Amor bruto disfarçado
Em cada soluço perdido
Eu contei quarenta e dois invernos
E chorei sem você.
Like Frozen Silk
II
As sapatilhas estavam ensopadas. Yao as olhou, por alguns segundos, observando o efeito da água sobre o negro tecido. Haviam ficado mais escuras, tão logo ele havia esgueirado para fora do palácio de inverno em sua condenada forma.
A neve o machucava, como nunca machucaria em terra natal. Era absoluta, naquele vasto terreno, hostil para os homens, que a manchavam com suas vagas e perecíveis construções. Depois da guerra a população havia diminuído ainda mais. E a neve cobria, com seu abraço asfixiante, os restantes da destruição, o preço pago por uma vitoria que nada valia. O vento gelado amenizou-se, o suficiente para que ele pudesse continuar caminhando, penetrando na floresta cor de ébano. As arvores pontiagudas brotavam daquele enorme tumulo branco numa triste, porem bela imagem. Talvez as visse florescer, pensou o chinês, caminhando por entre elas, desejando cada vez mais ter coberto seu corpo com algo mais que seda.
Procurou por algum sinal daquela língua. Uma canção russa, que Ivan costumava entoar quando caminhava por sua terra gigantesca, senhor daqueles campos alvos. China ouvia a melodia doce com atenção, sem compreender uma única daquelas palavras derramadas umas sobres as outras, sedosas e estranhamente quentes. Começou a correr.
Sentiu um toque breve, a dor veio alguns segundos depois. O galho pendeu novamente para trás.
Levou um dois dedos ao rosto e recolheu um pouco do sangue, na bochecha direita. Riu da idéia súbita e impertinente que teve: aquele sangue atrairia lobos russos. Aquelas pequenas gotas de cheiro insípido, aumentadas tantas vezes ao olfato avantajado dos predadores. Não sorriu, mas ignorou aquela idiotice, satisfeito pela privacidade daquele medo ridículo, de não ter divido-o com ninguém. Mudou de direção.
"Russia." Arriscou, forasteiro obvio naquela língua, em sua fragilidade chinesa, em seus pequenos gestos ansiosos. "Ivan!" Chamou, com mais força, outros medos mais concretos o assolando, a solidão deixando de ser dádiva. Não o via, em nenhum daqueles espaços abertos entre as arvores, em nenhum ponto daquela claridade pontilhada de negro.
"Iva-"
"Achei você."
Apertou aquele corpo diminuto contra seu peito robusto e melhor agasalhado. Deixou que seu sorriso tocasse o ouvido daquele chinês, que seu hálito acariciasse sua face, enquanto o afundava. Apertou seu corpo contra a neve, observando o elegante caos de seus cabelos cor de ébano, espalhados pelo alvo leito. Segurou seus pulsos finos, encarando aqueles olhos dourados.
Pensou que o amava, em sua estrutura passível de estragos. Que o amava a cada centímetro penetrado por seus dedos frios. Que o amava em sua réplica tímida, doce e afetada. Que amava cada murmúrio de necessidade.
A China sangrava.
Teve certeza de que o amava.
Apoiado sobre os cotovelos, retirou as luvas. Correu uma de suas mãos sobre o rosto tremulo, tocando a fonte do sangue, observando o liquido carimbar as pequenas linhas de seus dedos, escorrer numa única gota que afinava-se conforme o percurso, como se o sangue fosse seu, e brotasse de seu corpo. Apenas a dor do machucado e sua cicatriz tênue e fina lhe faltavam. Levou-o a boca, provando o gosto, esperando algo de salgado, o comum metal. Mas era um sabor adocicado, medíocre em amargor, atenuado em sua boca.
Fitou aqueles olhos cor de ouro. Amava amá-lo, a estranha descoberta de sentir-se preso, porem de não abandonar a si mesmo. Amava-o com toda sua podridão. Amava-o de sua maneira deturpada e sórdida, sorrindo enquanto o afogava, regozijando nas dores causadas por seus atos, porem apreciando cada sorriso moldado para ele, sincero e milagroso, exclusivo. Cada desdobrar nos lábios estreitos e pálidos do chinês, o seu rosto voltado, o absurdo orgulho de fazê-lo feliz. Devotado amante sádico.
"Ivan..."
Um pulso fino se ergueu, deixando que manga larga escorresse por seu braço, relevando a palidez invernal. Tocou a face do russo, sem acariciar, apenas pousando placidamente seus dedos sobre o rosto sorridente. Observou os olhos claros, a pequena mancha escarlate em seus lábios rosados.
"Vai sarar, Ivan."
Uma mão morna e grande veio cobrir a sua. O chinês ofegou brevemente, o ar se transformando em realidade visível á sua frente, quando Rússia cerrou seus olhos cor de violeta, apertando sua pequena mão entre a sua e seu rosto, beijando amavelmente seu pulso.
"Sou uma nação de quatro mil anos. Sei que essas dores não perduram, aru. Em algum tempo elas nada mais serão que lembranças desagradáveis. Aprendizado doloroso, aru. As coisas são efêmeras."
Aquelas cicatrizes desfeitas, vagas manchas de agonias mortas. Yao estava curado. Tão ousadamente a ponto de ver dores exclusivas, veladas por sorrisos ininterruptos, portanto falsos, no rosto soviético, em suas pequenas amostras de humanidade. Fechou os olhos por alguns segundos. Fora violado também, era isso que Yao queria dizer? Foram vinte milhões de vidas, suas vidas soviéticas, relembradas, junto as cinzas de seu passado extinto, a cada vez que visitada seu germânico prisioneiro de olhos vermelhos, a cada vez que seu silencio furioso exigia o retorno ao seu país que agora era julgado por seus crimes. Fora violado - terreno russo manchado de sangue. Fora violado e se importava. Mas não pensava que a vitima oriental pudesse enxergar alguma derrota nele. Falhara em esconder Ivan Braginsky, cobrindo-o com a mascara de União Soviética. Não queria desenvolver o assunto. Voltou-se para a neve, e para a paixão distorcida e obcecada, gentil e deliciada, que surgira naqueles meses de cativeiro, naquela aliança comunista.
"E isso, é efêmero também?"
Yao contemplou por alguns segundos.
E entoou uma mentira, almejando nela alguma verdade.
"Não será, aru."
O russo o mirou por alguns momentos. A resposta não mudou sua percepção. Não se importava. A imprevisibilidade de um futuro inofensivo, por enquanto. Não lhe importava - porem lhe agradava mais, assim - se China retribuía seus sentimentos com a mesma voracidade. O tinha. Não o deixaria partir.
Pendeu o rosto até que seus lábios tocassem. Manteve os olhos abertos.
"Cante para mim, Yao."
Russia afastou-se alguns centímetros, permitindo o espaço para que suas palavras chinesas deixassem seus lábios, ecoassem por um segundo nos ventos gelados e morressem na boca e nos ouvidos russos.
China entreabriu os lábios, e começou a entoar, com sua voz efeminada, quase assexuada, uma voz tão bela quantos seus versos, em sua língua traiçoeira, de ditos nem arrastados nem derramados nem pontuados. Silabas orientais, mínimas e baixas. Um mandarim doce, solitário em sua canção, sem o lamento belo e melancólico dos instrumentos tradicionais. Apenas a voz de Yao, ecoando no terreno russo.
"bei fang youjia renjue shi er du liyi gu qing ren chengzai gu qing ren guoning bu zhiqing cheng yu qing guojia ren nan zai de"
("Uma beleza extraordinária do norte.
A coisa mais bonita existente no mundo. Em seu primeiro olhar, a cidade se curvaria ante seus joelhos
Em seu segundo olhar, o império cairia em ruínas.
Não há um império ou cidade em toda a criação
Que possa ser mais estimada que a sua beleza.")
O beijou com força quando a musica terminou. Quis possuí-lo ali, contra a neve, fazendo-o que o calor de seu corpo não fosse apenas um desejo, mas também uma necessidade. Queria-o morto sem ele. Queria-o vivo tendo-o. Mas lhe permitiu uma incomum concessão, tomando-o nos braços e levando-o para longe, protegendo-o do frio.
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N/A: Esse capitulo estava pronto há muito tempo, mas por algum motivo eu não o postei. A fanfic (provavelmente) não acaba aqui. Mas vai demorar um pouco para ser atualizada.
