— Ai... — Naruto Uzumaki apoiou a cabeça em ambas as mãos, sentado no saguão do aeroporto. — Por que, mesmo, eu fui escrever esse roteiro idiota?
Sentada do outro lado da mesa, Karin Uzumaki observou o amigo — e primo distante — com uma preocupação clara no rosto maquiado.
— Naruto, você vai desarrumar seu cabelo.
— E daí? — Cabelo arrumado ou não, Naruto preferia segurar a cabeça. Se não o fizesse, era bem provável que ela explodisse. — Se eu queria dar uma mãozinha, não podia ter sido mais óbvio?
— Naru, levanta a cabeça e para de fazer drama. E eu que sou a mulher de nós dois.
— Do mesmo jeito, era possível de ela já ter se jogado nele de qualquer forma — continuou Naruto em um tom triste, ainda com a cabeça abaixada. — Ao menos, se ela tivesse mantido a discrição, talvez a população mundial não ficasse sabendo.
— Calma, Naru. — disse Karin. Ela abriu a bolsa Prada que estava em seu colo. — Nem toda a população mundial sabe sobre Sakura e Rock Lee. Com certeza, aquele pessoal que mora nas montanhas não deve nem ter TV para ouvir falar sobre isso.
— Droga. — resmungou Naruto — Por que não escrevi um clichê romântico qualquer? Eles nunca teriam sido colocados juntos para fazer uma comédia romântica. Teria sido estranho. Previsível demais. Os agentes deles nunca deixariam.
— Naruto. — chamou Karin, procurando alguma coisa dentro da bolsa — Você não pode colocar a culpa dessa confusão toda no seu roteiro. Você e Sakura já estavam tendo problemas antes das filmagens começarem.
Naruto olhou a prima. A claridade do saguão tinha um tom rosado que atingia o cabelo de Karin, conferindo-lhe um ruivo ainda mais intenso e exótico.
Na verdade, Karin sempre teve aquele ar excêntrico. Não era a garota propaganda do salão de beleza mais famoso do estado onde morava só por causa da beleza natural. Karin tinha um brilho, e ele vinha de dentro. Ela tinha uma autoconfiança e um 'que' diferente que dava aquele ar extravagante à ruiva, atraindo as pessoas para ela.
— Verdade — disse Naruto, sentando ereto na cadeira do aeroporto. — É verdade que estávamos tendo problemas. Ficamos juntos por quanto tempo? Sete anos? Sete anos, e ela não queria casar. Eu, com certeza, chamo isso de problema.
Naruto não sabia bem o porquê de se sentir na obrigação de dar justificativas para a mulher sentada ali. Karin nunca ia entender. Modelo, atriz e eleita uma das mulheres mais sexys do mundo por algumas revistas, Karin sempre tinha tudo que queria na palma da mão.
Quer dizer, até que isso não era uma verdade completa. Tinha uma coisa que Karin quisera e não conseguira: ela havia se apaixonado por um cara que a abandonara assim que ela dera indícios de que queria algo mais sério. Tudo bem, isso tinha acontecido há alguns anos. Agora, Karin estava noiva de um dos fotógrafos mais famosos no cenário mundial. Muitos os viam como um dos casais mais bem sucedidos do mundo.
— Sakura, no começo do namoro, me falou que um dos motivos para não querer assumir um compromisso comigo era que ela não desejava que eu acabasse com uma atriz falida — disse Naruto — Então escrevi alguma coisa que pudesse ajudar.
Karin achou o que queria na bolsa — seu espelho de bolso da Dior — e passou a analisar o próprio rosto, checando se a maquiagem continuava perfeita.
— Naru — começou Karin enquanto olhava seu reflexo — você não escreveu alguma coisa que pudesse ajudar. Você escreveu uma obra de arte da literatura e do cinema que transformou Sakura de uma zé-ninguém sem graça em uma estrela de cinema em cinco minutos. E como foi que ela lhe agradeceu? — Karin fechou o espelho de bolso e olhou os olhos azuis do amigo — A vagabunda fugiu com o par dela do filme. Só não entendo porque o choque foi tão grande. Você dois já estavam se separando há algum tempo, não?
— Dois meses. Mas ela não falou nada sobre ter se apaixonado por outro. Ela só disse que não queria compromisso sério.
— Quando, na verdade, ela estava mais que pronta. Desde que fosse com alguém famoso, rico e que fizesse tudo que ela mandasse. Naru, ela queria um servo fiel, não um marido. E foi o que ela conseguiu com o tal de Rock Lee. Você merece coisa muito melhor, vamos combinar, ok? — Karin disse, antes de fechar a bolsa e olhar em volta. — Agora, me ajude a achar algum lugar aqui que venda um expresso.
— Quando eu penso em tudo que já fiz por ela! Juro que ter escrito aquele roteiro foi a coisa mais idiota que já fiz.
Karin se ergueu, decidida a achar um expresso antes que chegasse a hora de embarcar no avião.
— Ter perdido tanto tempo com aquela vadia da Sakura foi o seu maior erro — argumentou. — Ter escrito "Renmin Dahuitagn" foi uma cartada genial. Pelo amor de Deus, Naruto, o filme virou um clássico do cinema e não tem nem um ano desde que foi lançado.
— Porcaria de clássico — respondeu Naruto, irritado.
— Faltou certa profundidade — disse Karin —,nisso eu concordo. Mas as cenas de ação e aventuras foram o máximo. E as cenas românticas entre Sakura e Lee... — Naruto percebeu que Karin balançou a cabeça para esquecer-se do comentário indevido que faria. Karin mordeu o lábio inferior e falou com uma expressão culpada: — Ai, Naru, desculpa.
— Tudo bem. — Naruto se recostou na cadeira. — Não se preocupe. Eu já suspeitava. Mas, vamos mudar de assunto: Como vão as coisas entre você e o Suigetsu?
— Você é um fofo, Naruto. Eu sei que está querendo mudar de assunto, mas continua sendo fofo. — disse Karin sorrindo
Naruto apenas resmungou, fechando o casaco ainda mais, para tentar se proteger do frio intenso do aeroporto. Não via a hora se chegar ao set de filmagem de "Nindo III" para poder falar logo com o diretor e tirar da cabeça dele essa idéia de explodir uma montanha apenas por uma única cena do filme...
Mas gemeu mentalmente ao lembrar-se de quem estaria lá. Jiraya e Kakashi. Tudo que precisava para deixar sua vida perfeita, realmente. Quanto ao primeiro homem, apesar da irritação que ele causava em si, devia muito a ele. Jiraya fora quem enviara seu roteiro para o diretor certo, o que gerou a saga "Nindo" nas telonas. Mas a personalidade pervertida e despreocupada do mais velho lhe dava nos nervos em certos momentos, principalmente pelas vergonhas que já passara ao lado dele.
Já Kakashi Hatake... Bom, Naruto apenas não ia muito com a cara do homem. Conhecera-o quando era mais novo e ainda estava ingressando no mundo do cinema. Lembrava-se bem da ocasião em que se conheceram, o homem chegara terrivelmente atrasado, com uma máscara tampando metade do rosto e óculos escuros — obviamente se disfarçando dos fãs — e um sorriso despreocupado. Kakashi tinha sido o ator escolhido para ser o protagonista do filme, o "Canino Branco", e fez tanto sucesso que acabaram por fazer mais um. E agora estavam fazendo o terceiro filme, que acabara por virar uma saga.
Kakashi fora e continuava a ser o protagonista nos três filmes. Naruto não gostava do modo despreocupado do mais velho, do jeito galanteador e namorador dele e nem da mania dele de mudar as falas que o loiro escrevia. Nunca vira o Hatake fazer nada seriamente, fosse no trabalho, fosse na mídia ou fosse nos relacionamentos.
Bem, no dia em que Kakashi resolvesse ter um relacionamento sério, Naruto daria um mergulho na maior piscina que encontrasse só de sunguinha.
— Olhe. — chamou Karin — Tem alguém terrivelmente descabelado, devo dizer, vindo para cá. Talvez ele tenha como me dizer onde eu posso arrumar um expresso. Ou, pelo menos, explicar por qual motivo o vôo está demorando tanto para sair.
O homem era realmente um integrante da equipe. Na verdade, era o próprio piloto do jatinho.
— Estamos apenas esperando o — informou o homem alto e uniformizado — e poderemos partir.
Naruto não tinha certeza se tinha ouvido direito.
— Kakashi Hatake? — repetiu ele, arregalando os olhos azuis. — Estamos esperando Kakashi Hatake?
O piloto estava tendo dificuldade em desviar os olhos de Karin, que o ignorava enquanto procurava algo na bolsa, mas acabou por conseguir, depois de algum esforço.
— Sim, senhor. — respondeu ele, voltando a mirar Karin, antes de se retirar. Todo homem que Naruto já conhecera ficava atraído pela beleza da ruiva como se fosse um imã.
— Meu Deus — disse o loiro, agarrando o tecido da manga de seu casaco com mais força. Ele olhou para Karin, que estava ocupada teclando no próprio celular. — Você ouviu o que ele disse, Karin?
— O que ele disse? — Karin disse quase com nojo. — E o que ele estava vestindo? Nunca vi alguém com tanto xadrez ao mesmo tempo. Que horror.
Naruto incrédulo olhou para a prima. Achava revoltante como Karin podia ser superficial em certos momentos, mas talvez fosse algo das mulheres. Sakura, Tsunade, Ino... Todas as mulheres que já havia conhecido alternavam momentos de compreensão e doçura com superficialidade e futilidade. Algumas eram mais fúteis que outras, mas sabia que não tinha como mudá-las. Ou entendê-las.
No entanto, sabia bem que Karin era assim mesmo. Era um dos motivos pelos quais Naruto era amigo dela há tanto tempo. Karin podia ter momentos horrivelmente fúteis e era constantemente tomada por uma força sobrenatural que a levava a entrar em lojas de grife e comprar tudo que visse. Mas, apesar disso, também tinha uma compaixão imensa por aqueles que necessitavam de ajuda e era capaz de parar na rua e dar uma nota de 100 dólares a qualquer pobre que visse pela frente.
— Kakashi vai com a gente no avião, Karin. — explicou Naruto, querendo se certificar de que a amiga tinha ouvido o piloto. — Kakashi Hatake.
— Eu escutei, Naru. — respondeu Karin, batendo o pé irritadamente no chão — Ele é o protagonista do filme, não é? Faz sentido ele ter que ir para o estúdio de filmagens. No Alasca. Qual o seu problema de escrever um roteiro com o Alasca como cenário? Não podia ser algum lugar menos frio, não?
— Você já me perguntou isso, e eu já respondi que não tenho controle sobre o que escrevo. — Naruto devolveu, voltando a sentar-se. Observou Karin sacar o telefone mais uma vez e franzir o cenho, claramente aborrecida.
— Não dá para entender isso. Por que não tem sinal aqui? Estamos aonde? Na Sibéria? — reclamou Karin, com o celular de última geração no ouvido.
— Karin, acho que estou passando mal. — Naruto disse, assanhando os cabelos loiros. A idéia de andar num avião, a não se sabe quanto metros do chão, e acompanhado de Kakashi Hatake, por várias horas, lhe revirava o estômago.
— Ah, não, não vai mesmo. — respondeu Karin irritada, fechando o celular e enfiando o pobre objeto de volta na bolsa. — Vá ao banheiro lavar o rosto, melhorar essa cara, arrumar esse ninho que você chama de cabelo e tomar vergonha na cara. Você já está grande o suficiente para ter medo de avião.— Karin virou-se sobre os saltos finos de um de seus pares de sapato caríssimos de marca e saiu, deixando um Naruto levemente pálido para trás.
— Certo. — murmurou Naruto para si mesmo. Felizmente, ele era a única pessoa ali e não havia perigo de ser ouvido. — Eu posso. Eu consigo entrar num avião, que vai subir milhares de metros do chão com Hatake Kakashi. Vai ser fácil. É só sentar, fechar os olhos e me imaginar no Ichikaru, esperando por mais uma tigela de rámen. Sempre dá certo. Por que não daria agora?
Encorajado por suas próprias conclusões, o loiro se levantou, ajeitou sua mochila nos ombros — e uma bolsa, bem mais pesada, com seu laptop — e entrou no banheiro, que nem era tão ruim quanto ele achara que seria. Jogou água no rosto e bateu nas próprias bochechas, tentando melhorar sua expressão, mas as sombras embaixo dos olhos não estavam ajudando. Estavam lá desde que Sakura se mandara e se casara com Lee. Karin até se oferecera a emprestar um de seus corretivos, mas Naruto negara. Só usava maquiagem quando obrigado em eventos onde teriam fotografias a serem tiradas. Ou quando perdia alguma aposta.
Se o corretivo pudesse ajeitar mais que as olheiras, quem sabe... Naruto sorriu para seu reflexo. "Corretivo para cicatrizes emocionais." Era uma boa frase. Talvez entrasse no seu próximo roteiro. Um pouco menos sonolento, saiu do banheiro e fechou o casaco até embaixo do queixo ao voltar ao ambiente mais frio do saguão. Abriu sua mochila atrás de seu cachecol.
Achou-o no fundo da bagunça de sua mochila velha e surrada, que era como uma parte dele, e por isso nunca a jogaria fora. Pelo menos, não até que não rasgasse. Enrolou o tecido de variados tons de laranja no pescoço e suspirou satisfeito. Se desse de cara com alguém, pelo menos não estaria morrendo de frio e com uma cara muito terrível.
De fato, o loiro estava em forma — depois que Sakura saíra do apartamento que dividiam, tentou expulsar a presença da atriz de seus pensamentos e corpo através da esteira que tinha em sua sala. Acreditava que se livraria da presença da ex-namorada pelo suor. Perdera peso devido à dieta baseada em rámen e chá a qual aderira desde a saída dela de sua vida — eram as únicas coisas que conseguia se forçar a comer.
"Sakura", pensou o loiro. "É tudo culpa sua, Sakura"
Não era. Naruto sabia que se alguém era culpado naquela história, esse alguém não era ela. Antes de mais nada, nunca devia ter se apaixonado por Harumino Sakura.
Primeiro, é claro, porque ela era uma atriz. E uma coisa que Naruto tinha aprendido com seus anos no mundo do cinema é que nunca — jamais — se deve confiar em atores e atrizes. Nunca confie neles e nunca se apaixone por eles.
Mas como ele poderia saber disso na época do colegial? Embora sempre tivessem morado no mesmo bairro e estudado na mesma escola, Sakura só foi notar Naruto Uzumaki no último ano, quando ele finalmente cresceu alguns bons centímetros. De repente, do nada, Sakura Harumino o chamou para sair. Sakura Harumino, a garota mais gata do clube de teatro da escola — que insistia em ser chamada de Sakura Haruno.
Ela era lindíssima. E por um tempo — bastante tempo — só isso foi suficiente. Mas mesmo tendo se apaixonado, Naruto começou a se enervar já no começo do namoro. Ela era muito bonita, não tinha como negar.
Mas ela era divertida? Tinha pelo menos um pouco de senso de humor? Não, não tinha. Temperamental? Geniosa? Se Sakura não recebesse a atenção que achava que lhe era merecida — do diretor do teatro, dos amigos de palco, de Naruto —, ela simplesmente fechava a cara. E ficava muito séria. Até chegava a perder parte da beleza.
Tudo bem, ela era uma artista. Ninguém, nem mesmo Naruto, como a garota insistia em dizer, entendia o sofrimento que sentia a cada personagem que aceitava fazer. Ela tentava achar a essência do personagem, tentava adaptar sua voz para o tom que o personagem pedia para cada fala. Sakura não entendia de jeito algum como o loiro podia comparar a arte da atuação com a arte da escrita. Escrever, como todos sabiam, era uma habilidade. Atuar, no entanto, era um dom.
O triste era que Naruto acreditara nessa besteirada toda por tempo demais.
Mas, puxa vida, como ela era bonita... O sonho de qualquer homem, a namorada perfeita. Sakura era como Isabeau, interpretado por Michelle Pfeiffer em "O feitiço de Áquila". Ela era tudo para ele. E o fato dele ter sido escolhido... ele, Naruto, o palhaço, o baixinho... era um sonho que tinha virado realidade para um garoto que estava muito mais interessado em filmes do que em academia e esportes. Ele tinha sido o escolhido de Sakura, e não capitão do time de basquete, não o mauricinho do colégio, lindo, que estrelava todas as peças. A conquista de Naruto fora como um golpe de estado.
Mas tudo isso tinha acabado. Agora, quase sete anos depois, parecia que os atletas e os mauricinhos tinham vencido. Afinal de contas, Sakura escolhera casar com um homem mais rico, mais famoso, mais... bem, Naruto não diria mais bonito, mas, certamente, Lee era mais másculo que ele, sendo o ator chinês famoso que era por seus filmes de artes marciais. E fora Naruto mesmo quem fornecera os meios para que Sakura atraísse o pobre chinês para sua rede.
— Você não era tão distante — dissera Sakura no dia em que se separaram — levava tudo numa boa, e estava sempre comigo. — Naruto sabia o porquê de ela falar aquilo: ele estava segurando a porta para que Harumino, com sua mala cor de rosa em mãos, saísse, ao passo que ela desejava que ele implorasse aos pés dela para que ficasse. — É como se aquele garoto cheio de sonhos com quem eu me mudei para a Califórnia tivesse morrido. — foram as palavras de Sakura.
E era verdade. Naruto havia crescido, amadurecido e enriquecido, tanto por dentro, quanto por fora. Ele poderia se sacrificar pelos que amava, mas sabia seus limites, e estava na hora de mostrar isso. Não permitiria que uma mulher, que o estava abandonando, pisasse nele. Naruto Uzumaki podia não ser o homem mais genial do mundo, mas não era estúpido.
— Chega. — sussurrou para si mesmo — Pare com isso. Você não é mais o palhaço da sala. Você é Naruto Uzumaki. — Levantou e endireitou os ombros, encarou seu reflexo numa das janelas envidraçadas do aeroporto. — Você é um roteirista que ganhou um Oscar e em breve vai ganhar mais.
Caso conseguisse voltar a escrever o roteiro em que estava trabalhando. O primeiro capítulo havia sido iniciado algumas semanas antes. Era um romance sobre um homem que encontrava um novo amor, e nesse relacionamento reencontrava o sentido da vida, depois de ser traído por sua ex-namorada. Um roteiro totalmente ficcional. Qualquer semelhança com a vida de Naruto era da mais pura coincidência.
— Quando Sakura estiver caindo, junto com seu silicone, e ela não puder mais atuar — disse Naruto para o tênue reflexo —, você estará escrevendo. Seu maior atrativo não é feito de aparências. E, até lá, não se esqueça: chega de atores. Vamos, sorria.
Não funcionou. Naruto analisou o sorriso que seus lábios mandaram e desistiu. Ele não estava conseguindo sorrir e nem chorar. Talvez Sakura tivesse razão e estivesse mesmo se tornando mais distante, mais frio. Irritado com sua linha de pensamento, Naruto virou-se para sair e procurar Karin; caminhou até a saída...
E deu de cara com Kakashi Hatake, em pé ao lado do balcão da cafeteria. Ele parecia distraído — e lindo —, vestindo jeans escuros e uma jaqueta de couro marrom.
— Ah, aí está ele. — Karin, que já acabara sua ligação, parecia um pouco preocupada. Claro que, apesar do cenho franzido, continuava maravilhosa. — Veja quem apareceu, Naru. Bem, acho que você já está vendo com seus próprios olhos.
Kakashi Hatake quase não conseguiu segurar o copo de café por causa do encontrão com Naruto.
Assim que os olhos negros dele encontraram os dele, sentiu o rosto esquentando e sabia que estava ficando vermelho. E o homem estava de óculos escuros! Naruto, ao fim do colégio tinha aloirado ainda mais o cabelo porque os fios tinham começado a ganhar um loiro mais escuro, puxado para o arruivado. A sugestão tinha sido de Sakura. Mas depois de começar a trabalhar, percebeu que fora idiotice e apenas dava trabalho, então parara de clarear o cabelo e o deixara voltar à cor natural. Só que ainda havia ocasiões nas quais ele preferia não ter aquele tom de loiro-arruivado. Agora, por exemplo. Ele ficava corado com certa facilidade... era só pensar na palavra "vergonha"que seu rosto já ganhava cor.
O pedido de desculpas pelo encontrão ficou engasgado tão logo pensou em emiti-lo. Toda a sua habilidade de expressar ao menos uma sílaba foi anulada, e um calor tomou-lhe o rosto. Naruto Uzumaki estava pegando fogo.
No entanto, qualquer um ficaria assim ao encontrar Karashi Hatake. Sem querer dar muita importância ao físico, mas ele media 1,80m e concentrava 75 quilos de pura massa muscular, tudo isso agregado ao seu porte elegante. Com seus cabelos naturalmente grisalhos, alguns poucos fios de um prateado mais claro, e aquele nariz bem desenhado. Kakashi estava muito longe de ser definido como "fofo", como Naruto às vezes era chamado. E ele ainda tinha uma boa fortuna assegurada pelo negócio da família, a Seguradora Hatake. Kakashi nunca seria considerado apenas fofo ou bonitinho.
Ele tinha uma beleza única. Mais ainda. Na opinião de muitas e muitos, Kakashi Hatake, com seu olhar negro misterioso e o maxilar firme e angulado, era um deleite para todas as vistas do mundo. E o mais espantoso era que ele não parecia ter consciência disso. Kakashi nunca usava roupas caras e de grife, como Sakura teimava em usar mesmo quando não tinha dinheiro para comprar tais artigos, assim como nunca ia às festas esperando que os paparazzi tirassem fotos, como Sakura fazia (mesmo que não admitisse). Quando não estava trabalhando, Kakashi Hatake ficava quieto em sua fazenda no interior, e só aparecia para promover seus filmes. Naruto achava que esse era o motivo do homem nunca ter relacionamentos sérios com ninguém.
Mas qualquer um que decidisse namorar Kakashi deveria saber que não estava entrando no típico relacionamento de fachada de celebridade. Naruto já tinha escutado várias vezes, por exemplo, que Hatake recusava dublês para cenas de nudez. E maquiagem? Não no rosto de Kakashi. Ninguém chegava perto dos cabelos, nem mesmo a produção. Tinha certeza que já teriam sumido com aquele grisalho há muito tempo se o homem deixasse chegarem perto.
E aqueles círculos escuros que ele carregava embaixo dos olhos, como os de Naruto? O diretor gastaria uma fortuna em recursos digitais para tirar aquelas olheiras após a filmagem, quadro por quadro, considerando que Kakashi preferia comer vidro moído a passar corretivo.
Mas, mesmo com toda a beleza inegável, tinha algo naquele homem que deixava Naruto inquieto.
E ficou óbvio, carimbado em suas expressões, que seu desgosto voltou à tona no momento em que ele trombou com Kakashi na saída do saguão. Ele olhou Naruto como se conseguisse ler sua mente com aqueles olhos protegidos pelas lentes cinzentas dos óculos. Então murmurou:
— Ah. Você. — depois desviou o olhar desatento para seu café.
"Será possível que esse dia ainda vai piorar?", pensou Naruto.
