Uma casa dividida

Eu sonho com a chuva
Sonho com jardins na areia do deserto
Acordo com dores
Sonho com amor enquanto o tempo escorre pelas minhas mãos

Cor não deu ao irmão a chance de descansar da jornada. Como regente, o príncipe mais velho passava grande parte de seu tempo na sala de estudos, analisando pilhas e pilhas de documentos, entre os mais recentes sobre a mesa estava um relatório minucioso da escolta de Lady Aravis à Calormânia.

Cor segurou o documento com uma das mãos, levando a outra à têmpora numa tentativa de aplacar a dor de cabeça. Corin o observava com toda serenidade do mundo, até mesmo arriscava um toque de divertimento, enquanto encarava a paisagem através da janela e se distraia com um peso de papel.

- Quando o enviei à Calormânia, para cuidar da segurança e do bem estar de Lady Aravis, eu não esperava que você saísse por ai insultando tarcaínas viúvas, causando animosidades em funerais e muito menos esperava que voltasse noivo para esta casa. – Cor encarou o irmão com uma seriedade quase mortal – Eu tentei entender o que seu secretário relatou nesta carta, mas foge a minha capacidade. Então, por favor, explique-se.

Corin passou a mão pelo cabelo curto e encaracolado, desalinhando-o ainda mais. Encarou o irmão com uma expressão mais digna.

- Meu secretário deve ter mencionado os desaforos que a tarcaína lançou a Lady Aravis diante de toda corte do Tisroc, assim como deve ter citado que tudo ocorreu por culpa desta mulher desvairada que se atreveu a insultar uma lady que estava no exercício de seus direitos de filha. – Corin disse firme – Se eu bem o conheço, teria feito o mesmo no meu lugar, então qual é o motivo de tudo isso?

- Pode me dizer quando, em nome de Aslam, você e Aravis se tornaram noivos? – Cor se conteve para não avançar contra o irmão. Corin não conteve uma risada despreocupada.

- É isso que está te irritando? Sério? – Corin questionou risonho – Bem, não estamos noivos. Ou pelo menos, não ainda.

- Explique-se. – Cor demandou firme.

- Ela foi insultada. Aquela louca a acusou de ser a concubina de dois príncipes e eu não me contive. – Corin afirmou orgulhoso – Disse que ela não era a concubina de ninguém, mas a noiva de um príncipe da Arquelândia e foi o que levou a tarcaína a calar a boca. Entretanto, essa pequena mentira me levou a pensar melhor a respeito do assunto. Eu a pedi em casamento. – Corin estufou o peito levemente.

- E como isso lhe parece algo razoável a se fazer? – Cor o encarou furioso – Pedi-la em casamento no mesmo dia em que ela perde o pai? Comunicar isso no meio de um evento abarrotado de pessoas o que a forçaria a aceitá-lo?

- Em momento algum eu a obriguei! – Corin se defendeu imediatamente – Eu permito que ela tenha o tempo que achar necessário para pensar a respeito da propostas, mas acredito que ela acabe vendo a oferta como algo desejável.

- Devo lembrá-lo de que Aravis fugiu da Calormânia para escapar de um casamento que muitos consideravam como uma "oferta desejável"? – Cor elevou a voz num tom de desafio – Como se não bastasse, ela o vê como a um irmão e você a coloca em uma situação delicada como esta. E ainda que ela aceitasse, você se esqueceu de um detalhe. Todo membro da família real precisa da autorização do rei para se casar e não me lembro de você ter solicitado qualquer coisa do gênero.

- Foi algo improvisado e creio que é isso o que nosso pai sempre quis, que Aravis fosse parte definitiva desta família. – Corin disse dando de ombros – E da ultima vez que ela pensou em uma fuga, foi porque você se achou no direito de dizer o que ela pode ou não fazer

- Eu estava pensando no que era melhor para ela! E enquanto nosso pai estiver doente, é a mim que você deve solicitar isso! – Cor se ergueu de uma vez – Quem você pensa que é para se lançar sobre ela desta maneira? Acha que ela é alguma das criadas deste castelo, ou uma calormana exótica que você mal pode esperar para por as mãos? Eu não vou permitir uma coisa dessas!

- Esta levando isso para o lado pessoal por que acha que eu não sou adequado para ela, ou está revoltado por que eu fiz o que você nunca teve coragem para fazer? – Corin encarou o irmão mais velho com calma. Cor se deteve por um momento e notou o quanto suas ações o denunciavam – Eu não sou idiota, irmão. Vejo como você olha para ela e sei como a valoriza, mas isso não quer dizer que você seja o único. Gosto dela, talvez não como você, mas estou certo de que seria feliz junto dela. A escolha está nas mãos de Aravis, mas se você a deseja também, então devo apenas esperar que ela faça uma escolha sábia.

Sonho com fogo
Esses sonhos estão atados a um cavalo que nunca importunará
E nas chamas
Sua sombra brinca na forma de um desejo masculino
Essa rosa do deserto

- Eu nunca disse nada a ela. – Cor admitiu num tom muito baixo – Tinha receio de que ao menor sinal de cobrança ela fugisse ou pior. Tentei ser paciente, esperei por algum sinal, e então você aparece e arruína tudo!

- Não seja dramático. Alguém tinha que tomar a iniciativa. – Corin riu – Papai não vai durar para sempre e nós vamos precisar de herdeiros. Eu só fui mais ágil que você. – o mais novo deu um tapinha nas costas do irmão num sinal de amizade – Mas se você quer ter sua chance, vá em frente e tome uma posição. Vamos deixar que ela decida o que fazer da própria vida e que vença o melhor. – Corin lançou um sorriso matreiro ao irmão enquanto deixava o escritório.

- E que história é essa de dote? – Cor o questionou uma ultima vez.

- Pelas leis calormanas é um direito que ela tem, mas que acaba se tornando patrimônio do futuro marido. Achei melhor deixar o dinheiro nas mãos dela para que ela faça dele o que quiser. – Corin disse simplesmente – Imagino como ela deve se sentir aqui. A pesar de não ser esta a idéia, acho que ela enxerga tudo isso como um gesto de caridade e se você parar pra pensar, o que ela teria se não estivesse conosco? Acho que ter algo que ela possa considerar como uma propriedade legitima dela é o que Aravis mais deseja. Então nem pense em fazer desse dinheiro um acréscimo ao tesouro real.

- Eu não faria isso. – Cor disse baixo, num timbre envergonhado. A verdade é que odiava admitir que o irmão tinha razão.

- Eu sei disso. Agora, se me der licença, eu vou tirar essa maldita poeira calormana do meu corpo. – Corin deu as costas ao irmão e deixou o escritório.

Cor aproveitou a solidão repentina para se jogar em sua cadeira, recostando a cabeça e olhando para o teto. Como as coisas haviam chegado a este ponto?

Ao longo dos anos ela havia saído do patamar de uma garota temperamental para se tornar a mais exótica e estonteante flor do deserto, com um aroma raro de especiarias. E não importava quantas discussões eles acabassem se metendo, ela parecia sempre domá-lo sem o menor esforço. Não foram raras as vezes que ele entreouviu servas discutindo e afirmando categoricamente que a garota calormana o seduzia com promessas falsas e isso o fazia pensar.

Aravis nunca prometeu a ele coisa alguma e nem poderia. Ela não tinha a menor ciência dos sentimentos dele. Talvez seu instinto de mulher lhe dissesse que as atenções que ele dispensava a ela não eram normais, mas nada de concreto até ai. E ainda que ela lhe fizesse falsas promessas, ele era o príncipe herdeiro e regente do reino, ele poderia ordenar a ela o que quisesse, poderia ter qualquer coisa, mas não desceria ao ponto de obrigá-la a aceitá-lo. Ele tinha orgulho de dizer que não era um tarcaã.

Ele assumiu para si a missão de protegê-la e de tornar a vida dela a mais feliz possível, mas o que ele realmente entendia das necessidades de uma mulher como ela? Aravis era uma garota que perdeu tudo o que mais amava no momento em que decidiu fugir em busca da liberdade. Ela o encontrou, encontrou o rei Lune e a brilhante Anvar, mas a liberdade tão almejada por ela estava ali, ou era apenas uma miragem?

Cor não percebeu que com o tempo seu comportamento em relação a ela acabou se tornando um tanto autoritário. Foi por ordem dele que Aravis passou a cavalgar escoltada, nunca para lugares muito distantes e jamais fazia uma viagem sem a companhia dele. Ele fazia questão de que ela usasse roupas belas, mas nunca roupas calormanas. Ele não gostava que ela treinasse com espadas, mesmo sabendo que Aravis era uma espadachim tão competente quanto ele. Então ele tentou proibi-la de voltar para a Calormânia para ver o pai e só ai se deu conta de como agira de forma prepotente ao achar que sabia o que era melhor para ela.

Quando foi procurá-la para fazer as pazes e informar que ele tomaria as providências para que ela fizesse uma viagem rápida, Cor sentiu seu coração ser dilacerado ao vê-la pronta para fugir. Fugir dele. Foi a primeira vez, desde que chegou à Anvar, que Cor sentiu medo. Por um momento, ele achou que iria perdê-la para sempre.

Quando ela partiu, ele ficou para trás pensando em algum presente que pudesse dar a ela como sinal de arrependimento. Jóias e roupas eram coisas que não teriam o menor impacto. Ele chegou a pensar em dar a ela uma égua nova, mas teve medo de que um dia o animal fosse usado numa fuga. Pensou em encomendar ao ferreiro uma cimitarra nova, toda cravada com pedras preciosas, mas Aravis jamais abandonaria a cimitarra que pertenceu ao irmão. Então ele encontrou algo que tinha um significado, ao menos para ele.

Encomendou um par de sapatos, os mais finos, elegantes e belos que já calçaram o pé de uma dama. Calçados dignos de uma rainha, algo que não pudesse ser encontrado nem na corte de Nárnia.

Quando eles se conheceram, Cor sentiu-se inferiorizado por ela usar sapatos e botas de montaria. Ressentia-se pelo fato de que ela tinha pés pequenos e macios, sempre protegidos, enquanto ele era obrigado a andar descalço na areia escaldante do deserto. Sempre que via sapatos bonitos ele pensava nela, não com a magoa de antigamente, mas com uma satisfação intima. Ele associava os calçados com ela porque, se eram belos, eram dignos dela.

Ele estava animado com a perspectiva da volta dela e de Corin, até receber o relatório informando que Aravis e o príncipe estavam noivos e que o pai da tarcaína havia falecido. Cor passou meia hora em estado letárgico até sentir a indignação por ter sido traído pelo próprio irmão. Sua primeira reação foi redigir uma ordem, mandando Corin à Nárnia na condição de embaixador e com instruções expressas para que ele permanecesse na Corte dos Quatro por pelo menos cinco anos. Entretanto, Cor não teve coragem suficiente para assinar o decreto, ainda mais sabendo que o pai deles estava tão doente.

Cor encarou o pequeno baú diante de si, onde estava guardado o presente que havia encomendado para ela. A insegurança o atacou e o príncipe regente pensou por um momento se era possível que Aravis estivesse realmente interessada em Corin. Conhecendo seu irmão como conhecia, ele podia jurar que no momento de maior vulnerabilidade da tarcaína, o príncipe havia se mostrado de um companheirismo imbatível. O herdeiro do trono não pode evitar o ciúme ao imaginar seu irmão abraçando-a e tendo ousadias com ela.

Imaginar o que se passava na cabeça dela era perda de tempo. O melhor seria acabar com as meias palavras e afastar de vez qualquer possibilidade de casamento entre ela e Corin, nem que pra isso ele tivesse que mandar seu irmão para o fim do mundo. Cor pegou o baú de cima de sua escrivaninha e deixou o escritório em seguida.

Cada um de seus véus seu, uma promessa escondida
Essa flor do deserto
Nenhum outro doce perfume me torturou mais do que esse
E quando ela vira
Desse jeito como ela caminha, na lógica de todos os meus sonhos
Esse fogo queima

Aravis se jogou em sua cama após um longo banho. Olhou com atenção para seu quarto e toda decoração ali. Corin ordenou aos carregadores que deixassem o dote dela ali, para que ela decidisse com calma o que fazer com tudo aquilo.

As tapeçarias foram desenroladas e estendidas sobre o chão de mármore frio. Os lampiões de prata e ouro, assim como um jogo pequeno de taças, também de ouro, ela decidiu colocar em uso. Algumas peças de tecido fino ela jogou sobre a cama e sentiu o perfume exótico de jasmim impregnado na trama. Apenas as urnas com moedas de ouro, prata e jóias permaneciam fechadas.

Nada daquilo traria seu pai de volta, ou substituiria o perdão que ela nunca recebeu, mas servia para que ela transformasse seus aposentos em algo mais parecido com o lar que ela teve um dia. Cor e Corin sem duvida achariam a nova decoração calormana de mais. O príncipe mais novo provavelmente gostaria da mudança, mas ela não sabia o que pensar da reação do príncipe regente. Cor desenvolveu uma certa aversão pelo passado na Calormânia.

Ela sentia o cansaço se apoderar de seu corpo aos poucos quando uma das damas anunciou que ela tinha visitas. Aravis se sentou sobre a cama e observou atentamente quando Cor entrou em seus aposentos, carregando de baixo do braço um pequeno baú, fazendo sinal para que fossem deixados a sós. Algo dentro dela estremeceu com a idéia.

Ele ficou em silêncio por um instante e observou a mudança no lugar. Ela achou que o brilho de tristeza nos olhos azuis dele eram uma alucinação.

- Grandes mudanças. – ele comentou – Gostei do que fez com o quarto.

- Espero que não tenha problema. – ela murmurou e ele caminhou tranquilamente até ela.

- Este apartamento pertence a você para fazer dele o que bem entender. Uma pena que eu nunca tenha pensado em deixá-lo mais parecido com a sua antiga casa. – ele respondeu esboçando um sorriso – Soube que devo parabenizá-la. – a voz dele soou tristonha.

- Pelo que? – ela perguntou confusa.

- Você e meu irmão. Eu soube do noivado. – Cor disse com um leve tom acusador que ele tentou omitir a todo custo – Vai ser uma princesa da Arquelândia agora.

- Foi um grande mal entendido. – ela disse encolhendo os ombros – Corin fez aquilo para me defender.

- E em seguida informou suas intenções de tomá-la por esposa de maneira oficial. – Cor rebateu – Entretanto, não houve resposta até agora.

- Não há o que ser dito. – ela abaixou a cabeça enquanto abraçava as próprias pernas.

- Eu sempre pensei que você fosse avessa a idéia de casamento, ainda mais um em que você não estivesse em posição de recusar. – Cor comentou com magoa – Se tivesse manifestado seu desejo, eu e meu pai poderíamos ter procurado pretendentes adequados a você. Acho até que o Rei Edmund seria uma boa opção.

- Não diga bobagens. – ela disse ríspida – Eu nunca pensei em me casar, até... – a voz dela ficou muda.

- Quando foi que você se apaixonou pelo meu irmão? – Cor perguntou enquanto erguia o queixo dela e afastava uma mecha de cabelo do rosto da jovem. Os olhos negros dela eram uma armadilha perigosa, na qual ele sempre caia sem pensar duas vezes. Eles se perderam no olhar um do outro por um longo segundo.

- Eu não...

Me dou conta de que nada é como parece ser
Eu sonho com a chuva
Sonho com jardins na areia do deserto
Acordo com dores
Sonho com amor enquanto o tempo escorre pelas minhas mãos

- Eu deveria ter percebido, ou ao menos ter feito alguma coisa a respeito. – ele sussurrou mais para si do que para ela – Tenho algo para você. – ele disse enquanto colocava o pequeno baú diante dela e abria a tampa. O rosto dela se iluminou ao ver o conteúdo. – Espero que goste e aceite como um pedido de desculpas por ter sido tão impertinente ao tentar impedi-la de viajar.

- São lindos, mas é desnecessário. – ela murmurou sorrindo para ele. Aravis apontou para uma arca em um dos cantos do quarto – Trouxe alguns da Calormânia comigo e eu teria pena em usar algo tão bonito.

- Meus presentes a desagradam? – Cor a encarou intensamente e Aravis não soube como interpretar aquela pergunta.

- De maneira alguma, mas você costuma me dar tantos presentes e com tanta freqüência. Não há necessidade para isso e eu não quero ser um peso maior do que já sou para vocês. – ela disse tranqüila, mas Cor não parecia satisfeito com a resposta.

- Você não é um peso e tudo o que fazemos por você é porque nos agrada. Milady é uma pessoa querida nesta casa e sempre será. – ele disse firme – Eu pensava que você considerava este palácio sua casa também.

- E considero, mas eu não sou uma lady do norte e nunca vou ser. – ela tentou fazê-lo entender – Uma parte de mim sempre estará atada à Calormânia e por mais que a corte e a sua família me aceite, isso nunca vai mudar. Eu estou aqui por ter os favores e a graça do príncipe herdeiro da Arquelândia, o que me iguala a uma mendiga que vive da bondade alheia. Seus presentes são uma prova disso. – Cor desviou o rosto para o conteúdo do pequeno baú e retirou de lá um dos sapatos. Ele então se virou para ela e a descalçou com cuidado, como se venerasse a figura de uma deusa, para então calçá-la com o presente.

- Houve um tempo – ele começou com uma voz carregada e grave – que eu me ressentia por você usar sapatos enquanto eu era obrigado a queimar meus pés na areia do deserto. Eu era tolo e simplório, mas pela Glória do Leão este tempo passou. – ele fez uma longa pausa – Agora é você quem se ressente comigo porque comprei todas as roupas, todas as jóias e todos os sapatos que você usa. – ele disse num tom magoado – Entenda, milady, as coisas que lhe dou, todos estes presentes, faço isso porque gosto de vê-la usando aquilo que escolhi pensando em você. Me agrada vê-la em roupas bonitas e adornada a altura de seu nascimento, não para inferiorizá-la. – ele contemplou o sapato novo calçando o pé dela – Fica bem em você.

- Eu não quis parecer ingrata. – ela murmurou enquanto acariciava a bochecha dele – Obrigada, é um presente lindo.

- Se eu fosse qualquer outro homem, não pensaria duas vezes antes de ordenar ao meu irmão que sumisse daqui, mas eu não faria qualquer coisa para magoar meu pai, ou até mesmo causar uma discussão nesta família. – ele disse encarando-a de uma forma totalmente nova. Ele parecia sedento por ela.

- Por que está dizendo isso? – ela pareceu falsamente ingênua. Falsas promessas para um príncipe apaixonado...Uma hora a pequena tarcaína acabaria se queimando ao brincar com fogo.

- Acha que meus cuidados com você são infundados? – ele segurou uma mecha do cabelo dela entre os dedos e inalou o perfume – Tudo o que tenho feito é porque nenhuma outra mulher é capaz de fazer o que você faz comigo. Corin foi muito impertinente. Eu devia mandá-lo para Nárnia como embaixador e deixá-lo lá por cinco anos.

- E que benefício isso traria? – ela perguntou insegura e até mesmo assustada com a súbita mudança dele.

- Pelo menos ele estaria longe e eu poderia fazer algo que já devia ter feito há muito tempo. – ele disse afastando uma mecha de cabelo dela que caia insistentemente sobre os olhos dela.

- Onde está pretendendo chegar com isso, Cor? – ela perguntou insegura.

- Eu devia ter sido o primeiro a ter a ousadia de pedir sua mão em casamento, mas eu tive medo de que isso a fizesse fugir. – Cor disse por fim e Aravis prendeu a respiração – Eu juro que entenderei se você escolher Corin, ou qualquer outro que deseje, mas considere a minha oferta. Estou te oferecendo minha mão, meu coração e meu reino.

- Por que está fazendo isso? – ela perguntou. Cor notou que o rosto dela ficou pálido.

- Poderia ficar o dia todo justificando meus motivos. Poderia falar de sua lealdade, de sua força, de sua determinação e até mesmo do favoritismo que meu pai demonstra por você, mas prefiro uma resposta simples. – ele disse esboçando um sorriso – Porque eu a amo, desde o dia em que a vi sobre um cavalo, usando roupas de um tarcãa e encarando o mundo de frente. Naquela época você era um sonho, uma miragem que eu nunca poderia alcançar. A simples idéia de tocá-la poderia me sentenciar à morte.

Sonho com a chuva
Ergo meu intenso olhar ao céu vazio
Fecho meus olhos, esse raro perfume
É a doce intoxicação de seu amor
Eu sonho com a chuva
Sonho com jardins na areia do deserto
Acordo com dores
Sonho com amor enquanto o tempo escorre pelas minhas mãos

- E agora pode fazer de mim o que quiser e eu não poderia evitar. – ela sussurrou – Eu não estou em posição de recusar o príncipe regente.

- Eu não vou obrigá-la a aceitar coisa alguma. – ele se apressou em dizer – Você é livre para fazer sua escolha, como e quando quiser.

- Você é o príncipe herdeiro da Arquelândia, não um Tisroc. – ela disse num sussurro.

- Sinto muito pelo seu pai. – ele disse sincero – Apesar de não ter por ele qualquer simpatia, imagino o que você está sentindo.

- Obrigada, Cor. Por tudo. – ela respondeu e ele apenas acenou com a cabeça – Você poderia ser gentil e me dizer o que gostaria de ganhar de presente de aniversário. – ela sorriu – É em uma semana.

- O que eu realmente quero é você, mas ficarei satisfeito com qualquer coisa que você escolha. – ele se levantou e beijou a testa dela – Pense nas suas opções e me considere como uma delas. Quando tiver uma resposta, me deixe saber, ainda que seja para me rejeitar. – ele fez uma breve reverência a ela e sorriu um sorriso misterioso – Tenha doces sonhos, amada minha, deleite dos meus olhos. – então o príncipe deu as costas a ela e deixou o quarto.

Há anos atrás aquele homem era um menino e aquele menino era um escravo que ela tratou com desprezo. O tempo passou e mudou tudo. Hoje o menino era um homem e este homem era quase um rei, enquanto ela havia deixado para trás toda sua fortuna, seu poder e suas posses, para se tornar algo bem próximo de uma escrava dele.

Se ele soubesse do que era capaz de fazer a ela, de como ela estava terrivelmente vulnerável aos galanteios dele, Cor daria um jeito de colocá-la numa redoma, de transformá-la numa concubina de harém que ele pudesse observar diariamente. Ele era um homem bom, seria um rei ainda melhor, mas perto dele ela se sentia como uma mulher calormana que não tem escolha. O que ela sentia por ele não dava outra opção a ela se não amá-lo e se render a cada um dos pedidos dele, ainda que ela considerasse isso uma fraqueza.

Que Aslam tivesse piedade de seu coração, pois o príncipe Cor da Arquelândia não teria, jamais.

Doce rosa do deserto
Cada um de seus véus, uma promessa secreta
Essa flor do deserto
Nenhum outro doce perfume me torturou mais do que esse
Doce rosa do deserto
Essa memória do éden assedia a nós todos
Essa flor do deserto, esse raro perfume
É a doce intoxicação do outono

Nota da autora: Sabe, isso aqui tá parecendo uma mistura de Viver a Vida, O Clone e Crônicas de Nárnia, mas eu to gostando de escrever. Diálogos do Cor com a Aravis sempre aparecem meio rebuscados na minha cabeça, como uma história narrada ao estilo calormano. E o Corin é uma criatura tão divertida na minha mente XD.

Espero que gostem. Comentem.

Bjux

Bee