-se em outra... Mobiliza seus contatos entre os Vingadores...

-Alguém precisa fazer alguma coisa pelo meu pai! E parece que você não está muito interessada nisso!

-Insubmissão, Marie! –Hand disse de maneira perigosa.

-Pro inferno! –e a atitude derrotada dela rapidamente se dissipou em uma enorme onda de fúria- Eu irei achar o meu pai e vou trazê-lo de volta! Essa sua estupida Centopeia continuará existindo e nos dará tempo suficiente para encontrá-la depois! Agora a vida do meu pai esta pendendo de um fio e eu não quero, definitivamente não quero, perder mais tempo ouvindo suas ordens que só nos impedem de seguir trabalhando!

-Eu poderia mandar prender você! Você encobriu a fuga de Skye do avião.

-Ela me parecia motivada a fazer o que eu quero que alguém faça. –Ann rebateu- Eu mobilizarei céus e terras se isso trouxer meu pai de volta.

-Nós trouxemos seu pai de volta uma vez. –ela abaixou o tom para um sussurro perigoso- Você não acha que seja muito privilégio que um único agente mereça tanta atenção assim?

-Não. Não é nenhum privilégio! É apenas o reconhecimento do valor que ele tem! –e Ann olhou em volta, para a equipe que seu pai criou para segui-lo em suas missões- Agora pergunte a si mesma se por acaso fosse você sequestrada... torturada... Se os esforços seriam os mesmos. É meu pai e você vai ter que me matar antes de me impedir de fazer algo por ele.

-E o que você tem feito? Chorado?

-Tony Stark está usando todos os seus recursos na investigação de metais Chitauri encontrados nos últimos anos, quem são os fornecedores, compradores e o que foi feito disso... Quem pode ter acesso à Centopeia e a essa tal de "Clarividência". Sem restrições, burlando a burocracia que vocês criam que dificultam os avanços mais simples. Natasha Romanoff está em contato com seus informantes e provavelmente Barton está com ela para o caso de interferência de campo. Eu posso não estar em condições de trabalhar, mas isso não significa que eu não tenha amigos dispostos a fazer isso por mim. Pelo meu pai.

-Você está fora dos meus serviços, Marie. E você não é bem vinda neste avião. É uma distração, está agindo contra o protocolo e...

-Nick Fury deu este avião ao meu pai. –ela murmurou, e agora May reconhecia naquela expressão determinada que Agente Marie sobressaiu Ann- Nick Fury e apenas ele será capaz de me retirar daqui. Enquanto isso eu estarei no escritório dele esperando Skye entrar em contato. A equipe dele responde à Agente May no momento.

-Eu deixo o comando com você, Agente Marie. –May posicionou-se- Eu pretendo estar pronta para ir a Campo quando for necessário.

-Assim como eu. Faremos isso juntas.

-Seremos o apoio tático. –Fitz disse- Certo Simmons?

-É claro. –ela sorriu.

-Um motim! –Victoria Hand murmurou em desagrado- Eu devia jogar todos vocês para fora daqui!

-Agente Hand... –May murmurou- A senhora não tem esse poder.

-Vocês não se dão conta de que a missão de vocês para o resgate de um único homem pode resultar na completa destruição da investigação sobre a Centopeia? –soava ilógico aos ouvidos da Agente Sênior que eles não estivessem considerando aquilo.

-Eu acredito que ao dizer algo assim à senhora esteja desconsiderando que todos somos agentes da SHIELD aqui. –Simmons disse com a voz firme e levemente magoada- Sabemos nossas responsabilidades e sabemos que uma missão jamais pode vir a comprometer a outra. E se estamos dispostos a arcar com tudo isso, talvez fosse recomendável que a senhora nos desse espaço para trabalhar. Funcionamos muito bem neste avião a maior parte do tempo. Juntos sempre conseguimos cumprir com a missão e escapar com vida, salvando vidas. O modo como a senhora se refere ao nosso trabalho e às nossas motivações apenas reflete sua descrença em nossas capacidades e no nosso comprometimento.

-Você pode não estar de acordo, mas eles nunca falharam numa missão antes.

-Nunca. –May acrescentou- Ainda quando não tínhamos um plano de extração para Fitz e Ward, mesmo quando eu e Ward fomos comprometidos pelo Cetro Berserker, mesmo quando Akela Amador estava marcada para morrer... Coulson nos deu algo que a SHIELD muitas vezes ignora.

-Humanidade. –Fitz-Simmons disseram ao mesmo tempo.

-Muito bem... –Hand pareceu deliberar por um longo momento para apenas então esboçar alguma reação- Não cruzem nosso caminho e eu não cruzarei o de vocês. Missões paralelas indo na mesma direção... Várias missões paralelas... Stark, Romanoff, Skye... Isso não dará certo e perderemos a Centopeia, por essa obsessão de vocês em encontrar Coulson.

-Encontraremos meu pai e lhe traremos os responsáveis por essa Centopeia.

-É o que nós veremos.

E ela se retirou. Ann sentou-se novamente, tomando um gole do seu café que a essa altura já estava gelado.

-O que faremos agora?

-Eu seguirei arrumando a munição para a que tenhamos ferramentas necessárias para o resgate, quando pudermos localizá-lo. –Fitz murmurou.

-Eu organizarei tudo o que puder para o caso de Coulson precisar de cuidados médicos mais específicos. Eles podem ter implantado um daqueles dispositivos no olho dele. –Simmons murmurou, saindo por outro lado.

-Ward? –May perguntou.

-Devemos esperar Skye entrar em contato, ou talvez Agente Marie possa procurar alguma pista com o Homem de Ferro.

-Tony não vai querer distrair-se de sua missão para me dar um update. Se ele precisar de algo ele me procurará imediatamente.

-Romanoff? –Ward arriscou- Ela pode ter algo.

-Sim, eu entrarei em contato com ela. –Ann murmurou- Acredito que vocês devam prover algum suporte para Hand.

-Eu voltarei ao cockpit, é hora de planejar as rotas que podemos precisar usar quando a decolagem for eminente.

-Eu não sei o que fazer aqui. –Ann disse- Eu acredito que tomar um banho e comer alguma coisa possa ser algo inteligente a se fazer se teremos combate em campo.

-Um possível combate em campo, Ann. E se você não estiver pronta depois de Nova York... –May começou de modo protetor.

-Eu estou. –Ann sorriu e foi conduzida por Ward até o escritório de Coulson, onde Ann pode ter um curto espaço de tempo para preparar-se melhor.

Ela olhava para os objetos de colecionador que seu pai mantinha no avião. Ele adorava aquele tipo de coisas. Sorriu olhando para aquele monte de velharias e imaginou que tipo de beleza e atração Coulson via naquilo. Lembrou-se do ultimo Natal antes da Batalha de Nova York, quando ela decidiu que presentearia o pai com algo que ele fosse realmente gostar. Então visitou lojas de penhores em Londres e fuçou o mais fundo possível para achar algo que ele fosse realmente jamais esquecer. Então se deparou com um porta retrato de prata, um pouco danificado por haver passado tanto tempo no fundo do oceano, em meio aos destroços do Titanic. O vidro estava intacto, mas a fotografia havia muito que se deteriorara. Após uma limpeza e a impressão de uma foto de ambos com efeitos envelhecidos, ela embrulhou em papel brilhante e lhe entregou durante o café da manhã de Natal. Ele mal acreditou no que via e condenou-se por haver comprado para ela algo tão comum e casual como um conjunto de arcos e flechas de precisão. Ann de fato jamais usou o arco, mas o porta retrato resgatado do Titanic estava ali, na mesa dele, com a foto dos dois num abraço apertado e um grande sorriso no rosto.

Quando ela deixou os aposentos do pai, sentia-se virtualmente mais animada. Seu celular soou e Tony Stark lhe disse um nome.

-Vanchat, querida. É um dos fornecedores da Centopeia. –ele informou, num tom meio desagradado- Eu infelizmente não consigo rastrear o homem, ele apenas desapareceu.

-Tony, ele está com a SHIELD. A Equipe de Persuasão da Agente Hand está cuidando dele.

-Oh, vocês não vão conseguir nada assim! Hand que me perdoe, mas num caso de urgência como este eu já teria mandado os protocolos e direitos humanos diretamente pro inferno.

-Você usualmente manda, ainda que em coisas simples. –Ann sorriu.

-Dê-me cinco minutos com ele e eu lhe mostro o que...

-Onde você está?

-Neste exato momento, sobrevoando a mansão deste filho da puta.

-Se por acaso eu necessite apoio em campo...?

-Basta me dizer onde eu devo estar e eu irei até você. –ele prometeu.

-E sua atual noiva não irá reclamar disso?

-Ela pode reclamar. O fato é que eu não sei se irei ouvir. –ele riu, o que fez com que ela risse também- É bom ouvir seu riso, Ann. Você não vai perder o Phill de novo, eu lhe prometo.

-Obrigada Tony.

-Eu vou desligar agora, mas você é livre para me procurar a qualquer momento. Eu estarei de sobreaviso, esperando suas coordenadas.

-Eu agradeço muitíssimo. Você sequer pode imaginar o quanto.

-Eu sei. Eu cobraria isso de outros modos, em outras épocas... –ele falava exatamente do que Ann desconfiava que ele falava.

-Não comece, Tony.

-Falar com você me deixou nostálgico. Processe-me por isso!

-É, eu bem sei do que você está falando. –ela suspirou- Eu darei um jeito em Vanchat e te aviso sobre eventuais avanços na Missão.

-Tudo bem. Nos falamos depois, certo?

-Certo.

-Promete? –ele insistiu.

-Prometo.

E ele por fim desligou. Ann viu-se diante de Simmons, que tentava explicar algo realmente muito estranho e que parecia ser perigoso a um agente que não possuía QI o bastante para acompanhar seu raciocínio. Ann perdeu-se após a repetição do nome da terceira enzima que ela mencionou e decidiu que falaria melhor a linguagem de Fitz. Mas ele também estava mortalmente ocupado com um grupo de agentes Nível 2 que não conseguiam seguir suas instruções. Ann percebeu que naquele avião a equipe funcionava muito bem entre si, mas que estavam perdendo as habilidades de lidar com uma equipe maior. Então Ward surgiu a sua frente, com toda sua imensa estatura e seus músculos saídos de um filme de gladiadores e lhe perguntou o que estava acontecendo.

-Vanchat. –ela disse, um pouco contrariada- Ele está lá dentro há horas.

-Agente Hand disse que esse e o seu melhor interrogador. –Ward murmurou com um tom de descrença na voz.

-Me dá sono apenas ao olhar para a tela, imagine como Vanchat deve estar se sentindo. A técnica dele é entediar o cara até que ele lhe conte tudo o que sabe? Eu sou a única a achar que um pouco mais que persuasão... –e cerrou os punhos em exemplificação-... seria algo bem vindo aqui?

-Ela não me deixará chegar perto dele. –Ward disse.

-Ela precisa realmente saber?