Disclaimer: Todos os personagens de Inuyasha pertencem à Rumiko Takahashi.
Gênero: Romance/Drama/Ação/Aventura.
Emparelhamento: Sesshoumaru/Rin
Sumário: Ao nono ano após a derrota de Narak, Rin deve fazer sua escolha entre seguir seu querido Lorde, agora Rei das Terras do Oeste, ou permanecer entre os humanos. Mas ao descobrir que a verdadeira história por traz do massacre acontecido em sua infância está ligado a mistérios e motivos inimagináveis, sua vida muda completamente trazendo responsabilidades e deveres que vão além deste mundo. [Mais no meu perfil.]
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OBS: O que esta em itálico é pensamento do personagem. Travessão na frente da frase indica fala. Boa leitura!
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O Fio Vermelho do Destino
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Capitulo 2 – Entre fronteiras
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No inicio da noite, o vento leve estava se tornando mais fresco, e Sesshoumaru voava pelo céu acompanhado por um sonolento Jaken em cima de Ah-Un.
Haviam deixado o castelo quando o sol começou a surgir no horizonte, para ir ao vilarejo humano em busca de Rin, voando sem parar por um momento sequer e já estavam bem próximos de seu destino. Respirou discretamente e sentiu o inconveniente cheiro da vila humana.
Viu uma pequena clareira próxima, a beira de um penhasco, rodeado por várias árvores altas e antigas, mata densa e fechada onde provavelmente começava o território de Inuyasha. Disse com sua voz usualmente inexpressiva.
- Jaken, vamos descer.
- Ohp – o sapo deu um pequeno pulo assustado, acordando de seu cochilo e respondeu tentando esconder o tom rouco de sua voz - Sim Sesshoumaru-sama.
Desceu lentamente para a clareira, logo atrás Jaken e Ah-Un, e ao tocar a terra avisou os servos:
- Montem acampamento e fiquem aqui.
Antes que Jaken pudesse fazer qualquer pergunta, seu mestre já tinha desaparecido por entre as arvores.
Um cheiro leve tinha chegado a seu conhecimento, o de Rin. Estava fraco, e vinha de dentro da floresta. Ela estivera por perto.
Começou a caminhar para a fonte do odor. Esse caminho era o mesmo que havia tomado há algum tempo. Foi em uma de suas visitas a ela, estava levando um quimono novo, e quando se aproximou da vila, passando pela floresta de InuYasha e procurando pelo cheiro da menina, sentiu um aroma suave e doce de sangue. Algo no fundo de sua mente dizia que era conhecido. O cheiro que sentiu naquele momento era diferente, e familiar, algo que acalmava e perturbava ao mesmo tempo. Poderia tê-lo deixado passar despercebido, não fosse que estranhamente se fazia mais próximo a cada passo que dava em direção a aldeia onde vivia sua protegida.
Surpreendeu-se ao avistar a menina, mas fisicamente não deu nenhum sinal disso. Um estalo em sua cabeça o fez perceber o que era familiar naquele odor. O sangue vinha de Rin.
Leu alguns livros que explicavam um pouco sobre a anatomia humana, e entre as informações, lembrou-se de uma específica que chamou sua atenção, algo em comum com a espécie Inuyoukai: o cio. O inicio da maturidade feminina humana, era marcada por esse evento, que seguia o casamento, e a procriação.
Casamento¿ Procriação¿ Isso é loucura!
Uma menina de 13 anos, uma criança ainda. Sua cabeça passava a linha da sua cintura e ela estava naquele momento se transformando em uma mulher. Seu corpo ainda era magro, e desproporcional ao seu tamanho.
Ela estava crescendo rapidamente, se transformando, e esse era um assunto que ele não tinha todas as necessárias instruções, e nem estava preparado para lidar. Precisava encontrar alguém para ajudá-la e aconselhá-la.
Foi nesse momento que decidiu encontrar uma tutora para ela. Alguém para ensinar e instruir sobre a vida feminina, e ajuda-la a desenvolver habilidades de uma dama. Uma youkai não seria conveniente, mas uma humana dificilmente aceitaria um convite do Senhor Ocidental. Levou algum tempo, mas encontrou uma mulher de grande reputação, e com boas habilidades, que inesperadamente aceitou sua proposta de treinar a menina.
Desde então, Rin começou a mudar.
Continuou crescendo até atingir os seus ombros, notavelmente alta pelos padrões femininos. A face afinou e as maças do rosto se tornaram proporcionais. O pescoço alongou-se assim como as pernas e o cabelo chegou à altura dos quadris dela, grossas mechas negras contrastantes com a pele branca. O corpo magro e bem definido pelo treinamento diário com sua tutora e seu meio-irmão, as sobrancelhas finas e bem desenhadas emoldurando os grandes e expressivos olhos castanhos avelã.
Os olhos que pareciam rios profundos ganharam também um brilho diferente, que iluminou a face delicada dela. Um brilho misterioso.
Assim como as mudanças físicas, também houve mudanças no comportamento. Com os treinamentos para se tornar uma dama, aprendeu a conter as palavras e apesar de ainda muito curiosa, tornou-se um pouco mais reservada. O jeito infantil e brincalhão ainda permanecia, mas com belos gestos delicados, e requintados, como de uma verdadeira princesa.
Toda essa transformação em dois curtos anos. Desde a última vez que havia visto a menina, tentava não pensar nela, e nas suas constantes mudanças. Ela deveria estar novamente diferente, após esse tempo.
Quando olhou em seus olhos na ultima visita que a fizera, e não pode ver o que procurava, sentiu uma perturbação estranha no peito, e permaneceu ao seu redor – sem o consentimento dela, é claro – estupidamente procurando quem era ela agora.
Viu que ainda preservava a pequena Rin, de grandes sorrisos, nos olhos. O que fez se perguntar, se algum dia ela deixaria aquela menina doce e alegre morrer no seu coração. Desejou que não.
Ele nunca foi ou estava propenso a sentir emoções e sentimentos, nem a querer algo bom para alguém, mas Rin sempre teve um espaço em sua vida que se resumia a palavra 'exceção'. Desprezava seres humanos, mas ela não era só uma humana comum, ela era diferente. Nunca sentiu compaixão, mas isso veio a sua vida quando encontrou a menina. Nunca imaginou que poderia possuir alguma bondade no coração, ele que construiu sua reputação sobre crueldade, mas isso foi comprovado a ele quando usou Tenseiga para reviver a humana, e por mais que afirmasse que era apenas para 'testar' a herança que seu Chichi-ue* havia deixado, se não tivesse tais requisitos exigidos para seu uso, a espada não teria funcionado. Não imaginava que um dia teria alguém para proteger, como seu pai. Nunca pensou que se sentiria... Confuso por uma humana.
Sim, realmente se sentia confuso perto dela.
Eram os sentimentos, coisas enganosas, que faziam até mesmo os maiores Reis caírem para a desonra e miséria, como seu pai. Sempre admirou a força que possuía, as terras, a sabedoria, como nunca fez o mesmo por ninguém. Era seu Chichi-ue* o maior exemplo que tomou para sua vida, dando-lhe o propósito de se tornar melhor que ele, mas até mesmo o maior homem que havia conhecido, caiu em sentimentos, e morreu por eles. Desafiou a lei natural das coisas. Amou uma humana e deu sua vida por ela e seu filho hanyou levando a desonra a seu reino e vergonha a sua linhagem.
Não que Rin fosse igual a amante de seu pai. Rin não era uma humana qualquer, ela era de alguma maneira, diferente. Ela havia dado um novo propósito a sua vida, ela tornou-o mais paciente, calmo e sábio. Mesmo sendo conhecido e temido por sua frieza, título do qual se orgulhava, tais novas qualidades que a menina despertou nele, foram muito úteis.
Mas sentimentos como a compaixão e o amor já haviam provado serem inúteis e desprezíveis, que serviam apenas para acabar com os esforços e lutas de uma vida inteira, e ele o temível Lord Sesshoumaru, não teria o mesmo destino que seu pai. Se recusava a isso. Iria construir um grande império próspero, teria herdeiros fortes, e seria uma lenda entre todos como o maior Rei do Ocidente.
Ultimamente repetia isso para si mesmo, mais do que gostaria, como se tentasse convencer seu coração do que a mente já tinha certeza.
Ela era sua responsabilidade, sua ala, sua protegida, e seria vergonhoso se não correspondesse à altura do que se era esperado dele.
Era por isso que estava indo buscá-la. Por uma questão de lógica e honra.
Se ele reviveu a menina, então ela era sua responsabilidade. Ele sempre foi um Inu-youkai honroso e de palavra, e se ele disse que iria voltar à vila humana para que ela fizesse sua escolha, então ele faria isso. Ela era livre para escolher, e se fosse de sua vontade ir para o castelo dele, então ela iria ser bem recebida, ficaria segura, e viveria a vida de uma princesa. E ele iria controlar sua própria mente, youki e corpo, como sempre fez sem nenhum problema, suas decisões permaneceriam exatas e eficazes, e continuaria a ser o Taiyoukai, Lord das Terras do Oeste.
Parou o ritmo dos passos, a beira do riacho de aguas cristalina e fracas. A lua que tinha acabado de despontar do céu para despertar a noite emprestava seu brilho às águas tranquilas. Um lugar calmo que Rin deveria ter usado para se banhar. Mas como imaginou, ela não estava mais ali.
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- Essa noite esta tão bonita, não é Kagome-chan¿ A lua esta linda! - disse Rin, sentada sobre a grama rasteira com a amiga, afastadas por alguns metros de distancia da grande fogueira que crepitava no centro do vilarejo, olhando e sorrindo para a noite estrelada.
- Você ficou distraída hoje, o dia todo. É por causa de Sesshoumaru não é¿ - Indagou a miko sem rodeios, com a voz baixa, virando-se para olhar o céu que estava encantando a mulher mais nova.
Rin se surpreendeu com a pergunta repentina. Conhecia a miko: ela havia se tornado sua melhor amiga, sua irmã, e confidente. Kagome a conhecia bem e sempre reparava quando alguma coisa não estava certa. Não era inesperado que ela já havia percebido sua distração durante o dia, mas a pergunta direta, que mais parecia uma afirmação, deixou-lhe sem palavras. Ela estava agora olhando o céu, e pelo tom usado, quis fazer a pergunta soar a mais normal do mundo, mas seus olhos a traía. Neles podia-se ver a preocupação e uma ponta de tristeza. Pensou por alguns momentos antes de responder:
- Sim. Eu sei que ele virá, e eu espero ansiosamente por esse dia. Hoje me senti estranha, e pensei nele durante o dia todo, e por alguns momentos as lembranças eram tão reais que eu quase podia senti-lo por perto. Eu não sei explicar o porquê disso, eu só sei que espero vê-lo bem, e em breve.
- Você tem tanta certeza disso, e confia completamente nele, algo muito difícil de ver nas pessoas. - Observou Kagome.
- Isso é verdade. Megume-sensei* me disse isso também. Segundo ela, isso é raro. Porque é natural do ser humano a desconfiança em tudo e todos, já que os próprios tem certa queda para a traição. Ela sempre diz que humanos são tendenciosos a acreditar no que querem, e a julgar os outros por suas próprias características e experiências, facilmente generalizando as coisas.
- Megume é muito sábia. Nem parece uma mulher tão jovem, como mostra sua aparência. - declarou a miko.
- Sim, já pensei muitas vezes nisso. - admitiu a jovem, pegando o tom desanimado nas palavras da amiga.
Kagome desviou o olhar para ver as crianças brincando perto do fogo.
Rin pôs-se a observa-las também. Lá estavam um grupo de aproximadamente oito crianças correndo umas atrás das outras, rindo, tropeçando, felizes.
As duas mulheres permaneceram em silencio, e agora podiam ouvir vários moradores do vilarejo conversando, rindo alto, a agitação dos jovens.
Sua amiga estava mais quieta do que o habitual, e seu olhar reflexivo. Normalmente ela contaria sobre alguns acontecimentos do seu dia, ou até comentaria sobre a saudade que sentia de Shipoo. E pode ouvir bem o tom de tristeza vindo da voz dela, na afirmação anterior. Lembrou-se que logo mais cedo antes de saírem para observar a comemoração das famílias da aldeia, ela havia dito que queria conversar, e que precisava de ombro amigo. Provavelmente existia alguma coisa que estava incomodando a miko.
Também havia o clima no jantar, as indiretas e o jeito grosseiro de Inuyasha, que apontava uma provável discussão mal sucedida entre os dois.
- Acho que nós duas não estamos nos nossos melhores dias. Você parece triste. Aconteceu alguma coisa Kagome-chan¿ - Acusou desviando o olhar das crianças, que agora estavam sendo chamadas para se sentarem formando um circulo desajeitado, para olhar a amiga.
Kagome olhou para a fogueira alta e suspirou longamente, antes de começar seu desabafo.
- Sabe, tem sido tão difícil... - Ela deu uma pequena pausa antes de continuar, parecendo estar analisando cada palavra que se seguiria; - Eu já te disse que eu amo o Inuyasha. Eu o amo, e não me lembro em que momento eu não amei. Hoje eu penso que depois que nos damos conta de que realmente estamos no amor com outra pessoa, percebemos que na verdade, desde a primeira vez que os olhos se cruzaram, você já sabia que seria assim... e que seria ele. Tentei por muitos momentos evitar sentir e admitir isso, talvez por estupidez ou medo. E quando Kikyo estava entre nós, sabia que não poderíamos ficar juntos, não por escolha minha, mas dele. Era tudo confuso naquela época, ele a amava ainda e eu não iria deixar de respeitar seu tempo. Mas depois que ela morreu, as coisas foram se acertando e ele escolheu a mim. Pensei que tudo se resolveria, e que nós poderíamos ser felizes, mas então fui mandada de volta para minha era, no futuro. Três anos sem vê-lo, e três anos ele me esperou acreditando que eu voltaria. Eu voltei. E então, a escolha estava em minhas mãos... Entre ele e minhas responsabilidades.
- Vocês sofrem há tanto tempo essa angustia... você deve sentir muitas vezes vontade de deixar todo o resto de lado, para ser feliz com ele, não é¿ - Indagou Rin, sentindo-se triste pela amiga, como tantas outras vezes.
- Acredite, não há um só dia que eu não reconsidere minha decisão, mas... não é tão simples. Essas pessoas do vilarejo tem fé nos meus poderes de purificação, e é isso que os deixa seguros para construir suas famílias.
- Era por isso que você e Inuyasha-Sama brigaram hoje, antes do jantar¿ - Perguntou Rin, se arrependendo em seguida, com receio de estar tocando em um assunto delicado, que deixaria a amiga ainda mais triste.
- Não era exatamente por isso, mas é como se tudo agora estivesse relacionado, e eu entendo que tem sido difícil para ele também, porque fui eu que decidi por minhas responsabilidades, e não ele. Inuyasha tem sido muito compreensivo e persistente em me esperar. Quando Kaede estava com idade avançada, e já não conseguia lidar sozinha com os problemas do vilarejo, me pediu para ajuda-la por um tempo até que ela treinasse uma nova menina para ocupar o lugar de miko e eu não tive como recusar... Isso seria muito egoísta e cruel. Kaede passou a vida inteira se sacrificando por todas essas pessoas e só estava me pedindo alguns anos para... que pudesse ter uma morte tranquila. Ela dependia disso, essas pessoas dependem disso. Inuyasha protege o vilarejo dos youkais mais perigosos, mas ele é parte youkai também, e mesmo já tendo feito tudo que fez de bom, os seres humanos não confiam nele. Eu não posso culpa-los, já que desde o inicio dos tempos existiu essa guerra sem sentido entre humanos e youkais. Esse dom que eu possuo, não existe por acaso e sem propósito, e os poderes trazem consigo responsabilidades. Mas acredito que nossa espera tem chegado ao fim, já que a aprendiz esta quase pronta para assumir meu lugar.
Rin sentiu o coração doer, ao ouvir o nome de Kaede. Sua morte ainda era um pouco recente, e sentia muita falta dela, assim como a amiga. A miko idosa era como uma querida avó, e sempre ajudava aconselhando-as em seus problemas e dificuldades, e quando ela se foi, o mundo pareceu caiu nas costas de Kagome.
Olhou para a amiga e viu nos olhos castanhos um brilho triste de sofrimento que refletia as decisões difíceis que a mulher já havia feito, e a expectativa pulsante de uma nova vida de amor e carinho. Se lembrou dos momentos que a miko chegava a cabana no final do dia, radiante, contando animadamente sobre as evoluções da aprendiz, sobre os grandes poderes que a futura miko estava desenvolvendo. A cada nova evolução que a jovem aprendiz tinha, era um passo que Kagome dava em direção a sua felicidade com Inuyasha.
- Eu realmente não sei o que eu faria em seu lugar... mas me deixa melhor em saber que logo vocês dois poderão viver juntos finalmente.
- E eu até hoje não sei o que fazer Rin-chan. Tenho sido a miko dessa aldeia por 6 anos, e até hoje me sinto balançada entre o que eu desejo e o que eu preciso fazer. Inuyasha tem me esperado por 9 anos para que possamos ficar juntos, e esse tempo tem sido angustiante para ambos - Sorrindo discretamente, Kagome continuou um pouco mais feliz; - Rin-chan, eu olho essas crianças todos os dias brincando, algo tão bobo, e penso em como serão meus filhos... Sabe, as mulheres dessa época se casam muito novas, com 14 ou 15 anos já estão casadas, e acho que isso está me afetando. Elas olham para mim, com olhares de piedade, e isso é ridículo! Essa piedade faz eu me sentir mal, como se a minha escolha tivesse sido errada. Eu não me importo com casamento, na minha era é normal as mulheres da minha idade, estarem solteiras. O que me entristece e ter que negar o amor que eu sinto, e que ele sente por mim...
- Estar apaixonado parece ser tão doloroso. Eu espero nunca sofrer assim... - a mulher mais nova estava com o rosto pensativo, o olhar tristonho, por imaginar os momentos difíceis que a amiga havia passado.
Kagome olhou para a jovem ao seu lado, que estava angustiada pelo sofrimento alheio, e começou a rir da ultima observação dela.
- O que foi, o que deu em você agora¿ - Rin perguntou à amiga que continuava rindo, sem nenhum motivo aparente. Vendo a alegria repentina da mulher, começou a sorrir também.
- Ahh Rin-chan, você é ainda muito inocente! - declarou a miko, deixando a menina confusa.
- Boa noite meninas! Vocês já estão aqui há muito tempo apreciando essa bela noite agitada¿- Cumprimentou Sango sorrindo em sua chegada, interrompendo Rin, que se preparava para questionar Kagome sobre sua declaração anterior.
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Fazia algum tempo que seu irmão mais velho não visitava a aldeia humana e Kagome sempre fazia perguntas do por que de tal afastamento repentino. Como se eu pudesse saber o que se passa na cabeça daquele bastardo. InuYasha não considerava possuir séculos de vida suficientes a ponto de ser chamado de experiente, mas uma coisa poderia afirmar com certeza: nunca encontraria em toda sua existência alguém mais orgulhoso e imbecil que Sesshoumaru.
Finalmente o idiota decidiu vê-la.
Ao se aproximar do penhasco nos limites de sua floresta, pode ver a figura em pé, coberto pelas sombras do inicio da noite, de costas para a trilha de árvores por onde fazia seu caminho até o daiyoukai imponente. Ele não era mais seu rival, e apesar de que certamente nunca seriam melhores amigos, a presença um do outro se tornou aceitável. Sociável.
Chegando ao lado do irmão mais velho, chamou asperamente:
- Ei, Sesshoumaru!
Não houve resposta, ou qualquer mudança no estado do jovem Senhor Ocidental em relação ao cumprimento do meio irmão.
- Não acha que demorou tempo demais para voltar a seus assuntos¿ - continuou Inuyasha, não dando atenção ao silencio do irmão mais velho.
- E o que um hanyou pode saber sobre tempo¿ - indagou com sua usual expressão impassível.
- Não se faça de idiota Sesshoumaru, eu sei que o tempo para um humano é totalmente diferente para um youkai. - respondeu nervosamente cruzando os braços em suas mangas e continuou - Imbecil! Você não se importa mesmo com ninguém além de você!
- Talvez você tenha um ponto, entretanto, se isso fosse totalmente verdade eu não estaria aqui nesse momento... - Sesshoumaru retrucou indiferente as palavras do irmão mais novo. - E você também não estaria aqui para me informar das condições de Rin.
Inuyasha sabia que isso era verdade, e do que conhecia-o, essa frase significava um 'como ela esta¿' em sua linguagem arrogante. - Ela esta bem, se é isso que você quer saber.
- Bem é inaceitável. Quero algo mais especifico.
- Esta saudável e forte. Keh! Eu não sou nenhum informante então se quiser saber de mais alguma coisa, você que vá atrás e veja com seus próprios olhos.
- Este Sesshoumaru conhece sobre sua saúde, e existem informantes por toda parte. O que quero saber... é se ela se adaptou ao vilarejo e aos humanos."- Sua mandíbula estava fortemente apertada e o olhar perdido no horizonte escuro a sua frente. O silencio espesso que se fez presente quase tornando incomodo, servia para aumentar a curiosidade que emanava do jovem Senhor Ocidental.
Ele deve estar querendo saber se ela lamentou sua ausência todos os dias, chorando, e reclamando. Idiota, aposto que esse egoísta esta querendo provar a si mesmo que ela é fraca e não passa de um incomodo, pensou Inuyasha, virando as costas para fazer seu caminho de volta ao vilarejo. - Ela não está... totalmente feliz, eu acho. - ponderou em voz alta. Começou a andar em direção ao mesmo caminho que usou para chegar até seu irmão, e antes de desaparecer entre as arvores acrescentou:
- Por que você quis ter esse interrogatório, invés de simplesmente ir a aldeia vê-la, como das outras vezes¿
- Eu quis primeiramente assegurar-me sobre as condições dela.
- Você vai leva-la embora daqui¿
- Preocupe-se com seus assuntos, irmão mais novo. - repreendeu Sesshoumaru em tom ameaçador, virando sutilmente a cabeça em direção ao hanyou, com olhos estreitados.
- Desde que você a deixou aqui ela se tornou um assunto meu também. - respondeu Inuyasha secamente.
- Hmph. Então será melhor arranjar outras coisas para você se preocupar.
- Keh, que seja. - Foi a ultima coisa dita pelo hanyou, antes de fazer seu caminho de volta ao lugar que pertencia.
Esse idiota, arrogante... não dá pra entender! Pelo menos, Rin vai ficar feliz em vê-lo de novo.
Kagome havia lhe contado que estava preocupada com a menina, que estava dormindo muito mal durante as ultimas noite, tendo pesadelos, acordando agitada e tensa, chamando pelo nome do seu maldito irmão. Não conseguia entender porque Rin gostava tanto de alguém como Sesshoumaru. Ele era idiota, orgulhoso, presunçoso, arrogante... e ainda colocava ela de lado por quaisquer outros assuntos, e quando bem entendia.
O imbecil agora também era motivo de suas discussões com Kagome. Ela contou-lhe mais cedo sobre Rin não estar muito bem, e pediu para procurar o irmão mais velho e contar-lhe sobre como a menina andava ultimamente. Ela queria que pedisse para o irmão, uma visita à menina mais uma vez, e que conversasse com ela, para pelo menos dá-la respostas. Logicamente respondeu que isso era ridículo! Não iria pedir nada para o idiota! Não iria se humilhar com um pedido, e exaltar ainda mais o ego inflado do irmão.
Kagome tinha ideias absurdas!
Então ela se sentiu ofendida, pela resposta que deu, ficou nervosa e lhe chamou de insensível. Era ela que andava sensível demais, fazendo que as brigas entre os dois se tornasse cada vez mais constantes. Estava cada vez mais complicado ficarem próximos, sem que acontecessem brigas, e difícil se manter afastados sem que a saudade consumisse o resto da paciência. Manter esses tipos de sentimentos, sem poder vivê-los era desgastante.
Inuyasha sentiu a proximidade da aldeia, e pulou sobre o galho de uma arvore. Olhou para o vilarejo movimentado logo à frente, tentando localizar Kagome. A voz fina da mulher chegou a seus ouvidos, e ela estava acompanhada por Sango e Rin.
Aquela voz despertava algo nele que não poderia explicar. Algo parecido com liberdade e ao mesmo tempo uma prisão, em que gostaria de permanecer. O coração aquecido, um sorriso dolorido nos lábios, o olhar atraído... era estranho e inexplicável.
Desceu da arvore e caminhou na direção dela.
Kagome estava rindo com as outras mulheres, e isso o deixava aliviado. Era bom que ela estivesse feliz, já que tinha chorado tantas vezes. Ela dizia estar sofrendo por ama-lo e não poder estar com ele, mas por que ela não esquecia todo o resto e pensava apenas nela mesma, pelo menos uma vez¿
Porém, ela não era assim. E foi um dos motivos que o fez se apaixonar.
Iria esperar por Kagome o resto de sua vida se fosse preciso, e se fosse sua decisão. Devia isso a ela, que sempre foi compreensiva e esperou-lhe, mesmo quando não mereceu... quando foi egoísta, arrogante e idiota, deixando ela de lado por outras... coisas, e pessoas...
Então é isso¿ Eu sou um idiota também... não entendo como alguém como Kagome pode gostar tanto de mim.
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- Bela Noite para conhecer alguns rapazes novos, não é Rin-chan¿ - Disse a exterminadora de youkais sorrindo maliciosamente e virando o olhar para um rapaz próximo a roda de crianças alegres.
O rosto naturalmente branco pálido da jovem mulher corou em vermelho forte. Virando os olhos discretamente para acompanhar o olhar de Sango, percebeu que o destinatário era um jovem rapaz, que havia chegado a vila há algumas semanas. Viu o humano poucas vezes. Mesmo de longe ele era muito bonito, com os cabelos um pouco abaixo dos ombros, lisos e negros, soltos de um jeito bagunçado e charmoso. O olhar dele também estava focado em Rin, e quando seus olhares se encontraram ele sorriu gentilmente. Ela devolveu-lhe o sorriso, mas de maneira mais discreta, e virou o rosto para as amigas rapidamente vendo as duas caírem nas risadas. Como se fosse possível envergonhar-se ainda mais, sentiu o rosto queimar intensamente.
- Ei, do que vocês duas estão rindo, isso não tem graça nenhuma! Run. - Disse Rin, timidamente olhando para os pés.
- Rin-chan desculpe, mas você tem que se animar mais, esta tão vermelha quanto seu quimono. - Falou a Miko, entre os risos.
- Ei Rin, ele te olhou a maior parte da noite, acho que está interessado em você - disse Sango se aproximando mais da jovem, e falando baixo, completou; - Ele é muito bonito, e apesar de não ser dessa vila, você poderia conhecê-lo.
- Acho que não seria uma boa ideia, vamos esperar um pouco, porque como você disse, ele não é desse vilarejo e não sabemos nada sobre ele. – Interferiu Kagome.
- Eu não sei. Estou bem, e prefiro continuar como estou. - Respondeu-lhes Rin, ainda envergonhada.
- Eu também acho melhor assim. - Veio uma voz conhecida logo atrás das três mulheres, que se viraram para ver o inu-hanyou que se aproximava com passos largos.
- Ei, bisbilhotando nossa conversa¿ - Perguntou Rin, divertidamente.
- Boa noite InuYasha. - cumprimentou Sango inclinando suavemente a cabeça; - Você viu o houshi-sama por ai¿ Ele saiu um pouco antes de mim, disse que iria falar com você.
- Eu não vi o Miroku ainda, mas eu acho que é ele conversando ali perto das barracas de vasos. - Respondeu Inuyasha, indicando com a mão a direção falada.
A exterminadora olhou para onde o amigo havia mostrado e encontrou o monge conversando e rindo com outras duas jovens meninas que tomavam conta da barraca de vasos artesanais.
- Ah, seu houshi* pervertido... - Sango fez uma pausa, fechando os olhos, sentindo o sangue ferver. Abriu-os já caminhando para onde o marido estava; - você não vai mudar nunca!.
Rin sufocou com as mãos o riso, observando a mulher murmurar nervosamente e ir em busca do marido. Olhou para Kagome que sorria e balançava a cabeça para os lados.
- Esse Miroku, não tem jeito. - Disse o hanyou cruzando os braços em suas mangas.
Agora que Inuyasha-sama está aqui, acho melhor deixar os dois sozinhos, para conversarem. O clima entre os dois não está dos melhores hoje, é bom não atrapalhar.
- Bom... já vou indo, preciso dormir, amanha tenho treino logo cedo. Boa noite, vejo vocês amanhã. - Disse Rin, curvando levemente as costas, se despedindo dos dois amigos com um grande sorriso, e fez sua caminhada para a cabana, com satisfação estampada no rosto por ter se livrado de mais uma conversa sobre 'pretendentes'. Ufa, InuYasha-sama, te devo uma.
Talvez os dois amigos tivessem uma conversa frutífera, que aliviasse a tensão entre eles. Inuyasha tinha saído para refrescar as ideias e Kagome estava um pouco mais feliz agora, do que no inicio da noite... Provavelmente o desabafo deve ter aliviado um pouco o coração dela. Fico feliz por ajudar Kagome-chan de algum jeito, ela merece muito ser feliz. Espero que amanhã seja um bom dia, e que ela acorde animada. E deuses, por favor, me ajudem a ter uma boa noite de sono, esses pesadelos estão me matando!
Passou perto de onde as crianças estavam reunidas em um circulo, e em pé cuidando delas estava o homem misterioso que havia sorrido para ela momentos antes. As crianças cantavam uma música que conhecia, e que havia cantado várias vezes, principalmente quando caminhava pela terra com seu Senhor. Todos os pequeninos cantavam juntos, dando a canção uma melodia infantil harmoniosa e tranquila. Sem perceber, estava cantando com elas, mentalmente.
"Sasa no ha sara-sara (As folhas do bambu, murmuram, murmuram)
Nokiba ni yureru (Balançam as pontas.)
Ohoshi-sama kira-kira (As estrelas brilham, brilham)
Kin Gin sunago (Grãos de areia de ouro e prata.)"
Uma canção tranquila, que trazia conforto e paz. Virou-se para dar um ultimo olhar as crianças antes que elas desaparecessem de vista, e aquele rapaz estava olhando novamente para ela e sorrindo.
Ahhh, o que é isso, de novo¿ Corou novamente de vergonha e apressou os passos até que a multidão não estava mais em seu campo de visão.
Correu para a cabana, evitando ao máximo fazer qualquer tipo de barulho e entrou em disparada. Fechando a porta atrás de si, e recostando-se na mesma, ficou parada por um momento com os olhos fechados.
Que rapaz estranho, o que ele estava pensando para ficar sorrindo para mim como um bobo¿ Era só o que faltava! É Rin, se você se achava estranha, pode ficar um pouco mais tranquila agora, porque não é a única. Deu um pequeno sorriso e suspirou se acalmando.
Derrepente abriu os olhos bruscamente e seu corpo ficou tenso quando uma aura muito forte youkai tocou seus sentidos, vindo de dentro da cabana. Esta é a cabana de Kagome-chan, uma miko, o que um youkai pode estar querendo aqui¿ Ainda mais quando não há ninguém¿ Puxando um punhal escondido em sua perna direita, sob sua youkata, colocou-se em posição de defesa e concentrando-se em manter sua calma e seus sentidos falou alto e uniformemente.
- Eu sei que há um youkai aqui, então saia agora para que eu possa vê-lo, e explique porque está dentro de uma cabana humana, que não lhe pertence, e talvez eu deixe você ir embora sem mais problemas.
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O que eu estou fazendo aqui, afinal¿
Sesshoumaru mal se lembrava de como havia chegado nesse lugar, estava tão absolvido em seus pensamentos, que instintivamente suas pernas o haviam trazido a fonte de seus dilemas.
Acabara de ter uma curta reunião com seu meio irmão miserável, e após o dialogo cansativo, entrou na floresta e começou a caminhar na direção da aldeia humana, para ver por si próprio como estava sua protegida, deixando seus dois vassalos na clareira descansando para continuarem a viagem no dia seguinte.
Estava agora em frente à cabana onde viviam a miko e sua protegida. Não havia nenhum ruído vindo de dentro do lugar simples, e a julgar pelos barulhos incômodos provenientes do centro do vilarejo, estava havendo alguma festividade e certamente, Rin estava lá, comemorando com outros humanos.
Precisava falar com ela, e de qualquer maneira não faria diferença espera-la. Não estava cansado, e nem iria dormir, já que seria muito difícil descansar tendo que ignorar o cheiro incomodo que exalava da vila humana.
Um casal de humanos se aproximava de onde estava, e para evitar mais ruídos desnecessários, decidiu entrar na cabana e esperar Rin do lado de dentro.
Em um vulto branco imperceptível, já estava dentro do pequeno cômodo.
O lugar continuava do mesmo jeito que em sua ultima visita, pequeno, arrumado e florido. Ainda continua com sua compulsão por flores.
Mas alguma coisa estava diferente. Inspirou levemente o ar.
Lírios, jasmim, flores do campo, algodão, seda, arroz, óleo perfumado, baunilha, cedro, incenso, madeira, agua, terra, sal, sangue... Rin, miko de Inuyasha, Hanyou...
Percebeu que faltava algo, e se lembrou de que era a outra miko, a idosa. Há algum tempo um de seus servos trouxe-lhe a informação de que a velha tinha falecido, e que Rin constantemente visitava o tumulo onde sepultaram o corpo. Humanos... sempre frágeis.
Aquela mulher que se propôs a cuidar de Rin, evitando que ele precisasse pedir já que sua decisão estava feita, tratou-o como era devido: respeitosamente, com seus títulos nobres e mostrou-se sensata. Foi de boa ajuda, prestando seus serviços em um momento oportuno, e ganhou a consideração do Senhor das Terras do Oeste.
No entanto, Rin que se apegou sentimentalmente a mulher, sofreu e chorou com a ausência. Mais uma razão para não manter tais emoções inúteis.
Sesshoumaru deu alguns passos, indo até uma das plantas que estava em um vaso de barro com água, em cima de um móvel de madeira ao lado do shoji*.
Um lírio branco, delicado, que exalava seu odor característico. Tocou levemente, deslizando as garras longas e afiadas pela flor, sentindo a maciez da textura, percebendo cada pequeno detalhe frágil das tépalas*, e o cheiro fraco, de uma flor que murchava lentamente, morrendo sob seus dedos. Rin, pensou. O quarto dela estava atrás daquela porta.
Deslizou lentamente, entrou, e deixou a porta atrás de si aberta. Parou para visualizar o ambiente. Um baú, uma caixa, flores, um livro, pente de cabelos, um espelho, futon e... Aproximou-se, e olhou algo que chamou sua atenção. Sobre o futon, estava o ultimo quimono que deu a Rin, dois anos atrás. Tão delicado quanto a jovem mulher.
Ficou por algum tempo parado, olhando fixamente a veste de seda. Na cor rosa claro, flores pintadas a mão, fios de ouro. Uma veste de princesa, simples, mas apropriada para o jeito extrovertido da jovem. Por que ele está em cima desse futon¿ Será que ela já o usou alguma vez¿ Provavelmente...
Estava aqui para escutar de Rin, se ela realmente gostaria de acompanha-lo para viver nas Terras do Oeste, mas a ideia de vê-la novamente, após alguns míseros anos, causava-lhe um mal estar perturbador. Se ela havia deixado de ser uma pequena criança para uma mulher em tão curto espaço de tempo, como estaria ela agora¿ Ainda a mesma, ou completamente diferente¿ Será que ela gostaria da sua presença, como fazia há alguns anos atrás¿ Ou ela poderia estar completando sua fase de maturidade, já tendo secretamente escolhido um companheiro.
Forçou-se a desviar o olhar, e expulsou os pensamentos que quisesse vir à mente. Esse poder que ela tinha de encher sua mente de perguntas preocupava-o. Essas questões são desconfortáveis, prefiro o silencio de meus pensamentos ou respostas lógicas, à essas perguntas estupidas.
Voltou o olhar para um livro velho, com capa escura e apenas uma assinatura simples. Esse tipo de livro não deveria ser antigo, talvez tivesse uns 70 anos devido às folhas de pergaminho com as bordas levemente sujas pelo uso, mas não mais que isso e, pela capa, deveria ser algo mais pessoal com pouquíssimas cópias espalhadas pelo mundo.
Abaixou-se e pegou o objeto para analisa-lo de mais perto. Uma folha estava com a ponta dobrada, marcando o lugar para a continuação da leitura. Abriu no local, e começou a ler.
"Um jovem atravessou todas as terras em busca dos ensinamentos de um famoso praticante de artes marciais. Chegando ao dojo*, foi recebido em audiência pelo Sensei:
- O que você quer de mim¿ Perguntou-lhe o mestre.
- Quero ser seu aluno e tornar-me o melhor guerreiro que existe. Quanto tempo preciso estudar¿
- Dez anos, pelo menos.
- Dez anos é muito tempo! - respondeu o rapaz - E seu eu praticasse com o dobro da intensidade dos outros alunos¿
- Vinte anos.
- Mas eu lhe digo que vou dedicar-me em dobro, e o senhor me responde que a duração será maior¿
- A resposta é simples. Quando um olho está fixo aonde se quer chegar, só resta um para se encontrar o caminho."
- Interessante. - Lembrou-se de uma conversa que teve com seu chichi-ue quando ele ainda estava vivo. As palavras que ele usou, tinham um significado bem próximo disso que estava escrito. Naquela época, até considerou pensar melhor em tal hipótese, mas essa ideia leviana passou rapidamente. Isso não levaria a nada, não mudaria seus conceitos nem seu modo de agir. Em sua vida existiam metas, propósitos, e iria consegui-las independentemente dos meios necessários.
Virou a folha, para ler a seguinte, mas parou abruptamente ao ouvir alguém entrar na cabana, e logo, o cheiro de Rin atingir suas narinas.
Expandiu seu youki instantaneamente como fazia sempre que a encontrava, atingindo o corpo da menina na outra sala, contornando-o para verificar se ela estava bem. Pode senti-la ficar tensa sob a energia, com o corpo rígido, o coração acelerar, e um leve cheiro do sangue dela.
O coração... As batidas normalmente ritmadas, que soavam como uma melodia natural aos seus ouvidos, estavam agora, rápidas. Ela poderia talvez, estar com medo...
Era engraçada essa situação, onde Rin parecia uma presa. Como em suas caçadas, onde sua vitima entrava em choque, a pulsação se tornava rápida, o cheiro salino da leve película de suor em cada poro do corpo, a tensão que se fazia presente no ar, trazendo a antecipação de seu corpo em sentir a carne, o sangue, e a vida do outro ser sob seus caninos. Onde as pupilas se dilatavam, a adrenalina pulsava em cada musculo, e o desejo de matar aumentava a cada segundo. Apenas uma coisa, e talvez a mais importante, se fazia diferente entre aquele momento e seus momentos de caça: o medo. Era o medo da presa que tornava a caçada, real, estimulante. E Rin não era a sua presa, e não tinha medo do seu Senhor.
Ela era apenas Rin. A pequena Rin.
- Eu sei que há um youkai aqui, então saia agora para que eu possa vê-lo, e explique porque está dentro de uma cabana humana, que não lhe pertence, e talvez eu deixe você ir embora sem mais problemas.
A pequena Rin, em toda sua coragem e tolice!
Se tais palavras não fossem tão sem sentido, poderia considera-las hilárias. De alguma maneira ela conseguiu sentir sua presença, mesmo sem vê-lo, algo que um humano não conseguiria. Apesar de tê-la tocado com seu youki, o poder que usou para essa ação foi mínimo, quase invisível a qualquer ser existente, em exceção de youkais fortes com sentidos bem desenvolvidos. E mesmo conseguindo sentir a presença de um youkai na cabana, ela ainda ousava desafiar.
O lugar ficou quieto, sem nenhum som além da respiração entrecortada da jovem no outro ambiente, que começava a inspirar profundamente fazendo o coração voltar a seu ritmo mais lento. Deixou o livro no quarto e transformou-se novamente em um vulto, passando rapidamente pela porta.
Ela estava a alguns passos de distância da porta de entrada, segurando em posição de defesa um punhal velho e enferrujado. Parou atrás dela, se posicionando entre a menina e a porta, e sem qualquer movimento, focou-se em analisa-la.
As mudanças da jovem mulher eram sutis, mas perceptíveis. Tinha quase o mesmo tamanho, talvez poucos centímetros a mais, o cabelo mais longo e brilhante. Ainda tão negros como a noite e, mesmo com a pouca iluminação no local sua visão apurada deixava-o ver perfeitamente a pele branca e lisa.
Inalou discretamente deixando o ar entrar em seus pulmões. O cheiro da jovem estava mais doce, mas ainda assim era o odor naturalmente calmante e marcante, assim como o cheiro de cobre fraco do sangue dela que também se fazia presente na situação. Ouviu o súbito aumento dos batimentos cardíacos, o aperto dos dedos ao redor do cabo do punhal se intensificar, e a outra mão cerrar-se apertada no punho.
Então ela virou-se, surpreendendo o Senhor das Terras do Oeste por tamanha velocidade, tentando golpeá-lo com o punhal que ostentava. Tão rapidamente quanto a jovem humana tentou atingi-lo, ele segurou seu punho com uma das mãos, sem mover-se um centímetro, ou mudar sua expressão de indiferença perfeita.
Então os olhos dourados encontraram os castanhos, derretendo-os em sua intensidade.
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No canto escuro do altar da gigantesca câmara, estava a figura solitária sentada sobre seu trono feito de ouro, metal fundido, e pedras preciosas. A única luz presente na grande sala luxuosa, vinha do pequeno incêndio no chão, que tremeluzia do lado oposto dos aposentos do Lord.
Ele estava com os olhos fechados, e com exceção dos dedos inquieto da mão direita repousada sobre o braço do assento imperial, que batiam insistentemente contra o metal do objeto, a calmaria transmitida pelo belo semblante era de intensidade celestial. A pele lisa que brilhava sob a fraca luz, os cabelos negros e longos, tão lisos quanto a seda.
Repentinamente, o movimento dos dedos cessou. Para olhos destreinados, o homem poderia parecer ter caído no sono. Só o som dos estalos da madeira sendo reduzida a pó pelas chamas da lareira, podia ser ouvido.
Abriu os olhos rapidamente, em um movimento tenuíssimo, mostrando os olhos vermelhos como o fogo, e as pupilas em formato de fendas. Olhos predatórios no ambiente escuro, olhos caçadores e perigosos. E por segundos, não piscou, ficou apenas estático, olhando hipnoticamente para a porta a frente, de entrada para sua sala privada.
- Entre. - Disse, quebrando o silêncio consistente do lugar.
A porta se abriu, e outro homem entrou, fechando a porta atrás de si. Dirigiu-se com passos largos até o trono, e parando no degrau do piso mais alto, onde se encontrava a figura sentada, ajoelhou-se sobre uma das pernas, abaixou o rosto em uma reverência acentuada, e falou lentamente com respeito que ultrapassava as palavras:
- Meu Lord.
- Reichi, posso sentir de longe sua ansiedade para a conclusão de nossos planos. - Falou o Rei, com a voz transbordando suavidade, enquanto os olhos de fenda continuavam focados no homem ainda em posição de saudação.
- Meu Senhor - Começou o servo enquanto se colocava de pé; - Eu apenas quero fazer meu melhor para agrada-lo, e dar fim a sua longa espera. Eu sei que é de imensa importância o desfecho dos seus planos, e que estás ansioso também.
- Minha querida criança... - Agora, o Lord que se levantava; - Eu tenho esperado longamente e pacientemente para o fim desta procura, e sei que você é o bem mais precioso de todos os meus tesouros. - Foi até Reichi, estendendo a mão delicadamente para segurar o queixo do servo, e suavemente completou; - Mas eu posso ver que, além disso, outra coisa lhe aflige. Diga-me, o que é¿ O que perturba meu servo mais forte e fiel¿
- Meu Lord, estamos tão próximos de concluir seu grande desejo, as informações que conseguimos são de grande valor, o passado que eu vi daquela mulher deu-nos as respostas que precisávamos, mas ha alguém que ameaça dificultar seus planos.
- Reichi, isso não é um problema. Meus planos para Sesshoumaru já estão em andamento, e logo, não haverá mais nada para distrair nosso foco. Ouça, provavelmente em poucos dias poderemos executar o restante do que foi planejado.
O belo Rei soltou o queixo do servo, e deu-lhe um pequeno sorriso acalentador, tentando dissipar qualquer duvida do homem a sua frente. Reichi que também tinha olhos vermelhos, não compartilhava a semelhança das pupilas em fendas, mas sua beleza também era admirável. Ele realmente era seu tesouro, o item mais precioso de sua coleção. A fidelidade daquele homem ia além de qualquer laço de amizade, de familiaridade, de valor, ou amor... Era fruto de uma admiração inestimável, de obsessão sem limites, gratidão imensurável.
- Senhor, obrigado por sua confiança em mim. Tenho certeza que Sesshoumaru não será nada mais que um obstáculo facilmente removível do caminho. Nada poderá parar-nos agora. - Disse Reichi sorrindo. Ajoelhou-se novamente, segurou a mão direita de seu Lord, e plantou um beijo suave sobre a mesma.
- Isso mesmo, minha criança. - Respondeu.
O Lord não se incomodava com o carinho excessivo de Reichi, pelo contrário, queria todas as suas 'jóias', como chamava as pessoas que constituíam sua coleção de bens, adorando-o da mesma maneira. Não sabia explicar o motivo, mas tinha compulsão em colecionar coisas que lhe fossem consideradas de grande valor. Principalmente Pessoas.
Mas o que faltava em sua coleção de preciosidades estava próximo de suas mãos. Se fechasse os olhos e se concentrasse um pouco mais no que tanto desejava, poderia quase tocar, sentir, apreciar. Não, não seria Sesshoumaru, ou qualquer outro que iria impedi-lo de conseguir o que queria. Poderiam dizer o que fosse, fazer o que quisessem, se ele estava dizendo que iria ter o que queria, então possuiria aquilo de qualquer maneira.
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Autora: A. Diandra
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Sumário:
*chichi-ue: forma respeitosa de chamar o pai.
*dojo: sala de treinamento de artes marciais.
*tépalas: Uma tépala é um componente floral das plantas da família das magnólias. É quando as sépalas e pétalas são iguais quanto ao numero, forma, tamanho e cor.
*shoji: painéis delizantes, feitos com papel de arroz, das casas japonesas.
*houshi: monge budista
*sensei: professor; mestre.
NOTA AUTORA: Kagome nesta estória ainda não está realmente com Inuyasha, porque como é dito, a única miko da aldeia que era Kaede, não tinha mais condições de exercer sua função devido a idade avançada, e para não deixar o vilarejo sem nenhuma miko, ela aceitou o pedido de ser a sacerdotisa até que a aprendiz estivesse pronta.
Nas pesquisas que fiz sobre 'mikos', encontrei que no período Sengoku, mikos eram mulheres jovens e virgens, (tanto que no sentido literal da palavra é 'noiva de santuário' ou 'virgem consagrada') que levava uma vida monástica. Essas mulheres não poderiam exercer suas funções, caso não fossem virgem, ou seja, 'puras'.
Por isso Kagome e Inuyasha não estão em um relacionamento sério, porque se acreditava que quando a miko se envolvia com um homem, ela perdia sua 'pureza', e consequentemente seus poderes.
No próximo capitulo, mais sobre o 'reencontro' de Sesshoumauru e Rin.
Deixem comentários. Críticas são bem vindas. Essa é minha primeira história e gostaria de saber a opnião do leitor, para melhorar e aperfeiçoar cada vez mais esse trabalho que é feito com muito carinho e dedicação.
