#2 - O sangue que desejo
Limpar-se fez o trio descobrir mais um mito sobre sanguessugas: água corrente não os afetava. Afrodite foi o primeiro a mergulhar no rio.
-Ah, precisaremos de roupas! Como puderam me enterrar em algo tão démodé assim? - resmungou o pisciniano quando voltou de um mergulho longo. Não respirar tinha suas vantagens.
Saga também entrou no rio, esfregando a túnica. Camus ainda ficou sentado na beira do rio.
-Deixamos um rastro de três mortes inocentes e vocês aí tomando banho?!
-Três? - perguntou Afrodite - Quantos você matou?
-Do que estão falando? Conseguiram não matar? - perguntou Camus surpreso.
-Eu matei dois. Um enquanto estava louco de sede e outro para reconhecer melhor o sabor do sangue. É delicioso!
-Como pode?!
Aquário estava inconformado, Afrodite parecia bem com a nova vida que levava.
-Infelizmente matei uma serva e deixei outra quase morta. - disse Saga, pensativo. - Acho que não precisamos matar para comer.
-Deveríamos pensar em como descansar em paz! - retrucou Camus. - Sono eterno! Paz!
-Eu estou bem comigo mesmo! - exclamou Afrodite. - Se tenho uma nova chance de ver esse mundo, então está tudo bem.
-Como pode estar bem? Você traiu Atena, matou inocentes quando vivo e agora como morto! Não posso acreditar que você era meu vizinho.
Afrodite lançou a Camus um olhar frio, que ele não costumava dar nem em batalha. Teria a nova condição mexido com o pisciniano?
-Fiz o que fiz acreditando ser o melhor. Não tenho arrependimentos de trair Atena. Fiquei até feliz em aquele garoto de bronze, Shun, me mostrar que estava errado. E hoje preciso de sangue, por que deveria me preocupar com quem morre? Sou o topo da cadeia alimentar agora.
-É um morto, Afrodite! Devíamos estar quietos em nossos caixões e não debatendo a cadeia alimentar.
Saga, permaneceu quieto, ignorando a discussão. Mergulhou, deitando no fundo do rio, achando curioso ver como a água ondulava. Estar como um vrykolaka, um vampiro, era um mundo de contradições, era sentir e ao mesmo não sentir.
Camus e Afrodite continuavam a trocar farpas. Saga se levantou e saiu do rio, interrompendo a discussão.
-Saga... Tudo isso é irracional...! - reclamou o aquariano.
-Sim, eu sei. Mas quero outra chance de proteger Atena. Mesmo que eu aja nas sombras.
Camus se calou. Tinha desconfiança que ele fosse o grande mestre e por isso, permitiu que os outros rapazes de bronze passassem por sua casa. Sempre teve boa memória, mesmo quando ouvia Ares, notava um timbre conhecido. Mas morreu sem ter a certeza, mas quando viu Saga lhe tirando da luz, teve certeza e disparou. E agora o olhando, notou que Saga não fizera o que fez são, e tinha seu coração chorando.
Sim, Saga precisava de alguma forma daquela vida torta que tinham agora.
"Mas ainda é errado estarmos como cadáveres ambulantes" pensou, suspirando apenas por costume, seus pulmões não precisavam daquilo mesmo. Camus saltou para o rio, jogando a água, e deixando a correnteza brincar com a túnica. Decidiu esperar até o coração de Saga aceitar sua morte por completo. Até lá, investigaria uma forma de acabar com aquela vida falsa.
Atena estava sentada no trono do Grande Mestre, acompanhada por Shaka. Shina pediu que ele acompanhasse o relatório, sentiu que o homem mais próximo dos deuses deveria ouvir o relato.
-Para me acordar no amanhecer, deve ser algo grave. - disse a deusa.
-Atena, três mausoléus foram violados. Encontramos três soldados mortos, próximos ao cemitério com a mesma característica de violência. Uma serva também está morta e outra está correndo risco. Todos atacados com perfuração na garganta e quase sem sangue. - disse a amazona de prata.
Shaka notou a mulher comentar dos mausoléus e parecer ignorar o assunto.
-E quanto aos mausoléus? - indagou o dourado, sério.
-O portão de cada mausoléu foi arrancado violentamente e as tumbas mais recentes violadas. Os corpos de Saga, Camus e Afrodite desapareceram.
Atena ficou horrorizada, cobrindo a boca.
-Nenhuma pista sobre quem poderia roubar os corpos? - indagou Shaka, ao notar que Atena estava em choque.
Shina engoliu em seco, agradeceu estar de máscara. Se sentia insegura se dizia sobre ter visto que os portões foram arrombados por dentro.
-Não senhor...
-Obrigada por nos relatar o ocorrido, Shina. - disse Atena, um pouco mais vívida.
Shina se retirou, e logo em seguida, Shaka se ajoelhou perante a deusa.
-Atena, permita-me participar das investigações...
-Você tem alguma suspeita?
-Admito que tenho, mas é uma idéia absurda até para este universo do Santuário.
Saori suspirou.
-Por favor, me mantenha informada...
-Sim...
Já caía noite, e Rodório começava a se preparar para dormir. Mas havia uma parte que não dormiria, a parte daqueles que queriam se divertir. Haviam três rapazes, usando roupas do mundo de fora. Iriam conhecer a moderna Atenas, uma balada, um deles conseguiu as entradas.
Ouviram uma voz a chamar num beco. Sobre a penumbra, viram uma mulher bela, loira. Decidiram começar a noitada ali mesmo e entraram no beco escuro.
Logo foram golpeados e desmaiaram no chão. Camus não estava nada feliz em roubar e Afrodite se livrava do enchimento que usou para simular os seios. Sua androginia, beleza e as sombras fizeram o resto do trabalho.
Despiram os rapazes e Afrodite começou a sugar o sangue do menos atlético.
-Afrodite! - resmungou o aquariano.
-Ao menos não o mate. Chega de mortes. - disse Saga, os olhos ficando vermelhos e brilhantes, enquanto pegava outro rapaz para sugar o sangue.
Camus tinha certeza que seus olhos faiscavam, pois sentia a garganta se arranhar, mas não queria fazer aquilo. Afrodite soltou sua vítima e, rasgando uma parte da túnica, fez um curativo. Apenas o fez porque fora um pedido de Saga e não por gosto.
-Ainda não entendeu que precisa fazer isso, cubo de gelo? Se não o fizer, aí sim, matará alguém. - gracejou o pisciniano, enquanto Saga também tratava do buraco que abriu.
Camus se aproximou do jovem desacordado, eram rapazes como ele que o ex-cavaleiro queria proteger. Parecia apenas pouco mais velho que Hyoga e isso o perfurou.
-Me desculpe... - sussurrou, antes de fincar as presas.
Até achar um meio de fazer tudo acabar, precisava cair de cabeça naquele universo. Teria de desejar sangue tanto quanto desejou um dia viver.
Vestiram as roupas dos rapazes, seus sapatos. O homem de quem Saga bebera era fumante e carregava com ele um isqueiro. Em outro beco, invadiram uma loja e roubou capas de viagem escuras, com capuz e colocaram fogo em suas túnicas bom sangue.
Antes de chamar a atenção, saíram correndo.
Não eram tão velozes quanto eram quando vivos, mas aquele corpo amaldiçoado era forte e ágil. Saíram da vila e entraram na área do Santuário.
Saga pegou um dos cigarros e acendeu, tragando. Nunca tivera oportunidade de experimentar o tabaco, e ficou agradecendo por não precisar de pulmões para lutar.
-Vou ensinar a vocês alguns truques sobre as doze casas. - disse Saga, expelindo a fumaça. - Seria ótimo se você tivesse algo sobre o que somos em sua biblioteca, Camus.
Então uma nova conclusão passou pela cabeça de Camus. Sorriu por dentro.
