II


- ...Você não pode estar falando sério, Shura.

A voz de Aiolos o despertou, mas Saga ainda se sentia fraco; o simples esforço de manter seus pensamentos ordenados lhe parecia sobre-humano. Seus braços continuavam pesando toneladas, suas pernas pesavam ainda mais. Não havia sinal de seu cosmo, também não sentia o cosmo dos outros.

Aparentemente estavam todos ali, no mesmo quarto que ele, conversando como se ele ainda estivesse apagado pelo efeito dos remédios.

Decidiu manter os olhos fechados.

- Olos, ele nunca falou tão sério em toda a vida dele, pelo amor de Deus. – Aquela era a voz de Aiolia, a conhecia bem. – E eu concordo com cada palavra que ele disse.

- Concorda? – Aiolos parecia estarrecido. – Você está dizendo que concorda com a sugestão de botar o Saga num hospício? Teu primo, tua família, sangue do nosso sangue, num hospício?

Saga franziu a testa, não conseguindo conter a surpresa do que ouvia. Que ele soubesse, não tinha parentesco algum com Aiolos ou Aiolia, então que história era aquela?

- Olha, veja bem... – Agora era Shura quem falava. – Eu não disse hospício...

- Eu não vou internar o Saga. Não vou!

- Aiolos, por tudo que há de mais sagrado, seja razoável. – Reconheceu a voz de Shaka. – Não é que nós queiramos que isso aconteça, mas... Ele está começando a se transformar num perigo para si mesmo.

- Olha, essa desorientação dele pode ser temporária. Por conta da batida, ele...

- Olos, pelo amor de Deus, ele jogou a porra da BMW num muro a quase cem por hora! – Aiolia elevou o tom. – Não fossem os airbags e o Shura estar por perto, ele estaria morto. Morto, entendeu? Carbonizado dentro do carro! Você sabe melhor do que eu que essa "desorientação" vem de antes da batida. Bem antes. E nós... Nós não vamos poder estar por perto o tempo todo. Você não vai poder estar por perto o tempo todo. – Ele se calou, mas sua respiração pesada ainda era audível. – E antes que você fale mais alguma merda, sim, eu sei o que eu estou falando. Eu também não quero, Olos. Eu queria ver ele bem, eu queria... eu queria que tudo voltasse a ser o mais próximo possível do que era antes de... – Outra pausa, a voz de Aiolia estava embargada. E, quando ele voltou a falar, ela era mais calma e pausada. – Mas eu sei que isso pode não acontecer. E eu sei que ele pode sim estar mais seguro em uma instituição especializada do que aqui, com a gente.

O silêncio dos outros era aterrador, mas Saga continuou de olhos fechados.

- Aiolos... – Era Shaka quem falava. – Olha, não precisa decidir agora. Mas pelo menos pense no que a gente está falando.

- Saiam daqui. – A voz de Aiolos soava grave, parcamente reconhecível enquanto cortava a fala de Shaka. – Saiam, eu disse.

Saga ouviu os passos dos outros, mas sentia que Aiolos continuava sentado na borda de sua cama. Momentos depois, seus dedos passeavam pelos seus cabelos.

Abriu os olhos lentamente, tentou mexer os braços apenas para constatar que continuavam pesados demais para fazer qualquer coisa de útil. Tentou falar, mas sua língua parecia feita de chumbo.

- Shh, Saga... – Os dedos dele continuavam acariciando seus cabelos. – Não se preocupe, viu? Você não vai sair daqui. Eu não vou deixar. Tudo isso vai passar, você vai ver. Já já você vai ficar melhor...

Fechou os olhos, fingindo que caía novamente no estupor medicamentoso onde lhe colocaram. Logo sentiu Aiolos se levantar, seus passos se afastando até que o barulho da porta se fechando denunciou sua saída.

Só então abriu os olhos de novo, se esforçando como nunca para reordenar seus pensamentos.

Não sabia muito do que estava se passando, mas tinha uma certeza: Nada daquilo podia ser real. Logo, ele estava preso dentro de uma ilusão – talvez uma ilusão psíquica, isso explicaria a ausência de seus poderes naquela realidade. Assim sendo, força bruta e cosmoenergia não iriam lhe ajudar.

A única saída que tinha era desconstruir a ilusão de dentro para fora. E, então, localizar seu criador e desfazer a armadilha psíquica onde fora aprisionado.

Até lá, teria que dançar conforme a música, enquanto tentava juntar todas as peças do quebra-cabeças.

OOO


Human Being, 23/11/2014