Touch my mouth and hold my tongue
I'll never be your chosen one
I'll be home, safe and tucked away
You can't tempt me if I don't see the day

Ela encontrou Jon sentado junto à árvore coração. Ele nunca teve um semblante leve, nem mesmo quando eles eram crianças, mas Arya não precisava de muito para saber que ele estava preocupado, ou aborrecido com alguma coisa.

Sabia que ele não estava rezando e por isso sentou-se junto dele sem pedir permissão. Se alguém do palácio visse poderia repreendê-la por não usar o protocolo adequado com ele, mas era tão fácil se esquecer de que Jon era um príncipe. Para ela Jon continuava sendo Jon, o melhor irmão do mundo, o melhor amigo dela e a pessoa que ela mais adorava. Não importava o que dissessem, Arya jamais conseguiria se habituar ao protocolo real quando Jon estava por perto.

Arya não disse nada a princípio. Ficou sentada encarando a árvore coração e se lembrando de como aquele era o único lugar da Red Keep que um Stark conseguia ter um pouco de paz.

- Já sentindo falta do Norte? – ela quebrou o silêncio. Jon abaixou a cabeça por um instante.

- Mais do que imagina. Este calor me parece tão estranho. Eu estou suado o tempo todo e as roupas grudam no meu corpo. – ele resmungou – Não sei como aguentam isso.

- Já vivi em lugares mais quentes. – ela disse – E ainda é primavera. No verão será insuportável ficar aqui.

- O que me faz pensar que sou sortudo por ter sido nomeado Guardião do Norte. Eu morreria desidratado aqui. – ele disse num esforço pálido de humor.

- Como está Winterfell? – ela perguntou por fim – Como estão Bran e Rickon? Deuses, Rickon já deve ser quase um homem.

- Ele se parece com Robb. – Jon respondeu – Está ansioso pra se tornar um cavaleiro. Eu prometi que o mandaria para o Vale no próximo dia de seu nome. Lorde Arryn o aceitou como escudeiro.

- Espero poder passar ao menos alguns meses com ele. – Arya disse melancólica – E como está Bran?

- Muito bem. – Jon respondeu num sorriso fraco – Ele se casou dois meses antes de eu vir pra capital.

- Bran está casado?! Com quem?! – Arya perguntou surpresa.

- Meera Reed. – Jon respondeu sorrindo discretamente – Eles se tornaram amigos pouco antes de Winterfell ser atacado. São muito próximos desde então e por incrível que pareça, Howland não se opôs ao casamento.

- Isso é...Surpreendente, eu diria. – ela disse sorrindo – Mas fico feliz por ele.

- Eu me encontrei com Sansa no casamento. – Jon disse sério – Ela deve estar prestes a dar a luz ao primeiro filho.

- Quando foi que nos tornamos velhos, Jon? – Arya perguntou por fim – Parece que ontem nós brincávamos no pátio, Bran escalava paredes, Rickon seguia você e Robb por toda parte e Sansa me importunava por causa de um bordado idiota. Quando foi que nós envelhecemos tanto?

- Já faz tempo. – Jon respondeu – Acho que ninguém sabe dizer exatamente quando acaba a infância e o mundo nos enrijece como aço.

- Quando voltaremos para casa? – ela perguntou ansiosa – Eu quero tanto rever tudo. Eu sinto tanta falta.

- A rainha e meu irmão fazem questão da minha presença no casamento. – Jon respondeu – Devemos ir alguns dias depois disso, a menos que a proposta de Aegon lhe pareça atraente.

- Que proposta? – Arya perguntou.

- Ele nos convidou para irmos a Dorne. Lugares exóticos, vinho forte e especiarias, além disso Arianne Martell tem várias primas. Ele acha que poderia ser divertido. – Jon disse de forma amena.

- Você nasceu em Dorne, não é mesmo? – Arya perguntou encolhendo os ombros – Talvez devesse aceitar.

- Achei que estivesse ansiosa pra voltar pra casa. – Jon disse calmo.

- Eu estou, mas eu já reencontrei você. – ela disse sorrindo para ele – E Winterfell continuará onde está. Você vai ter a chance de se aproximar do seu irmão, visitar o lugar onde nasceu e descobrir o que existe no resto do reino que um dia pode vir a governar. Na volta podemos fazer a jornada por mar. Será mais rápido e a viagem é menos cansativa.

- Podemos cavalgar pelo deserto. – Jon disse segurando a mão dela – Dizem que existem belos lugares por lá. O Jardim das Águas foi construído para uma princesa Targaryen, dizem que é um lugar agradável.

- Podemos visitar a Tower of Joy. – ela respondeu entrelaçando os dedos aos dele – Quem sabe assim você aprende a sorrir um pouco.

- Não que você seja uma jovem sorridente. – Jon respondeu e havia uma melancolia indescritível nas palavras dele.

- Nós envelhecemos ainda muito jovens. – ela disse – O que está lhe preocupando tanto, Jon?

- Não é nada. – ele disse desviando os olhos.

- Devia saber que não consegue mentir pra mim. – ela retrucou – Por favor, me diga o que está acontecendo. – ele respirou fundo.

- A rainha determinou que devo me casar. – Jon respondeu. Por um momento o coração dela falou e tudo o que Arya conseguia pensar era que aquilo não podia ser verdade. Jon casado com uma mulher do sul era inimaginável. Uma mulher qualquer, que ocuparia o posto de Lady de Winterfell, o lugar da mãe dela, aquilo era...Errado.

- Quando? – foi tudo o que ela conseguiu perguntar.

- Minha tia não quer que eu volte para Winterfell solteiro. Eu devo me casar no mesmo dia que meu irmão. – Jon respondeu e Arya sentiu o sangue se esvair de seu corpo. Ela fechou os olhos. Quando voltassem a Winterfell ele não seria mais o Jon dela, seria o Jon de outra mulher. Ela seria apenas a prima indesejada para quem ele não teria tempo.

- Você a conhece? – Arya perguntou.

- Sim. – Jon respondeu brevemente.

- Ela é bonita? É uma boa lady, eu aposto. – Arya tentou não parecer enciumada.

- É bonita sim, mas não sei se é uma boa lady. Eu espero que não. – ele disse num tom quase doloroso.

- Posso saber o nome dela? – Arya perguntou e em seguida mordeu o lábio inferior. Jon ficou em silêncio por longos minutos até levar uma das mãos ao rosto.

The pull on my flesh is just too strong
Stifles the choice and the air in my lungs
Better not to breathe than to breathe a lie
When I open my body I breathe a lie

- Me perdoe, Arya. – ele disse como se aquilo lhe custasse todas as forças – Eu juro que tentei convencê-la do contrário. Me perdoe, me perdoe, me perdoe.

- Por que eu devo perdoa-lo? – Arya o encarou sem entender nada do que ele estava dizendo, ou porque ele parecia tão angustiado. Em anos ela nunca o viu daquela maneira, nem mesmo quando se despediram quando ele foi para a Muralha.

- A rainha determinou que eu me casasse com você. – ele disse – Você é a minha noiva, Arya. Nenhum de nós vai poder sair de King's Landing antes que um septão nos case. Eu tentei convencer Daenerys do contrário, mas ela está convicta de que este casamento é a resposta para os problemas no Norte.

- Isso é algum tipo de brincadeira de mau gosto? – Arya perguntou se afastando dele imediatamente – Você sabia disso quando chegou aqui?

- Não. Só fui comunicado da decisão algumas horas atrás. – ele respondeu.

- Por que eu, Jon? Por que a rainha decidiu um absurdo desses? – ela continuava confusa com tudo aquilo e ele angustiado.

- Faz todo sentido, se pensar pela perspectiva política. – Jon respondeu – Winterfell foi reconstruída e o Norte está sob controle, mas alguns dos vassalos mais antigos e devotos à família Stark se recusam a me reconhecer como o novo Lorde de Winterfell e Guardião do Norte. Para muitos eu não passo de um usurpador que tomou de Bran e Rickon os direitos de herdeiros legítimos de seu pai. O Eyrie declarou apoio a mim, mas Riverrun continua silente. Um casamento com uma Stark, com uma das filhas de Eddard e Catelyn colocaria um fim às pequenas rebeliões, garantiria o apoio de Riverrun e acima de tudo, uniria definitivamente o Norte ao Trono, pondo um fim a toda ideia de independência.

- Foi Robb quem lutou pela independência do Norte, Jon. Se esquece disso? – ela questionou raivosa.

- Eu sei! Uma rebelião que se justificava naquela época, mas que perdeu todo sentido agora. – Jon retrucou.

- Nós somos irmãos, Jon. – ela disse sentindo os olhos arderem – Ainda que digam que você é filho de Rhaegar, nós crescemos como irmãos.

- Quando eu disse isso Daenerys se limitou a dizer que eu era um Targaryen e que minha família nunca sofreu com estas questões morais. – Jon respondeu como se aquilo lhe custasse anos preciosos de vida – Ela foi muito eloquente ao dizer que meu dever é pra com o reino. Este casamento resolve maior parte das questões pendentes no Norte e garantirá continuidade a nova dinastia.

I will not speak of your sin
There is a way out for him
The mirror shows not
Your values are all shot

- Eu já escapei de King's Landing uma vez. Daenerys não pode me obrigar a aceitar isso, não depois de todos os meus serviços. – Arya disse imediatamente. Jon se levantou, seu rosto estava sério e contido. Ele a encarou nos olhos, talvez tão receoso quanto ela.

- Não zombe dos anos que eu esperei por você dessa maneira. – ele disse – Eu não mereço viver sem saber se está viva ou morta outra vez, assim como Rickon e Bran também não merecem. Você provavelmente já está sendo vigiada, assim como eu. Nenhum de nós pode desobedecer uma ordem real e mesmo que não fosse eu o homem a se casar com você logo a rainha determinaria um outro pretendente. Você é uma Stark, Arya. Seu nome trás responsabilidades e você sempre soube disso. E agora eu sou um Targaryen, o Príncipe de Dragonstone e talvez até mesmo o herdeiro do trono. Nenhum de nós tem escolha. Se fugir agora vai iniciar uma nova guerra. É isso o que quer?

- Não. – ela respondeu encolhendo os ombros e fechando os olhos. Jon tinha razão. Fugir era uma atitude egoísta que traria apenas mais dor e sofrimento não só para a família dela como também para o reino.

- A rainha deve chamá-la para uma conversa ainda hoje. – Jon disse sério e contido – Ela dirá algo sobre os preparativos, sobre alguma de suas preferências, eu não sei. Tudo o que eu sei é que estará tudo feito em um mês. Ao menos eu consegui convencê-la a realizar a cerimônia aqui, no bosque sagrado.

Ela abaixou o rosto e evitou encará-lo. Não conseguia admitir a ideia de Jon se casando com outra mulher, mas também não desejava ser a esposa dele. Tudo o que ela queria era voltar à infância, quando ele bagunçava o cabelo dela e eles completavam as frases um do outro. Aqueles eram dias abençoados e ambos eram inocentes. Tudo o que ela queria era fazer de conta que ainda era possível ser feliz daquela maneira quando voltassem a Winterfell.

Arya quis chorar como no dia em que perdeu o pai, a mãe e Robb. A única coisa que a atava à Westeros era Jon e o senso de lealdade à sua casa, mas agora ela queria fugir de ambos. Doía perceber que eles envelheceram, que aquelas crianças despreocupadas que corriam por Winterfell eram apenas fantasmas. Foi para isso que ela voltou? Para uma armadilha? Pra uma traição tão vil quanto aquela?

Jon ergueu o queixo dela com uma das mãos para que ela o encarasse diretamente nos olhos. Ela queria chorar, mas não daria uma demonstração de vulnerabilidade como aquela, não diante dele. Arya voltou suas atenções para os olhos dele, para os tons de cinza e como ao menos aquilo não havia mudado. Ele estava sofrendo também, mesmo assim acataria a ordem que recebeu.

- Eu sinto muito. – ele disse – Não queria que as coisas fossem assim.

- Dizer isso não muda nada. – ela respondeu sem qualquer animo.

- Por favor, tente entender. – ele implorou – Arya, nós não temos escolha, mas podemos fazer dar certo, como o senhor seu pai e a senhora sua mãe fizeram.

- Minha mãe era uma boa lady, devia saber que eu não sou como ela. – Arya respondeu ácida.

- E eu sempre gostei disso em você. – ele disse num tom tão melancólico e saudosista que fez o coração dela doer – Se lhe serve de consolo, ao menos poderá viver no Norte, próxima de Bran e de Rickon. Vai voltar pra casa, vai andar pelas terras em que crescemos, para o nosso bosque sagrado e o castelo que foi o seu porto seguro por tantos anos. Eu não deixarei que nada, nem ninguém lhe faça mal. E eu prometo que farei de tudo pra tornar esse casamento um fardo menos pesado pra você.

- Que seja, não é como se eu pudesse mudar a decisão da rainha. – Arya disse teimosa.

- Voltaremos para o Norte logo após o casamento. – Jon disse de forma serena – Tudo será mais fácil quando estivermos em casa.

Ela respirou fundo. Quando chegassem a Winterfell ela teria de ser uma lady. Pior do que isso, ela seria uma princesa. Eles teriam obrigações a cumprir e passariam os dias evitando a presença um do outro. Ela queria mais tempo para fazer de conta que nada daquilo estava acontecendo. Tempo para se lembrar de como era pertencer a uma família, antes que ela tivesse de desempenhar todos os deveres de uma lady. O casamento não poderia ser adiado, mas Winterfell poderia esperar.

Dorne, ele havia dito. Em Dorne o povo era diferente e os costumes menos severos. Diziam que alguns dos costumes se pareciam com os das Cidades Livres e ela sentia falta do cheiro de especiarias e do calor sobre a pele. Tudo totalmente diferente da austeridade de sua terra natal. Lá ela não teria os olhos de todo mundo sobre ela e poderia ser aproveitar um pouco mais seus últimos dias de liberdade. Visitar seu amigo, Edric Dayne, ver a lendária espada Dawn e cavalgar pelo deserto até alcançar Citadel e Oldtown.

- Não. – ela criou coragem para dizer – Não precisamos ir pra Winterfell imediatamente. Vamos para Dorne primeiro, com o seu irmão.

- Achei que preferiria voltar para o Norte, mas se deseja ir até Dorne nós podemos passar um mês ou dois por lá. – Jon disse tentando parecer simpático – Eu não sabia que tinha vontade de conhecer o sul.

- Você é um príncipe agora. Nós dois vamos precisar conhecer o país inteiro. – ela disse tentando não parecer afoita – O Norte vai continuar onde está. Podemos usar esse tempo pra conhecer coisas novas e talvez...Fazer essa loucura de casamento dar certo. – aquilo pareceu pegá-lo de surpresa. Jon sorriu para ela um sorriso amável.

- Está bem. – ele disse – Vamos para Dorne e tentaremos nos divertir um pouco. Vamos ver quão bem os lobos se saem no meio da areia.

And oh, my heart was flawed I knew my weakness
So hold my hand, consign me not to darkness.

x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

Ele evitava olhá-la durante o jantar. Daenerys falou com Arya pessoalmente ainda naquele dia, mas havia pouco ou nada a ser acrescentado àquilo que Jon já tinha falado. O casamento aconteceria e nenhum dos dois tinha poder o bastante para mudar a opinião da rainha.

Queria poder dizer a ela que tudo daria certo, que talvez aquela fosse a melhor opção no fim das contas, mas ele não tinha coragem para tanto. Uma parte dele estava feliz em pensar que Arya voltaria para Winterfell e nunca mais o deixaria. Era um pensamento egoísta, mas estranhamente reconfortante. Outra parte, entretanto, se revoltava com a perspectiva de tomá-la como esposa, deitar-se com ela e obrigá-la a ter os filhos dele.

Ele sempre foi próximo dela no passado e sabia o quanto Arya detestava a ideia de casamento e de ter que sucumbir aos deveres de uma dama. Ser a Senhora de Winterfell seria para ela uma punição, ser uma princesa seria ainda pior. Ela teria de se adaptar e eventualmente se conformar com a situação. Tudo o que Jon poderia fazer por ela seria ignorar qualquer crítica quanto ao jeito impulsivo dela e seus modos rudes, e defendê-la dizendo que nenhuma outra mulher possuía mais amor por sua terra e sua casa.

Doía ver como ela havia crescido. A juventude dela havia sido roubada talvez de uma forma mais brusca e drástica do que a dele. Sabia que ela era letal como uma serpente, que havia lavado suas mãos com o sangue de muita gente, alguns inimigos, outros apenas nomes para o deus de muitas faces. Arya não sorria como antes. Em seus olhos pairava uma sombra indecifrável e ela quase não falava. Ela era como o aço, frio e impiedoso.

Talvez a visita a Dorne fosse de fato uma boa ideia. Ela poderia aproveitar os dias quentes cavalgando, visitando a costa e desfrutando da companhia das primas de Arianne Martell. Diziam que as filhas de Oberyn eram treinadas em armas, eloquentes e independentes. Arya gostaria delas e teria com quem conversar.

Enquanto ela comia em silêncio, na presença da rainha e do irmão dele, Jon pode notar como as feições dela haviam mudado de fato. Seu rosto longo agora tinha contornos mais graciosos. As maçãs do rosto eram altas, o nariz bem feito e a boca era feita de lábios bem delineados. Os olhos cinzentos eram expressivos, adornados com cílios longos. O cabelo ia até a metade das costas e eram trançados num padrão complicado, muito parecido com o padrão Dothraky usado pela rainha. O corpo dela também havia mudado. Apesar das roupas masculinas que ela favorecia, era possível notar os quadris arredondados e os seios pequenos que ela se esforçava para esconder.

Aquela seria a esposa dele. Aquela jovem mulher que em tanto se parecia com a irmãzinha de nove anos que ele deixou para trás quando decidiu vestir o negro. A Arya que ele conheceu era agora uma sombra, apenas uma nuance nos traços bonitos e severos dela e olhá-la trazia aquela sensação incomoda e nostálgica de ausência. Era como se vê-la tão diferente fizesse aquele sentimento de anseio, aquela falta que ele sentia, aumentar drasticamente. Queria abraçá-la, enfiar seus dedos entre as mechas de cabelo, desfazer a trança e ouvi-la rir como fazia quando era criança. Queria que ela corresse em sua direção, chamando-o pelo nome e sorrindo. Queria que o tempo voltasse e aqueles dias abençoados em que foram jovens e inocentes pudessem durar para sempre.

Ela terminou de comer e se retirou da mesa sem trocar uma única palavra com ele. Daenerys também não permaneceu por muito tempo, deixando os dois sobrinhos a sós no solar da família real. Jon abaixou o rosto desanimado.

- Meu irmão parece disperso. – Aegon comentou – Não que eu esteja habituado a vê-lo de bom humor, mas hoje eu creio que esteja particularmente mal humorado. Posso perguntar o motivo de tanta seriedade?

- Algumas ordens são mais fáceis de cumprir do que outras. – Jon se limitou a dizer.

- Compreendo. – Aegon disse sorrindo amistosamente – Poderia ser consideravelmente pior, ouso dizer. Ao menos terá uma noiva jovem, bela e com um temperamento...Selvagem, que eu creio ser a sua preferência.

- Não espero que entenda o meu dilema neste momento. – Jon disse discretamente – Se a rainha tivesse ordenado que eu me casasse com qualquer pessoa, por mais contrariado que tal ordem pudesse me deixar, eu não questionaria. Eu obedeceria por que este é o meu dever, é parte do meu juramento.

- E por que isso seria diferente com Arya Stark? – Aegon questionou – Ela dificilmente poderia ser considerada uma opção ruim.

- Não importa que digam que eu sou um Targaryen. Arya continua sendo a minha irmãzinha. Ela continua sendo o que restou de um tempo mais simples, inocente e feliz. Tomá-la como esposa...Isso muda tudo.

- Preferiria se casar com Arianne em meu lugar? – Aegon sugeriu. Jon ficou em silencio e por um longo instante ele ponderou a respeito. – Pelo seu silêncio eu entendo que não. Você ama aquele ermo congelado em que vive e você ama o estilo de vida do Norte. Qualquer mulher que não soubesse nada a respeito das tradições do Norte, sobre seus deuses e sobre este terrível hábito que tem de evitar o sorriso a todo custo, seria um fardo pra você. Arya Stark é uma parte, ouso dizer que ela é o pilar principal de tudo o que você mais ama.

- É complicado. – Jon tentou desviar o assunto.

- Todas as mulheres que valem a pena são complicadas. Se fosse fácil não teria graça. – Aegon revidou – Além do mais, o fato de serem tão próximos pode acabar se tornando uma vantagem.

- Talvez, mas eu não tenho grandes esperanças quanto a isso. – Jon respondeu apático – Ela gostou da ideia de visitar Dorne. Eu preferia ir direto para Winterfell, mas já que ela gostou tanto da ideia de ir até o extremo sul que decidi que poderemos desfrutar de alguma diversão na corte de Sunspear.

- Eu acho que esta é uma ideia esplendida. – Aegon respondeu sorridente.

- Confesso que não entendo. – Jon disse deixando de lado a comida – Achei que ela quisesse voltar logo para o Norte. Achei que ela quisesse ir pra casa.

- E assumir de uma vez toda responsabilidade de ser a sua esposa? – Aegon questionou – É um fardo pesado, irmão. Talvez ela só queira um pouco mais de tempo pra se habituar à ideia. Ou talvez vocês precisem deste tempo para se entenderem entre quatro paredes.

- Eu realmente gostaria de não pensar a respeito disso neste momento. – Jon revidou sério.

Crawl on my belly 'til the sun goes down
I'll never wear your broken crown
I took the road and I fucked it all away
In this twilight how dare you speak of grace

- Uma hora vai ter que pensar. – Aegon insistiu – Não pode fazer de conta que ela ainda é sua irmã pra sempre. Vocês dois terão um dever a cumprir e você sabe qual é. Quanto mais cedo ela lhe der um filho, melhor. Talvez em Dorne as coisas ocorram de forma mais amena. Sem toda aquela maldita austeridade e sem os olhares severos dos súditos.

- Talvez tenha razão. – Jon concordou a contra gosto.

- A comitiva de Dorne deve chegar ainda esta semana. – Aegon disse satisfeito – Arianne é mais velha que sua Arya e ouso dizer mais experiente também. Imagino que você se beneficiaria muito se as duas se derem bem. Um pouco da ousadia dorniana seria mais do que bem vinda.

- Já será difícil o bastante ter de me casar com ela, eu não gostaria de ver Arya se esforçando para ser algo que não é. – Jon insistiu mal humorado.

- Você quer dizer que não quer ela se esforçando para seduzir você. – Aegon provocou – Ela está longe de ser uma dama recatada, acho que sabe disso melhor do que ninguém. Arya já tem um temperamento impressionante para alguém que veio do Norte, imagino o que ela faria com um toque do sul. Algo difícil de resistir, eu suponho.

- Não fale assim dela! – Jon disse imediatamente – Se tenho de me casar com Arya, que assim seja, mas ao menos demonstre um pouco de respeito pela minha noiva.

- Meu irmão me interpreta mal. – Aegon sorriu de forma diplomática – Eu não quis parecer desrespeitoso. Estava apenas ressaltando o fato de que sua futura esposa pode acabar se tornando uma mulher difícil de resistir, se der a ela a chance de explorar seu potencial. Quando a tiver em sua cama, aposto que será mais interessante se ambos desfrutarem dos prazeres conjugais, não acha?

- Eu cumprirei com meu dever. – Jon disse levantando-se da mesa e ignorando seus bons modos – Eu não espero que qualquer um de nós se sinta particularmente confortável com a situação, mas vou me esforçar para que seja algo tolerável para ela. Contanto que Arya me ajude a cuidar de Winterfell e me dê ao menos um filho, eu não me importaria de poupá-la de suas obrigações conjugais.

- Então não me surpreende que ela não queira voltar a Winterfell tão cedo. – Aegon disse sério – Já pensou que talvez seja mais sábio tornar essas ditas obrigações algo prazeroso, ou até mesmo desejado? Faça essa mulher querer você. Esqueça essa sua bem dita honra e moral. Use a confiança que sempre tiveram um no outro a seu favor e aproveite o fato de que ela se tornou uma bela jovem. Pode acabar se surpreendendo com as vantagens deste casamento.

Crawl on my belly until the sun goes down
I'll never wear your broken crown
I can take the road and I can fuck it all away

In this twilight our choices seal our faith

Nota da autora: Pois é. A Arya não gostou nem um pouco como já era previsto, o negócio é até onde vai a lealdade de uma pessoa que viveu o que ela viveu. Deixar tudo pra trás e fugir, ou ficar e assumir as responsabilidades que o nome dela traz, além de ter consideração pelo sofrimento de uma pessoa que teve esperança de reencontrá-la por anos? É um momento bem tenso e Jon também percebe que já não conhece ela tão bem quanto conhecia.

Música: Broken Crown do Mumford & Sons.

Espero que gostem e comentem.

Bju

Bee