Once again, major kudos go to MI for this translation.
CAPÍTULO 1
Como seria de esperar às cinco da tarde de uma sexta-feira, o átrio do Four Seasons fervilhava com a multidão recém-saída do trabalho. Homens e mulheres, vestidos com as suas roupas de profissionais, estavam sentados nos sofás e poltronas em redor das mesas baixas, bebendo cocktails e debicando amendoins; alguns conversavam em voz baixa enquanto outros usavam tons bem mais audíveis.
Gil avistou Daniel Colton no bar de imediato. Embora estivesse de costas para a entrada e ele não tivesse visto Dan há mais de 10 anos, aquela cabeça arruivada era inconfundível. Ainda à porta, Gil sorriu, e, antes de se juntar a Dan, ficou um momento a fazer o que sempre fazia, o que meio inconscientemente tinha feito durante os últimos seis anos: olhou toda a sala à procura de uma bonita morena de olhos escuros e sorriso doce.
As esperanças de a encontrar nunca tinham sido muitas e, depois de todos estes anos, mal sentia o desapontamento.
Mas ainda continuava a olhar.
Para o caso de...
Como se sentisse a sua presença, Dan virou-se e, após uma breve hesitação, abriu um largo sorriso. "Hei, Gil!", acenou-lhe enquanto se levantava.
Gil atravessou a sala e apertou a mão de Dan. "Há quanto tempo, Daniel."
"Sem dúvida," Dan fez um gesto com a mão convidando-o a sentar-se. "Uma bebida" disse em voz alta para chamar a atenção do barman. "O que é que vai tomar?"
"Vodka Martini" respondeu Gil directamente para o barman enquanto se virava no assento para encarar Dan que o olhava com atenção.
"Podia dizer que você não mudou nada mas ia ser uma grande mentira. Quase que não o reconheci com essa barba".
Com um meio sorriso, Gil levou inconscientemente a mão ao queixo. "Crise de meia-idade; esconde o queixo duplo".
"A mim parece-me em muito boa forma".
O barman fez deslizar a base de cartão para a frente de Gil e colocou-lhe o copo em cima.
Gil virou a sua atenção para Dan. "Mas não estava quando a deixei crescer e depois de já não precisar tinha-me apegado a ela". Ergueu o seu copo de cocktail ao "Old Fashioned" de Dan num brinde silencioso.
"Falando em apegar..." Dan olhou propositadamente para a mão esquerda de Gil.
Gil encolheu os ombros. "Nunca arranjei tempo ou energia para isso".
"Ou motivação?"
"Humm", descartou Gil.
Dan sorriu divertido. "A Mel teve você bem enrolado - quando é que foi mesmo? Há 33 anos? Caramba, como o tempo voa".
"Ah, é verdade, como está a bela Melanie?"
"Óptima – e ainda muito bem casada com o Chuck. Agora vivem em L.A. Uma autêntica dama de sociedade". Rolou os olhos depreciativamente mas o sorriso revelava a afeição pela irmã. "Como os filhos já saíram de casa, agora dedica a maior parte do tempo a qualquer acção de caridade que atraia o quem é quem de Hollywood".
Os dois homens trocaram um sorriso divertido. Melanie tinha sido a primeira namorada séria de Gil na Faculdade e o seu completo oposto. Na realidade, se ela não fosse uma beleza de arrasar, tinha grandes dúvidas que ele tivesse olhado para ela uma segunda vez sequer. Dan compreendia isso agora, claro, mas enquanto jovem adolescente que idolatrava o chão que o namorado da irmã pisava, o rompimento deles tinha-lhe custado muito.
No princípio desse Outono Gil recebera a primeira carta de Dan, e tinham-se mantido em contacto, esporadicamente, pelos anos fora. Gil tinha ido à sua formatura, ao seu casamento e, finalmente, há pouco mais de 10 anos, ao funeral dos pais e da mulher. Os três mortos num acidente de carro quando regressavam de uma conferência em New York onde o pai de Dan - Juíz do Tribunal de Apelação – fora o orador principal. Dan tinha encorajado a esposa a ir com eles, para fazer compras e assistir a alguns espectáculos, o que ela adorava e, entretanto, ele tinha passado o fim de semana a pescar com o filho pequeno na casa da sua família em Cape Cod.
Embora perder os pais tivesse sido difícil para Dan, Gil sabia que ter perdido Carol fora um golpe devastador. Lembrava-se dela como uma bonita morena de grandes olhos azuis e sorriso sempre pronto. Dan amava-a profundamente e dissera a Gil, alguns meses após a sua morte, que, se não fosse pelo filho, duvidava conseguir sair da cama de manhã. Mas, sendo alto, atraente e de personalidade sociável, Dan nunca tinha tido problemas em arranjar companhia feminina, e Gil tinha esperado que, com o tempo, ele encontrasse alguém com quem viesse a ser tão feliz como tinha sido com Carol.
Tanto quanto sabia, isso não tinha acontecido.
Embora o seu carinho por Dan o fizesse querer perguntar pela sua vida social, Gil hesitou e perguntou antes pelo filho.
"Está quase com catorze", respondeu Dan com uma sobrancelha arqueada que implicava não haver necessidade de mais explicações.
"Ahh", replicou Gil, "estou a ver".
"Para dizer a verdade" – com um movimento de mão chamou a atenção de Gil para uma mesa perto que tinha acabado de vagar. Ambos passaram do bar para o espaço mais privado enquanto ele continuava, "é um miúdo óptimo; mais sossegado do que costumava ser mas isso já era de esperar. Muito honestamente, até é um alívio. Lembra-se como ele era falador com quatro anos?"
Com uma pequena gargalhada. Gil sentou-se em frente de Dan e esticou as pernas. "Se me lembro."
"Até aos treze anos, duvido que ele tenha tido um único pensamento que não lhe saísse logo pela boca fora. Falava a um quilómetro por hora e quase nem parava para respirar". Dan abanou a cabeça. "Às vezes dava comigo em doido. Agora o que me preocupa é o que ele não me diz".
"Bom, não deve ser um grande mistério. Aos catorze anos a maioria das preocupações dele deve usar saias bem curtas".
"Quem me dera", respondeu Dan enfaticamente. "Essa é uma das coisas que me preocupa." Perante o olhar interrogativo de Gil, continuou. "Desenvolveu um sentimento especial pela nossa vizinha lá no Cape quando andava pelos dez. Disse-lhe que quando tivesse crescido completamente casava com ela. Na altura rimos sobre isso. Afinal, qual foi o rapaz que nunca teve uma queda por uma mulher mais velha? Eu, no fundo, até sentia um certo orgulho por ele ter tão bom gosto. Ela é muito atraente." Dirigiu um pequeno sorriso a Gil enquanto dizia isto e depois ficou sério de novo. "O problema é que ele não ultrapassou isso. Não mostra interesse por meninas da idade dele e, quando falhamos um fim de semana em Provincetown, passa o tempo todo no quarto a resmungar sobre o assunto".
"Humm..." Gil mexeu distraidamente o seu martini enquanto ia revivendo uma antiga memória. Mordeu a azeitona e atirou o palito sobre a mesa. "Faz-me lembrar você com essa idade. Lembra-se – como era o nome dela? A, hum ... , a loura espampanante que morava ao fundo da vossa rua?"
Dan riu-se. "Suzy Cooper. Eu e todos os outros. E quem é que ainda diz 'espampanante'? Seja como for, não é a mesma coisa".
"Não?"
Dan abanou a cabeça. "Suzie era uma deusa sexual de 20 anos. Sara tem quase 40."
A simples referência àquele nome ainda agitava qualquer coisa dentro de Gil. A sensação já não era tão intensa como antes. Ignorando-a com a prática adquirida pelo tempo, concentrou-se em Dan. "Isso é estranho", respondeu, mas não era assim tão estranho. Não o disse, porque por mais invulgar que a paixoneta do filho dele parecesse, Gil sabia que não era caso único. Bseando-se na sua experiência como criminologista que, em certa medida, o tinha tornado perito em muitos aspectos da mente humana, perguntou, "E a sua vida social? Teve algum relacionamento sério desde...?"
"Desde a morte da Carol?" Abanou a cabeça e a sombra que lhe cobriu o rosto pouco fez para aliviar a preocupação de Gil. "Tem que entender. O que eu tinha com a Carol... não acontece duas vezes".
"Já lá vão dez anos, Dan. Os fantasmas não aquecem a cama à noite e, de certeza, não preenchem as necessidades de um rapaz".
Dan olhou para Gil franzindo a cara. "Você acha que o Billy está à procura de uma mãe?"
"É possível. Ele perdeu a mãe e a avó aos quatro anos. Houve mais alguma figura maternal na vida dele para além desta mulher?"
"Não", admitiu Dan com certa relutância, reflectindo. "É um ponto a considerar, sem dúvida. Nunca pensei muito nisso, mas há uns anos atrás ela mencionou qualquer coisa sobre o Billy andar a arranjar maneiras de termos que passar mais tempo juntos". De repente começou a rir, abanando a cabeça. "Como é que eu nunca me lembrei disso? Faz todo o sentido. O meu filho arranjou uma mãe e está a tentar que eu me case com ela".
"Como é que se sente com a idéia?"
Dan ergueu os olhos numa surpresa bem-humorada. "A psicoanálise é a sua nova paixão, Gil, ou isso foi um lapso freudiano?".
Ele franziu levemente o rosto. "Deformação profissional". Após uma ligeira pausa, acrescentou, "Tenho estado preocupado com a sua aparente ausência de vida social desde que a Carol morreu".
"Eu estou bem. De todas as pessoas, sempre pensei que fosse você a que compreendesse melhor. Não foi você que se manteve afastado de ligações e complicações românticas durante toda a vida?"
Gil encolheu os ombros. "Não é bem assim. Há uma diferença entre não querer uma coisa e não saber como a conseguir, ou em conservá-la quando a encontramos. Você, pelo contrário, nunca teve problemas nesse campo".
Dan respondeu-lhe com um sorriso amargo, acabou a bebida e chamou a empregada. "Outra?", perguntou.
"Claro".
Quando a empregada se afastou com os pedidos, Dan disse "É uma mulher muito especial. Herdou a casa a seguir à nossa há cinco anos e transformou-a numa Casa de Hóspedes de sucesso. É interessante e esperta, e bonita, e uma fotógrafa muito talentosa. E adora o Billy, claro. Fazemos companhia um ao outro e tem sido bom... sufucientemente bom".
"Um poço de virtudes. Então o que é? Você não está apaixonado por ela, ou tem medo de se apaixonar por ela?"
Gil moveu-se ligeiramente, incomodado, ao ver todos os traços de humor desaparecerem do rosto de Dan. Tinha passado boa parte da vida a interrogar pessoas, a mergulhar na sua mente, a tentar entendê-las, a manipulá-las para que se revelassem e, por vezes, a julgá-las. Fazia parte do trabalho e, após tantos anos de prática, olhar para dentro da vida das pessoas tinha-se tornado uma segunda natureza. Mas o respeito pelos amigos e colegas nunca lhe permitira atravessar essa linha quando se tratava deles – a não ser que a posição que tinha no laboratório o exigisse e, mesmo nessas circunstâncias, sentia-se sempre desconfortável. Com Dan era diferente. Sempre fora. Era sete anos mais novo que ele e, apesar de hoje em dia isso ser irrelevante, ainda o via como o irmão mais novo que o tinha admirado enquanto adolescente e procurado os seus conselhos quando jovem.
E preocupava-o que ele permanecesse ligado à imagem da sua falecida mulher.
Dan chamava-lhe amor, o tipo de amor que só acontece uma vez na vida e, embora isso fizesse sentido ao princípio, dez anos mais tarde, Gil já não podia concordar. Sentia-se tentado a ir mais fundo, a levar o amigo à conclusão a que, ele próprio, tinha chegado há muito: que era culpa e medo que o impediam de seguir com a sua vida para à frente. Mas a expressão triste e apagada que surgiu no rosto de Dan manteve-o em silêncio.
Gil suspirou mentalmente. Pelo menos conseguira tocar no ponto que queria.
A empregada voltou com as bebidas, proporcionando uma muito bem vinda pausa. Depois de lhe agradecer, Gil olhou de novo para Dan, que, por sua vez, o fitava atentamente com um pequeno sorriso nos lábios.
"O que aconteceu com 'Trate de si e não me venha com conselhos sobre amor'? Desde quando é que você também é perito em assuntos de coração?"
"Tem razão. Não estou em posição de me meter nessa parte da sua vida. Desculpe".
"Huum..." Dan cruzou as pernas enquanto se recostava melhor. E, após uns momentos de silêncio disse inesperadamente " 'Curador das Coleoptera'. Deve agradar-lhe."
"Agrada. E também vou ensinar, o que torna a posição ainda melhor".
"Nunca me disse porque se retirou como CSI".
Gil suspirou com pena. "Os joelhos. Físicamente, o trabalho utrapassou-me. Só me restava a gestão administrativa e nunca gostei dessa parte". Soltou uma pequena gargalhada auto-depreciativa. "Nesse ponto era um desastre. Estava na altura de fazer outra coisa e esta nova posição vem com o benefício adicional de me dar mais tempo para escrever".
"Ah, sim. Um romance policial, Gil? Surpreendeu-me".
"Penso que vai surpreender muita gente. Prefiro que não se fale ainda sobre isso – pelo menos até ter tudo já bem maduro, e se chegar aí".
"É claro que vai chegar. Vendo bem, com a sua experiência em criminologia, você deve ter um poço infindável de histórias à espera que alguém as conte". Dan rodou o pulso devagarinho, agitando o líquido dourado do copo. "Já pensou onde é que vai morar?"
Gil confirmou com um gesto da cabeça. "Comprei um condomínio perto do campus. Passa para a minha mão no fim de Agosto portanto, se souber de algum local até ao fim do Verão –"
Sem qualquer hesitação, Dan convidou, "Venha ficar comigo e com o Billy no Cape. É onde passamos a maior parte do Verão".
Também sem hesitar, Gil concordou. "Obrigado, é muito simpático da sua parte, mas—"
"Não diga mais nada", interrompeu Dan. "Você precisa de paz e sossego para trabalhar nesse seu romance. Venha passar uns dias connosco, pelo menos. Vamos voar para lá amanhã cedo e ficamos toda a semana, portanto pode aparecer quando quiser. O Cessna também só leva duas pessoas. Se não se importa de ir de carro, ficamos lá à sua espera".
"Seria muito bom. Ouça, agradeço a sua oferta mas, nas presentes circunstâncias, acho que não serei a visita mais agradável".
"Compreendo. Pode sempre ir dar uma volta de carro quando precisar". Recostou-se e esticou as pernas. "Vá, fale-me lá desse romance policial".
E, sentindo-se muito mais leve, foi exactamente o que Gil fez.
O início da época turística em Cape Cod fazia-se sentir ao longo da US 6 East entre Truro e Provincetown. O trânsito pesado prometia prolongar a viagem de duas horas e meia entre Boston e o fim do Cape para muito além de três. Mas Gil não se importava. Gostava da viagem, do tempo para reflectir calmamente, que ainda pouco tinha apreciado desde o final dos seus vinte e cinco anos de carreira há três semanas atrás. Também ainda não tinha tido tempo para arrependimentos, mesmo que esse momento acabasse por chegar.
Mas não ia ser hoje.
O Sol do 1º dia de Julho era confortável para quem estava habituado ao abrasador calor do deserto. Não ligou o ar condicionado do carro mas deixou as janelas abertas, para deixar entrar a brisa suave e de aroma levemente salgado, e deliciou-se com a sensação de paz, quase estranha para ele depois de tantos anos sempre a viver em inquietude.
Quando chegou a Provincetown foi tomado por um surpreendente sentimento de excitação e antecipação. Seguiu pela Commercial Street, continuou, para sul, pela Harbor Drive e virou para a pequena rua fechada onde ficava a casa dos Colton, igual ao que sempre fora, graças às leis de conservação que datavam da administração Kennedy.
Estacionou atrás do carro de Dan, no estreito acesso, e olhou para cima, para a ampla casa de dois andares construída pelos anos 30. Tinha envelhecido bem através dos tempos. Recuperara o tom de prata velha e as madeiras continuavam cuidadosamente pintadas de um azul escuro acinzentado.
Havia uma única casa atrás da dos Colton, ligeiramente maior, de estilo conhecido como Georgian Colonial. Gil notou que, ali, o tempo não tinha parado. Lembrava-se de uma casa velha e decrépita, em que ninguém reparava, e que nunca fora recuperada por fora, o que muito tinha irritado os Colton. Agora, a casa brilhava com camadas recentes de tinta azul-cinzento, quase do mesmo tom que a de Dan. Um pátio muito bem cuidado, protegido por uma cerca baixa de pedra, tornava-o convidativo e, ao mesmo tempo privado. Até as árvores e arbustos pareciam pedir que se fosse descansar ali. O letreiro colocado sobre o artístico poste de ferro-forjado mesmo à entrada identificava-a como "Summerhouse".
Dan apareceu acenando. Gil puxou a alavanca para abrir a mala do carro e saíu do seu novo Lexus.
"Problemas com o trânsito?"
"Fim de semana do 4 de Julho. Era de esperar", respondeu Gil enquanto tirava a bagagem do carro.
Dan foi ao seu carro e retirou 3 sacos mais que cheios do banco de trás.
Gil fechou a mala. "Você acabou de chegar?"
"Sim... Tive uma urgência esta manhã". Olhou de relance para a outra casa, com umas rugas bem humoradas a marcarem-lhe a testa, pondo um saco sobre o ombro, segurando os outros dois com a mão esquerda e usando a direita para fechar a porta. "Esse meu Billy", disse num tom exasperado. "Foi direitinho para a casa da Sara no preciso momento em que chegámos. Ao menos podia ter ajudado a tirar a bagagem".
Gil sorriu e seguiu atrás de Dan. Indicando a casa vizinha com o queixo, disse "Grande diferença".
"Bem pode dizer. Estive quase a ir falar com o Mayor para que tomassem uma atitude em relação àquilo. Quando a velha Mrs. Crawford morreu deixou a propriedade à filha, a mãe da Sara, mas acho que ela nunca cá voltou depois do funeral. A Sara, quando a herdou há 5 anos, é que arranjou tudo".
Lá dentro, Dan largou os sacos na sala de entrada e Gil fez o mesmo. Foi atrás dele pelo comprido corredor até ao fundo da casa, passando pelas escadas em forma de L à direita, e a dupla sala de estar à esquerda. As cortinas estavam fechadas mas, tanto quanto Gil conseguiu ver na penumbra, nada mudara em dez anos. Até a mobília parecia ser a mesma.
A cozinha, pelo contrário, era cheia de luz. Enquanto digitava um número no telefone sem fios, Dan apontou-lhe um lugar no balcão do pequeno-almoço e Gil sentou-se. Para além do balcão para refeições, havia uma grande área no centro para cozinhar, equipada com tábua de cortar e fatiar e um enorme extractor de fumos por cima.
Ao telefone, Dan disse, "Olá, Steph. É o Dan. A Sara está por aí?"
Os olhos de Gil varreram o resto da grande cozinha. Era muito mais luminosa do que ele se lembrava mas, ao mesmo tempo, familiar, com os seus armários de carvalho claro e as bancadas cor-de-vinho, num tom idêntico aos mosaicos do chão.
Segurando o telefone com o pescoço, Dan tirou 2 cervejas do frigorífico, abriu-as e ofereceu uma a Gil. Depois levou a garrafa à boca.
Quando ia começar a beber, sorriu. "Olá! Ocupada?"
Gil ligou pouco ao resto da conversa. A sua atenção estava ocupada com a fila de janelas duplas e os estores erguidos para deixar entrar a luz do entardecer quando Dan, olhando por uma dessas janelas, disse, "Sim, estou a vê-lo. E disse-lhe que temos uma visita?" Olhou para Gil e ergueu o polegar na direcção da casa vizinha, enquanto sussurava 'barbecue'. Gil concordou indiferentemente. "Claro que vamos. Eu levo o vinho".
Gil levantou-se e passou pela porta de correr em direcção ao alpendre traseiro, e a um pequeno jardim, surpreendentemente bem tratado, absorvendo a linda vista do porto de Provincetown que se avistava ao fundo, por detrás do que ele sabia ser uma estreita faixa de praia para além do portão.
"Sim, é um velho amigo meu, escritor..."
Como não estava a habituado a ouvir descreverem-no desta forma, Gil virou-se rapidamente para encarar Dan.
Este piscou-lhe o olho e continuou com o seu ar mais inocente. " Ouça lá... já acabou o tal quarto do sotão?" Escutou um pouco e desatou a rir. "Não lhe disse para não confiar nesse sujeito? Quando é que você ouve seja quem for?... Pois, pois. Agora a sério. Conheço alguém que poderá estar interessado... Sim, está à procura de um local sossegado para escrever durante o Verão." Gil tornou a olhar para ele, pedindo uma explicação, mas Dan sacudiu a cabeça despreocupadamente. "Óptimo, vemo-nos mais tarde. Estamos por aí em...", olhou para o relógio, "...cerca de uma hora, está bem para você?... Óptimo. Até logo – ahh, e diga ao Billy para voltar para casa imediatamente. Ainda nem desfez as malas".
Depois dele ter desligado, Gil ergueu uma sobrancelha. "Que história era essa?"
"Que tal passar o Verão em Provincetown, com total privacidade, livre para entrar e sair como lhe apetecer, sem ninguém lhe perguntar nada?..."
"Summerhouse?"
Dan acenou que sim. "É uma suite bastante ampla no sotão. Eu chamo-lhe o 'quarto do sotão' mas ela não gosta nada. Chama-lhe 'O Ninho da Águia', ou qualquer coisa assim. Tanto faz. É grande e tem vista para o porto, mas o melhor é que está vago e disponível... bom, quase disponível. Ela teve um problema com a canalização, mas nada que não esteja arranjado já na terça-feira".
"Parece interessante. Falo com ela sobre isso mais tarde, ao jantar."
Nesse momento, apareceu um rapaz sardento de enorme cabelo castanho encaracolado e um pouco de acne adolescente, que entrou por ali dentro, meio-gigando e batendo com a porta.
"Papá! A Sara quer que a gente vá lá jantar!"
"Hei, meu jovem, então e as boas maneiras?" Dan apanhou o filho pelos ombros e virou-o para Gil. "Cumprimente Mr. Grissom".
Billy começou a corar e os seus grandes olhos azuis pousaram em Gil por um breve instante, antes de olhar para o chão. "Olá!"
"Que bom vê-lo de novo, Billy".
Ele olhou para cima, surpreendido. "De novo?!"
Gil acenou em concordância. "Conhecemo-nos quando você tinha quatro anos".
"Ahh." Tendo obviamente esgotado o pouco interesse que sentia pelo velho amigo do pai, Billy virou-se para Dan com aquele interesse específico da juventude, perguntando, "Podemos ir a casa da Sara, Papá?... Por favor?!"
"Só se levar as suas coisas para cima e arrumar tudo. E leve também a bagagem de Mr. Grissom. Ponha no quarto de hóspedes lá ao fundo. O da direita."
"Tá." Começou a afastar-se com o mesmo andar gingado, mas, de repente, lembrando-se de que tinha que ser delicado, parou e virou-se para tornar a olhar para Gil. "É um prazer vê-lo – outra vez, Mr..."
Gil sorriu, interrompendo-o. "Obrigado, Billy. Pode tratar-me por Gil."
"Tá," e desapareceu dali para fora.
Uma hora depois, Gil e Dan entravam no jardim traseiro de Summerhouse pelo caminho da praia. Na pressa de lá chegar, Billy já tinha ido por um caminho mais curto, através dos densos arbustos que serviam de divisão entre as duas propriedades. Um Dan muito tolerante limitou-se a abanar a cabeça ao ver o filho gatinhar por uma abertura nos arbustos que, pelo tamanho, se via ser de tamanho para pessoas e não animais, e mostrava como já tinha sido usada frequentemente como atalho.
Entraram no jardim de Sara passando por um portão de ferro forjado, seguindo por uma vereda ladeada por canteiros de coloridas e fragrantes plantas de todos os tipos, com vários pequenos carreiros que levavam a um caramanchão e a um pequeno tanque de peixes – diversos ambientes, escolhidos e desenhados para proporcionar uma cuidadosa privacidade aos hóspedes de Summerhouse.
Gil não pôde deixar de reparar que tanto o jardim como o edifício eram igualmente muito agradáveis , tanto nas traseiras como na parte da frente da casa. A única verdadeira diferença entre as duas era a grande porta para o pátio - que obviamente não integrava a arquitectura original – dando acesso ao terraço empedrado. As plantas do jardim estendiam-se sobre ele, rodeando-o como fundo para os grandes vasos de terracota e os vários cadeirões forrados de tecido às riscas branco e azul marinho. Um guarda-sol de tecido a condizer cobria uma mesa rectangular, elegantemente aranjada para quatro pessoas, com bases individuais amarelas para cada pessoa, pratos de bonita louça branca, e copos e talheres a condizer.
O efeito era absolutamente encantador.
Dan posou o vinho na mesa. "Vamos precisar de um saca-rolhas. Ponha-se à vontade. Volto já."
Sózinho no terraço, Gil olhou para cima, para a Casa de Hóspedes, para a fila de duplas janelas de guilhotina no primeiro piso e, mais acima, para a pequena janela triangular do mesmo tipo no telhado. "O Quarto do Sotão". Embora ainda nem sequer lá tivesse entrado, as suas impressões até agora deixavam-lhe poucas dúvidas sobre a razão de "Summerhouse" ser tão recomendado. Mas mesmo sem a sua elegância e sua intrínseca aparência de sossego, ter o seu melhor e mais velho amigo – o que para ele era o que mais podia chamar família, para além da mãe – a viver mesmo ao lado, tornavam a idéia de passar ali o Verão ainda mais atraente.
Estava ele a pensar quanto é que dois meses neste paraíso da costa leste lhe iriam custar quando um exuberante Billy apareceu a correr.
"A Sara fez o meu preferido!", anunciou enquanto colocava cuidadosamente na mesa uma taça de guacamole e um cesto de tortillas. Atirou-se para uma cadeira e desatou a comer.
Gil aproximou-se, mergulhou meia tortilla no molho e deu uma dentada. "Éstá muito bom."
"Ela faz sempre isto porque sabe que eu adoro."
Comendo o resto do que tinha na mão, Gil respondeu "Bom, pelo que o seu pai conta, ela parece ser uma óptima pessoa".
A expressão de Billy tornou-se contemplativa. "Gosto muito mais desta casa do que da nossa."
"Porquê?"
Foi a curiosidade que o fez perguntar. Depois do que Dan lhe tinha dito na noite anterior e o que já tinha visto hoje, suspeitava que era por esta mulher – Sara – viver aqui. Mas estava interessado no que Billy tinha a dizer.
Não viu essa curiosidade satisfeita porém. Billy limitou-se a encolher os ombros, ignorando-o, achando que já tinha dito o suficiente a este estranho.
Se Gil, nesse momento, não tivesse ouvido a voz de Dan à entrada do pátio, talvez o interesse no rapaz o tivesse levado a insistir. Mas não foi Dan que o fez esqucer Billy e a sua paixão de adolescente. Foi o riso dela – tão familiar que se sentiu doente por dentro.
E depois ouviu a voz dela. Uma voz que nunca poderia confundir com qualquer outra.
Ela entrou no terraço e ele ficou em choque. Quando aqueles grandes olhos castanhos encontraram os dele, o corpo dela pareceu lutar com o que estava a ver. E, quando conseguiu, o sorriso morreu-lhe lentamente nos lábios.
Teve consciência de como o batimento cardíaco e a respiração aceleraram, de como as as mãos lhe tremiam e do seu instinto para se controlar cerrando-as com força. Teve até uma vaga noção de duas outras pessoas a olhá-los com curiosidade. Mas não conseguiu lembrar-se de uma única coisa para dizer. Perante o choque físico e emocional de estar frente a frente com ela, o cérebro bloqueou e nem sequer se conseguia lembrar de todas as coisas que lhe queria dizer. E fazer. Se alguma vez a tornasse a ver.
Ela disse, quase num curto sopro "Grissom!"
Forçando-se a reagir e responder, engoliu em seco e disse, finalmente –
"Olá, Sara".
- mas, maldição, como a voz lhe tremeu.
TBC
