N.A.: Pessoas que comentaram, muito obrigada mesmo!

Espero que as outras pessoas gostem e comentem.

Trice, obrigada por betar essa insanidade.

Boa leitura para vocês!


.motivos.

Sentou-se, como sempre, de frente para a lareira, na mesma poltrona, usando o mesmo pijama, tomando o mesmo café. Não dormia, mantinha-se acordado o máximo de tempo possível, evitando ter que fechar os olhos, contemplar o negro que pintava ainda mais o vazio. Observava as línguas de fogo que consumiam a madeira, rápidas, sem compaixão, apenas consumindo e consumindo.

Hermione dizia que ele estava obcecado. Obcecado por tentar achar algum propósito, algo que fizesse com que ele não apenas observasse o mundo, mas participasse dele. Harry sorria fracamente toda vez, sem realmente querer sorrir, sem realmente achar graça naquilo. Por que nada, de verdade, tinha graça. Nada tinha nada.

Ergueu a caneca, observando como o café já estava frio. Sua boca na borda da caneca vermelha, a língua degustando o líquido negro frio que deslizava para dentro de sua garganta. Era amargo, e Harry teve a leve impressão de que ele já estava frio desde que o pegara, minutos atrás. Respirou fundo, voltando os olhos para as línguas de fogo, ainda agressivas.

Pensou em como o mundo estava em silêncio, em como qualquer voz a dizer feliz que estava a estudar para ser alguém na vida, soava falsa. Mas era sempre a mesma pergunta que voltava a sua cabeça: 'que vida?' Ele estava a se perguntar por demais se as pessoas viviam de verdade, ou encaravam a existência como ele encarava agora?

Fechou os olhos por meros segundos, a garganta arranhando com o generoso gole frio de café que ele tomou. A pele esticou-se em seu pescoço quando inclinou a cabeça para o lado, estralando os ossos do pescoço, e sorrindo com a dor muscular a se espalhar pela pele branca, formigando brevemente. A pele esticada lhe incomodou pela cicatriz, e Harry lembrou-se daquela noite.

Seus olhos se abriram exatamente quando a caneca caiu no chão, derramando o resto de seu café frio, e ele se levantou rápido, sentindo o coração acelerar pela primeira vez em meses. Ele odiava 'ver' a cena por detrás de suas retinas, odiava 'ver' a mão de Malfoy a deslizar a faca, rasgando sua pele. Não havia como negar que aquilo lhe causava algo, que lhe incentivava a sentir algo.

Respirou fundo, ainda sentindo o coração bater com força contra o peito, ecoando em suas orelhas. Fechou a mão em seu pescoço, sentindo por debaixo dos dedos a veia a pulsar, o sangue correndo rápido. A palma se fechava bem por cima da pele deformada, e ele sentia como se Malfoy ainda deslizasse a lâmina, lhe ferindo.

Os olhos de Harry caíram por sobre o fogo que ainda queimava forte, e dois olhos vermelhos pareceram lhe encarar de volta. Com Voldemort morto Harry já não tinha mais motivo para sentir, para ir em frente. Qual era o maldito propósito em continuar lutando, se já não havia nada pelo que lutar? Não sentia-se vivo, nada fazia sua respiração acelerar, ou seu sangue correr com força.

Seus dedos trilharam a cicatriz já memorizada, e Harry pensou em como a lembrança de sentir Malfoy tentando lhe ferir gravemente lhe mandara uma sensação de alerta, como se tivesse que se cuidar, pois Malfoy estaria lhe vigiando e esperaria o próximo momento para lhe ferir, e dessa vez, de uma vez por todas. E ainda havia o motivo por ter feito o machucado, por não ter cortado de verdade, a garganta de Harry.

Malfoy tivera seus motivos, ele tinha certeza. Mas também tivera motivos em indicar onde Harry estava, o que ele havia feito e com o que. Malfoy deveria pensar que estava fazendo algo bom, para se redimir, para voltar a estar entre as pessoas que todos olhavam. Aquela atenção que para Harry, era totalmente sem propósito. Porém, ele sabia, melhor que muitas pessoas, que ninguém tomava atitudes como aquelas e não esperava algo em troca. O problema é que Harry não dera nada em troca, e não descobrira o que o outro queria. Ainda.


-Por mais inútil que pareça, comer faz bem. – Parkinson disse com sarcasmo ao lado de Malfoy, mas o loiro não estava lhe prestando atenção. Malfoy estivera sempre seguro de si, mesmo depois da Guerra, depois de seu julgamento, que quase nada conseguia lhe tirar a atenção, quase nada conseguia fazer com que ele se abalasse. Porém, aquele dia poderia ser o primeiro, e estava começando a se provar possível que isso fosse verdade.

Malfoy fixava seu olhar na mesa do lado oposto do Salão, seus olhos cinza a fitarem o pano estranho que cobria o pescoço de Potter. O pano parecia que era lã, mas Malfoy não teve certeza, o pano enrolava-se com tamanha força na pele do rapaz, que parecia que a qualquer segundo Potter poderia cair sem ar nos pulmões, as vias obstruídas pela peça de roupa.

Não era na verdade, a cor, o tecido, ou o fato de que era Potter a usar aquilo, mas o fato de que pela primeira vez, desde que tirara o curativo, meses atrás, Potter escondia a cicatriz. Parecia que o rapaz sempre a carregara com tamanho orgulho, mostrando-a para quem quisesse ver, pois seria somente olhá-lo e lá estava a marca da traição de Malfoy. Mas hoje, particularmente hoje, ele cobrira.

Levantou-se rápido, saindo da mesa, todos – todos – na mesa da Slytherin perguntando se ele queria alguma coisa, ou se precisava de algo em algum outro lugar. Draco continuou sua caminhada rápida para fora do Salão. As mãos fechadas em punho, os dedos tão apertados que chegavam a doer.

Saiu para o gramado, evitando gritar com todas as pessoas que passavam por ele e comentavam algo. Ele estivera tão certo de que Potter já havia esquecido, de que aquele garoto simplesmente se convencera de que fora outro ato de covardia de Malfoy, que estava tudo bem, todos estavam praticamente acostumados, que ele mesmo ignorara o fato de que aquilo poderia importar.

Quando via a cicatriz era como se ouvisse seu pai lhe dizendo o que o Dark Lord queria que ele fizesse. E o patético sentimento de que queria machucar Potter, esvaiu-se de suas veias quando teve a certeza de que agora conseguiria. Ele poderia machucá-lo, colocá-lo em perigo, fazê-lo cair em um poço e quebrar as pernas. Mas ele teria coragem de abrir uma fenda na garganta do outro? Por ódio infantil? Por um ódio que nasceu quando o outro recusou seu aperto de mão nas escadas do colégio no primeiro ano?

Malfoy parou no meio do gramado, observando o sol gelado do Inverno. Os raios brilhavam, mas não esquentavam. A grama ainda estava molhada do orvalho, molhando a barra de sua calça. Seus motivos eram os mais ridículos para ferir o Garoto de Ouro; e mesmo assim o fizera. E fora quando encostara a lâmina contra o outro, quando segurara o corpo dele, impedindo que saísse do lugar, que Malfoy teve certeza de que nunca – nunca – seria capaz de matar Potter.

Ele simplesmente não achava cabível que o mundo mágico deixasse de ter o seu objeto de raiva, por que mais alguém queria assim. Draco relaxou as próprias mãos, sentindo os nós dos dedos estalarem. Seus olhos esquadrinharam o chão, as folhas pequenas de grama, sentira ódio antes, mas e agora? O que sentia, depois de quase eliminar Potter e esse o salvar, livrando-o da prisão? O ódio ainda fervia em suas veias, mas porque a irritação com a repentina atenção de Potter, pela cicatriz que ele fizera?

Draco voltou a fechar a mão.


continua...